sábado, 17 de outubro de 2020

Mataram um professor, podia ter sido eu

Ontem, publiquei um vídeo sobre o Dia dos Professores e comentei sobre a violência a qual estamos sujeitos.  Pois bem, a França nos ofereceu um exemplo absolutamente fora da escala nesse quesito.  Um professor de História e Geografia (*as disciplinas são lecionadas juntas*), além de Moral e Cívica,  foi decapitado por um desconhecido a 200 metros de distância da escola onde trabalhava, em uma cidade de 35 mil habitantes distando 50 quilômetros de Paris.  Nas primeiras notícias, falava-se que tinha sido um pai insatisfeito, porque o professor tinha feito uma discussão em uma classe com alunos e alunas entre 12 e 14 anos sobre liberdade de expressão e seus limites.  Durante a aula, ele utilizou algumas charges do Profeta Maomé publicadas pela revista Charlie Hebdo, sim, a revista que teve doze de seus funcionários massacrados por fundamentalistas religiosos islâmicos.  Eu escrevi sobre isso duas vezes (*1 e 2*).

Agora, sabemos que o assassino foi um adolescente de 18 anos nascido em Moscou, na Rússia, que nunca tinha estudado na escola.  Alguns dizem que ele era checheno, lembrem que a Chechênia é muçulmana e já tivemos incidentes sérios relacionados à luta de independência daquela república russa.  O fato é que a aula do professor tinha irritado algumas pais, um deles postou vídeo no Youtube e outro pai deixou o seguinte comentário, que eu traduzo: “Eu sou pai de um aluno deste colégio. O professor apenas mostrou caricaturas do Charlie Hebdo como parte de uma aula de história sobre liberdade de expressão. Ele pediu aos alunos muçulmanos que deixassem a sala de aula se quisessem, por respeito... Ele era um ótimo professor. Procurou estimular o espírito crítico de seus alunos, sempre com respeito e inteligência. Esta noite estou triste, por minha filha, mas também pelos professores na França. Podemos continuar a ensinar sem ter medo de ser mortos?”  Além de acusar o terrorismo islâmico, Emmanuel Macron disse o seguinte: “Esta noite, quero dizer aos professores de toda a França, estamos com eles, toda a nação está com eles hoje e amanhã. Devemos protegê-los, defendê-los, permitir que façam seu trabalho e educar os cidadãos de amanhã.”

O professor, que tinha 47 anos, foi morto exatamente durante o julgamento dos envolvidos no assassinato dos cartunistas e jornalistas da Charlie Hebdo.  Enfim, se cedermos aos fundamentalistas de todos os matizes perderemos nossas liberdades arduamente conquistadas e o Estado Laico será erodido.  E antes que alguém venha falar que a França está perdida, lembro-lhes que um fundamentalista cristão de extrema direita jogou uma bomba no escritório do Porta dos Fundos no Natal passado.  Os motivos parecem não ter sido tão diferentes do deste terrível assassinato, simplesmente, por sorte, ninguém se machucou, ou morreu.  Não pode existir fundamentalista de estimação, eles não podem ser tolerados e precisam ser alcançados pelo braço da lei.

Eu ia parar aqui, esses três parágrafos anteriores já estavam prontos desde ontem, mas El País trouxe mais informações sobre o crime, além de eu ter tido acesso a uma pesquisa sobre liberdade de expressão feita na França.  Essa parte ficará grande.  A polícia prendeu sete pessoas até o momento, incluindo o pai que subiu o vídeo do youtube que eu comentei.  O assassino residia em uma cidade a 100 quilômetros de Paris e veio para cometer o crime.  Ele tinha uma faca longa e se lançou sobre os policiais, sendo alvejado e morto.  Conforme os dados vão chegando, aumenta-se a possibilidade de se tratar de uma célula terrorista.

Tive acesso aos dados de uma pesquisa em larga escala feita pelo IFOP (Institut d’Études Opinion et Marketing en France et à l’Internationalfr), que tem 80 anos de experiência na área, sobre temas como liberdade de expressão e crítica religiosa.  Só vou colocar alguns dados, vocês podem ler um resumo dos resultados em inglês aqui. Sobre o atentato à Charli Hebdo, 28% dos muçulmanos franceses não condenam os autores do ataque, 25 por cento gritariam insultos durante uma cerimônia memorial e 74% dos jovens muçulmanos consideram suas crenças religiosas mais importantes do que os "valores do República Francesa."

