domingo, 31 de maio de 2026

Comentando Três Graças: Balanço Final da Novela

Faz duas semanas que terminou a novela Três Graças.  Ninguém deve estar mais interessado em um texto sobre ela, mas eu vou escrever mesmo assim, afinal, não coloquei em dia trinta capítulos da novela em dia causa das férias para não deixar registro dela em um texto no Shouo Café.  Não tive tempo para fazer antes, mas não quero que aconteça como com o balanço final de Garota do Momento que ficou no rascunho e nunca foi publicado.  Três Graças esteve no ar entre 20 de outubro de 2025 e 15 de maio de 2026, em 179 capítulos.  Eu cheguei a comentar a novela no Shoujocast retrospectiva do ano passado, porque estava com uma opinião bem boa sobre a trama.  Muito bem, via de regra, eu só costumo assistir a novelas de época.  Abri uma exceção para Vai na Fé, porque a ideia de uma mocinha evangélica me obrigou a parar para assistir e analisar o que estava ali.  Antes disso, quando foi minha última novela contemporânea vista de ponta a ponta?  Se não estou enganada, foi Senhora do Destino (2004-2005), ou seja, material do próprio Aguinaldo Silva.  E continuo gostando mais de Senhora do Destino do que de Três Graças, que foi, sim, uma excelente novela.

Três Graças tem como núcleo central a vida da protagonista Gerluce (Sophie Charlotte), sua mãe Lígia (Dira Paes), e sua filha, Joélly (Alana Cabral).  Três mulheres de gerações diferentes, mas com dois traços comuns: a gravidez na adolescência e a maternidade solo.  O autor principal, Aguinaldo Silva, baseou-se em uma situação real que presenciou em 2007, ao ver uma fila de meninas grávidas aguardando atendimento em uma maternidade, sem nenhum homem presente. Um amigo que o acompanhava na ocasião chamou a atenção para a ausência de pais, o que o inspirou a retratar três gerações de mães solo e gravidez na adolescência.  

Elas moram em uma grande favela em São Paulo, a Chacrinha.  A ideia inicial era que a trama se passasse no Rio de Janeiro, mas a emissora exigiu a transferência para São Paulo.  Aguinaldo Silva, que sempre gosta de se autorreferenciar, queria colocar que a novela fosse na Portelinha, favela fictícia de sua novela Duas Caras, que eu odeio por uma série de motivos como a romantização dos milicianos, uma das grandes pragas do meu estado de origem.  O outro local da trama é o bairro da Aclimação, onde Gerluce trabalha como cuidadora de Dona Josefa (Arlete Salles), uma idosa que tem problemas de saúde.  Na mesma casa moram Arminda (Grazi Massafera), a vilã cômica da história, seu filho adolescente Raul (Paulo Mendes), que por acaso é o pai do filho de Joélly, e está a estátua que dá nome à novela, as Três Graças do escultor italiano fictício Giovanni Aragna.

As Três Graças são recorrentes na pintura e na escultura ocidental.  Chamadas também de Cárites, as Três Graças são três deusas irmãs da mitologia grega: Aglaia (elegância), Eufrósine (alegria) e Tália (juventude). Atendentes da deusa Afrodite, elas representam a beleza, o charme e a criatividade humana.  Dentro da novela, elas exercem fascínio e atração sobre quem se aproxima delas, quase capazes de hipnotizar quem delas se aproxima.  As Três Graças são também usadas por Arminda e o vilão de verdade da novela, Santiago Ferette (Murilo Benício), para esconder dinheiro fruto de um crime muito cruel.  Ferette comanda uma fundação, que foi criada por ele e o "falecido" marido de Arminda, Rogério (Eduardo Moscovis), responsável por distribuir remédios gratuitamente em comunidades pobres.  Os remédios, no entanto, são falsificados, e várias pessoas já morreram por serem tratadas com medicamentos ineficazes.  Gerluce descobre a estátua.

O lugar onde os remédios eram falsificados chama-se fábrica de farinha e os autores se inspiraram diretamente em caso real e com grande repercussão no Brasil.  Cerca de 600 mil comprimidos sem princípio ativo do contraceptivo Microvlar foram distribuídos ao mercado pelo laboratório Schering do Brasil. O episódio resultou em centenas de gestações indesejadas e motivou diretamente a criação da Anvisa em 1999 para combater medicamentos falsificados e piratas.  No ano de 1998, foi descoberto que várias mulheres engravidaram mesmo usando corretamente as suas pílulas anticoncepcionais.  As pílulas era de farinha e as crianças nascidas por causa dessa fraude foram chamadas de "filhos da farinha".  A empresa, o laboratório Schering, foi condenada, mas a gente sabe que a pena nunca é grande o suficiente para punir capitalistas e/ou políticos que prejudicam o povo.  E, claro, imaginem a via-crúcis dessas mulheres e famílias.  Só imaginem.

