domingo, 10 de novembro de 2019

Comentando Papicha (France/Algeria, 2019): Vida, Liberdade, Resistência e Sororidade a qualquer custo


Quinta-feira assisti ao filme Papicha, de Mounia Meddour e que conta com a colaboração de Fadette Drouard no roteiro.  Trata-se de um filme feminista (*mais um quase em cadeia*) e candidato da Argélia à melhor filme estrangeiro no Oscar, ainda que, provavelmente, nunca estreie no seu país de origem.  Papicha, gíria local para garota moderna e ousada, é uma história sobre uma jovem mulher que deseja viver intensamente, que tem sonhos que seriam aceitáveis em qualquer país ocidental, ou mesmo em vários lugares do mundo, mas que está presa em uma nação em guerra civil, na qual o alvo principal são as mulheres.  

O resumo do filme é o seguinte: Argélia, década de 1990, Nedjma (Lyna Khoudri) tem 18 anos e estuda língua e cultura francesa na universidade, mas seu grande sonho é se tornar estilista.  Ela desenha, costura e vende suas criações para suas colegas e para mulheres nas boates de Argel.  O problema é que o país está mergulhado em uma guerra civil (1991-2002) e os grupos islâmicos envolvidos almejam não somente o poder, mas impôr um rígido código de vestimenta e comportamento às mulheres, tomando o controle sobre seus corpos e suas vidas.  E o que Nedjma  faz?  Ela decide resistir e ficar, lutando a sua maneira pelo seu país e pelos direitos das mulheres.


Elas queriam curtir a vida.
Papicha é um filme sobre vida e sobre resistência, é um filme sobre mulheres e os laços que as unem.  Logo no início, na primeira sequência, somos apresentadas à Nedjima, ou Neji, e sua amiga Wassila (Shirine Boutella), duas adolescentes alegres, que estão saindo escondidas para ir a uma boate.  Subornam o porteiro da universidade, tem um taxista de confiança, mas o medo está lá e esse sentimento torna urgente que elas vivam intensamente.  Também, nessa primeira sequência a diretora-roteirista já nos apresenta os perigos que rondam as mulheres argelinas naquele contexto.  

O táxi é parado por um grupo de islamistas.  Eles estão armados, eles gritam, eles exigem os documentos do taxista e saber de onde ele vem e por qual motivo as moças, que se cobriram com o véu quando perceberam a patrulha, estão fora de casa.  "Estamos voltando de um casamento.", fala Nedjima, ou a amiga.  "Vocês não tem medo?", esta é a pergunta de um dos milicianos.  Medo.  Ao longo do filme, fica claro que o que os terroristas islâmicos desejam é que as mulheres tenham medo, porque o medo paralisa, nos impede de agir.  Quer dizer, não se você for Nedjima com sua imensa sede de viver.


No IMDB está escrito que o filme se passa em 1997. 
Nada é dito na película, aliás, tudo
sugere que a história se passe em 1992.
Para escrever esta resenha, tive que mergulhar em uma leitura intensiva sobre a Guerra Civil Argelina, ou, como eles chamam, a "década negra".  Quando essa guerra ganhou a grande imprensa internacional, eu estava terminando a faculdade, 1995, 1996, e costumava ler alguns relatos assustadores, porém genéricos, os civis eram o maior alvo, havia mulheres sequestradas e forçadas a se casar, o objetivo era transformar a Argélia em uma república islâmica como o Irã.  Tinha na minha cabeça desde então que a maioria dos grupos em conflito eram xiitas.  Não, na verdade, eram sunitas, e é possível ver nos relatos específicos que encontrei, os que falam da guerra às mulheres, imagens ligadas ao Talebã e ao Estado Islâmico.

