segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Comentando o livro #7 de Watashi no Shiawase na Kekkon (Meu Casamento Feliz): desejo, repressão sexual e um casamento que parece não chegar nunca (Parte 1)

Dia 25 de outubro, estreia na Netflix a terceira e provavelmente última temporada de Watashi no Shiawase na Kekkon (わたしの幸せな結婚) ou Meu Casamento Feliz, seu título nacional.  Contando com 10 volumes até o momento, a série de Akumi Agitogi tem o seu ápice no volume #7, pois é quando finalmente Miyo e Kiyoka se casam.  Com a correria da segunda temporada, que adaptou quatro novels, e a minha lentidão em ler e resenhar os livros, acabei lendo conforme o anime ia progredindo e de forma acelerada.  Minha proposta agora é fazer a resenha do volume #7 em duas partes.  Esta primeira cobrirá os três primeiros capítulos; são cinco no total, mais o epílogo.  Para quem quiser, tenho resenhas dos livros 1, 2 (*partes 1 e 2*) e 3.  E há toda uma playlist do Shoujocast da série.  Outra coisa, não sei até que ponto haverá spoilers do anime, porque a adaptação sempre muda alguma ou várias coisas.

O livro começa logo depois dos acontecimentos que vimos no anime, isto é, a conspiração de Usui e a derrota do vilão.  A primavera está prestes a começar e Miyo e Kiyoka estão prestes a se casar.  Eles se amam, sabemos disso, mas pouco avançaram em termos de contato físico.  Boa parte dos dois primeiros capítulos é sobre isso.  Eles se desejam, mas, como Kiyoka se pega pensando, só trocaram até agora beijos infantis, entrelaçaram as mãos e não passaram muito disso.  Diferentemente do anime, onde Miyo ainda chama Kiyoka de danna-sama (だんな様), que seria marido, mestre, senhor, ela o chama pelo nome e isso desde pelo menos o volume #4.  Imagino que o chame de Kiyoka-san, mas ele deseja que ela o chame de Kiyo ou de "querido".  Miyo não consegue.  


As coisas ficam um tanto estranhas entre os dois, quando ela quase cai no chão e ele a ampara e seus corpos ficam muito juntos.  Ele faz menção de beijá-la.  Ela se esquiva, mas diz que gosta dele.  A tradução em inglês usa "gosta" e, não, "ama".   Kiyoka fica angustiado e tem que aguentar as observações de Godou que  descobre que ele e Miyo não fizeram nada ainda.  Já Hazuki, irmã de Kiyoka, também se surpreende por eles não terem feito nada ainda e sugere que ela e o noivo deveriam colocar seus futons lado a lado para se acostumarem com o que virá depois.  Tudo isso termina por deixar os nervos de Miyo ainda mais abalados.  E Kiyoka não sabe como agir, teme parecer insensível e ferir os sentimentos de Miyo ou assustá-la.

Hazuki, além de deixar Miyo angustiada, levou um caderno com recortes de matérias de jornais e revistas falando do casamento do irmão.  O foco é  principalmente ele, claro, um homem solteiro de família importante e que tinha espantado tantas noivas.  Kiyoka não gosta de ver o tal álbum, Miyo se desculpa, mas ele diz que folheou por sua livre vontade e quer saber se ela se sente incomodada com os recortes.  Já no trabalho, ficamos sabendo que Kiyok irá passar o comando para Godou e abandonar a vida militar.  Ele quer se dedicar totalmente, ou quase, a proteger Miyo.  Godou não quer assumir o comando, mas sabe que terá que segurar esse rojão.

No outro dia, Hazuki leva Miyo, com a anuência de Kiyoka, para uma espécie de workshop com um chefe francês na casa de uma família da elite, os Shioze.  Hazuki percebe o quanto Miyo está nervosa e se desculpa por tê-la pressionado.  Também pede que ela compreenda Kiyoka, se ele for desastrado.  Ao longo dos capítulos, todo mundo parece culpar Kiyoka por coisas que ele não fez ou tentou fazer.  Ele é homem, ele vai tentar fazer alguma coisa com Miyo.  Enfim, nesta reunião, Miyo reencontra uma ex-colega de escola chamada Kimio.  Ela mudou de sobrenome depois de casada e se chama Nagaba.  Mais tarde descobriremos que se trata de uma família muito poderosa a ponto de superar os Kudou.  Isso me pareceu estranho, porque Kiyoka é BFF do herdeiro do trono, mas é assim que as coisas serão encaminhadas no livro.