Enfim, a mãe de Gerluce tem hipertensão pulmonar. Ela era a antiga cuidadora de Dona Josefa e tem que se aposentar precocemente por causa da doença.  Nas primeiras semanas da novela, Dira Paes quase que só fazia tossir.  Enquanto a filha estava fora trabalhando e a neta se metendo em confusão, ela ficava na companhia de Kellen (Luiza Rosa), a filha do pastor evangélico da comunidade.   Lígia está condenada à morte por usar remédios falsificados.  Outras pessoas na trama morrem por causa dessa fraude e seus parentes, Misael (Belo) e Júnior (Guthierry Sotero), terminam se juntando à Gerluce em um plano ousado: roubar as Três Graças.   Além de parentes de vítimas de Ferette e Arminda, o grupo também é formado por Viviane (Gabriela Loran), farmacêutica e melhor amiga de Gerluce, e Joaquim (Marcos Palmeira), o pai biológico da mocinha, que abandonou sua mãe quando descobriu que ela estava grávida. E o rejuvenescimento por IA dos atores foi péssimo.  Apareceu pouco, mas foi ruim.

Com o dinheiro da exproprição, termo que a mocinha da trama irá usar ao longo de toda a novela, eles iriam comprar remédios, só que os ladrões descobrem que há dinheiro escondido na estátua e podem começar a ajudar os moradores da Chacrinha sem terem que vender as Três Graças.  Uma das mudanças feitas na novela, muito por pressão da audiência e da falta de paciência da emissora, foi adiantar o roubo.  Uma das virtudes de Três Graças foi uma construção cuidadosa das tramas, das relações entre as personagens, de forma que todos os núcleos se interligassem de alguma forma.  As pessoas, no entanto, estão acostumadas com novelas em ritmo de TikTok, diretas, rápidas e superficiais.  E isso vem de longe; já escrevi sobre isso em meus textos sobre a novela Tempo de Amar.  Curiosamente, outra novela que eu maratonei para colocar em dia, só que capítulos de novelas das seis são muito mais curtos do que os de novelas das 9.

Voltando para a fatídica estátua, o fascínio exagerado exercido por ela, algo que se repetiu ao longo da trama insistentemente, foi apontado como defeito por alguns, afinal, vilões e mocinhos pareciam em algum momento cegos pela beleza das Três Graças.  De minha parte, conhecendo o apreço que Aguinaldo Silva tem pelo realismo fantástico, identifiquei esse aspecto como um rasgo de fantasia em uma novela que se propunha a ser realista durante boa parte do tempo.  Como se uma pequena brincadeira que combinou muito bem com a trama e que causou a ruína de pelo menos um casamento da novela, o de Kasper (Miguel Falabella) e João Rubens (Samuel de Assis), que eram donos de uma galeria de arte.  

Se Gerluce atravessou na frente do vilão por causa das Três Graças e acabou sendo uma das responsáveis pela derrocada de Ferette, o drama de sua filha Joélly estava entrelaçado com o de Raulum viciado em drogas que devia muito ao dono da Chacrinha, o bandido Bagdá (Xamã).  Fugindo do bandido e seus capangas, ele conheceu Joélly, que o escondeu em sua casa e contou com a ajuda da sempre disposta Kellen em mais de uma ocasião.  Mais tarde, quando o rapaz iria ser morto por Bagdá, a menina acabou aceitando vender a criança dentro de sua barriga para Samira (Fernanda Vasconcellos) para ter dinheiro suficiente para salvar a vida do jovem.  Ambos se arrependeram, mas isso não foi o bastante e a criança acabou sendo roubada da menina-mãe ao nascer.  A busca pela menina, apelidada pelo público de quarta graça, mobilizou a fase final da novela.

Joélly e Raul, ambos adolescentes, fizeram muita bobagem na trama, mas acabaram sofrendo muito até que tiveram algum sossego.  Ele, em particular, foi abominável em alguns momentos, e o talento do ator, que conhecia lá de Os Outros, foi fundamental para torná-lo ainda mais odioso. Observando os comentários do Twitter, o lugar ideal para ver gente disfuncional se expressando livremente, o que mais vi foi gente exigindo que os dois, especialmente ele, sofressem e tivessem que pagar caro pela venda da criança.  Raul era encarado como adulto pela audiência e acredito que muitos esqueceram que ter 18 anos ainda é ser adolescente. O fato de Joélly ter engravidado aos 15 anos não faz dele um estuprador, como vi gente apontando, menos ainda pedófilo.  Não sei se esse papo louco é coisa de moralista-puritano ou de justiceiro de internet que, por estar atrás de um teclado, não tem limites, o fato é que ele é cada vez mais irritante e alguns autores e autoras terminam se deixando castrar por esse pessoal.

Enfim, eu, que tenho uma filha cheia de certezas de 12 anos e convivo com jovens de 15-19 anos (*a média de idade da maioria dos meus alunos e alunas*), sei o quanto eles e elas são imaturos e isso nada tem a ver com complacência, mas sim com a percepção de que a inexperiência e o excesso de confiança típicos da idade podem nos levar a cometer um monte de bobagens.  O que pode, claro, ser muito agravado pela falta de supervisão.  Fora isso, no caso de Raul, ele ainda teve a perda precoce do pai e a falta de amor da mãe.  Tudo isso fez dele um fraco.  Ele terá seu arco de redenção e se tornará alguém melhor, depois de vários atos de covardia.  A virada definitiva de chave virá com uma conversa muito séria com a avó e o rapaz aparece com uma nova skin, por assim dizer, parecendo muito mais jovem, quase como se tivessem trocado o ator.  Arlete Sales, aliás, foi uma das melhores coisas dessa novela.  Infelizmente, a transformação total de Raul não aconteceu, porque o sujeito não voltou a estudar nem se tocou no assunto, ainda mais depois dele conseguir um emprego na empresa da família.  Crítica ao nepotismo não existiu em Três Graças.