Em linhas gerais, o conflito no país começou quando o candidato do governo perdeu o primeiro turno das eleições em 1991 para a Frente Islâmica de Salvação (FIS).  Um grupo radical, que já tinha um discurso misógino, e que defendia a criação de um programa de renda mínima, como o bolsa família, para que as mulheres pudessem ficar em casa (*seu verdadeiro lugar*) e deixassem os postos de trabalho para os homens em um ambiente em que o desemprego era grande.  Temos, então, a questão religiosa de braço dado com a problemática econômica.  O que aconteceu então?  Não houve segundo turno, aconteceu um golpe apoiado pelos militares, e os líderes da FIS começaram a ser presos.


Nedjima é assediada nas ruas e chamada de "papicha".
A reação não tardou, a FIS, o GIA (Grupo Islâmico Armado), outra facção importante, e uma miríade de grupos islâmicos, começaram uma guerra civil promovendo inúmeros atentados, especialmente, contra as mulheres, a quem decidiram impôr o véu e impedi-las de trabalhar e estudar em ambientes mistos.  Havia, também, um discurso islamizante-arabizante que tentava expurgar tanto elementos da cultura local, quanto influências ocidentais, como a forte herança cultural francesa na ex-colônia.  Esses grupos com certeza estavam olhando para a Revolução Islâmica Iraniana (1979), uma experiência concreta, mas queriam fazê-la numa leitura sunita, inspirada na Arábia Saudita.

Nas minhas leituras para escrever a resenha (*em inglês, porque em francês deveria achar muito mais coisa*), consegui encontrar na internet alguns artigos dos anos 1990, contemporâneos à guerra, e não somente material mais atual.  Li sobre uma jornalista que foi morta com um tiro à queima roupa, enquanto trabalhava; de professoras sendo mortas por estarem lecionando assuntos não-islâmicos, ou simplesmente ensinando; de médicas mortas por atenderem pacientes homens, ou simplesmente por estarem salvando vidas; de uma adolescente de quinze anos sequestrada e esfolada viva por resistir ao estupro coletivo, suas fotos (*ou filmagem, não ficou claro*) foram espalhadas pelo país e enviadas para as principais líderes feministas do país.  


Nedjima tem fotos muito brava, mas
ela sorri bastante no filme.
Li, também, o caso de uma mulher religiosa, que nunca tinha trabalhado fora de casa, morta com um tiro no rosto, porque fez um ato de caridade: levou sopa para policiais que estavam trabalhando no Ramadã e não tinham o que comer quando chegasse a hora de romper o jejum. Sim, a ideia era instilar o terror mesmo nas mulheres religiosas.  Essa ideia está bem presente no filme.  Todas as mulheres tem medo e Nedjima e suas amigas próximas tiram desse sentimento a força para seguir em frente.  

No caso da protagonista,  o exemplo vem de sua mãe, uma das personagens mais simpáticas do filme.  Com essa senhorinha pacata e religiosa, mas de ideia progressistas, ela aprendeu a costurar e aprendeu a amar a Argélia.  Aprendeu a ser solidária com outras mulheres e entender a força que todas elas tinham.  A mãe de Nedjima lutou na guerra de independência (1954-1962).  Pegou em armas?  Não, aparentemente, poucas mulheres argelinas o fizeram, o trabalho das mulheres era dar apoio e não era uma missão menos perigosa.  Cabia a elas, por exemplo, levar armas escondidas sob o seu haik, enganando os soldados franceses.  Sempre que falava do assunto com minhas turmas, enfatizava que o receio que os franceses tem da liberação das vestimentas islâmicas como o niqab e a burqa tem sua origem nessa guerra sangrenta.


Vamos fazer um desfile de moda.
Falando do haik, trata-se da vestimenta islâmica típica da Argélia.  Ela é branca e consiste em uma peça única de tecido com até seis metros de comprimento e que envolve todo o corpo da mulher, sem costura alguma.  A mãe de Nedjima (Aida Guechoud) explica para a protagonista e sua irmã mais velha, Linda (Meriem Medjkrane), como usar a peça, ou como ela era usada nos tempos da sua juventude.  Linda havia recebido um haik de presente da mãe de um pretendente.  Segundo a mãe da protagonista, as solteiras poderiam deixar a raiz dos cabelos à mostra, já as casadas deveriam cobrir todo o seu cabelo, se fossem muito pudicas, poderiam deixar somente um dos olhos à mostra.  

