sábado, 21 de abril de 2018

Mais um texto sobre Orgulho & Paixão. É muita coisa para comentar!


Estou faz alguns dias querendo escrever um longo (*sim*) texto sobre Orgulho & Paixão, a novela das seis da Globo livremente inspirada em Jane Austen.  Excesso de trabalho e de Júlia tem me impedido, mas, agora, vai!  Tentarei organizar o texto a partir das personagens femininas principais, as Irmãs Benedito, além de Ema, Susana, Julieta etc.  A partir daí, vou puxando comentários para outras personagens e vamos ver no que vai dar.  Ficará organizado?  Não sei, provavelmente, não.  Antes, porém, é preciso falar do ritmo da trama em si.

O autor, Marcos Bernstein, vem me surpreendendo positivamente.  Ele pegou alguns livros de Jane Austen como base, Orgulho & Preconceito, em especial, fez alguns ajustes, e está construindo sua novela sobre uma estrutura bem sólida.  Não é Austen, embora tenhamos ecos de suas obras, além da referência de algumas adaptações famosas.  Não sei quem notou, por exemplo, a sequência na qual Darcy tenta escrever uma carta explicando o problema de sua irmã com Uirapuru.  Tudo ali – roupa do Thiago Lacerda, sua expressão corporal e facial, enquadramentos etc. – se remetia à série da BBC de 1995. Continue assim e estamos no bom caminho.
Uma família interessante.
Meu temor em relação à novela é que tudo está acontecendo rápido demais.  Não estou mais falando, como em meu texto anterior, dos romances.  Realmente acredito que Darcy e Elisa(beta) deveriam demorar mais para se entender, ou que Ema não deveria ter compreendido seu amor por Jorge tão no começo da trama (*acabei de terminar o capítulo de 19/04, no qual ela confronta “o amigo” a respeito de seu amor por ela*).  Me refiro aos acontecimentos gerais mesmo.  Exemplo?  Se um baile será dado, ele não precisa ser anunciado em um capítulo e executado no outro.  Essa pressa pode comprometer a novela lá na frente, gerando a famosa barriga.  Afinal, Orgulho & Paixão não terá 90-100 capítulos, mas, pelo menos, uns 130-150.  No entanto, tudo vai bem até agora e eu não quero ser pessimista.  Estou gostando bastante da novela, ainda que eu sinta saudades do fofo do Vicente de Tempo de Amar (*e eu desisti de escrever sobre o fim da novela, já virou coisa velha, por assim dizer*).

Também fui desencavar mais livros da Linda Seger, importante consultora de roteiros que teve vários de seus livros publicados no Brasil anos atrás pela editora Bossa Nova.  Um deles, A Arte da Adaptação – Como Transformar Fatos e Ficção em Filme, ajudaria muito aos que se sentem ofendidos pela apropriação do material de Jane Austen em uma novela (*não, não vou voltar ao tópico do desprezo pelo produto nacional*).  No capítulo 6 (A Escolha dos Personagens), a autora diz algumas coisas interessantes: “Não é raro encontrar livros repletos de personagens fascinantes. No entanto, essa mesma quantidade de personagens seria demais para um filme de duas horas de duração. (...) No caso da adaptação, uma vez que que os personagens já foram todos criados, o trabalho inicial do adaptador consiste basicamente em escolher, cortar e combinar personagens.  A partir do momento em que essas decisões já tiverem sido tomadas, o adaptador precisará contar com as mesmas habilidades necessárias para a criação de personagens, pois alguns deles terão que ser recriados e redefinidos.  Em algumas histórias, pode ser preciso até mesmo criar personagens adicionais para deixar a trama mais clara.”  
Julieta é uma das criações da novela.
A autora está falando de filmes de duas horas, mas poderíamos pegar o texto e aplicá-lo a uma novela, não é?  Se o filme pode ter dificuldade em trabalhar com um livro com montes de personagens e subtramas, com a telenovela pode se dar exatamente o inverso.  Exemplo, as irmãs de Bingley, Caroline e Louisa, não raro viram uma só nas adaptações (*e ninguém normalmente reclama do filme de 2005 por causa disso*).  Na novela, certamente, parte de Caroline Bingley foi transferida para Susana, talvez, outra parte para Julieta.  O fato é que é necessário fundir, modificar e criar personagens em adaptações.  E mesmo quando nada parece ter mudado, quem leu os livros sempre vai perceber que, sim, houve alterações, ainda que sutis.  

