sábado, 11 de julho de 2026

RIP Benedito Ruy Barbosa: Partiu mais um dos grandes novelistas brasileiros

Na terça-feira, 10 de julho, foi comunicado o falecimento de Benedito Ruy Barbosa. Comentei no Shoujocast, mas acabei não concluindo um post, porque esta semana praticamente não publiquei nada; o trabalho estava me sugando.  Benedito Ruy Barbosa faleceu aos 95 anos; assim como no caso de Manoel Carlos, que também partiu este ano, não foi bem uma surpresa.  Sua saúde estava em declínio, o que sinalizava que ele talvez não tivesse mais muito tempo por aqui.  Já há vários anos, ele contava com o apoio de membros da família para escrever suas novelas; primeiro, as filhas Edmara e Edilene, mais tarde, o neto Bruno Luperi.

Benedito Ruy Barbosa estreou na teledramaturgia em 1966 com  Somos Todos Irmãos, na TV Tupi.  Nascido em uma cidade paulista chamada Gália, ele era um especialista em vida no campo e em imigração, temas recorrentes em suas tramas.  Sua estreia na Globo foi com Meu Pedacinho de Chão (1971), que tinha caráter didático-pedagógico.  Sua carreira na emissora foi interrompida por um incidente que eu considero uma demonstração e tanto de caráter.  O novelista Lauro César Muniz foi demitido da emissora, porque sua novela, Os Gigantes, era um fracasso de público e crítica, além de tocar em temas muito sensíveis e que não foram muito bem digeridos à época e não seriam hoje, com certeza.  Boni, diretor artístico da Globo na época, acabou se vendo forçado a demitir o autor da novela e Benedito Ruy Barbosa foi convocado para terminar a trama do colega.  Ele se recusou e acabou pedindo sua demissão em solidariedade a Muniz e por estar magoado, afinal, a Globo não aceitara produzir sua grande saga sobre a imigração para São Paulo: Os Imigrantes.  Ele e Muniz foram para a Bandeirantes.  

Os Imigrantes (1981) foi um sucesso e acompanhou três gerações de gente das mesmas famílias.  Infelizmente, nunca consegui assistir essa novela inteira, ou pelo menos a primeira e a segunda fases, que são consideradas as melhores.  Benedito Ruy Barbosa tentou reeditar a ideia em Esperança (2002), mas a Globo não deixou.  Aliás, como a emissora não aprendeu nada, ela se negou a produzir Pantanal.  Seu Benedito pegou seu projeto e foi para a Manchete e Pantanal acabou com a audiência da Globo em 1990.  Virou um fenômeno.  Trinta e dois anos depois, a Globo produziu um remake de Pantanal.  Aliás, imagino que Benedito Ruy Barbosa deve ser o autor com o maior número de remakes de suas novelas.  Foram seis até o momentoCabocla (2004), Sinhá Moça (2006), Paraíso (2009), Meu Pedacinho de Chão (2014), Pantanal (2022) e Renascer (2024).

Não sou fã de Benedito Ruy Barbosa; seu patriarcalismo e a forma como ele reabilita e celebra os grandes senhores de terra são bem enervantes.  Fora isso, ele reciclava pedaços de suas novelas o  tempo inteiro.  Fragmentos grandes de tramas de Os Imigrantes foram reciclados em Terra Nostra (1999), por exemplo.  Todos os seus coronéis eram "José", ou quase todos, e sempre tinham um diabinho na garrafa.  Havia a fixação pelo filho "macho", mesmo quando, no caso do livro Sinhá Moça, a mocinha tinha uma filha no final da trama e não um filho no original.  E houve o fetiche da virgindade da professorinha em Renascer... Argh!  

A novela mais antiga de Benedito Ruy Barbosa da qual me recordo é Paraíso (1982), que eu gostava bastante.  Já Sinhá Moça (1986) é uma das minhas novelas favoritas e a considero bem superior ao remake.  E reconheço o mérito do autor, porque ele pegou um livro fraco e transformou em uma grande novela, cheia dos problemas de sempre, além de outros, porque ele tinha que falar de escravidão.  Queria poder rever Vida Nova (1988).  Na época em que foi exibida, achava a novela chata, mas, quando estava no 3º Ano, meu professor de História Geral elogiou tanto a trama, como ela abordava bem a questão da imigração (*inclusive de nordestinos para São Paulo*), que eu tenho curiosidade em olhá-la de novo desde então, só que duvido que ela seja disponibilizada, porque foi o trágico último trabalho de Lauro Corona.

Agora, Pantanal e Renascer (1993), que teve uma primeira fase brilhante, me torturaram muito.  Mamãe me fazia sentar na sala e assistir, porque era programa familiar obrigatório.  Graças a essas duas novelas, me tornei muito crítica das obras do autor e atenta às suas temáticas e clichês, mas sou grata, porque ele me apresentou o Almir Satter. 😉Apesar do visual, considero o remake de Meu Pedacinho de Chão insuportável.  A primeira fase de Velho Chico (2016), sua última novela, foi outro espetáculo à parte, mesmo com os vícios de sempre.  A BBC fez uma matéria interessante sobre como Benedito Ruy Barbosa usou sua novela para discutir temas relevantes, como a intersexualidade e a, reforma agrária.  E, sim, ele fez isso, do jeito dele, com problemas, mas corajosamente foi lá e fez.  E como os autores que começaram a escrever suas tramas durante a Ditadura Civil-Militar eram mais competentes que os de hoje e como a TV, mesmo com suas limitações, era mais corajosa, também.  Imagino mesmo que a Globo force um remake de O Rei do Gado (1996), que é a tal trama que tem nos sem-terra um dos seus núcleos mais importantes.