Falando em mãe de Raul, Grazi Massafera estava excelente e eu a considero uma atriz ótima atriz, mas sua vilã nunca foi grande de verdade como outras que o próprio Aguinaldo escreveu.  Ela não tinha as nuances de Nazaré, que era capaz das piores maldades; era egocêntrica, mas também tinha genuíno sentimento pela filha que havia roubado.  Arminda, por outro lado, parecia uma caricatura o tempo inteiro, sempre exagerada e carregada de obviedade, meio que montada para ser uma metralhadora de memes. Sua maldade, seu excesso de cobiça, sua luxúria, sempre transbordando em atos e palavras. A verdadeira vilã da trama, o par perfeito de Ferette, era Samira, que foi se revelando aos poucos, mostrando suas várias camadas e dando para Fernanda Vasconcellos, que é uma excelente atriz, a possibilidade de brilhar.  Samira, com seus valores distorcidos, tinha sentimentos pelo filho que vendeu ao nascer e sua cena final da novela ressaltou bem o vazio que ela mesma criou para si.  Já Arminda nunca teve nenhum sentimento pelo filho que comprou.  Se não deram mais equilíbrio para Arminda em outras coisas, poderiam pelo menos ter-lhe dado algum aprofundamento aqui.

Falando em vilãs, não é possível esquecer de Lucélia (Daphne Bozaski), sobrinha de Kasper, que foi meio que desperdiçada no final.  Ela vem do Rio depois da morte dos pais e cobiça a fortuna do tio.  Ela é mesquinha, homofóbica e alpinista social.  Um prato cheio para uma jovem atriz muito competente.   Lucélia tenta a todo custo tirar  Maggye (Mell Muzzillo), filha adotiva e herdeira dos tios, do seu caminho com maldades que pareciam infantis.  Pareciam, porque terminamos por descobrir que Lucélia matou os próprios pais.  E Lucélia terminou se tornando informante de Ferette.  Ela era perigosa.

Enfim, a morte de Lucélia, toda a sequência ridícula de Arminda dirigindo louca pela Chacrinha e o dinheiro voando, não foi ruim, mas iria ser muito mais divertido vê-la presa e vendendo sua história na cadeia para uma série tipo Tremembé.  O problema com Lucélia foi na reta final.  Não sei se se esgotaram as ideias, mas o encaminhamento de uma personagem tão boa, que começou com pequenas maldades e foi escalando para a tomada de poder na favela, foi sem pé nem cabeça.  Mesmo desligando metade do cérebro, a situação era insustentável, ainda que todas as cenas de Bozaski fossem excelentes isoladamente, ela substituir Bagdá (*de quem foi amante por algum tempo*) e impor obediência aos seus subordinados diretos, Valdílson (Vinicius Teixeira)  e Alemão (Lucas Righi), foi um dos pontos baixos da novela.  Você pode confiar no talento da atriz e do elenco no geral, mas suspensão de descrença tem limites.  E isso deveria ter valido para Arminda em alguns momentos da trama, mas Aguinaldo Silva é muito autoindulgente para repensar o rumo de algumas das suas subtramas, ainda mais com a novela fazendo sucesso.

O texto está um tanto embaralhado, eu sei, já adiantei várias coisas, mas não vai ter jeito, será uma resenha bem desconjuntada mesmo.  Enfim, um dos temas centrais da novela foi o abandono e como uma gravidez precoce rouba das mulheres oportunidades de estudo e progressão profissional.  Isso foi razoavelmente bem trabalhado e imagino que gerou conexão entre parte da audiência e Gerluce e sua família.  Joaquim, em especial, era horroroso com a ex-namorada e a filha.  Ele nunca assumiu nenhum papel masculino tradicional (*marido, pai, avô*) e, ao mesmo tempo, era representativo do comportamento vil de milhares de homens que abandonam as parceiras e filhos.  Só que a trama desde o início o apresenta quase que como um misantropo, o que serve para justificar comportamentos ruins, mesmo que não o redima em nada.  E se Gerluce nunca permitisse que ele entrasse em sua vida, ela não estaria errada. O problema é que Joaquim meio que se torna um garanhão quando está com Arminda, mas volto a isso depois.

Ao mesmo tempo, Três Graças exaltou a força das mães solo e a solidariedade entre mulheres da mesma família e como um todo. Elas eram as três "Marias da Graça", algo que estava nos seus nomes.  Elas se fortaleciam, se amavam, se ajudavam.  Lígia construiu sua casa com seu esforço para abrigar a filha e a neta.  Havia o lamento por não quebrarem o ciclo de gravidezes juvenis, mas não havia a rejeição das crianças, das meninas; elas eram acolhidas e havia a torcida para que a próxima geração pudesse acabar com o estigma, ou superá-lo, como foi a mensagem final da novela. Aliás, houve um erro na questão das idades aqui: foi anunciado que todas tinham engravidado aos 15 anos, mas, em dado capítulo, Lígia diz que engravidou aos 18, ou as contas não fecharam.  Foi um dos deslizes da trama.  

