Boku no Chikyuu o Mamotte (ぼくの地球を守って) ou Please Save My Earth, seu nome em inglês, é um clássico shoujo de ficção científica japonesa. A série de Saki Hiwatari conta a história de Alice, uma adolescente tímida e retraída, que tem problemas com um vizinho chamado Rin, que ainda é uma criança. O outro problema de Alice é o fato dela ter sonhos perturbadores. A garota acaba descobrindo outros adolescentes que passam pela mesma situação que ela: sonhos inexplicáveis e angustiantes. O grupo acaba descobrindo que sua ligação vem de outra vida, quando eles eram extraterrestres cuja missão era observar a Terra de um posto avançado. Só que no meio do grupo de adolescentes está Rin. Por qual motivo todos têm mais ou menos a mesma idade e Rin é tão mais novo? O que terá acontecido nesse passado nebuloso e qual grande tragédia colocou fim à missão de observação?
Segundo o Comic Natalie, a atriz Alice Hirose fará o papel de Mokuren, a versão alienígena de Alice. É o único nome do elenco até agora e me pergunto se a atriz fará também a adolescente ou se a adaptação tomará outro caminho. Imagino que não seja o caso, é uma série longa, tem 21 volumes. O mangá original foi serializado na revista Hana to Yume de 1986 a 1994 e tem uma continuação, Boku o Tsutsumu Tsuki no Hikari (ボクを包む月の光), foi publicada na revista Melody. O traço da autora passa por uma grande evolução ao longo da publicação, é um daqueles casos impactantes mesmo.
A série teve 6 OAVs em 1993-1994, um filme animado para o cinema em 1994 e um especial animado em 1995. Só assisti aos OAVs mesmo. Muita gente sonha com uma nova animação, uma série de TV talvez com várias temporadas. Como o original trata de temas sensíveis como estupro, suicídio e o casal protagonista tem grande diferença de idade e a tomar pela adaptação burra de Anatolia Story para satisfazer uma audiência contemporânea que não quer ver histórias complexas e que possam trazer desconforto e reflexão, melhor que não mexam com essa joia. O dorama estreia no Amazon no outono de 2027. O diretor será Takahiro Miki, que disse ao CN que sempre sonhou em dirigir uma adaptação do mangá. Aguardemos.
Ano passado, fiz resenha do volume #1 de Kanata Kara (彼方から), de Kyoko Hikawa, um isekai publicado entre 1993 e 2003 na revista Lala. Na época, houve vários mangás isekai de grande repercussão e qualidade, Fushigi Yuugi (1991-1996), que teve animação, é o mais famoso; Anatolia Story (1995-2002), Amakusa 1637 (2000-2006), por exemplo, não tiveram. Semana passada, o perfil Sugoi LITE, especializado em vazar futuras adaptações para a animação, anunciou que a série terá um anime em breve. Para quem é muito jovem, vocês nem imaginam o que uma notícia dessas causou em gente velha como eu, ou nem tão velha assim, mas que sonhou em ver várias séries dos anos 1990 transformadas em animação e perdeu todas as esperanças. Hoje, o Manga Mogura comentou a notícia e avisou que o site da animação da série já existe.
Enfim, para quem quiser um resumo do início da série: "Um dia, caminhando para casa da escola, Noriko, uma simples colegial, acaba sendo pega em um atentado terrorista. Em vez de ser explodida em pedaços, ela se vê transportada para outro mundo; um mundo em que a escuridão parece estar aumentando, enquanto os poderosos dos vários estados locais procuram desesperadamente por um ser conhecido como o Despertar, que dizem que irá acordar o Demônio do Céu. Ela acha esse novo mundo perigoso e assustador, mas Noriko não tem escolha a não ser se juntar ao homem misteriosamente poderoso que ela encontra ao chegar. O enigma deste mundo e seu papel nele se revelarão gradualmente, mas o mais importante primeiro: Noriko deve aprender a língua deles!" Em 2004, Kanata Kara ganhou o 35º Prêmio Seiun de melhor quadrinho de ficção científica. Agora é esperar pelos desdobramentos. Este ano, é aniversário de 50 anos da revista LaLa, há outros fortes boatos de animação, também, como uma nova adaptação de Ouran Host Club (桜蘭高校ホスト部). Fora outras possibilidades. O Sugoi LITE geralmente está certo.
