sexta-feira, 14 de agosto de 2020

O Shoujo Mangá perdeu a graça, ou perdeu a graça para mim?

Eu escrevi um longo comentário dialogando com outro texto, como ele ficou estruturado o suficiente para ser um post, não quero que o texto se perca lá no Facebook e o trouxe para cá.  Antes de ler o meu texto, por favor visite o site Shiritori e leia o post Uma perspectiva diferente sobre mangá shoujo.  Depois, se quiser, continue lendo as minhas considerações.

Já que o texto é uma reflexão, mas, também, uma provocação, farei as minhas.  Nada disso que eu escrever daqui por diante será válido se a pessoa que escreveu o texto e muitos dos que o comentaram (*no Facebook*) são fluentes em japonês e tem acesso às, sei lá, quarenta, ou mais, revistas shoujo e josei que saem no Japão todos os meses.  Quem preenche esses requisitos tem condições plenas de fazer uma reflexão profunda do que é a demografia.  Agora,  se você depende de editoras ocidentais e fãs-tradutores, o que chega em suas mãos é uma pré-seleção feita a partir do que vende muito, do que faz sucesso em uma determinada época e dos gostos de quem traduz.  Um fã não vai trabalhar de graça para traduzir um mangá que odeie.  

Lembro na época em que Hana Yori Dango (花より男子) estava em publicação, a série começou em 1992 e seguiu até 2008,  que o grupo que traduzia em inglês colocou o mangá em marcha lenta e começou a fazer uma tradução mais ou menos, porque, bem, cansaram da história que se esticava desnecessariamente.  Sim, eu gosto MUITO de Hanadan, mas eu sei bem que a série tem vários defeitos e problemas.  Enfim, se você está lendo a partir de uma pré-seleção feita por alguém, não por você, não é possível ter uma visão ampla a demografia.

A indústria de mangá é isso, uma indústria, uma máquina que produz em massa e despeja títulos todas as semanas nas lojas e, como agora é cada vez mais comum, na internet.  Aliás, quando alguma coisa é sucesso na internet, uma produção independente, essa obra logo é incorporada por uma editora grande, migra para o formato papel, ou, pelo menos, recebe um selo que a coloca dentro da indústria.  A indústria produz dentro de uma média em cima do que vende ($$$) e das expectativas gerais a respeito dos consumidores de uma demografia.  

Por exemplo, há uma crença de que mulheres, desde a mais remota infância, adoram ler romances, de que os interesses amorosos das heroínas precisam ser bonitos (*dentro da estética geral do shoujo mangá, claro*) e que as personagens precisam ter, de preferência, uma idade similar a das leitoras em potencial.  Eu sempre comento que, se Emma (エマ) de Kaoru Mori fosse publicada em uma revista shoujo, ou josei, a autora seria pressionada a colocar mais situações românticas convencionais, beijos, por exemplo, e, talvez, fosse tolhida de colocar aquele tipo de fanservice tão peculiar dos seus mangás.  Um fanservice que eu considero elegante e refinado, mas que é voltado ou para um público masculino, ou para mulheres que apreciam a beleza de outras mulheres.  

Há, também, as convenções estéticas de cada período.  Você reconhece a época de um mangá ou anime mainstream só de olhar para ele.  Aliás, a Mikannn fez um vídeo muito bom sobre esse tema ao falar de Eizouken (映像研には手を出すな!).  Eu recomendo que vocês assistam.  Outro aspecto importante a se ponderar é o perfil da revista.  Se você pega a Betsuma, a Margaret, a Betsufure, a Betsucomi, a Sho-Comi, por exemplo, você tem que saber que elas focam nas colegiais, que no Japão escola é o centro da vida desses adolescentes (*Já viu que mesmo em situação de apocalipse, eles continuam indo para a escola?*) e que o gênero mais importante do shoujo é o romance escolar.  E ele tem importante função social, mesmo fora do Japão, ainda que não para você.  Enfim, se um material faz grande sucesso, até destoando dessa mediana um tanto burra, surgirão os seus genéricos que podem inundar o mercado de repente, ou sumir assim que a onda passar.