Enfim, é importante destacar também, que diferentemente de outras tramas, o grande obstáculo, que nunca foi realmente grande, para o amor de Gerluce e do policial Paulinho (Romulo Estrela) não foi outra mulher, uma rival, mas as mentiras que a mocinha teve que contar, especialmente depois do roubo das Três Graças.  E vejam que eu cheguei até aqui sem precisar enfatizar a vida amorosa da mocinha, porque sua vida ia muito além do "com  quem ela vai ficar" ou do "quando será que fulana vai casar com ciclano".  Gerluce era muito maior do que isso e não estava subordinada ao dispositivo amoroso, ainda que vá amar intensamente Paulinho.

E foi um casal bonito de se ver, seja pela competência artística, seja pela beleza mesmo.  Sophie Charlotte mostrando que é uma das grandes atrizes de sua geração, muito talentosa e capaz de expressar todos os sentimentos necessários em cenas que exigiam muito dela.  Fora que ela sabe cantar, também!  Será que ela dança?  E Gerluce não era burra, mesmo tendo feito algumas escolhas ruins, elas atenderam ao que o roteiro pedia sem rebaixarem a personagem, por isso, ela foi uma mocinha gostável do início ao fim da novela.  

Já Romulo Estrela, e lembro dele desde novinho em Essas Mulheres na Record, estava brilhando como policial competente e homem sensível, sem precisar estar com aquela cara de triste que passou a ser constante em vários papéis desde o filme Entre Irmãs até aquela novela horrorosa chamada Deus Salve o Rei.  Até brincava que ele era o nosso Kit Harington.  Bom ver Romulo Estrela brilhando e sorrindo, porque em produções globais só me lembro dele sorumbático.

Já que falei em Romulo Estrela, destaco que o que um dos melhores núcleos da novela era a delegacia.  A dinâmica entre Paulinho Reitz, o Delegado Jairo (André Mattos) e Eduarda Fragoso/Juquinha (Gabriela Medvedovsky) entregou muito entretenimento.  Eles eram profissionais e amigos ao mesmo tempo.  O delegado, mulherengo e sentimental, afirmava que amava demais porque era como um polvo, que tem três corações.  O delegado também era um mentor de Paulinho após o assassinato de seu pai, que descobrimos, ao longo da trama, ter sido obra de Ferette. A temporalidade do assassinato, no entanto, parecia estranha.  Cinco anos é muito pouco, porque Paulinho não era tão jovem assim e Jairo era meio que seu pai substituto.  Fora isso, ainda havia a perda amorosa do mocinho nesse período e o trauma que ele precisou superar.  Enfim, a novela não foi perfeita, mas os defeitos não  conseguem torná-la menos interessante.

Falando de Ferette, uma das maiores reclamações do início da trama era o sotaque paulistano forçado de Murilo Benício e de outros atores como Pedro Novaes, que fazia Leonardo, filho do vilão.  Com  o passar do tempo, o pessoal acostumou e parou de reclamar.  No geral, Murilo Benício compôs muito bem o vilão típico: membro das classes dominantes, corrupto e que se acreditava acima de tudo e de todos.  Ferette ainda era excessivamente cioso de sua família, que deveria ser o mais tradicional possível.  Ele valorizava a esposa, Zenilda (Andréia Horta), por ela ter aceitado ser a dona de casa ideal das elites brasileiras, mas não deixava de traí-la, algo normalíssimo dentro da tradicional família brasileira.  Só que a separação, que vem por obra de Arminda, terminou por deixá-lo vulnerável, afinal, ela lhe dava estabilidade, já a amante era uma força caótica.

Já com os filhos, ele era severo e complacente ao mesmo tempo.  Machista, ele queria impor a Leonardo o peso da sucessão, ainda que o considerasse sentimental demais, e sempre enfatizava a necessidade de procriar.  A ideia da linhagem que se faz pela linha masculina.  Não é à toa que o rapaz tivesse tanto medo de desagradar o pai, de decepcioná-lo.  Daí, parte das suas dificuldades com Viviane. Sim, sim, Leonardo era adulto, mas era tutelado pelo pai, submisso a ele, não era autônomo de verdade.  Era como a mãe, por assim dizer. Já a filha, que poderia ter as virtudes que ele buscava em um sucessor, estava fora de cogitação por ser mulher.  O machismo de Ferette era crível, mas caricato em alguns momentos, e sua homotransfobia foi potencializada ao longo da história para servir aos interesses da trama, afinal, ambos os  filhos  estavam fora da heteronormatividade compulsória.  

Ferette foi um vilão maiúsculo, mas conforme a novela se encaminhava para o fim, Murilo Benício parecia estar sempre prestes a ter uma crise de riso.  Eu acredito que a maioria dos atores se divertiu fazendo Três Graças, mas por contracenar com Grazi Massafera em muitas cenas, Ferette acabou se tornando um vilão cômico também, mesmo que convincente em suas ações.  Até esperava que ele desenvolvesse algum sentimento pela neta filha de Raul ou que tentasse cooptar o rapaz de alguma forma, mas não foi a opção do roteiro.  Ao invés de resvalar para o humor, poderiam ter promovido um confronto maior com Rogério e feito Ferette se comportar ainda pior, talvez quase como um feminicida, por causa de Zenilda.  Oportunidades perdidas.