Uma das formas de segurar o haik era com a boca, a velha senhora explica.  "Mas assim como a mulher iria falar?", Linda pergunta.  "Uma mulher não precisa falar.", a mãe responde irônica e, depois, todas caem na gargalhada.  Os islamistas radicais não querem impôr o haik, mas vestimentas islâmicas importadas dos países do Golfo Pérsico.  Nada de branco, a cor é o preto.  Lembrei do livro Minha Briga com o Islã, de Irshad Manji, em que uma das teses da autora, que é muçulmana, é que com o colapso do Império Islâmico, sobrou para os árabes do Golfo Pérsico (*sauditas, em especial*) tentar monopolizar a religião, nesse intuito eliminando, ou tentando eliminar, a diversidade de leituras do islamismo e eliminar as tradições locais, nesse caso, abarcando tudo, incluindo as vestimentas das mulheres.

A mãe de Nedjima é incrível.
Por isso mesmo, como uma forma de resistência, Nedjima decide fazer toda uma coleção de roupas usando o haik como base.  É uma espécie de resistência contra os hábitos estranhos ao seu país e uma forma de afirmar que os fundamentalistas eram insignificantes para ela.  Antes de ter mergulhado nos relatos locais de dor e resistência, fiquei pensando em como a Nedjima parecia fora da realidade.  Destemida, incapaz de ceder um milimetro, afrontosa mesmo.  Lembrei-me de um filme argentino que assisti faz um bom tempo, no qual guerrilheiros muito otimistas retornam para seu país de origem, no auge da ditadura mais sangrenta da América Latina  (1976-1983), porque acreditam que era o momento ideal para a revolução.  Não era, a gente sabe desde o primeiro momento que vai dar m****, só não sabe de qual tamanho ela será.

Quando comecei a assistir Papicha, já sabia que aconteceria uma, ou várias tragédias.  A questão era saber quais e o tamanho da desgraça.  Por exemplo, quando Linda, a irmã jornalista de Nedjima, entra em cena cheia de confiança e orgulho pelo trabalho que faz, sabemos que ela vai morrer, a questão é como e quando acontecerá.  "Você não tem medo?", pergunta a protagonista.  "Eu preciso fazer meu trabalho.", é mais ou menos isso que Linda responde.  Ela é morta de forma violenta, surpreendente e estúpida.  Mesmo sem que fosse mostrada uma gota de sangue, ou o rosto de Linda, a gente sente o horror, a mãe desesperada atirada sobre o corpo da filha.  


Mulheres foram usadas para oprimir
mulheres, aliás, isso é muito comum.
Da morte da irmã, Nedjima tira forças para continuar, mas, aqui, cabe uma cítica ao filme.  As amigas mais próximas de Nedjima - Wassila, Samira (Amira Hilda Douaouda) e Kahina (Zahra Manel Doumandji) - falam da irmã da protagonista com muita deferência, como se ela fosse um exemplo para todas elas.  O problema é que Linda não tem tempo de tela, ou menções anteriores a sua morte suficientes para que a gente entenda a sua importância como exemplo para aquelas jovens mulheres.  

O fato é que havia feministas na Argélia, mulheres muito corajosas dado o nível de violência local. Nedjima, a protagonista.  A longa luta era contra a imposição de uma leitura estreita da sharia.  Essas mulheres tentaram impedir a deterioração dos direitos das mulheres desde o Código da Família, em 1984, mas sem grande sucesso.  Por exemplo, as leis davam direito ao marido de se divorciar da esposa sem maiores problemas e expulsá-la de casa com os filhos.  E sabe o que aconteceu com algumas dessas mulheres?  Foram linchadas, ou queimadas vivas, porque era imoral que morassem sozinhas, sem um guardião.  Mas qual opção muitas delas tinham?  Enfim, isso não é o Islã, que fique claro, e escrevi algo parecido na resenha de Filhas do Sol, mas uma perversão de princípios religiosos.


