quarta-feira, 29 de março de 2017

Guest Post: Comentando a edição brasileira do mangá de Ghost in the Shell


Quinta-feira, dia 30, estréia o filme de Ghost in the Shell, uma adaptação hollywoodiana do mangá de Masamune Shirow.  O filme já nasce envolto em polêmica, o tal whitewashing, yellowface e  outras coisas mais, isto é, a escalação de atores e atrizes caucasianos para papéis que deveriam (*e não uso o condicional à toa*) ser desempenhados por não-brancos, neste caso, asiáticos.  Não devo assistir ao filme, nunca fui fã de Ghost in the Shell ainda que tenha gostado bastante do anime de 1995, mas meu marido comprou a edição da JBC e ficou indignado com algumas coisas.  Daí, perguntei: Não quer fazer uma resenha para o Shoujo Café?  Olha, já pedi outras vezes e ele raramente atendeu, mas, neste caso, ele decidiu escrever.  Então é um guestpost esta resenha da edição brasileira, vejam bem, aspectos mais técnicos, não o mangá em si.  Qualquer coisa, basta usar os comentários, ou entrar em contato com o autor.  





Comentando a Edição Brasileira de Ghost in the Shell 
por Kamugin-Khan (Júlio César)

Aproveitando o lançamento do filme “live action” Ghost in the Shell, baseado no mangá Kōkaku Kidōtai (攻殻機動隊) de 1991 da autoria de Masamune Shirow (松本次郎) e mais conhecido no ocidente como Ghost in the Shell, a estrear no Brasil no próximo dia 30 de março, a editora JBC se antecipou trazendo para nosso país, com 26 anos de atraso, este que é um dos clássicos mais influentes do mangá, particularmente incensado no Ocidente ao lado de obras como Akira e Lobo Solitário as quais já agraciaram nossas bancas mais de uma década antes do “boom” do mangá e do anime no Brasil no final dos anos 1990. 

Eu possuo a edição americana de 1995 da Dark Horse Comics (vale aqui abrir um parêntesis para mencionar que o primeiro longa animado de Ghost in the Shell estreou no Japão em novembro de 1995 e o mangá foi lançado nos Estados Unidos em dezembro do mesmo ano) e é interessante comparar as duas edições: a da Dark Horse tem formato americano medindo 26cm x 17cm e a edição da JBC tem formato similar com medidas de 24cm x 17cm, ou seja, mesma largura, porém 2cm menor em altura. Contudo a edição JBC é mais espessa, medindo 2,4cm contra 1,7cm a da Dark Horse, apesar desta última possuir mais páginas. Isto acontece porque, especialmente para esta edição, a JBC utilizou o papel ligeiramente amarelado que é típico dos mangás japoneses originais. Esse papel é mais leve, porém mais volumoso, é mais agradável ao tato e oferece um conforto visual maior que o papel branco puro utilizado na maioria dos títulos disponíveis em bancas hoje. 


Nos Estados Unidos, o papel original de mangá já se tornou regra, mas aqui no Brasil as editoras o reservam apenas para uns poucos lançamentos “de luxo”, embora ele já seja relativamente comum nos livros publicados mais recentemente por aqui. Não confundam este papel com o outro, semelhante a papel de jornal, e que infelizmente ainda continua muito utilizado tanto pela JBC quanto pela Panini. Cabe aos leitores exigir que as editoras abandonem de vez este papel vagabundo, especialmente a Panini, que fica lançando dezenas de edições de luxo de comics de super-heróis, às custas dos lucros obtidos com as vendas de mangás, e não melhora a qualidade da impressão destes últimos.

Mencionei anteriormente que a edição americana, apesar de menos espessa, possui mais páginas. Isto acontece porque ela possui duas folhas de apresentação (não começa direto na primeira página da estória), possui páginas extra com as oito capas em que foi dividida a primeira edição americana e um apêndice no final com as notas do autor que na edição brasileira foram distribuídas pelos rodapés das páginas, tal como na edição original japonesa. O próprio autor, em nota inclusa no final, sugere que as notas sejam lidas posteriormente, devido ao seu grande número e extensão, para que não se atrapalhe a fluidez da leitura.