Em uma novela, que é longa, tem muitos capítulos, tramas também precisam ser criadas.  Vide Sinhá Moça, que está no ar no Canal Viva, e que é quase de autoria própria de Benedito Rui Barbosa, já que o livro serviu de base remota tão rala é sua trama, ou mesmo a primeira Escrava Isaura, que foi muito além do livro.  Em Orgulho & Paixão, além de uma série de coadjuvantes menores, que existem para preencher espaços, criar alívio cômico, como Ágatha (Vânia de Brito) e Estilingue (JP Rufino), por exemplo, há personagens maiores que efetivamente foram criados.  Caso de Ernesto (Rodrigo Simas) e seus irmãos.  
Ernesto e Luccino são personagens simpáticas.
Aliás, estou aguardando que o autor diga que homenageou Che Guevara com a personagem, que oscila entre o politicamente chato e o adorável (*mas eu torço pelo Jorge, aviso de pronto*).   Ontem mesmo, o Barão de Ouro Verde (Ary Fontoura), me soltou que "todo italiano é comunista".  Em 1910, ele certamente diria anarquista, ou até, forçando, socialista.  Tenho mais receio dessas “adaptações” desastradas que subestimam o público, e dificultam a vida dos professores de História, do que de mudanças concretas em relação ao original.  

Houve quem criticasse, com razão, o fato de Elisa (beta) (Nathália Dill) ter levado Darcy (Thiago Lacerda) para o quarto para que tivessem uma conversa privada.  O autor precisa lembrar que isso seria um escândalo total, mesmo com a situação alterada que foi criada pelo sumiço da protagonista e sua irmã.  E Darcy, sendo tão cioso das boas maneiras e convenções (*é o que querem que pensemos da personagem*), não aceitaria ficar só com a mocinha em um quarto e de portas fechadas.  Da mesma forma, é cansativo que se perpetue que títulos nobiliárquicos brasileiros, como o de Barão, fossem herdados. Ema (Agatha Moreira), ou seu pai (Marcelo Faria), jamais serão nobreza e isso nada tem a ver com o fato de ser República, mas, simplesmente, porque era ilegal no país durante a Monarquia.  Mas, enfim, no geral, a novela está indo bem, muito melhor do que eu esperava.  Mas vamos às personagens, ou esse texto nunca termina.
Eles devem ser o casal favorito da novela.
Comecemos pela irmã Benedito que mais me agrada até o momento, Cecília, e que é, também, a que menos se parece com a personagem original de Jane Austen.  No geral, tem se mostrado uma boa idéia a substituição das duas irmãs (Kitty e Mary) que pouco faziam em Orgulho & Preconceito por outras personagens de Jane Austen.  É possível, na novela, separar as irmãs em pares a partir da sua personalidade.  Cecília-Jane, Mariana-Elisabeta e Lídia faz par com a mãe.  Anaju Dorigon deu para Cecília uma doçura e inocência que são convincentes, sem que ela se pareça com Jane.  As duas assemelham-se em um primeiro momento, mas Cecília tem o fator imaginação – puxado da personagem da Abadia Northanger – para diferenciá-la da irmã que é, simplesmente, a mocinha doce e passiva boa parte do tempo.  A história de que Cecília foi uma tomboy não convence muito, de qualquer forma, é gostoso acompanhar o romance dela com Rômulo.  Acredito que em uma enquete eles seriam o casal favorito.  

Agora, continuo achando Marcos Pitombo fraco e de poucos recursos dramáticos.  Ele é muito bonito, verdade, e graças à Anaju Dorigon e à direção, talvez, as cenas fluem bem, mas ele me parece ter recursos dramáticos limitados.  Se exigirem demais, acredito que ele não vai render.  Falando em Rômulo, a personagem Fani (Tammy di Calafiori), pouco ou nada tem a ver com a original, de Mansfield Park, mas seu mistério parece instigante.  Eu acredito que a esposa do Almirante (Christine Fernandes) esteja viva e tenhamos um recurso do tipo “mad woman in the attic”, como em Jane Eyre, ou em O Direito de Amar, isto é, a mulher está viva e é trancada pelo marido (Oscar Magrini) em algum lugar da casa e dada como morta.  E falou-se de uma irmã e Fani deixou cair a bandeja.  Foi por causa da irmã de Rômulo, ou da patroa?  Fani talvez seja a única a saber do segredo e resta descobrir se ela é cúmplice ou igualmente prisioneira.  
O almirante encontrou o ponto fraco de Cecília.
Estou na dúvida, mas há outro filho do almirante, não há?  Achei que haveria um Edmundo, mas acredito estar enganada.  De qualquer forma, vejo pouco tanto da Abadia Northanger quanto de Mansfield Park em Orgulho & Paixão.  E fomos apresentados à família de Fani, de quem ela guarda profundo rancor.  Provavelmente, o ponto de partida é ter sido entregue para ser criada na Mansão do Parque, algo comum pelo Brasil até hoje.  A menina pobre é enviada para ser “educada” e, na verdade, se torna empregada da família rica, ou de classe média.  Fani provavelmente nutre sentimentos por Rômulo (*já que ele deve ser o único filho*) e vai tentar afastar Cecília.  É esperar para ver os desdobramentos, mas adorei a estratégia do Almirante oferecendo a biblioteca para a moça.  Eu vejo a novela sempre em atraso e não estava entendendo o gif da Bela do desenho animado que as pessoas colocaram para circular.