Se uma autora tiver uma grife própria e um fandom que a seguirá se ela mudar de revista, ou demografia, ou editora, ela terá maior liberdade para criar.  O fato é que mesmo autoras renomadas precisam se curvar às convenções e/ou à vontade dos editores. Eu comentei no blog uma entrevista de Chie Shinohara na qual ela diz que não queria que Anatolia Story (天は赤い河のほとり) tivesse uma protagonista colegial que viaja no tempo, ela queria um mangá histórico stricto sensu, desejava fazer lá no final dos anos 1990 um mangá que só lhe deram liberdade para executar bem mais tarde e em uma revista josei.  Mas o gênero "garota deslocada no tempo" é um dos mais tradicionais do shoujo e as leitoras, essa deve ser a opinião dos editores, querem se ver dentro dos mangás.  

Sabe a menina que não é tão bonita, nem tão inteligente, nem rica, mas que tem uma grande força de vontade?  Esta é a heroína padrão do shoujo mangá até os dias de hoje.  Ela pode ser qualquer menina, ela pode ser você, leitora!  Indústrias de massa não primam pela criatividade, mas pela eficiência.  Por exemplo, está na moda em nossos dias que a  mocinha de novela seja uma uma jovem mulher cheia de atitude, trabalhadora e engajada em causas sociais.  Podem pegar a sequência de novelas das seis da Globo, pode ser trama de época, ou contemporânea, e vão encontrar esse tipo de mocinha em cadeia.  É moda a ponto de enjoar (*Abaixo, a mocinha de Orgulho & Paixão/2018*). De qualquer forma, o texto é sobre shoujo, mas eu garanto que encontraremos os “roteiros genéricos” em qualquer demografia.  A demografia é feita disso, aliás, você reconhece um mangá da Shounen Jump ou da Shounen Sunday à quilômetros de distância.

Outra coisa, boa parte dos mangás antigos citados no texto, e ele mistura séries de várias revistas que tem perfis diferentes, não seria antigo para mim.  Velho, para mim, é A Rosa de Versalhes  (ベルサイユのばら), que é de antes de eu nascer.  Cat Street  (キャットストリート) é de 2004, eu já era mulher adulta, casada e já tinha lido outras coisas antes.  Talvez, fosse muito impactante para quem era adolescente na época, ou estava no final da adolescência e estava criando sua ideia do que era shoujo naquele momento a partir do que conseguia ter acesso em uma língua que pudesse ler.  

Com o passar do tempo, o mangá escolar pode não ter mais apelo para muita gente, porque você cresceu, mudou seus interesses e não percebe que, de novo, é uma indústria de massa, que mira em um público específico.  É possível criar vínculo com material que não é feito para você?  Sim, é.  Eu era adulta quando comecei a gostar de Harry Potter que era feito para meus alunos e alunas da época, meninos e meninas de 12, 13, 14 anos.  Eu me aproximei de Harry Potter tendo isso em mente.  O mesmo foi com Jogos Vorazes e eu fiz resenha de todos os livros e filmes, aqui, no blog.

Quando li Mars (マース), que está no texto, eu me senti tocada pelo mangá e pela forma como algumas temáticas foram desenvolvidas.  Eu tinha casado, me mudado, deixado para trás amigos e família, não tinha um emprego, não estava estudando, eu entendia o vazio que a Kira sentiu em determinado momento do mangá.  Mars se destaca da média dos mangás shoujo de sua época?  Acredito que sim, ao conseguir isso, ele se torna um clássico e será lembrado não por um punhado de fãs restrito, mas por muito mais gente para além da bolha.  

Agora, pensem nos anos 1970, quando tivemos uma revolução no Shoujo Mangá.  Todas as autoras estavam inovando?  Discutindo gênero, o lugar das mulheres na sociedade japonesa? Não.  Os estudiosos de mangá pegaram esses exemplos e criaram um paradigma para aquele momento e isso, conforme Deborah Shamoon apontou em vários trabalhos, cria uma falsa expectativa a respeito do shoujo mangá.  Curiosamente, se em pegar o livro do Frederick Schodt e a tese da Sônia Bybe Luyten, ambos são muito críticos em relação ao shoujo mangá da passagem da década de 1970 para a de 1980, apontando defeitos - fatalismo, submissão, tragédia - que eu não percebo, especialmente, quando eles usam como exemplo para ilustrar um mangá que eu conheço bem, Seito Shokun! (生徒諸君!).  