A edição americana é espelhada, grande crime que se cometeu por muito tempo quando da publicação dos primeiros mangás no Ocidente, embora uma reedição posterior corrija este erro e um outro que mencionarei em breve. Nossa edição, obviamente, não é espelhada, pois vivemos em tempos mais iluminados e além disso possui uma sobrecapa (em inglês chamam de “dust cover”) a qual é usada em todo tankubon (coletânea de mangá) publicado no Japão e que é um negócio meio chato de se manusear, além de que se deteriora facilmente com o tempo e praticamente torna impossível encapar o seu precioso mangá com Contact transparente (coisa que eu positivamente não faço). Apesar de não gostar da sobrecapa, é um ponto a mais para a JBC ao tentar se aproximar o máximo possível da qualidade da impressão original.

Falando especificamente da impressão, da tinta sobre o papel, a qualidade é excelente. Há muitas páginas coloridas e tanto estas quanto as páginas comuns são uma festa para os olhos. Masamune Shirow é muito detalhista e, mesmo num formato grande, seus quadros são visualmente bastante carregados; uma impressão ruim poderia ocasionar perda de detalhes e desconforto visual; como já se viu em alguns títulos publicados aqui no passado (Gunnm, também pela JBC, por exemplo). Tal problema não existe em Ghost in the Shell. 


O grande formato combinado ao excelente papel e a uma impressão de boa qualidade, tornam agradável a leitura deste mangá que, de forma alguma é um mangá “fácil” de se ler. Masamune Shirow faz muitas divagações sobre a existência humana e avanços tecnológicos por cima de uma trama onde prevalece uma complexa rede de interesses e intrigas político-econômicas onde a oposição bem versus mal inexiste, todos estão na zona cinza, inclusive a protagonista, Motoko Kusanagi, mais conhecida simplesmente como “Major”. Uma mulher cujo corpo todo, à exceção do cérebro, ou da maior parte deste, ao menos, é artificial, uma máquina. Não se esclarece como ela chegou a essa condição, fato que é revelado apenas em versões alternativas da estória lançadas posteriormente em anime.

O motivo que me levou a redigir este “guest post” foi o erro cometido anteriormente e que é típico de uma época em que ainda se espelhavam os mangás: a censura. O bom conhecedor de anime e mangá sabe que estes não são “água com açúcar” como os produtos equivalentes ocidentais e americanos em particular. Os mangás, especificamente, pegam relativamente pesado em temas que, no Ocidente, não devem aparecer em “revistinhas para crianças”. O primeiro e mais óbvio alvo da censura é o sexo e a edição americana de 1995 possuía nada menos que DUAS páginas inteiras excluídas onde Kusanagi aparece numa cena de sexo virtual lésbico com outras duas mulheres, sexo incrementado com drogas para intensificar o prazer. 


Aos meus olhos a cena é leve e para o público ao qual se destina um mangá como Ghost in the Shell – adultos e / ou jovens adultos – nada que vá chocar (não acho que vale sequer uma ida ao banheiro). A edição americana mais recente, não espelhada, corrigiu a censura e incluiu estas duas páginas, portanto fiquei desagradavelmente surpreso ao constatar que a edição brasileira da JBC, a qual não é baseada na edição americana (as onomatopéias estão em japonês), também excluiu as duas páginas! Estas deveriam estar entre as páginas 52 e 53: na página 52, Kusanagi aparece descendo, de maiô, em direção a um iate onde se encontram duas garotas também em trajes de banho que a observam enquanto ela se aproxima, já na página seguinte, ela subitamente desperta dentro de um quarto, sobre uma cama, com roupas do dia a dia e as garotas estão desmaiadas ao seu lado, também vestindo roupas comuns. No quadro seguinte, Batou, que havia interrompido a festinha, expressa seu desconforto e é devidamente punido com um soco, de seu próprio punho (controlado à distância por Kusanagi) em sua cara. Não se entende a seqüência e nem a piada sem as duas páginas omitidas. Há uma explicação na nota de rodapé, mas trata-se de um porco substituto. Diante disto eu me sinto lesado. 