Quatro amigas que amam a vida e tem muitos sonhos.
O filme é muito feliz ao colocar mulheres como participantes do movimento que visava retirar-lhes os direitos.  Mulheres cobertas de negro tentavam intimidar outras mulheres.  Elas agridem Nedjima mais de uma vez e a personagem as ignora.  Algo que eu queria ter visto no filme, especialmente na cena em que um professor (Abderrahmane Boudia) é sequestrado por essas mulheres durante uma aula em francês, era ver Nedjima e suas amigas aplicando uma surra nas criaturas.  Talvez, o que eu não entenda era que essas milícias de mulheres, tal como as tias do Conto da Aia, era muito mais perigosas do que aparentavam.

Mesmo com todo o clima ruim que permeia a película, Papicha é um filme solar e carregado de sororidade.  Há a amizade fortíssima entre Nedjima e Wassila, uma relação que é abalada pela entrada dos homens na história. As moças conhecem dois rapazes ricos, ou muito bem de vida, em uma boate.  Um deles é visivelmente machista, deixou a universidade, acredita que todas as estudantes são promíscuas (*e não sei como ele não entendeu que as duas eram universitárias, pode ter sido problema com a legendagem*), acha que Nedjima é feminista demais por recusar-se a fazer o que é certo, se cobrir.  Esse sujeito se torna namorado de Wassila e abala a relação entre as amigas.  


Samira recebe todo o suporte das amigas.
Abala, mas não destrói, porque, pelo menos nesse filme, os laços entre as mulheres são mais fortes que os laços com os homens.  Mesmo Samira, a colega de quarto religiosa, prefere apoiar Nedjima do que agir contra ela.  Quando Samira é introduzida, parece que ela será a traidora, mas não é, no entanto, a história dela, que visa reforçar a esperança no final do filme, parece cheia de inconsistências.

Samira quer estudar, terminar o seu curso, porém, seu irmão, que é o responsável por ela, arruma-lhe um casamento.  Ela sabe que ao se casar terá que largar os estudos.  Lendo os relatos sobre a Argélia para escrever o texto, encontrei essa questão.  A educação superior é uma forma de escape para um casamento precoce e como muitos homens largam os estudos para trabalhar (*caso do namorado de Wassila*), ou vão embora do país (*volto a isso daqui a pouco*), as mulheres veem as faculdades como um espaço de sociabilidade feminina.  O casamento, quando aparece citado no filme, é descrito como uma forma de prisão e escravidão para as mulheres.


Nedjima se surpreende, mas
não se deixa abater, ou dominar.
O problema, e isso é uma forma de criticar a hipocrisia religiosa, é Samira que acaba tendo relações sexuais com um colega de faculdade que prometeu casar com ela.  Em tempo, além dos muros altos e fortificados para "proteger" a virtude das alunas, bromo era colocado no leite do refeitório.  O componente serve, entre outras coisas, para reduzir a libido das moças.  Nedjima e Wassila sempre recusam e Samira bebia o leite das duas.  Enfim, mas vai que Samira foi violentada e, não, simplesmente enganada?

O fato é que as moças todas apoiam Samira, Kahina, a aparentemente mais  velha e experiente do grupo, é chamada para arranjar um ginecologista.  Aqui, a meu ver, o filme realmente pecou.  Pensei que iria discutir aborto, ainda que Samira o recusasse.  Não há discussão, nem é mostrada a consulta.  Nedjima entra em contato com o noivo de Samira... Gente, nunca, nunquinha, o sujeito iria aceitar a noiva grávida.  Ela seria morta.  Como Nedjima podia não saber disso? Samira não é morta.  Sei qual a função da sobrevivência dela, sei que o objetivo é reforçar a sororidade e as cenas finais dela com Nedjima e a mãe da protagonista são lindas, mas, enfim, roubou-se parte do realismo do filme.