Me perguntaram no Twitter hoje se eu tinha feito resenha de Fire! (ファイヤー!) para o Shoujo Café. Disse que não tinha feito. Ele lembrou, então, do meu primeiro site, o Shoujo House, criado lá em 2002. Achei que tinha feito resenha pra lá, mas, na verdade, não tinha, mas acabei tropeçando, graças ao Wayback Machine, na minha resenha de Juuichinin Iru! (11人いる!), They were eleven!, mangá que será o cartão de Hagio Moto no Brasil. Eu comprei a edição norte-americana e a resenha foi feita com base nessa edição. Dou detalhes no texto. Achei que valeria a pena publicá-lo aqui, ele é de 2005, exatos vinte anos atrás.
No Brasil, Juuichinin Iru! irá se chamar o 11º Tripulante. É um bom título e tenta visivelmente fazer uma ponte com Alien: o 8º Passageiro. Espero que dê certo, já está em pré-venda, o volume sai no dia 20 de janeiro. Achei o preço, R$109,90, muito alto. Alguém veio me dizer que era uma edição de luxo. Sem querer ser pessimista, acho que não será, mas só terei o que dizer quando o meu volume estiver em mãos. Enfim, para quem quiser, 11º Tripulante está com um bom desconto na Black Friday do Amazon, está saindo por R$87,92. Se você comprar por este link, ajuda o Shoujo Café. Segue o texto, as únicas correções relevantes foram gramaticais e ortográficas.
"Hagio Moto, uma das maiores mangakas japonesas, provou com They Were Eleven (Desculpe usar o título em língua inglesa, mas é que estou mais acostumado com ele) que shoujo e ficção científica podem combinar maravilhosamente bem. Se hoje, é comum ver muita gente afirmando que a revista Asuka (e sua irmã Asuka Deluxe) não seria uma revista shoujo mas, sim, mista porque teria como forte histórias de ficção científica (Cowboy Bebop), ação e fantasia (X da CLAMP), é porque traço do mangáas pessoas não têm noção de que os quadrinhos femininos não se limitam aos romances colegiais e ao tradicional mahou shoujo. Já nos anos 70, mais precisamente em 1975, Hagio Moto publicava na revista Bessatsu Shoujo uma história que se tornaria um clássico da ficção científica japonesa e arrebataria o Shogakukan Award.
They Were Eleven é uma história que tem na tensão psicológica um dos seus traços mais marcantes, ao mesmo tempo que discute as questões relativas aos papéis de gênero e ao peso das convenções sobre os indivíduos. A história, que tem somente um volume, começa resumindo o futuro da humanidade: depois da descoberta da propulsão de dobra e do fenômeno da antigravidade, os terráqueos se espalharam pela Galáxia e fundaram colônias em cinquenta e um planetas. Tudo isso em dois séculos. Com o tempo a harmonia entre a Terra e as suas colônias deixa de existir, mas a descoberta de ruínas alienígenas em um planeta faz com que as desavenças sejam superadas e se forme o Governo Pan-Terrano (o termo é esse mesmo).
Não podendo negar a existência e força dos vizinhos que encontrou, a Terra entra em uma aliança com três superpotências estelares, Lota, Segul, Saba e outras espécies menores e forma a Aliança Interestelar. Com esse novo acordo os Terranos continuam sua expansão e nos próximos quatro séculos competem com os Sabans pela supremacia. Ao fim desse período, os terranos se tornam a espécie mais populosa, seguida pelos Sabans, Seguls e Lotas. Os casamentos interespécies são comuns, pois todos são humanóides, exceto com os Lotas que se mantêm à margem dessas trocas devido à sua religião.
E chegamos então ao início da história. Dia de exame final para o acesso na Cosmo Academy, os aprovados Tada, versão animenos testes preliminares, serão alocados em grupos de dez e submetidos ao último desafio. Só que um dos grupos tem 11 componentes e não 10, como deveria ser. A partir daí, um desconfia do outro e coisas estranhas acontecem. Não há dúvida de que o 11º tripulante tem como objetivo fazer com que os outros dez fracassem. Mas como conseguir neutralizá-lo?
They Were Eleven tem duas personagens principais: Tada (Tadatos Lane), um órfão que tem poderes telepáticos, e Froll (Frolbericheri Frol), um andrógino de beleza estonteante. Ambos são as principais vítimas da suspeita dos demais. Os poderes de Tada (**que não é o único capaz de fazer coisas incomuns**) fazem com que todos desconfiem dele. Já Froll por causa de seu comportamento e aparência (**à princípio os outros o tomam por uma mulher**) acaba atraindo atenção "negativa" por assim dizer.
