sábado, 9 de maio de 2020

Aleatoriedades Austenianas 2: Charlotte Lucas não tem nada de feminista.


Para quem não está familiarizado com Orgulho & Preconceito de Jane Austen, Charlotte Lucas é a melhor amiga da protagonista, Elizabeth Bennet.  Ela tem 27 anos, está ainda solteira, caso o pai morra, terá que depender da bondade de seus irmãos homens, realmente não sei se é um só, ou mais de um, e viverá sempre em condições muito precárias.  Pois bem, quando Mr. Collins, o primo que vai herdar as terras dos Bennet, porque é o parente masculino mais próximo, chega à Longbourn com o intuito de se casar com uma das primas e é esnobado por Elizabeth, Charlotte não pensa duas vezes e se casa com ele, mesmo sabendo que o sujeito é um sujeito insuportável.  Um detalhe importante, no livro ele é mais jovem.  Charlotte o estimula a se manter ocupado o máximo de tempo possível, ainda assim, no final do livro, ela está grávida, pois não consegue evitá-lo o tempo inteiro.  O marido precisa de sua compensação e, neste caso, é o sexo.

Estava eu vagando por um grupo gringo de Jane Austen do Facebook e me deparo com esse post abaixo.  Pode ser piada?  Pode, afinal, trollagem existe em todo lugar, mas algo me diz que foi à sério e, pior, muita gente concordando embaixo.  O autor é um homem, se quiser ver o rostinho dele, clique aqui.

Vamos para a tradução, porque é importante. 

"CINCO Razões: A Srª. Charlotte Collins é a Esposa Definitiva em O&P

1. Ela disse que sim na primeira vez em que foi pedida (apenas dizendo, Lizzy)
2. Ela apóia totalmente a carreira do marido (visitas e jardinagem)
3. Ela administra uma bela casa (Aprovado por Lady C - Padrão Ouro)
4. Ela apóia totalmente as opiniões do marido (com sua audição seletiva)
5. Ela fica com a melhor amiga por semanas a fio em sua casa (guru da amizade entre as mulheres)
Controla o marido completamente - embora pareça passiva.
Usa sua fertilidade para garantir o futuro de sua família e Longbourn.
Sempre pragmática, prática, calma, controlada e tranquila.
É uma das primeiras proto-feministas (ocultas) da literatura inglesa."

Eu não tenho como ler esse texto, supondo-se, claro, que ele tenha sido escrito à sério, mas, se não foi, ele foi tomado como tal por várias mulheres que o comentaram, que muita gente não tem noção alguma do que seja feminismo.  Charlotte é, sem dúvida, pragmática, tanto que, sabendo da desigualdade entre homens e mulheres em sua época, ela não hesitou em abrir mão de qualquer possibilidade de sonhar e aceitou um casamento com um homem que despreza, porque, sim, ela pode até se acostumar com Mr. Collins, mas ela não o vê sequer como um homem que mereça o seu respeito e estima, ainda que não tenha o seu amor.

A Charlotte da série de 1980.
A situação de Charlotte é de muitas mulheres ao longo de séculos e ainda hoje em alguns lugares do mundo: o casamento é seu destino, a maternidade (*E que seja um menino!*) deve ser a culminância de sua existência.  No caso da personagem, a necessidade se torna mais urgente em virtude de imperativos de gênero e classe.  Uma mulher da pequena nobreza rural (landed gentry) não pode trabalhar, mesmo que ela queira, mesmo que ela possa, o trabalho é algo que a desqualificaria aos olhos dos seus pares, a tornaria digna de pena.  Lembrem da pobre Jane Fairfax em Emma, tão pobre que precisa se tornar uma governanta, o que mortifica a todos ao seu redor.  (*Se você não leu o livro e só viu o último filme, isso não foi enfocado, sabe-se lá por qual motivo.*)

Só que Jane, com seus 18, 19 anos ainda há tempo, ela não se tornou uma wallflower, aquelas moças que não conseguiram arrumar marido no tempo certo e ficam encostadas nas paredes (wall) enfeitando o ambiente, mas sem serem  sequer tiradas para dançar, porque tinham passado da idade.  Charlotte tem VINTE SETE ANOS e é pobre e não tem um Capitão Wentworth disposto a esquecer seu sofrimento e pedi-la em casamento (*novamente, no caso dele, o que me lembra que preciso resenhar Persuasão*).  Charlotte está desesperada e, nos seus cálculos, Mr. Collins é a saída.

A Charlotte Lucas do filem de 2005 tem uma excelente
cena na qual choca sua melhor amiga dizendo o óbvio:
ela precisa se casar e Mr. Collins é a sua chance, talvez, a última.
Com certeza, a personagem é manipuladora, mas qual outra opção tinham as mulheres em tempos nos quais não tinham igualdade jurídica, eram castradas de buscar um emprego, mutias vezes, privadas de uma educação de qualidade?  Manipular os homens, muitas vezes, e talvez seja o caso de Charlotte, usando o sexo, sua fertilidade, suas boas relações familiares, era o que tinham em mãos.  Mr. Collins no livro tinha 25 anos, pouco sabemos de sua vida privada, mas é possível até supor que nunca tivesse conhecido (biblicamente) uma mulher.  Charlotte jogou com as cartas que tinha na manga e conseguiu o que, na visão de sua época, era o que toda mulher precisava, um marido, uma casa, segurança, enfim.  Se tivesse um filho homem, ou mais de um, tento melhor para assegurar a sua velhice.