Kimio parece tímida, retraída, lembrando um pouco Miyo lá atrás.  Mais tarde, descobriremos que ela não é amada pelo marido, que a humilha, espanca e a submete a outras situações difíceis.  Antes que você sinta pena dela, Kimio lança sobre Miyo um feitiço sem que ela perceba.  O feitiço é descrito como coisa de amador, mas faz com que Miyo diga coisas horríveis para Kiyoka contra a sua vontade.  Ela diz que o odeia e o acusa de pervertido.  Como ela não consegue controlar o que fala, ela termina evitando chegar perto dele.  Já Kiyoka fica se perguntando o que fez de errado e imaginando que terá um casamento branco. 

Mais humilhante para Kiyoka será ter que pedir conselhos para Godou e Kazushi Tatsuishi e, mais tarde, descobrir que não percebeu que Miyo estava enfeitiçada.  Quem descobre que Miyo está sob o efeito de um feitiço é Tadakiyo, pai de Kiyoka, quando ele e Fuyu visitam a casa do filho sem que ele esteja presente.  Tadakiyo tem uma crise de riso, porque é ridículo que seu filho tão competente no uso dos dons e nas artes mágicas tenha deixado de perceber algo assim.  Tadakiyo imagina que ele deve estar muito ansioso por causa do casamento.  E os efeitos do feitiço demoram a passar e Kiyoka começa a teorizar que, por causa do lacre que Sumi, mãe de Miyo, colocou nela quando pequena, ela seja mais sensível a esse tipo de encantamento.

Kiyoka e Miyo conseguem se acertar, mas ele recebe uma missão no trabalho: a Unidade Anti-Grotesqueries precisa exorcizar a mãe do marido de Kimio.  Ele e a esposa vão até o quartel de Kyoka e o sujeito é extremamente arrogante e desagradável.  Ameaça até mexer os pauzinhos para dissolver a unidade.  De novo, essa parte foi forçada, porque a família de Kiyoka é MUITO poderosa, também.  Enquanto isso, sua esposa parece assustada e de olhos baixos.  Quando o marido está indo embora, ela pede para falar com Kiyoka, que se mostra surpreso e impaciente, mas aceita.

Ela lhe pede ajuda contra a sogra e o marido.  Chora, diz que é maltratada, suspende as mangas do quimono e mostra cicatrizes e manchas roxas.  Ela tenta usar  o nome de Miyo, o fato de ter sido colega de escola dela, para justificar seu pedido.  Kiyoka diz que isso  não é assunto ou problema seu, que o máximo que ele poderia fazer é indicar as autoridades policiais que ela deveria procurar.  E ele fica particularmente indignado quando Kimio o abraça pelas costas, suplicando.  Na verdade, é mais que isso: ele fica absolutamente enojado.

Aqui, cabe uma discussão.  Culturalmente, existem dois princípios; um deles é o On (恩), a retribuição devida a alguém, como pai ou mãe, que lhe deu a vida, a criação e a educação.   É o dever para com alguém que lhe ajudou em um momento difícil.  Se você tem um dever, precisa pagá-lo; isso é o Giri (義理), dever social ou obrigação moral de pagar essa dívida. O Giri é a força que move uma pessoa a retribuir o favor recebido para manter a harmonia social (Wa). Deixar de cumprir o Giri transforma a pessoa em alguém sem honra na comunidade.  

Não existe na cultura nipônica a ideia de amar ao teu próximo como a ti mesmo; a ação de caridade nasce de um dever e existe uma hierarquia nessa relação.  Kiyoka não tem dever algum para com Kimio, portanto.  Ele não tem que se compadecer dela por estar sofrendo ou ser uma mulher em perigo.  Com dois agravantes, como mulher, ela deve obediência ao marido e tem deveres para com a sua família.  Kiyoka não deve se meter em assuntos de outros.  Ela é assunto de outros.  E eu não sei como era o direito de família na Era Taishō (1912-1926), mas se fosse parecido com o dos países ocidentais da época, esse marido poderia fazer dela quase tudo o que desejasse, inclusive matá-la.  