Sou fundamentalmente contra toda forma de censura que não seja auto imposta. Apenas eu decido o que quero ou não quero ver – que ninguém o decida por mim. É bem provável que eu não houvesse comprado o mangá caso soubesse deste fato. Eu gosto de dar suporte aos autores a as editoras, muitas vezes compro mangás que nem leio, pois já os li na internet anteriormente. Ver um mangá da relevância de Ghost in the Shell publicado no Brasil merece todo nosso apoio, apesar da publicação tardia e oportunista, mas, tal como é típico dos tupiniquins, tinham que fazer merda em algum lugar. Comprei um mangá mutilado, do qual uma folha foi arrancada por umas bestas que há mais de vinte anos acharam que não convinha à “moral e aos bons costumes” e que hoje, outras bestas repetem o erro seja por omissão e ignorância ou pelo mesmo senso moral imbecil destes tempos em que pastores evangélicos e Escrotonaros enchem platéias e urnas eleitorais.


Decidam vocês se vale ou não a compra, mas pelo menos agora estão conscientes do que (não) vão levar, ao contrário de mim. Seguem abaixo scans em inglês das páginas censuradas (*Clique para aumentar*).



GOSTOU?

9 pessoas comentaram:

O Cassius comentou em um vídeo ( henshin online), que o próprio autor censurou o mangá, e que todas as novas edições de Ghost in the Shell publicadas pelo mundo, a partir de agora serão censuradas.

Na verdade, a atual edição americana, editada pela Kodansha, também tem a versão censurada - e entendo que a própria edição atual japonesa também está assim, embora eu nunca tenha visto uma edição japonesa para poder afirmar com certeza. O autor atualmente exige que seja usada a versão censurada, todas as edições internacionais recentes estão assim. A JBC não poderia publicar de outra forma!

A única versão americana não censurada foi a última da Dark Horse, publicada há uns dez anos. Eu tenho essa, mas já é uma raridade.

E já que falamos no Shirow, ele também aprovou a escolha da Scarlet Johansson para o papel.

Gostei da resenha, apesar de ter alguns contrapontos a ela.
Eu ainda prefiro os papéis jornais nos mangás, do que a mania atual de se publicar em papel off-set, já que a leitura é muito menos cansativa à vista do que o papel branco. E creio que usar o papel Lux Cream encareceria muito o produto, então prefiro que, por enquanto, ele fique restrito mais às publicações de luxo mesmo.
Mas não concordo com os três parágrafos do autor referente à censura das duas páginas da edição. Eu acompanhei todos os detalhes da publicação, desde o anúncio até o lançamento, e desde o início eles estão dizendo que o próprio autor não deixou que essas páginas fossem publicadas, o tanto que nenhuma outra edição de The Ghost in the Shell que está saindo pelo mundo afora tem essas páginas (a edição francesa tem o mesmo número de páginas da brasileira, e a americana recente também não tem essas páginas (https://www.bleedingcool.com/2017/02/23/kodansha-happy-publish-uncensored-ghost-shell-authors-desire/). Também não vejo problema nisso, mas é o desejo do autor, e temos de respeitar isso.