Elas amam seu país, mas ele é um lugar muito perigoso.
Falando de Kahina, a amiga cujo sonho era ir para o Canadá, procurando informações sobre o elenco do filme no Google comecei a ser direcionada para páginas com artigos científicos e afins. Motivo?  Zahra Manel Doumandji é, além de atriz, cientista.  Ela estuda nanopartículas em seu doutorado.  Ah, mas não é só isso, ela é quadrinista, também.  Uau!  E o mais legal foi que ao comentar isso no Twitter, a própria diretora do filme retuitou meu comentário e, depois, me deu uma informação que eu precisava para a resenha. ☺️

Falando do namorado de Nedjima,  que eu não consegui saber se era Mehdi (Yasin Houicha) ou Karim (Marwan Zeghbib), desculpem, ele parece moderno e compreensivo, com certeza, estava apaixonado por ela, mas conforme o filme progride, ele se revela.  Logo no início, os dois rapazes, que parecem modernos por fora, como muitos muçulmanos aparentam antes de casar (*basta assistir o canal da Danny Boggione*), se espantam quando Nedjima diz que quer ficar em seu país.  O rapaz que passa a namorar Nedjima é estudante de arquitetura, mas sua mãe acha melhor que ele vá para a França enquanto tem tempo.


A cena dos cartazes se repete ao longo do filme.
Sim, as mães tem muita influência sobre os filhos em países Árabe-Muçulmanos e ela, a mãe do rapaz, não estava errada, longe disso, a guerra civil argelina não era brincadeira, não.  Ele pede Nedjima em casamento e começa a projetar, sem esperar pelo "sim", toda a vida do casal.  Que garota não iria querer trocar a Argélia pela França?  Nedjima sobe logo o tom (*esta é uma característica da personagem*) e pergunta o que ela vai fazer na França.  "Vou ser sua empregada?"  Já escrevi, mas repito, casamento nunca é apresentado como algo positivo pelas mulheres nesse filme.

O rapaz fica indignado, afinal, ele estava oferecendo para a namorada uma nova vida, segura e até confortável, na Europa.  O fato, e isso encontrei em artigos que li para escrever a resenha, é que os homens partem, as mulheres ficam.  Elas ficam, porque suas famílias não permitem que tenham uma vida independente.  Elas ficam, porque amam seus parentes e não querem deixá-los para trás.  Elas ficam, porque se você vai pagar para alguém ir para a Europa, Canadá, ou Estados Unidos, que seja o filho homem.  Nedjima fica pro amor à mãe e à pátria, e porque é teimosa e quer vencer os islamistas pelo cansaço.


Sempre que pode, Nedjima está desenhando.
Há outros dois homens com falas e nomes no filme, é curioso, porque trata-se de um filme feminista sobre um país no qual mulheres e homens são bastante segregados, então, o filme é delas, não deles.  Mas já temos muitos filmes sobre homens, não é mesmo? O porteiro, Mokhtar (Samir El Hakim), que assedia Nedjima e quer mais que o suborno que ela lhe dá para que ela e Wassila possam entrar e sair da faculdade nos horários proibidos.  Ele tem várias cenas.  

O outro é o dono da loja de tecidos, ele é religioso, ele sempre admoesta Nedjima de que precisa aceitar as novas regras e, ao mesmo tempo, ele me parece lascivo, sempre olhando com desejo para a moça.  No início, a loja é alegre e cheia de tecidos de texturas e cores variadas.  Quando Nedjima visita a loja pela última vez, tudo foi reduzido à cores escuras e/ou neutras - preto, cinza, creme, verde escuro etc. - vários modelos de hijab estão no mostruário e o dono diz que são importados dos Emirados Árabes, são confortáveis e eliminam o suor.  Que bênção, não é?  

Na sua primeira aparição, Samira
 parece ser uma personagem antipática.
Ainda assim, no fundo da loja, escondidos, estão os tecidos que a moça deseja.  Os comerciantes também precisam se adequar aos novos tempos.  Havia atentados contra videolocadoras e outros espaços que pudessem ser vistos como imorais.  Melhor não arriscar, vai saber?  Mas algo que me incomodou, mas que combina com a personalidade de Nedjima é que ela contou para todo mundo do seu desfile, quando e onde seria.  Conheço gente muito possa loca, muito mesmo, mas é difícil imaginar que alguém pudesse se arriscar tanto em um ambiente tão violento.