Falei em heteronormatividade e, bem, acredito que Três Graças foi a melhor novela de Aguinaldo Silva quando o assunto é a questão da diversidade.  E o público recebeu muito bem as personagens que não eram heterossexuais.  Viviane, em especial, tinha profissão e vida para além do fato de ser uma mulher trans e era a melhor amiga da mocinha sem ficar lhe servindo somente de orelha.  Ela era a Viviane, uma personagem completa; sua identidade de gênero era uma das partes do seu todo e não o definidor do seu lugar dentro da novela.  Nesse sentido, os autores acertaram imensamente.  E, assim como eruce, Viviane não se curvava, era corajosa e sensata.

Quando a questão estava ligada aos seus afetos, nesse caso, a relação com Leonardo, o texto e a atuação da atriz lhe conferiram muita dignidade.  A transfobia do rapaz os separou e ele precisou repensar seus valores para merecê-la.  E, sim, a questão dos crimes de Leonardo, que ele assumiu mais por amor a Viviane do que por convicção, precisava ser melhor desenvolvida.  Ele fez uma delação premiada?  Ele recebeu uma pena pequena o bastante para ficar em regime aberto?  Houve grave negligência aqui, ainda que o fato de Zenida, que voltara a advogar, não ter passado a ão na cabeça do filho seja um mérito.  De qualquer forma, Viviane e Leonardo eram um dos casais mais importantes e amados da novela; separá-los nunca deve ter estado nos planos dos autores.  E ambos são muito talentosos.  Pedro Novaes aproveitou bem a chance recebida e conseguiu crescer mais um pouquinho como ator.

O outro casal de grande destaque, porque ganhou inclusive uma novelinha vertical spin-off, foi Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha.  Eu nunca tinha visto um casal não-hetero ter tanta visibilidade em uma novela e tanta liberdade para expressar sua sexualidade.  E nem vou dizer que o fato de serem duas atrizes jovens e bonitas tenha lhes dado espaço todo; deve ter pesado, como no caso de Senhora do Destino, mas não foi o definidor da coisa.  A Globo percebeu o potencial das duas quando fãs de fora do Brasil se encantaram pelas duas por causa de cortes que estavam circulando.   A própria emissora passou a lançar cortes com possibilidade de legendas em outras línguas.  Mas confesso que nunca consegui gostar de Lorena.  Essa história de filha adulta, que não faz nada, vive às custas do pai e o critica o tempo todo, não me desce.  Se Lorena, além de vegana, feminista, ativista social, tivesse algum engajamento com o mundo real, mesmo que fosse trabalho em alguma ONG, OK, mas do jeito que a personagem era, uma faz nada reclamona, ela me irritava muito.  

Desculpem, eu nasci em uma família pobre e na minha cultura familiar, gente como Lorena seria inaceitável e, como feminista, que passou pela universidade e foi até o doutorado, essa acomodação da personagem, a dependência do pai, sem que ela tivesse um diagnóstico de depressão ou algo do gênero, me parecia puro elitismo mesmo.  Em dado momento, é dito que ela não terminou a faculdade, poderiam ter desenvolvido um drama que pudesse meio que justificar a acomodação de Lorena.  De qualquer forma, a dinâmica dela com Juquinha era boa e a química entre as duas era inegável.  Agora, ainda que eu tenha entendido a função dos pais de Juquinha na trama, eles eram excessivamente melosos e a ênfase no fato de terem subido na vida com o próprio esforço, para fazer contraste com Ferette, se tornou bem enjoativa.  Eles poderiam ser acolhedores da orientação sexual da filha, de suas escolhas profissionais (*porque escolher ser policial civil não é bem algo que uma família de classe alta iria achar legal*), sem parecerem exagerados, mas foi o que foi.  Eu queria fugir  das cenas deles, mesmo gostando de Regiane Alves.  Tudo parecia forçado demais.

Quando a novela termina, Juquinha e Lorena estão grávidas e esta última se tornou barriga solidária de Viviane e Leonardo.  O fandom de Loquinha (Lorena + Juquinha) ficou indignado, como se elas estivessem sendo rebaixadas de alguma forma, usadas como escada.  Aliás, como reclamavam no Twitter os fãs das duas quando tínhamos mais cenas de Viviane e Leonardo, como se Lorena e Juquinha não fossem um imenso sucesso a ponto de receberem spin-off.  De qualquer forma, alguém se tornar barriga solidária de um irmão que se ama muito é algo mais do que aceitável, ou será que não é?  O ódio que parte do fandom das duas por Viviane e Leonardo me parecia além do necessário.