Só para explicar, é usado por ambos como exemplo de como o shoujo mangá ensina submissão, abnegação às meninas o fato de Nakki, a protagonista da série, abrir mão do rapaz que amava para a irmã gêmea.  Só que Nakki tinha, na época, uns 16 anos, nem estávamos ainda na metade do mangá, era estudante, o rapaz, que era mais velho, apaixonara-se à primeira vista pelo irmã dela.  A tal irmã tinha uma doença terminal e viveria, no máximo, até os 18 anos.  Sim, super dramático!  Os pais da menina aceitam o casamento precoce, desde que o rapaz vá morar na casa deles.  Querem ficar perto da filha até o fim, mas querem que ela conheça o amor.

E a menina morre mesmo, antes dos 18 anos, se bem me lembro.  Já Nakki continuou sua vida, estudando se divertindo com os amigos, que tinham mais participação na história do que a gêmea doente (*coloquei a foto deles aí embaixo*), se formou na universidade, tornou-se professora, teve uma carreira e protagonizou mais três séries.  Entenderam?  Cadê o problema em abrir mão do que não se tinha por amor à irmã? E, aqui, prevalece uma máxima que eu defendo, em um bom shoujo mangá, a mocinha não deve brigar com outra mulher por causa de macho, ainda mais, macho que não lhe quer.  Criticar a atitude da Nakki me faz lembrar o Rubens Ewald Filho tacando pedra em O Sorriso de Monalisa, porque a professora e a aluna não brigam pelo cara que estava enganando as duas, mas dão um pé na bunda do sujeito e seguem com a amizade.  História boa, alguns ainda defendem, precisa ter mulher brigando por homem, afinal, qual o sentido da nossa vida sem eles?

Eu realmente acredito que os ocidentais, mesmo os especialistas em mangá, tinham dificuldades em compreender (*em alguns casos, faltava boa vontade mesmo*) algo tão alienígena para eles quanto o shoujo mangá, ainda mais, no final dos anos 1970 e nos anos 1980.  Material feito por mulheres para mulheres e que não era feminista, ainda que pudesse trazer questões feministas, mas feminino.  Mulher lê mangá?  Quantas vezes a gente leu, ou ouviu, análises superficiais sobre mangá feminino?  Olha, eu que estou nessa brincadeira faz uns mais de 20 anos, perdia a conta.

Ainda falando dos anos 1970, três mangá-kas super importantes da época e até hoje (Suzue Miuchi, Yumiko Igarashi e Waki Yamato) estavam fazendo mangá do jeito que sempre fizeram, sem grandes rupturas com o que era a média da demografia e são reconhecidas pela sua qualidade e pelo sucesso junto ao público, também.  Elas não fazem parte da Geração de 1948, as revolucionárias, mas dominavam como ninguém a arte e o roteiro (*Yumiko Igarashi não entra aqui, porque ela em geral só desenha e fica com a fama*), o que as leitoras esperavam de uma boa história.  Elas não vão ser lembradas por discussões profundas sobre gênero, mas por dominarem a narrativa do shoujo mangá e que as leitoras queriam ler histórias que as mobilizassem emocionalmente.  Havia espaço para muita gente.

Há no Shoujo Café artigos da época desses “mangás antigos” do texto que eu cito lá no início que apontavam a crise do shoujo mangá no final dos anos 1990 e início dos anos 2000.  Na época, os editores eram apontados como culpados, porque, afinal, são eles e elas que fazem a ponte com as autoras, as encaixam nas forminhas das expectativas de mercado e do perfil das revistas.  O outro motivo da tal “crise” era o excesso de sexo nos shoujo mangá, mesmo em material publicado em revistas para as meninas mais jovens (Ciao-Ribon-Nakayoshi).  Hoje, as coisas estão muito menos explícitas e violentas, autoras como Chie Shinohara migraram para revistas adultas (josei) e, mesmo assim, ela é muito mais comedida nas suas cenas quentes em Yume no Shizuku, Kin no Torikago (夢の雫、黄金の鳥籠) do que era em Anatiolia Story.