Os irmãos de Fani, especialmente, Ernesto Pricelli e Luccino Pricelli (Juliano Laham), orbitam outras personagens e realmente não sei se terão histórias próprias.  Luccino é o mecânico de motocicletas e automóveis do fictício Vale do Café.  Ele é o fiel guardador da identidade secreta do motoqueiro vermelho.  Na abertura, aparecem dois motoqueiros de vermelho.  Seria Luccino um deles, ou é Mariana?  Aliás, já estou falando da segunda irmã, Mariana, interpretada por Chandelly Braz.  Vejam só, eu achava que não iria gostar da Mariana, muito menos do Coronel Brandão, aliás, principalmente dela.
Será que Uirapuru vai seduzir Mariana?
Das mocinhas de Jane Austen, uma das que eu menos gosto é a Marianne de Razão e Sensibilidade.  Ela é impulsiva, cabeça de vento, que não se preocupa com as convenções e meio que paga por isso ao se envolver com o sujeito errado.  Já o Coronel Brandon, independente do ator que o interprete, é o sujeito mais amável e querido, não é meu Austen boy favorito, mas eu gosto muito dele.  Só que Marianne casar com o Coronel no final nunca me convenceu, sempre fica parecendo que era fruto da desilusão da moça e que, bem, como o Coronel, um homem quase vinte anos mais velho, mas rico, estava ali mesmo e apaixonado, por qual motivo não aceitar sua proposta?  A história dos dois sempre me pareceu uma acomodação.

A Mariana da novela pegou todas as características da do livro, mas acrescentou-se o aventureira e uma língua um pouco mais ferina, ela é o par da Elisa(beta) sem seus impulsos de independência e vontade de sair da sua cidadezinha natal.  E Chandelly Braz vai bem como a personagem e seus arranca-rabos com Lídia, salvo o do pó de mico, que achei pastelão demais, estão sendo bem interessantes.   Juntar no tal Uirapuru (Bruno Gissoni) duas personagens, Willoughby e Wickham, não me parece ainda uma boa ideia, afinal, o moço não irá se envolver com Elisa(beta), já que criaram o tal Olegário para assediar a mocinha.  O problema entre Uirapuru e Darcy não vai passar pela disputa da mocinha, mas pelo rancor em relação à irmã.  Ele só tentou seduzir, ou chegou a deflorar a irmã de Darcy?  Fará o mesmo com Mariana?  De resto, a disputa entre Mariana e Lídia pode, além disso, se tornar cansativa.
Outra variante do Zorro.
No entorno de Mariana criou-se a trama do justiceiro mascarado.  Bem, é coisa velhíssima e batida, está no ar neste momento em Sinhá Moça, também.  Tanto o Motoqueiro Vermelho, quanto o Irmão do Quilombo, vem da mesma matriz, o Scarlet Pimpernel, passando, claro, pelo Zorro, porque conhecem mais o derivado criado por um homem, do que o original inventado por uma mulher.  No início, achei o tom que o Malvino Salvador imprimiu no seu Coronel um tanto exagerado, estereotipado e ridículo.  Não sei se eu me acostumei, ou ele amenizou a coisa, humanizando a personagem.  O fato é que Brandão não tem nada, salvo o amor por Mariana, a ver com o original de Austen, mas a coisa está divertida.  E o vilãozinho, Xavier, e o jogo de gato e rato com a moça, vem funcionando. Resta saber quando a moça vai perceber o disfarce do Coronel.