Ainda na questão diversidade, Kasper e João Rubens estavam estabelecidos como casal desde o início da trama.   Mas aqui havia um medo real de que o público rejeitasse os dois, afinal, eles eram homens e não eram jovens (*Samuel de Assis estava interpretando alguém mais velho do que ele é na realidade*).  A troca de afetos que Lorena e Juquinha, ou mesmo Leo e Viviane exibiam na trama, a eles não foi permitida.  No início, eles mal se tocavam, depois, quando houve segurança de que o público não iria rechaçá-los, eles trocaram alguns beijos castos e insinuaram algo de sua intimidade.  Era um casal maduro, verdade, mas outros casais mais velhos da trama tinham cenas muito mais abertas nesse sentido.  E, no final da trama, depois do rompimento dos dois, que deu para Samuel de Assis as suas melhores cenas na novela.

Veio de João Rubens a cena que melhor colocou a questão racial e de classe na trama e eu diria que nas novelas há muito tempo.  Foi uma cena densa em que a personagem disse que não perdoaria o parceiro de 25 anos de casamento, porque Kasper, com as suas mentiras e com a obsessão pelas Três Graças, tinha feito com que ele fosse levado para a cadeia, mesmo inocente.  João Rubens disse algo como  "Minha mãe me fez jurar que isso nunca aconteceria.".  A gente infere pela trama que Kasper nasceu nas classes altas, mas João Rubens talvez tenha vindo das camadas médias, tenha estudado muito, contado pelo menos com uma mãe trabalhadora que lhe serviu de alicerce e, como homem negro, sempre soube que precisava ser melhor do que muita gente para ter seu valor reconhecido.  De seu, ele só tinha seu nome e Kasper o traiu e fez com que fosse humilhado.  E, depois disso, João Rubens sai de casa e meio que some da trama.  Eles eram bem coadjuvantes; não reclamo de falta de espaço ou propósito dos dois ao longo da novela, nem todo mundo é protagonista.  Só que Kasper cresceu muito a partir de um determinado momento da trama, inclusive por conta da reação com as Três Graças e Bagdá, e João Rubens foi meio que deixado de lado.  E eu torci para os dois voltarem, mas não foi o que aconteceu.

Já que falei de Bagdá, ele  me pareceu ser sempre um bandido um tanto sentimental e infantil demais a ponto de Xamã me parecer inadequado no papel.  Para fazer certas coisas, é preciso ter a desculpa da juventude ou você vai parecer um bobalhão.  Enfim, Bagdá fez algumas crueldades e houve várias sequências em que a violência transbordou, basta lembrar de quando Paulinho foi capturado, mas Bagdá nunca foi tão assustador quanto poderia ser.  Não foi usada com ele a complacência que Aguinaldo Silva tinha com os milicianos de Duas Caras, afinal, Bagdá pagou por seus crimes, e ele sempre foi visto como criminoso, sem nenhum atenuante nesse aspecto.  Quem o conhecia desde menino, caso de Lígia, lembrava que ele vivia abandonado e foi acolhido por Jorginho Ninja (Juliano Cazarré), que acabou por levá-lo para o crime.  Através da arte, Bagdá se redimiu, mas o olhar sobre ele e seu bando sempre foi carinhoso, por assim dizer, fora que o trabalho do figurino atuou muito bem para destacá-los ainda mais.  Agora que falei de Bagdá, é preciso falar de Jorginho Ninja e dos evangélicos da trama.

Jorginho Ninja era o bandido arrependido, mais do que isso, convertido, e que, doente, queria reatar a relação com a filha que ele queria que fosse abortada.  No planejamento inicial, a ideia era que a criança havia sido gerada em um estupro, e muita gente começou a surtar acreditando que ele e Gerluce poderiam voltar.  A parte do estupro era o plano inicial mesmo, mas o resto nunca foi.  Para acalmar os ânimos, o que se caracterizou foi que Gerluce se apaixonara pelo chefão do crime da Chacrinha, não aceitara os conselhos da mãe e terminara em cárcere privado e sendo pressionada a abortar, como ele fizera com outras namoradas.  

Agora, se ela estava presa, não estava sendo obrigada a manter relações sexuais com ele, isto é, sendo estuprada?  Enfim, Gerluce tinha somente 15 anos; Jorginho era um homem adulto.  Geruce consegue fugir com Lígia e, com a ajuda de Viviane, vai se esconder no Paraná.  Jorginho só conhece a filha depois de sair da prisão.  Como muita gente não suporta evangélicos, não acredita em arrependimento, tem baixa tolerância à ideia de perdão e detesta o Cazarré, a personagem não era querida, mas o autor não recuou, no que fez muito bem.  

Em tempos de intolerância, o perdão é importante e defender que um ex-presidiário tem o direito de se reinserir na sociedade, de ser ressocializado é fundamental em uma sociedade civilizada e racional.  Havia o viés religioso, mas não raro essa ressocialização depende da religião, que, neste caso, volta ao seu sentido original de religar, não somente com Deus, mas com o mundo.  E o guia nesse processo era o pastor Albérico (Enrique Díaz), único líder religioso a aparecer na novela, o que, para mim, é um problema.  Acreditei que o pastor em algum momento teria seu passado criminoso revelado, mas ele só tinha sido alcoólatra mesmo.  A gente olha para o Enrique Diaz e sempre espera que ele tenha algum esqueleto no armário.