Kamugin disse...
Eu já havia escutado essa informação, mas sempre de boca. Nunca havia lido em algum lugar e que ainda por cima fosse fonte confiável. Se é decisão do autor, somente posso lamentar, mas é direito dele, assim como também é direito nosso ir atrás da primeira versão. Há outros mangás nos quais os autores fazem modificações não motivadas por censura, por exemplo Yukito Kishiro modificou o final de Gunnm para encaixar a continuação Last Order. As novas reedições não trazem mais o primeiro final, mas isso não me faz ingnorá-lo e eu não o excluiria de uma republicação, eu o adicionaria como um extra. Agradeço o esclarecimento, passarei a acompanhar os fóruns da JBC e da Panini até porque é necessário o feedback dos leitores em face dos erros que cometem.
Não concordo com seu comentário a respeito do papel de jornal de forma alguma, é um papel de má qualidade e baixa durabilidade, além do que a impressão fica ruim quando ele é usado. Para mim sempre fica a impressão de que o mangá é um produto de segunda classe, ainda por cima quando vejo o tratamento que a Panini dá aos comics. Se o papel lux cream é mais caro, que ao menos universalizem o uso do papel branco.

março 29, 2017 8:23 PM

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Kamugin disse...
Eu já havia escutado essa informação, mas sempre de boca. Nunca havia lido em algum lugar e que ainda por cima fosse fonte confiável. Se é decisão do autor, somente posso lamentar, mas é direito dele, assim como também é direito nosso ir atrás da primeira versão. Há outros mangás nos quais os autores fazem modificações não motivadas por censura, por exemplo Yukito Kishiro modificou o final de Gunnm para encaixar a continuação Last Order. As novas reedições não trazem mais o primeiro final, mas isso não me faz ingnorá-lo e eu não o excluiria de uma republicação, eu o adicionaria como um extra. Agradeço o esclarecimento, passarei a acompanhar os fóruns da JBC e da Panini até porque é necessário o feedback dos leitores em face dos erros que cometem.
Não concordo com seu comentário a respeito do papel de jornal de forma alguma, é um papel de má qualidade e baixa durabilidade, além do que a impressão fica ruim quando ele é usado. Para mim sempre fica a impressão de que o mangá é um produto de segunda classe, ainda por cima quando vejo o tratamento que a Panini dá aos comics. Se o papel lux cream é mais caro, que ao menos universalizem o uso do papel branco de melhor qualidade que já é usado em vários títulos tais como Ajin e Knights of Sidonia.

Eu já havia escutado essa informação, mas sempre de boca. Nunca havia lido em algum lugar e que ainda por cima fosse fonte confiável. Se é decisão do autor, somente posso lamentar, mas é direito dele, assim como também é direito nosso ir atrás da primeira versão. Há outros mangás nos quais os autores fazem modificações não motivadas por censura, por exemplo Yukito Kishiro modificou o final de Gunnm para encaixar a continuação Last Order. As novas reedições não trazem mais o primeiro final, mas isso não me faz ingnorá-lo e eu não o excluiria de uma republicação, eu o adicionaria como um extra. Agradeço o esclarecimento, passarei a acompanhar os fóruns da JBC e da Panini até porque é necessário o feedback dos leitores em face dos erros que cometem.
Não concordo com seu comentário a respeito do papel de jornal de forma alguma, é um papel de má qualidade e baixa durabilidade, além do que a impressão fica ruim quando ele é usado. Para mim sempre fica a idéia de que o mangá é um produto de segunda classe, ainda por cima quando vejo o tratamento que a Panini dá aos comics. Se o papel lux cream é mais caro, que ao menos universalizem o uso do papel branco de melhor qualidade que já é usado em vários títulos tais como Ajin e Knights of Sidonia.

Boa noite Amigos.
Comprei a minha edição hoje, e já sabia das páginas censuradas, mas para quem interessar existe na internet os 8volumes em português com as páginas sem censura, é no início do volume 2, o site é wilburdcontos.blogpost.com.br
Fiquem com Deus.

Uahahaha! Eu tinha certeza de que seria uma versão censurada, tendo sido exigido pelo autor, ou não.
Estamos vivendo tempos de uma tentativa de volta da ditadura e do puritanismo, impulsionados pela bancada religiosa no congresso. O MEC acabou de suprimir os termos "orientação sexual" e "gênero" das grades curriculares nacionais.
Daqui a pouco voltaremos à proibição do nu frontal em revistas masculinas.

a cena é bem nojenta, o criador tem até motivos pra sentir vergonha mesmo.

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