O estudo foi encomendado ao IFOP pela Charlie Hebdo e o instituto investigou como a opinião dos franceses sobre esses assuntos evoluiu nos últimos 15 anos. Há também uma pesquisa específica sobre as opiniões dos muçulmanos. Enquanto apenas 38% dos franceses em 2006 acreditavam que os jornais estavam "certos" sobre a publicação dos cartuns de Maomé, essa participação cresceu para 59%.  No entanto, as opiniões são completamente diferentes entre os muçulmanos franceses. Até 69% deles pensam que os jornais que publicaram os desenhos estavam “errados” ao fazer isso. Além disso, entre os jovens franceses com menos de 25 anos, um grupo com uma proporção maior de muçulmanos do que o restante da população, 49% compartilham uma opinião semelhante.

Os franceses também parecem ter agora menos compreensão da indignação que os cartuns provocaram. Em 2006, 36% compartilharam a indignação da comunidade muçulmana, em comparação com 29% hoje. Novamente, há uma diferença de idade, já que 47% dos jovens compartilham a indignação, em comparação com 23% dos maiores de 35 anos.  Em outra pergunta, 88% dos franceses condenaram o ataque ao Charlie Hebdo “fortemente”, em comparação com apenas 72% dos muçulmanos franceses.

Além disso, 10% dos muçulmanos franceses condenam os terroristas, mas, ao mesmo tempo, dizem que "compartilham algumas de suas motivações". Enquanto isso, 5% dos muçulmanos franceses não condenam explicitamente o ataque e 13% dizem que se sentem indiferentes ao evento.  Entre os muçulmanos, os com menos de 25 anos, 26% deles não condenam o ataque, enquanto 12% o condenam, mas dizem que entendem e compartilham das motivações dos assassinos.

Sobre os ataques à Charlie Hebdo, 25% dos muçulmanos franceses dizem que gritariam insultos em uma cerimônia em memória dos cartunistas mortos. Se pegarmos os muçulmanos franceses dos chamados "banlieues" (subúrbios), o número sobe para 34%.  Outros 40% dos muçulmanos franceses consideram suas crenças mais importantes do que os "valores da República", em comparação com 17% dos franceses como um todo. Quase três quartos, 74%, dos jovens muçulmanos com menos de 25 anos são dessa opinião.  Terminando os dados da pesquisa, 61% dos franceses acreditam que o Islã é “incompatível com os valores da sociedade francesa”, em comparação com 29% dos muçulmanos franceses. Aqui também, essa participação é maior entre os jovens muçulmanos, com 45%.  

Enfim, a pesquisa do IFOP é assustadora, na medida que expõe o quanto a educação vem falhando em semear os valores republicanos entre os mais jovens.  Os mulás falam mais alto.  E não pensem que uma pesquisa semelhante feita no Brasil com cidadãos religiosos e não religiosos, ou mesmo pegando somente a parcela que se diz evangélica ou católica “praticante”, se não teríamos resultados parecidos.  Nós, os professores, estamos falhando, ou estamos sendo impedidos de trabalhar, ou somos parte do problema.  

Sim, eu tenho quase 30 anos de sala de aula e acredito nisso.  E para quem não entendeu a referência no título, porque não é obrigado mesmo, quando em março de 1968 o estudante secundarista Edson Luís foi morto em um protesto no restaurante Calabouço, evento que foi um dos estopins da Passeata dos Cem Mil (26 de março), uma das formas de tentar comover a opinião pública foi o chamamento “Mataram um estudante, podia ser seu filho”.  E funcionou.  Não sei se, hoje, muita gente se comove com a morte de um professor assassinado por estar fazendo o seu trabalho.  Talvez, o cadáver fosse usado para acirrar as discriminações religiosas, ou os extremismos políticos.  De qualquer forma, mataram um professor de História na França, alguém da minha geração, que lecionava a minha disciplina.  Sim, poderia ter sido eu.  Pode ser, um dia, quem sabe?  O ódio corrói todos os melhores valores que a humanidade levou tantos séculos para consolidar como coletivos.

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1 pessoas comentaram:

O que me revolta é essas pessoas praticarem as suas maldades nos tornando reféns e elas são vistas como pobre coitadas e não agente que sofremos esses ataques.

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