Enfim, voltando, não sei se o texto do moço era uma piada, mas algumas pessoas tomaram como sério. Nada há de feminista na condição de Charlotte, ou de nenhuma mulher nos livros de Jane Austen.  Todas elas, as felizes e as infelizes, estão submetidas a uma condição de desigualdade e dependência em relação aos seus homens.  As viúvas ricas, Mrs. Jennings (*Razão & Sensibilidade*), Lady Catherine (*Orgulho & Preconceito*), Lady Denham (*Sanditon*), nem tanto, mas, um dia, elas foram jovens esposas, tiveram sogras e pagaram com seu corpo (*porque isso fazia parte do contrato*) por parte dos benefícios que recebiam de seus homens, mesmo quando traziam um imenso dote e tinham parentes poderosos.  Fora isso, já comentei em outros textos, que um marido poderia bater em sua esposa sem maiores consequências.  A lei estava do lado dele.  Era como andar na corda bamba, sem rede, em alguns casos.

Jane Fairfax tem tempo, Charlotte Lucas
não tem (*Emma, 1996*).
Mulheres e homens não tinham os mesmos direitos, não eram vistos da mesma forma pela sociedade e não tinham a mesma liberdade para fazerem suas escolhas.  E, em um ambiente protestante (*no tempo de Austen ainda não havia as ordens religiosas Anglicanas*), as mulheres não tinham nem o convento como opção.  Sim, à despeito de todo o material (*filmes, livros, novelas etc.*) deplorando a pobre freira, lamentando que jovens lindas pudessem sacrificar sua vida (*isto é, o corpo que poderia estar sendo usufruído por um homem*) em jejuns e orações e na clausura (*em muitos casos*), deplorando o (*suposto*) lesbianismo das religiosas (*cabeça de homem, se eles não estão participando, se não é para deleite deles, não presta*), muitas moças escolhiam livremente a vida religiosa. 

A freira à força existia, não estou negando isso, mas elas não eram todas as religiosas, nem sequer a maioria delas.  O que podemos discutir é como a escolha era feita, mas isso renderia outro texto.  Enfim, a escolha da vida religiosa garantia certa independência, possibilidade de estudar, o direito de conviver com outras mulheres em uma comunidade que cultivava a mesma fé, e, em alguns casos, a depender da ordem, lhes daria o direito de ter até uma profissão, como a de professora, ou enfermeira.  A depender da ordem, poderia ter mais liberdade no convento, ou mosteiro, do que teriam em suas casas, ou como solteirona sob a tutela de alguém.  Mas, sim, para alguns, não ter a companhia dos homens o tempo inteiro e abrir mão da maternidade é algo insuportável.

Em A Inquilina de Wildfell Hall, a mocinha come o
pão que o diabo amassou na mão desse homem.
Uma Emma, ao se casar com Mr. Knightley (*tenha ele o pacotinho que você escolher*), abre mão de sua liberdade e de sua fortuna, tudo será administrado por seu marido, seu guardião.  Por isso mesmo, é bom poder controlá-lo/manipulá-lo, é importante, caso você possa, escolher bem, e por isso mesmo, voltemos lá para Jane Fairfax, todas as pessoas de bom senso tem pena dela, afinal, ela se casou com um homem jovem e rico, mas todos sabem que ele é um traste.  Se ele quiser, a vida dela será um inferno, mas aí, não é mais Jane Austen, sugiro uma olhada em A Inquilina de Wildfell Hall, de Anne Brontë.

Feminismo nada tem a ver com isso, os feminismos existem exatamente para que as mulheres possam escolher, se casam, ou não, com quem se casar, se terão, ou não, filhos.  Os feminismos lutaram, e lutam ainda, para que as possam ter acesso a uma educação de qualidade, possam escolher seu trabalho, e não se sintam obrigadas a pagar com seu corpo pela gentileza, bondade, ou mesmo um casamento de papel passado dado por um homem.  Os feminismos também lutam para que as mulheres possam expressar a sua sexualidade sem serem julgadas, afinal, você pode ter desejos não por homens, mas por mulheres, ou ambos.  E, sim, vamos continuar consumindo Jane Austen, porque ela é uma escritora MARAVILHOSA e, sim, eu realmente vejo nela uma crítica a esses costumes e, não, uma exaltação dos mesmos.  E, bem, a autora sofreu na carne e assinou sua primeira obra como "a Lady" não foi à toa.  Bom dia!  

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2 pessoas comentaram:

Na sua visão a Elizabeth poderia ser considerada feminista? Pq assim por ela não se sentir obrigada a casar e só se casar como quem ele quiser, eu iria afirmar que sim, mas gostaria de saber sua opinião

Nunca tinha pensado que virar freira poderia dar mais liberdade a algumas mulheres que ser solteira na casa da família. Faz todo o sentido!

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