O outro agravante é a intimidade que ela invoca ter com Miyo e a invasão do espaço privado de Kiyoka.  No Japão (*e em muitos países do mundo*), as pessoas não costumam se tocar sem serem íntimas e, mesmo quando são, como no caso de Miyo e Kiyoka, as coisas podem ser complicadas. Como essa mulher desconhecida e casada simplesmente se atirou sobre ele assim?  Como ousou tocá-lo como se tivesse alguma relação com ele?  E Kiyoka se sente traindo Miyo por ter sido tocado por outra mulher.  Sim, ele está meio surtado e isso tem a ver não somente com o amor que sente por ela, mas com autorrepressão sexual.  Desde o livro 3, eles já estavam lidando com a questão do desejo sexual, algo que o anime meio que ignorou, mas, neste volume da história, a coisa escala, por assim dizer.  Nunca o dispositivo da sexualidade de Michel Foucault pareceu tão evidente quanto nesse livro.  Falando de sexo ou não falando, ele está no centro de tudo.  E quando eles encontram Arata, ele acha Kiyoka estranho e infere que ele pode estar escondendo alguma coisa de Miyo.

Esse encontro se dá quando Arata, Miyo, o avô dos dois e Kiyoka vão visitar o túmulo de Sumi.  Ele fica naquela sepultura coletiva que o imperador permitiu que fosse violada lá no livro dois ou na primeira temporada do anime.  Fora essa desconfiança de Arata, essa fixação da autora em fazer humor com a ideia de que Kiyoka estaria descompassado por conta do desejo por Miyo e pronto para fazer alguma bobagem, é uma sequência bonita.  Arata está recuperado dos ferimentos no confronto com Usui.  E está emocionalmente mais equilibrado, também, porque ele tinha ficado mentalmente ferido, por assim dizer.  É lembrado o cuidado que Miyo teve por ele enquanto estava internado.  O ponto importante, porém, é a emoção de Miyo ao ver o túmulo da mãe e se reconectar com ela mais uma vez.  E ela lamenta não ter visitado o túmulo antes, mas Kiyoka a lembra de que aquele lugar era área proibida até ter sido violada.

Por fim, há um grande evento na propriedade dos Usuba para o avistamento de cerejeiras em flor, algo que os japoneses gostam de fazer.  Arata e seu avô, Miyo, Kyoka e seus pais, Hazuki, Ookaito, Yurie e até o príncipe Takaihito disfarçado para não chamar a atenção.  O príncipe, que é  amigo de infância de Kiyoka, não poderia ir ao casamento dele por ser herdeiro do trono.  Ir ao avistamento seria uma forma de mostrar sua amizade.  Arata e Kiyoka finalmente têm uma conversa.  Eles falam do duelo que houve entre eles lá no livro 2 (*primeira temporada do anime*) e que precisam de um novo confronto, afinal, Kiyoka foi derrotado, mas depois decidem esquecer o assunto.  E Kiyoka explica para Arata o que houve com Kimio e que já havia explicado as coisas para Miyo.

Outro dos destaques dessa parte do capítulo três é Fuyu agredindo Hazuki e a acusando de ser culpada do seu divórcio.  Eu sabia que Fuyu seria capaz de fazer esse tipo de crueldade, que seria um dos motivos da aversão que Hazuki tem pela mãe.  Só que elas raramente interagem, porque Hazuki se esquiva disso.  Eis um dos motivos. E temos o bundão do Ookaito, que trouxe o príncipe, chamando Fuyu e Tadakiyo de mãe e pai.  Um homem adulto, um general, que não é capaz de se posicionar diante dos pais, que causou infelicidade a Hazuki e ainda tem essa relação com os ex-sogros como se nada tivesse acontecido. Comparado com Kiyoka Ookaito é uma desgraça.  Eu tenho muito desprezo por esse homem, porque ele gosta dela mas é um covarde.  E a pobre Hazuki fica sozinha e meio que se culpando pelo fracasso desse casamento.  Se não é para ela encontrar um novo amor, que pelo menos a autora conserte a situação dela com o Ookaito.

Por fim, Miyo e Kiyoka têm uma conversa terna e ele pergunta se pode tocá-la.  Ela diz  que ele já a estava tocando, porque eles estavam muito próximos.  Ele explica que é de outra maneira.  Miyo fica rubra, ela entende do que se trata, pensa que já não é tão inocente quanto antes (*porque ela também está com sexo na cabeça o tempo inteiro*), e diz que ele pode, mas faz um pedido: que eles aguardem o casamento.  Kiyoka acha que o pedido é razoável e decente.  Os dois terminam o capítulo 3 felizes e aguardando o casamento.  Eu acreditava que o feitiço iria ser esticado e seria o centro desse livro, mas foi coisa rápida.  No entanto, antes que eles possam se casar, ainda teremos alguns contratempos.  Estou terminando a leitura do livro e farei a segunda parte desta resenha em breve.  E, para quem quiser, o mangá está saindo no Brasil.

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