Hagio Moto usa Froll para discutir questões sobre as convenções entre masculino e feminino. Froll vem de um planeta onde todas as crianças nascem sem sexo definido. Até a puberdade, têm os mesmos privilégios e crescem livres, mas na adolescência se dá a intervenção: todas as famílias só desejam um filho homem, os demais serão mulheres. Admite-se também a poligamia e os homens não trabalham, deixando toda a carga para suas esposas. Froll é o caçula da família e teve tempo para ver como seu irmão e irmãs mais velhas foram tratados. Não tem por que desejar ser mulher, mas por tradição, não tem escolha. O máximo que consegue é fazer com que seu pai o deixe tentar a prova da academia. Se falhar, seu destino está traçado e se tornará uma das esposas de um velho nobre de sua terra. Mas mesmo Froll desejando ser homem e ela não tenha percebido, seu corpo já optou, sem necessidade de nenhuma intervenção indutora. Para completar, Froll e Tada se apaixonam.
As outras personagens da história não conseguem ter tanta relevância quanto a dupla, mas também não fazem feio. Alguns vêm dos mesmos planetas, outros são os primeiros de sua raça a conseguirem chegar tão longe no processo de admissão. Há um príncipe cheio de orgulho, aristócratas que acreditam na superioridade de seu sangue ou religião, alguns que querem ser cientistas e um interessante hermafrodita com aparência reptiliana. Knu (Vidmenir Knume) é a voz da razão do grupo quando as coisas começam a ficar feias. Ele vem de um planeta parecido com o de Froll, só que seu povo não induz seus habitantes a se tornarem homens ou mulheres. A coisa acontece naturalmente na adolescência, mas alguns permanecem reptilianos e sem sexo definido. Azar? Talvez, em troca, vivam muito mais do que os outros.
A ambientação do mangá de Hagio Moto é claustrofóbica e angustiante. O começo, mostrando as cápsulas individuais onde os futuros cadetes ficam confinados para o exame, já diz tudo. A autora é sempre muito competente na definição do tom de suas histórias, mesmo que não deixe o leitor esperar pelo óbvio em termos de roteiro.Em 1986, They Were Eleven virou filme e manteve basicamente a mesma estrutura do mangá. Aliás, como só tem um volume, nada se perdeu. A mudança considerável fica por conta do character design que tornou Froll "uma moça" lindíssima e deu a Tada traços bem menos andróginos. [Estava escrito "mais" e, não, "menos", porém acredito que havia trocado as palavras.]
Não vou me prolongar falando da autora, porque já há bastante informação da autora e sua obra na seção dedicada ao Coração de Thomas. De qualquer forma, vale lembrar que o que temos de Hagio Moto publicado no Ocidente são suas histórias curtas de ficção científica. A VIZ teve o mérito de perceber o potencial da autora e escalar Rachel Thorn como tradutor [Thorntransicionou e modifiquei o texto para eliminar seu nome morto. Infelizmente, não tenho como fazer isso em todos os textos nos quais já a citei.], fora isso, ainda lançou o filme. Infelizmente, parece que a editora não tem mais os direitos da obra e ela não pode ser republicada em formato mangá. Minha edição de They Were Eleven, por exemplo, é em formato americano, espelhado e partido em quatro revistas. Já procurei no E-Bay, lugar onde se pode encontrar as edições já esgotadas, mas não encontrei ainda o mangá em formato Graphic Novel e devo comprar a edição japonesa mesmo. Aliás, é por isso que não tenho imagens melhores. Minha esperança é que alguma editora olhe para Hagio Moto e perceba o que está perdendo. É muito injusto que seus trabalhos sejam quase restritos ao público japonês."
Quando o volume da JBC for lançado e estiver em minhas mãos, provavelmente, em fevereiro, farei outra resenha. Acredito que se nada mudar nas minhas opiniões sobre a história, terei o que pontuar sobre a edição nacional.
A JBC vai lançar Juuichinin Iru! (11人いる!), também conhecido como They Were Eleven, de Hagio Moto em dezembro. O volume único é um mangá de ficção científica muito premiado e que virou anime, filme, peça de teatro etc. Sempre, desde que me lembro de ter este blog, que este mangá fosse escolhido para ser o cartão de visita da autora no Brasil. Minha aposta é que se ele fosse vendido como um mangá de ficção científica, ele chegaria a um público mais amplo. Muito bem, em uma live da JBC, ontem, foi anunciado que o nome seria 11º Tripulante!. A ideia, imagino eu, é fazer uma ponte com Alien, o Oitavo Passageiro. Esperava uma tradução do título original, mas foi engenhoso. A ideia do mangá é que um grupo de 10 cadetes passaria por sua última prova em uma nave com 10 tripulantes. Só que há 11 pessoas, logo, um não deveria estar lá? Quem seria o impostor? Espero realmente que as pessoas abracem Hagio Moto no Brasil e O Coração de Thomas (Tooma no Shinzou/トーマの心臓) apareça por aqui em breve.