Falando de Lídia, como imaginei, Bruna Griphão está ótima.  A Lídia da novela potencializou as falhas de comportamento da original, resta saber se as de caráter, também.  Lídia era uma periguete no livro e o é na novela, e poucas vezes este termo caiu tão bem para alguém.  Acredito, porém, que ela não terá um final semelhante ao do livro, casada com o picareta mal caráter do Wickham, mas vão lhe dar um final “feliz” ao lado do tenente gago, Randolfo (Miguel Rômulo).  Até gostaria que houvesse a coragem de colocar pelo menos uma das irmãs entrando em uma união desfavorável.  Lídia, no livro, é tão autora de sua desgraça, quanto vítima, ainda que, e isso é importante ressaltar, que seus pais sejam colocados por Jane Austen como corresponsáveis, o pai em especial, por não assumiram uma postura responsável para com a menina.  
Lídia, mais periguete impossível.
Já que falei de pai, Felisberto, que está sendo interpretado de uma forma muito simpática por Tato Gabus Mendes, é um pai muito mais presente que o original de Austen.  Ainda que o tom de comédia prevaleça, ele não se nega a corrigir e proteger as filhas.  Vide uma cena importantíssima dele com Darcy.  Então, talvez essa mudança feita para a novela possibilite para Lídia um final menos infeliz (*ainda que, no livro, a menina se sinta super feliz ao lado de seu cafajeste*).  De resto, a interação entre Vera Holtz, que faz a mãe, Ofélia, e Gabus Mendes é uma das coisas mais deliciosas da novela.  Os dois se amam, isso fica explícito.  

A postura do patriarca é menos ácida e inerte em relação à esposa e às filhas e isso vem rendendo ótimas cenas.  O que é aquela mulher com o vestido de noiva entalado?  E olha que a piada esticada poderia ficar ruim, mas está se sustentando bem, graças ao talento da dupla de atores.  Como comentei, Ofélia é o par de Lídia.  Mãe desmiolada, filha, idem.  Fora que é a caçula superprotegida, tal e qual no livro original.  E, no fim das contas, os atores parecem estar se divertindo MUITO, se eles se divertem, eu me divirto, também.
O casal mais divertido da novela, sem dúvida.
E chegamos à Jane, interpretada com doçura por Pâmela Tomé.  Talvez, seja das irmãs a mais parecida com a personagem criada por Austen, porque, essencialmente, o que era Jane?  Uma pessoa incapaz de olhar para alguém por um ângulo negativo, uma moça com um coração bondoso, recatada, sensata e que era, acima de tudo, fiel à irmã.  Tudo isso se mantém.  A composição do figurino e cabelo (*há quem fique reclamando das madeixas da moça, mas não vejo nada demais*) da personagem se remete diretamente à Cinderela da Disney.  É tão “na cara”, que é preciso ser muito obtuso para não perceber.  Há problema nisso?  Não. Cinderela talvez seja a princesa da Disney com o melhor coração, ainda assim, ela era capaz de pensar rápido e tomar as decisões certas.  Dito isso, o gancho do capítulo de ontem foi Jane indo até a casa de Camilo (Maurício Destri) e colocando fim à farsa em relação ao “namoro” do moço com Ludmila (Laila Zaid).  De qualquer forma, não vejo muito espaço para a personagem evoluir, não vejo mesmo, mas, por princípio, Jane está bem Jane.

Falando em Camilo, bem, ele é uma personagem gostável e sua relação de amizade com Darcy é uma das boas surpresas da novela.  Darcy exerce em relação ao rapaz não somente uma função de irmão mais velho, mas quase de pai, com um acolhimento que a ficção não costuma retratar.  Camilo é frágil, muito mais que o Mr. Bingley do livro.  Bingley, ainda que influenciável, era o senhor de sua vida, não devia explicações a ninguém, e era, inclusive, taxado de volúvel.  Ora, Camilo é essencialmente bom como Bingley, mas totalmente assujeitado à mãe.  Ela, Julieta (Gabriela Duarte), controla o filho e o patrimônio da família.  Ele não tem autonomia, precisa amadurecer como homem.
Jane não quer que as mentiras prevaleçam.
Aliás, Julieta é uma incógnita.  Espero que o autor trabalhe bem o passado da personagem, porque a gente pode inferir muita coisa, um casamento abusivo, por exemplo.  Eu, se tivesse que montar um passado para ela, a colocaria como uma adolescente obrigada a casar com um homem muito mais velho por causa de dívidas da família, má administração de seu pai.  Daí, essa forma raivosa como vê os homens.  E, bem, quem colocou um rótulo de feminista em Julieta, melhor ter cuidado.  Ela é uma mulher forte, uma sobrevivente, que admira algumas qualidades semelhantes as suas em outras mulheres, mas ela é ciosa da moral e das aparências, ou teria deixado o luto de encenação faz tempo.  De resto, bom ver Gabriela Duarte em um papel maduro, todo mundo envelhece, eu estou aqui com meus cabelos brancos para testemunhar.