Para mim, Aguinaldo Silva é quem melhor representa evangélicos em telenovelas.  Ele estudou em colégio batista, ele conheceu o meio evangélico raiz (*não aquela coisa flexível de Vai na Fé*), e ele desliza pouco em caricaturas.  A única coisa que eu acho que prestava em Duas Catas era isso, a representação dos evangélicos.  Em Três Graças não foi diferente.  O pastor e Kellen eram bem convincentes.  Agora, é pouco crível só ter uma igreja evangélica na favela inteira e não se falar em padre ou mesmo mostrar a Igreja Católica, mesmo que a família da mocinha fosse muito católica.  A questão da incompatibilidade religiosa foi levantada por Lígia quando ela estava namorando o pastor, mas nada além disso.  E eu teria metido mesmo umas piadas com o pastor dizendo que os jovens estavam saindo da congregação mais tradicional para frequentarem igreja de parede preta, mas para entender teria que ser do meio mesmo... 

Enfim, eu acredito em redenção, em arrependimento e perdão, além da necessidade de pagar pelos seus crimes.  Tanto Bagdá quanto Jorginho Ninja, que não precisava virar herói e ser louvado por capítulos a fio, pagaram suas contas com a sociedade.  O perdão e o acolhimento da filha faziam parte desse processo de cura de Jorginho, algo que nossa sociedade precisa voltar a valorizar.  E isso não tem nada a ver com apagar o passado, com não punição ou exigir que uma mulher volte para um macho violento e que transformou sua vida em um inferno.  Percebem meu ponto?  Voltando para Leonardo, ele precisava de alguma punição e tudo pareceu ter sido esquecido, mas ele nem de longe foi um homem horrível com Viviane; que fique claro, ele só era imaturo e estava enfrentando algo inesperado: o fato de a namorada ser trans.  Ele precisava mudar nesse aspecto e mudou.

Agora, apesar de ter gostado de ver Joaquim inserido na família (*com Gerluce ressignificando seus sentimentos pelo pai biológico*) e tentando ser bisavô e avô, já que pai não quis ser, foi com ele que o autor quase deslizou.  Depois de separar sem muita razão o pastor de Lígia, afinal, ele era apaixonado por ela desde o início da trama, era evidente que o objetivo era juntá-la com Joaquim.  O público reagiu muito mal e para mim ficou evidente que os runos foram mudados.  Desde que aceitou se unir ao plano de Gerluce, Joaquim vinha mudando, mas as melhorias não foram suficientes para justificar que ele e Lígia ficassem juntos.  E havia o problema dele continuar envolvido com Arminda.  Em outros tempos, até o início dos anos 2000, talvez, esse tipo de homem que fica dividido entre duas ou mais mulheres, seria considerado viril. O cara traía a mocinha com toda e qualquer mulher até o fim da novela e, no último momento, acabava com a protagonista, ainda que sugerindo que ele não estava morto e continuaria olhando para as outras. Hoje, o público de novela não parece mais aceitar esse tipo de personagem pacificamente.

Ainda assim, o que reforça minha teoria de que foi uma mudança de rumo, o rompimento com Lígia foi meio atabalhoado, assim como o discurso por parte dela de independência e que preferia ficar sozinha.  Sexo parecia muito importante para ela quando foi para a cama com Joaquim e discutir sexualidade na maturidade é algo que a novela poderia fazer.  Imaginei mesmo, isso antes dela começar a se reaproximar de Joaquim, que poderiam colocar Angélico (Adriano Toloza), que desapareceu da trama e ficou sem final, tornando-se um interesse romântico-sexual de Lígia.  De qualquer forma, não deixá-la com Joaquim foi razoável, mas a forma como a coisa foi executada não foi das melhores.

Aliás, quando tentaram discutir alguma coisa de sexualidade e desejo reprimido, foi usando Kellen e o Dr. Zé Maria  (Tulio Starling), mas foi algo muito corrido. Ela era a evangélica da novela, filha de pastor, acaba namorando com o médico bonitão da comunidade, mas, por motivos religiosos, não pode passar de uns beijinhos.  Acredito que o autor não quis esticar a discussão, porque eles eram coadjuvantes e para evitar polêmicas com os religiosos.  Não que eu acredite que a maioria do pessoal da novela estivesse muito preocupada com isso.  De qualquer forma, eles se casaram rapidinho. Agora, o que me incomodou um tanto foi não saber se Kellen retomou os estudos e se formou em Serviço Social, como era o seu desejo.

Houve coisas ruins em uma novela que, no geral, foi boa?  Sem dúvida.  Já comentei algumas coisas ao longo do texto, mas faltaram alguns pontos.  O núcleo do porteiro Rivaldo (Augusto Madeira) era ruim.  A relação de Rivaldo com o filho viciado em telas, Cristiano (Davi Luis Flores), o papel dos dois como testemunhas involuntárias do que se passava na casa da vilã eram algo interessante, mas  quando chegaram os parentes, a coisa desandou.  E a eliminação do sogro (Otávio Müller) poderia estar nos planos iniciais, mas veio bem a calhar para se livrar deles.  O verdadeiro núcleo de humor não era o do porteiro, mas o da delegacia.  Mas eis que inventaram um remendo pior: o menino que era totalmente ajustado passou a ser TEA (Transtorno do Espectro Autista).  Tentaram fazer um merchandising social que não deu certo de forma alguma, ainda que todas as informações passadas fossem relevantes.  Funcionou melhor a discussão sobre aleitamento materno, mas, enfim, escolhas complicadas.