O que eu quero dizer é que há um pouco de generalização, salvo, claro, repito, se você lê direto da fonte e tem acesso a um monte de revistas para comparar, e de idealização nessa coisa de “no meu tempo é que era bom”, ou "o shoujo mangá não é mais o mesmo".  Uma indústria de massa é feita de mais do mesmo, vale para shoujo, vale para shounen, talvez não valha tanto para o seinen, porque os editores de algumas revistas entenderam que podem ter o melhor de todos os mundos.  Mesmo assim, sempre vou lembrar disso, quando Akiko Higashimura tentou ser criativa demais em uma revista seinen, que é para o público masculino, mesmo que queira pegar as leitoras, cortaram as asas dela.  Não pode, os homens estavam se sentindo desconfortáveis.  

Falando de josei, que tecnicamente os japoneses ainda parecem ver como shoujo para mulheres, as revistas têm perfis, mesmo que algumas delas possam ter uma abordagem mais ampla, aliás, é o que vemos em revistas shoujo como a LaLa, a Hana to Yume e outras.  Uma revista como a Flowers, onde saia até poucas semanas atrás Kaze Hikaru (風光る), que está no texto, se permite publicar uma diversidade maior de histórias com temáticas muito diferentes, mas, de novo, é o perfil da revista, assim como a Kiss é para jovens mulheres descoladas, enquanto a For Mrs., começando pelo nome, é para mulheres casadas.

Sem perceber as nuances da indústria, da peneira que existe para que essas séries cheguem até os ocidentais e as próprias mudanças pelas quais a gente passa ao longo da vida, fica difícil perceber que o shoujo não ficou ruim, ou caiu na mesmice, mas está praticamente do mesmo jeito de sempre, um montão de séries genéricas e esquecíveis e, vez por outra, alguma joia que se destaca, seja por ter qualidades reais, seja por vender muito bem e ser mandada para o mundo inteiro.   Outra coisa, ninguém precisa gostar de shoujo mangá, ou gostar a vida inteira, mas muita gente não consegue perceber que a mudança pode estar em si mesmo e, não, no material do qual costumava gostar, ou consumir.  É isso.  Acredito que era importante trazer esse  texto para cá.

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3 pessoas comentaram:

quem sabe você não acha shoujo bacana?
investigue bem... novos shoujo... você achará

Achei muito bons e pertinentes tanto o texto da página Shiritorii quanto o seu Valéria. Fui lá ler o dela primeiro e concordo com praticamente tudo o que ela relata, o exercício de criticar o que gostamos, na minha opinião, é muito necessário, e isso não quer dizer que você vai abandonar ou largar definitivamente uma obra.

"Outra coisa, ninguém precisa gostar de shoujo mangá, ou gostar a vida inteira, mas muita gente não consegue perceber que a mudança pode estar em si mesmo e, não, no material do qual costumava gostar, ou consumir."

Acredito que essa linha exprima bem quando no outro texto ela fala sobre sua identificação/predileção para com histórias/heroínas que se tornam atemporais pelos questionamentos que carregam. Quando amadurecemos podemos ou não mudar alguns gostos e isso implica que aquela história mais rasa, sem alguma complexidade humana em evidência, já não atraia tanto assim o nosso olhar, mas ainda assim pode ter público.

Ambos os textos trouxeram ótimas ideias que seriam impossíveis debater em um comentário, mas quis deixar registrado o quanto gostei muito.

Sou homem, hétero, cinquentão e adoro shoujo de romance escolar.
Mas no meu prazer de curtir os produtos desse segmento, eu compreendo perfeitamente que eles não são feitos pensando em mim como público alvo, que são fruto de uma indústria e de um tempo específico, e que podem ter todos os vícios, clichês e simplificações que uma pessoa mais madura e experiente pode achar superficiais e risíveis até. Isso de forma alguma invalida o produto ou meu interesse nele.
É muito importante saber do que se trata o produto que se está consumindo, e não ter expectativas irreais a respeito dele, ou pretender descaracterizá-lo ou criticá-lo por ele não ser o que você gostaria.
Ao longo da vida, você vai encontrar realmente meia dúzia de jóias escondidas no meio de muitas pedrinhas de brita, mas nem por isso a brita não tem sua função.

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