De resto, temos ainda Ludmila, esta, sim, uma feminista de verdade e consciente de suas escolhas.  Estou adorando a atriz Laila Zaid e vendo que, pelo menos neste caso, o autor aceitou em cheio, porque condicionou as atitudes ousadas da personagem ao fato de ser rica.  Aliás, houve o ótimo diálogo entre Julieta e Ludmila no baile: "Ludmila Matoso de Albuquerque." (L) "Por que não se identificou antes?" (J) "E estragar a diversão???" (L) "Você tem a língua bem ferina." (J) "Então somos duas." (L).  E o arremate vem com o podemos agir assim, porque somos ricas.  Mesmo ricas, há um preço a pagar, mas a forma como Ludmila encara as alfinetadas, com elegância, bom humor e consciência de que está transgredindo as regras da boa sociedade, são das melhores coisas da novela até agora.  
Ludmila é uma das personagens
secundárias mais interessantes.
A empatia entre ela e Elisa (beta) pode proporcionar à protagonista algum amadurecimento, afinal, falta polimento à mocinha.  Elisa é gritalhona demais e identifica tudo como uma agressão, o que a torna chata aos olhos de muita gente que acompanha a novela.  E isso ela mesma reconheceu e que me lavou a alma, porque uma figura no Twitter veio me mandar ler o livro de novo, porque Elisa (beta), na visão da pessoa, claro, era igualzinha a personagem de Jane Austen, uma feminista, que não levava desaforo para casa, e com uma língua afiada.  O que eu disse para a moça é que a gente não deve confundir nossos fanfics com a obra original.    

E já que estamos em Elisa (beta), falemos dela. Passei a gostar mais da protagonista, passei mesmo.  Não sei se me acostumei, mas acho que ao longo dos capítulos, Elisa tomou consciência de que precisava melhorar, de que era caipira e inculta (*no original, a educação das moças foi muito descuidada*) e admitiu que foi precipitada em alguns momentos.  Isso é bom, meio que tempera aquela má impressão inicial que tive da personagem, a despeito da minha simpatia por Nathália Dill.  Em São Paulo, e não sei quanto tempo a personagem irá passar na capital, afinal, o centro da ação é o tal Vale do Café, ela pode conviver com Ludmila e, talvez, aprender alguma profissão, quem sabe?  Ter objetivos e não somente sonhos.  E, pelo menos nesse momento, não tenho muito mais a falar sobre ela, nem sobre Darcy, especificamente.
Ludmila pode ser uma boa influência para a mocinha.
Agora, como tudo anda muito rápido, eu lamento que Darcy e Elisa já sejam um par, porque sei que toda a trama será pautada por idas e vindas cansativas (*espero que não*).  Os autores contemporâneos de novela parecem não saber cozinhar e/ou costurar uma história de amor, criar expectativa, inventar obstáculos que realmente se justifiquem.  Darcy amoleceu muito rápido.  Poderiam ter trabalhado melhor seu estranhamento britânico (*ele é inglês, afinal*) em relação a forma mais aberta como as pessoas se comportavam no Brasil.  Se ele já está namorando, como irão introduzir a primeira declaração de amor desastrada da personagem que é ponto fundamental do Mr. Darcy original?  Quando ele diz que ama Elizabeth apesar da sua condição social inferior e de sua família horrorosa.  O Darcy da novela já até se tornou solidário com Jane.  Tudo caminha muito enviesado e rápido.  Sei que não é Orgulho & Preconceito, mas eu queria um pouco mais de cuidado aqui.

Esse Olegário (Joaquim Lopes) parece ser um obstáculo fraco e que logo poderá se tornar cansativo.  Obviamente, há uma saída fácil, ele pode passar a amar Elisa(beta) de verdade, deixando de ser simplesmente um fantoche de Susana.  Pode, mas será que vai?  Um indício de que ele tem algum caráter foi dado na sequência do bordel, que foi muito mais realista do que o tratamento da questão na novela anterior das seis, Tempo de Amar.  Um ambiente sórdido, no qual moças poderiam ser vendidas e compradas, mesmo contra sua vontade.  Ali, Olegário mostrou que pode se salvar.  Pode, será que vai?  E, claro, ele não ficará com a mocinha, ela já tem um carimbo de endereço, falo de como a trama será conduzida.
As mocinhas quase tiveram sua virgindade
vendida em um bordel.
Já que chegamos em Susana e Petúlia (Grace Gianoukas), a empregada engraçadíssima continua roubando quase todas as cenas.  Ela enviando a carta convite para Jane foi impagável.  Aliás, qual cena dessa mulher não foi boa?  A dupla foi comparada no Twitter pelo jornalista Nilson Xavier à Mutley e Dick Vigarista.  E é mais ou menos isso mesmo.  Está engraçado, as tramas mirabolantes que não dão certo.  Vai ser engraçado sempre?  Não sei.  