Falando em merchandising, as primeiras propagandas inseridas na novela eram bem orgânicas, funcionavam bem, mas conforme a trama foi fazendo sucesso, elas passaram a ser excessivas, invasivas e pouco inspiradas.  Sim, propaganda é importante, é assim que a novela se paga, mas não precisavam exagerar tanto.  Foi carro, fritadeira, maquinha de cartão, banco, internet etc.  muita coisa entrando de forma bem forçada, especialmente, na reta final da novela. 

Algumas personagens não deram muito certo ou foram subaproveitadas.  Herculano (Leandro Lima) e Lena (Barbara Reis), que compraram o bebê de Joélly, se comportavam de forma muito pouco coerente.  Pareciam dois bobos às vezes.  Além disso, uma barriga de aluguel na Ucrânia ou na Índia ou em outro país seria muito mais razoável do que cometer um crime.   Como já falei dos pais de Juquinha, não voltarei a eles.  Já Gilmar  (Amaury Lorenzo) nunca conseguiu ser uma terceira ponta de um triângulo com Paulinho e Gerluce, algo que parecia ser o planejamento inicial, e ficou sem função.  Quando aparecia, era em cenas bobas com Misael e Consuelo (Viviane Araújo).  Acredito que o final dele com Consuelo foi exigência da atriz, que aceitou interagir com  ex-marido, mas não queria que sua personagem ficasse com Misael, mesmo sendo o caminho mais lógico.

E eu achei que Du Moscovis iria fazer mais como Rogério.  Imaginei que ele seria um agente terrível de vingança contra Ferette e Arminda, que iria transformar a vida dos dois em um verdadeiro inferno.  Rogério pouco fez e precisava, afinal, fora alvo de uma trama terrível dos dois.  E houve momentos em que ele, sim, poderia ter virado a ponta de um triângulo com Paulinho e Gerluce, mesmo que por causa de algum mal-entendido, algo  que, obviamente, não ocorreu.  Faltou alguma coisa na personagem.  O pessoal brincava que ele e o pastor pareciam estar sempre com pressão baixa.  Mesmo juntar Rogério e Zenilda, poderia ter começado como parte de uma vingança e evoluído para algo realmente verdadeiro, mas não foi a escolha, também.  

E já que falei do pastor novamente, colocar Xênica (Carla Marins) com ele no final foi algo aleatório.  Eles não tinham vínculo algum, salvo o casamento de seus filhos, nem qualquer afinidade aparente.  E Carla Marins estava muito bem, tê-la em uma novela novamente, em um papel que não era bobo, foi bom de se ver.  E foi através dela que um tiquinho de discussão sobre sexualidade feminina na maturidade apareceu, afinal, ela estava metida com um dos capangas de Ferette, Macedo (Rodrigo García), não somente para conseguir informações, mas porque o sexo era bom também.  Aliás, ser capanga do vilão era um péssimo emprego, porque piscou, você morria, não raro a mando do chefe.  E eu imaginei por muito tempo que Xênica pudesse mudar de lado depois que seu filho fosse morto, afinal, ele e Viviane foram peças-chave na descoberta de que os remédios eram falsos.

E a formatura de Joélly foi estranha.  Ela ter realizado o sonho de se formar em medicina foi excelente.  A gente queria e esperava.  Agora, além da passagem de tempo me parecer pequena, seu discurso de formatura foi ruim.  Ela poderia até falar de si mesma, o que não é tão desejável, de mulheres fortes, mas em um discurso desse tipo a gente fala do coletivo, do que se espera daquela profissão, de fazer diferença no mundo.  Faltou isso.  E eu fui oradora da minha turma.  Colocar os autores da novela (Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva) como professores na formatura foi uma excelente ideia, PORÉM eles deveriam estar paramentados.  Imagina, formatura de curso de Medicina, o mais elitista de todos, e os professores com roupas civis.  JAMAIS!

Acredito que seja isso.  Poderia escrever mais; tenho outras coisas para comentar, mas o texto já ficou longuíssimo.  A novela foi boa. O casal protagonista foi um dos melhores e mais bonitos que já vi. A ênfase nos laços entre as mulheres foi algo importante; falar de perdão e mudança de vida também.  E um viva para Arlete Salles que foi a alma da novela.  Todas as cenas de Dona Joseja foram preciosas e mesmo as participações especiais de gente de outras novelas de Aguinaldo Silva foram divertidas.  Falo de Crô (Marcelo Serrado), de Fina Estampa, e Téo Pereira (Paulo Betti), de Império, porque  Alexandre Nero não quis voltar como o Comendador e quem assumiu essa curta participação foi Rodrigo Lombardi.  Ah, sim!  Espero que o final de Arminda não seja uma deixa para uma continuação, se fizerem alguma coisa, que seja um especial para o Globoplay e só isso.  E, bem, Aguinaldo Silva voltou como uma fênix, mostrando como se faz novela DE VERDADE.  Era o que todos nós precisávamos.

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