Enfim, eu tenho vários textos comentando tramas de Benedito Ruy Barbosa ou falando dele de alguma forma, espero ter listado todos aqui, porque são muitos, nem imaginava que eram tantos: 

  1. Comentando “A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo” (2010)
  2. Comentando os Primeiros Capítulos de Meu Pedacinho de Chão (2014)
  3. Novelando: Algumas considerações sobre o que está, ou estava no ar (2014)
  4. Comentando os dois primeiros capítulos de Velho Chico (2016)
  5. Mais algumas palavras sobre Velho Chico ou Como Destruir uma Personagem interessante em uma cena (2016)
  6. Comentando o livro "Novela: A Obra Aberta e seus Problemas" (2016)
  7. Novelando: Hoje reestreia Sinhá Moça (2018)
  8. Novelando com muito Atraso: Comentando Sinhá Moça (1986) (2018)
  9. Comentando Sinhá Moça pela última vez e mais umas palavrinhas sobre algumas tramas atuais (2018)
  10. O Brasil em capítulos: Como as novelas e minisséries contam a história do Brasil (2019)
  11. Comentando o filme Sinhá Moça (Brasil, 1953): Antes Tarde do Que Nunca (2019)
  12. Confirmado o Remake de Pantanal em 2021, só não sei se vai ter Pantanal para as filmagens (2020)
  13. Comentando 70 Anos esta Noite: Um breve tributo a sete décadas de telenovelas ou às produções da Globo? (2021)
  14. Comentando rapidamente o primeiro capítulo do remake de Renascer (2024)
  15. Comentando a Primeira Fase de Renascer: Definitivamente, é uma nova novela e vai muito bem até o momento (2024)

2 pessoas comentaram:

Esse argumento não me convence muito, porque repetir temas, arquétipos e até estruturas narrativas é algo comum entre novelistas. Se isso fosse critério para desqualificar um autor, praticamente todos seriam alvo da mesma crítica.

Glória Perez de uns dez vinte anos pra cá sempre repete a estrutura de dondoca fútil com um filho problemático ou uma minoria social (Mel, Raissa, Ivan, Tarso) com um marido banana e empresário, uma amiga fura olho (Irene, Yvonne) e etc.

O mesmo vale para Manoel Carlos, que quase sempre cria uma protagonista chamada Helena; Benedito Ruy Barbosa, que retorna constantemente ao universo rural e aos conflitos pela terra; e Aguinaldo Silva, com seus coronéis, famílias tradicionais e disputas por poder.

Outra coisa que costuma passar despercebida é que, apesar de retratar ambientes rurais profundamente patriarcais, Benedito Ruy Barbosa não glorifica esse machismo. Pelo contrário: muitas vezes ele o coloca em crise.
Os coronéis geralmente são homens autoritários, presos à ideia de que o filho "macho" deve dar continuidade ao nome da família, mas essa visão quase sempre gera sofrimento, conflitos e tragédias. Em contraste, Benedito cria protagonistas masculinos extremamente sensíveis, afetivos e contemplativos, algo pouco comum nas novelas.
Personagens como João Pedro (Renascer), Zé Leôncio em seus momentos mais íntimos, Bruno Mezenga (O Rei do Gado) e tantos outros demonstram vulnerabilidade, choram, amam profundamente, sofrem com perdas e não têm a masculinidade reduzida à violência ou à frieza. A natureza, a família, a espiritualidade e os afetos ocupam um espaço central nesses personagens.
Ou seja, embora suas histórias retratem uma sociedade machista, elas frequentemente questionam esse modelo ao mostrar que a verdadeira força masculina também pode estar na sensibilidade, no cuidado e na capacidade de amar. É uma abordagem bem diferente da ideia de que suas novelas simplesmente reforçam o patriarcado.

Em Terra Nostra quando duas mulheres descobrem que dividem o mesmo amor, mulher e amante, elas se tornam amigas - Paola e Angélica. nessa novela também, as rivais Giuliana e Rosana fazem as pazes quando Mateo tira o filho de Rosana e a protagonista de Ana Paula Arósio devolve a criança a mãe.

Realmente, não sei por qual motivo você precisava escrever um post comentando meu post, como se o Benedito Ruy Barbosa tivesse que ser defendido, quando eu estou celebrando a sua importância.

Não vou entrar em discussões sobre Manoel Carlos e Glória Perez, porque há vários posts sobre eles no blog e eu não gosto MESMO do Maneco, ainda que eu lhe reconheça os méritos. Fiz um post quando ele morreu e outros tantos, menos que os sobre o Benedito Ruy Barbosa, criticando-o. Cada autor tem suas manias, o meu post era sobre as do Benedito Ruy Barbosa e de como ele RECICLOU pedaços de suas novelas ao longo da carreira. Reciclou é a palavra mesmo, basta pegar Os Imigrantes.

Quanto a mostrar um mundo de coronéis em crise, ainda que o mostre, ele o reafirma, legitima, exalta e redimi esses homens que, como você pontua, até são capazes de chorar. Aliás, uma pesquisa superficial no Google permite encontrar uma série de trabalhos acadêmicos sobre esse aspecto da obra do autor: reforço das hierarquias sociais e legitimação do coronel.

Benedito Ruy Barbosa não repensava as masculinidades, e homem chorar só é algo condenável em um nicho muito restrito. o que esse tipo de autor faz é valorizar o choro do homem, sempre por motivos sérios, legítimos, carregado de dignidade, e o choro da mulher, que é fácil e sem a dignidade que o dos machos tem.

E, vamos combinar, né, ter personagens femininas com alguma trama é o mínimo que uma telenovela precisa ter. Colocar mulheres lutando entre si e eventualmente fazendo as pazes e se aliando só é surpresa ou mérito para quem acredita que mulheres precisam disputar macho entre si o tempo inteiro.

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