Alessandra Negrini se jogou na comédia e se eu achava que ela estava exagerada, agora, vejo como o tom calculado e que, bem, está funcionando.  Ela é falsa e só é realmente espantoso que as personagens caiam na dela.  Aqui, cabe a crítica, a mocinha, Elisa(beta) deveria ser mais esperta e perceber o engodo, estar um passo à frente da vilã senão sempre, pelo menos, às vezes. Mas parece que esta não é a opção.  E Darcy, um homem adulto e vivido, não parece ser mais esperto que a mocinha.  De resto, complicado que a vilã acredite poder conquistar Darcy, não como é, enfim... Mas será que vão recorrer a um golpe da barriga ou algo do gênero?
Dupla de vigaristas.
E chegamos em Ema e a deixei para o final, porque das protagonistas, ela é a que mais me agrada.  Agatha Moreira e o texto captaram a essência da personagem de Jane Austen e colocaram acréscimos que enriqueceram a original.  Ela é uma doidinha adorável.  E construíram para ela um drama pessoal que costura o que Jane Austen criou, a moça rica que quer casar todo mundo enquanto está presa aos cuidados do pai velho e hipocondríaco, com o juramento feito à mãe de que cuidaria do pai e do avô.  Ema, na novela, acredita no amor para os outros, está assujeitada a sua função de cuidadora de um avô possessivo e de um pai passivo, e, ainda assim, mantém sua alegria e brilho.

A amizade entre Ema e Elisa(beta) é, também, uma das melhores coisas da novela.  As duas – Agátha Moreira e Nathália Dill – conseguem convencer como as melhore amigas, apesar de tão diferentes, no temperamento e condição social, e a interação de ambas é muito boa.  A introdução de Ludmila, uma mulher moderna e independente como Elisa almeja ser, e o ciúme de Ema me fizeram lembrar da minha relação com a minha melhor amiga de infância e única, aliás. Quando ela, que era um pouco mais velha, arrumava outras amigas, eu me roía de ciúmes.  Ema tem que amargar essa situação, ainda que já esteja se entendendo com Ludmila, a distância da amiga, que pode ficar em São Paulo, e, ainda por cima, a desilusão amorosa.  Não é pouca coisa, não!
Susana e Petúlia.
A descoberta do amor de Jorge e de que o ama foi precipitada.  De novo, uma trama andando muito rápido e que pode comprometer a relação das personagens.  Eu estou gostando muito do Jorge do Murilo Rosa, gosto do ator, gosto da forma como ele interpreta um dos melhores homens de Jane Austen e que está, assim como Ema, bem próximo do original.  A única cena ruim da personagem foi aquela de ficar com o Coronel Brandão chorando pitangas amorosas, porque dificilmente dois homens da época, na faixa dos quarenta anos, fariam isso.  Agora, a questão da honra (*ele está noivo, afinal*), a forma  polida como ele corrigiu Elisa(beta) nos seus arroubos, a recusa do amor da mulher que sempre amou, tudo parece coerente com a personagem que, assim como Ema, combina bem o original com acréscimos do autor da novela.  A forma como a noiva de Jorge, Amélia (Letícia Persiles), o encurralou, foi ótima.  Tinha que acontecer uma dessas em Glass Mask para que a história desenrolasse, uma noiva decidida a fazer o mocinho de posicionar, é tudo.  

Com essa declaração cedo demais, não sei o que será de Jorge e Ema, mas eu não queria que a mocinha se envolvesse com Ernesto, que é uma personagem simpática, para que o moço perdesse outro interesse amoroso, porque minha torcida é pelo amigo advogado.  Poderiam introduzir o Frank Churchill – personagem original do romance Emma – por quem a mocinha fica parcialmente fascinada, ou mesmo pegar o violãozinho secundário, Xavier Vidal (Ricardo Tozzi), e o aproximá-lo de Ema, talvez quando a moça ficasse sabendo da ruína financeira da família.  Poderia ser um drama interessante com a possibilidade de fazer vários núcleos e personagens interagirem.  Quem sabe?  A novela não é minha, enfim.
Ema está colhendo o que plantou.
O texto está longuíssimo, estou faz dias tentando terminar e vou guardar algumas coisas para depois.  Não vou falar de Aurélio e Julieta, sinceramente, minha simpatia por eles vai depender de como o autor trabalhar o passado da mãe de Camilo.  Torço para que o autor aproveite alguma coisa de Persuasão, talvez por intermédio da irmã de Rômulo (*Está viva ou morta?*).  Estou curiosa para ver a irmã de Darcy (Isabela Santorini), que chega esta semana, e saber detalhes da forma como Uirapuru tratou a moça.  E cabe um elogio ao figurino que é uma das coisas mais legais da novela.  Tem um pé em 1910, mas é criativo e bonito.  Mas Beth Filipecki é uma artista com um currículo invejável e é bom ver alguém tão competente trabalhando.