Enfim, escrevi muito mesmo, vamos tentar fechar o texto.  O filme cumpre a Bechdel Rule, o filme transborda sororidade (*a cena da praia, a do jogo de futebol das meninas, o apoio à Samira, a preparação para o desfile etc.*) e feminismo.  O filme está em consonância com tudo o que li (*e linkei*) nessa resenha sobre a Argélia da época.  


Basta que você se cubra... sei... sei... 
A diretora do filme, que interagiu comigo no Twitter, é filha de pai argelino, nasceu na URSS, provavelmente, porque ele tinha se exilado, mas passou a adolescência na Argélia. Ela queria falar do horror, mas, também, da luta das mulheres e de esperança.  Agora, o caso de Samira me pareceu irreal demais e a diretora fa faculdade (Nadia Kaci) aceitar fazer o desfile foi, no mínimo, temerário, porque os altos muros da universidade foram feitos para prender as alunas, não, para protegê-las dos islamistas.

O que mais preciso dizer?  O filme mostra as condições difíceis do país à época.  Eletricidade, água, mesmo comida eram racionados.  Volta e meia, as alunas ficam no escuro.  Isso aumenta a tensão, porque a gente já imagina que vai sair algum barbudo alucinado de um canto qualquer para cometer uma violência.  Hoje, a Argélia vive ainda uma situação de certa instabilidade e as mulheres continuam lutando para não perder mais direitos, ou para ganhar alguma coisa.


Essa cena do jogo de futebol, lembrou-me de O Clone.  
Nas matérias recentes que achei, vemos mulheres se manifestando nas ruas.  Todas usam véu. Em uma delas, há uma entrevista com a primeira motorista de ônibus de Argel, a mulher diz que nunca teve problemas, porque, afinal, ela usa véu.  Nos cartazes que os islamistas colam no filme sempre se lia a ameaça travestida de conselho "Irmã, sua imagem é valiosa para nós, cuide dela ou nós cuidaremos".  Funcionou, ao que parece, com boa parte das mulheres.  Ainda assim, há casos de violência. 


Entrevista com as atrizes.  Tem legendas em francês.

Tropecei várias vezes na história de uma moça que estava modestamente vestida e praticando corrida.  Foi atacada por um homem que quase a matou e gritava que mulheres não deveriam sair de casa, nem praticar esportes.  A resposta da sociedade foi o apoio à moça e protestos, ms, também, o conselho de que mulheres não praticassem exercícios em público sozinhas.  Você não precisa colocar alguém por trás de muros para aprisionar essa pessoa.  E, bem, se você tiver estômago, clique aqui para ver a lista dos massacres de civis durante a guerra civil argelina.

Concluindo, Papicha tem problemas, mas tem muito mais qualidades que a balança lhe é totalmente favorável.  O filme competiu no último Festival de Cannes na mostra Un Certain Regard, quem levou o prêmio foi o filme brasileiro A Vida Invisível.  Espero que o nosso filme seja realmente muito bom, porque estou plenamente convencida das qualidades de Papicha.  O filme é uma declaração de amor à Argélia, é um grito pela liberdade das mulheres, é um testemunho de tempos sombrios.  
As quatro atrizes principais e a diretora.
O filme não é um documento histórico sobre a Guerra Civil, mas é um trabalho de memória sobre aquele momento sombrio sob uma perspectiva feminina e feminista, mas, também, de uma classe social, intelectuais de classe média com hábitos bem ocidentalizados.  E funciona, funciona muito bem.  Agora, não nego que, nos últimos tempos, ando tão temerosa que posso imaginar um futuro Brasil nas mãos de milícias  e traficantes, que queiram controlar nossos corpos e vidas.  Isso, aliás, já acontece em alguns lugares do Rio de Janeiro e, sim, os primeiros alvos são as mulheres, esses seres incômodos, que precisam ser disciplinados.

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