Concluindo, dos romances de Jane Austen, acredito que o que melhor esteja sendo aproveitado seja Emma.  Orgulho & Preconceito aparece como fundo, mas as liberdades tomadas são consideráveis, mais para o mal, do que para o bem, eu diria.  A mudança em duas das irmãs foi benéfica para a trama, ainda que Cecília pareça pouco com a protagonista de Northanger Abbey.  Aliás, Mansfield Park é o material mais mal aproveitado na novela.  Nada, ou quase nada se parece com o original, fora que a trama da esposa escondida, ou prisioneira, se remete a outros clássicos da literatura, como Jane Eyre (*e sua autora faz aniversário hoje*), mas sabemos bem que Jane Austen não é a única fonte de inspiração, ou não teríamos um Zorro em Orgulho & Paixão... 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Edição comemora os 50 anos da revista Sho-Comi


E saiu a edição comemorativa dos 50 anos da revista Sho-Comi. Lançada em 20 de abril, ela traz agradecimentos das muitas autoras que publicaram em suas páginas: Hagio Moto, Chie Shinohara, Yuu Watase, Chiho Saito,  Kumagai Kyoko, Keiko Takemiya, Shinjo Mayu, Kitagawa Miyuki e Mitsuru Adachi (*que não é menina*), entre outros.  São cinquenta ao todo.

Shikishi de Hagio Moto.

Shikishi de Mitsuru Adachi.
O Comic Natalie comenta que quando o nº1 da Sho-Comi foi lançado, em 10 de abril de 1968, a revista era mensal, tornando-se quinzenal por causa da sua popularidade.  Se entendi, para que você ganhe as versões dos cartões de agradecimento (Shikishi) é preciso participar de um sorteio.  Eu olho e fico imaginando que queria um monte deles, em especial, o de Waltz wa Shiroi Dress de (円舞曲は白いドレスで), de Chiho Saito. (*Se alguém me disser que eu li errado, que eles todos vem na edição, me avise, por favor, eu quero essa revista para mim!*)

A capa.
Nesta edição, a comemorativa, temos um gaiden de Tokyo Juliet (東京ジュリエット), um grande sucesso da revista e de autoria de Kitagawa Miyuki.  

Tokyo Juliet

Ayakashi Hisen

Já na próxima edição, teremos um gaiden de Ayakashi Hisen  (あやかし緋扇), de Kyoko Kumagai.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Post aleatório: Semelhanças entre Candy Candy e a Escrava Isaura


Hoje, levei Júlia para a escola a no rádio do carro estava ouvindo umas músicas, entrou a abertura de Candy Candy  (キャンディ・キャンディ), e eu comecei a cantar: 

"Sobakasu nante, ki ni shinai wa 
HANA-PECHA datte datte datte, oki ni iri 
OTENBA itazura daisuki, kakekko SUKIPPU daisuki 
watashi wa watashi wa, watashi wa CANDY
hitoribocchi de iru to, choppiri samishii 
sonna toki kou iu no, kagami wo mitsumete
* waratte waratte, waratte CANDY 
nakibesou nante SAYONARA ne, CANDY CANDY"


Daí, comecei a lembrar da disputa judicial insana entre a roteirista (Kyoko Mizuki) e a desenhista (Yumiko Igarashi).  Conhecendo o caso, eu sou a favor da roteirista, mas vejam que impedir que esse clássico seja exibido, que o mangácircule, tenha remake, whatever é um absurdo.  Acredito que a Mizuki ganharia mais (*ela alega que recebeu pouco pela obra e que a parceira se apossou dela*) fazendo um acordo.  Comecei a rememorar algumas cenas, lembrar do dramalhão que é Candy Candy, de como nós, crianças, ficamos impactados com a morte do Anthony (*a gente não assistiu ao final pavoroso, aqui, no Brasil, só poucos capítulos*) e que eu chamo Candy Candy de A Escrava Isaura japonesa.

A desenhista ficou muito mais famosa
que a roteirista, gerando problema até hoje.
O anime passou em tantos, ou mais países, que a novela da Globo (*por vias legais, ou não*).  Lembro, muitos anos atrás de uma moça turca que fez contato comigo para falar de Candy Candy.  A história é um drama torturante.  A protagonista é órfã, pura e bem intencionada.  Por outro lado, Candy é tomboy e inculta, Isaura, por outro lado, é um poço de virtudes e com um intelecto superior... E Candy chegou a ser vendida como escrava... Mas há mais semelhanças, a mocinha perde o seu primeiro amor de forma trágica... E, ooops!  Mas, ora, vejam!  Eu nunca tinha percebido essa semelhança!

Eu sei, você não viu a versão da Globo de 1976, lá Gilberto Braga inventou um primeiro amor para Isaura, algo muito necessário, já que ela e Álvaro (*o mocinho do livro*), só se encontrariam já do meio para o fim do livro.  E, à época, cabia cumprir os cânones de Janete Clair, a mocinha precisava de um amor e beijar alguém logo nos primeiros capítulos.  Só não era costume matar e da forma tão cruel como o Antônio foi morto.  Foi uma das sequências mais memoráveis que eu já vi em uma novela.   Não há vilão melhor que o Leôncio e o Rubens de Falco era maravilhoso.  Já Candy Candy, tinha uns vilões de dar vergonha, mas a trama cheia de tragédias para a heroína já era o suficiente para nos massacrar.

Isaura comeu o pão que o diabo amassou
nas mãos do "sinhozinho" Leôncio.
Era só isso.  Post aleatório, mas tem uma resenha longa de Candy Candy aqui e de A Escrava Isaura, também, claro (*1-2*).  Estava elucubrando aqui.  Quando dirijo, minha mente fica voando por aí.  Aliás, é impossível impedir que ela voe.

Mangá-ka desenha capa da edição japonesa do romance Me Chame Pelo Seu Nome


O romance Me Chame Pelo Seu Nome, de André Aciman, terá sua edição japonesa lançada por esses dias e a mangá-ka Tarako Kotobuki, que desenha BL, foi a escolhida para desenhar a capa da edição.  Vejam, é só a capa, não há mudança estrutural do livro.  Agora, não me surpreenderia se lançassem uma adaptação para mangá, não.  E é relativamente comum que mangá-kas desenhem encartes de filmes, cartazes alternativos e capas de livros, como nesse caso.


O livro sai no dia 20 de abril, segundo o Comic Natalie, já o filme, que levou o Oscar de melhor roteiro adaptado, estréia no dia 27 de abril.  Para Japão, isso é muito rápido!  Duvida?  Veja esse post aqui.  Se quiser ler minha resenha de Me Chame pelo seu Nome, basta clicar.

Ranking da Oricon


Ontem, saiu o ranking do Oricon da semana 09-15/04.  Destaque entre os mangás femininos é Yume no Shizuku, Ougon no Torikago  de Chie Shinohara.  A série, que conta a história de Roxelana, que foi de escrava do harém de Suleimão, o Magnífico, à sultana e mulher mais poderosa do Império Turco Otomano de sua época e, talvez, de qualquer período desse poderoso Estado.  Yume no Shizuku, Ougon no Torikago não foi indicado a nenhum prêmio, mas é o maior sucesso de vendas da autora, lembro quando ela fez festa nas redes sociais, porque, pela primeira vez, um de seus volumes de mangá ficou no top 10.  Parece que nem com Anatolia Story (天は赤い河のほとり), que se passa mais ou menos no mesmo espaço geográfico, ela conseguiu isso, ao que parece.  Enfim, estou muito atrasada na leitura, mas fiz uma resenha do início do mangá.  De resto, temos Love Phantom, que sai na Petit Comic, entre os dez mais vendidos. Olhando o resto do ranking, autoras consagradas marcam presença forte: CLAMP, Yuu Watase e Kamio Yoko.  Enfim, a semana foi boa para os shoujo e josei.  Desta vez, no entanto, não há mangás BL na lista.

7. Yume no Shizuku, Ougon no Torikago   #11
8. Love Phantom #7
13. Card Captor Sakura ~Clear Card Hen~ #4
14. Fushigi Yuugi: Byakko Senki #1
18. Ookami Heika no Hanayome #18
25. Hana Nochi Hare ~Hanadan Next Season~ #9
30. Game ~Suit no Sukima~ #4