O Sora News trouxe uma matéria sobre os trinta anos de Gundam Wing e eu lembrei de como alguns fãs homens da franquia ficavam dando chilique em fóruns e nas listas de discussão (*sim, crianças, com e-mail.*). Mobile Suit Gundam Wing, ou Shin Kidou Senki Gundam Wing (新機動戦記ガンダムウイング) foi lançado no Japão e exibido no Brasil em 2002 pelo canal pago Cartoon Network e o lançamento do mangá no país ocorreu em agosto do mesmo ano (*nem lembrava disso, mas não era fã da série*).
Não sou especialista na franquia Gundam, nem quero ser, mas qualquer fã minimamente educado de animação japonesa sabe que se trata de uma instituição no Japão desde sua primeira série, que estreou em 1979. Agora, parece que Gundam Wing foi a primeira das séries da franquia que estava de olho nas fãs que não eram necessariamente apaixonadas por mechas ou por ficção científica, mas por garotos bonitos que poderiam render fanarts, fanfics e doujinshis (*aliás, há muitos, dêem uma olhada no que aparece no Bakaupdates*), inclusive com conteúdo BL. E foi isso que levou muitos sujeitos no Brasil, porque nunca li nada sobre isso para o Japão, a ficarem berrando que era um yaoi disfarçado ou um shoujo disfarçado. E como reclamavam da personagem feminina da série, a Relena Darlian!
Eram tempos difíceis, eu diria, porque ser fã de shoujo ou de BL era algo muito mais estigmatizado do que hoje. E os sujeitos não tinham nenhum limite quando se tratava de expressar sua misoginia e homofobia. Por essas e outras, na mesma época, eu criei a lista Tomodachi no Shoujo (*que deveria se chamar Shoujo no Tomodachi*) e, mais tarde, este blog aqui. E continuamos na luta e repetindo quase que as mesmas coisas, quase, porque eu aprendi muito e continuo aprendendo e a gente não usa mais yaoi, usa BL. 😛
Enfim, o SN mostrou que para os 30 anos de Gundam Wing está acontecendo uma colaboração entre a rede Animate e o Café Gratte. Tivemos, porque a campanha foi no mês passado, lanchinhos temáticos e produtos. A repórter do SN era fã da série e bateu fotos com as personagens e tudo mais. Acho que ela se divertiu bastante fazendo a matéria.
Meses atrás, abri uma caixinha no Instagram para que vocês enviassem perguntas. Foram poucas, juntai todas menos uma, que foi respondida em outro programa, e trouxe para cá. A caixa continua aberta, assim como a área de comentários. Espero que o programa seja interessante para vocês.
Hoje, cinquenta anos atrás, Patrulha Estelar, Star Blazers, Uchuu Senkan Yamato (宇宙戦艦ヤマト) de Leiji Matsumoto estreou nas TVs japonesas. O mangá é posterior (*saiu pela Newpop*), estreou quase um mês depois na revista Adventure King (*nunca ouvi falar, mas não importa*). Um filme resumo para o cinema veio em 1977, a segunda série veio em 1978, a terceira, em 1980. Fora os filmes resumo para o cinema. É muita coisa.
O ponto de partida dá série é o seguinte: Estamos no ano de 2199 e a Terra não se encontra na sua melhor situação. Os destroços do encouraçado Yamato (*gêmeo do Bismarck*) são resgatados das profundezas do que um dia tinha sido o mar e transformado em uma nave espacial de guerra. O Yamato se torna a última esperança da resistência do nosso planeta contra os ataques do planeta Gamilon.
As primeira série foi exibida na Rede Record (1981) e as segunda e a terceira na TV Manchete (1983-1985) e marcou minha infância e a de muita gente que está na faixa dos 50 anos. Eu nunca assisti a primeira temporada, a que completa 50 anos, mas acompanhei apaixonadamente a segunda, que veio dos Estados Unidos e com censura e nomes alterados, e a terceira, original japonesa, mas mantendo os nomes escolhidos pelos norte-americanos. Derek Wildstar só foi se tornar Susumo Kodai para mim, muito tempo depois, Yuki Mori, durante um bom tempo, a única mulher da tripulação, era chamada de Lola. Já Mark Venture (Daisuke Shima), o piloto, foi a primeira paixão ficcional da minha vida.
Patrulha Estelar juntava ficção científica, aventura, drama (*muito drama*), um machismo ofensivo em alguns momentos, algum romance, uma certa patriotada japonesa e um vilão muito carismático. Aquilo mobilizava a gente e quando eu ouvi de novo a música de abertura em uma propaganda do finado e amado programa Top TV (Record), eu fiquei toda arrepiada. Anos tinham se passado e eu voltava a ouvir os acordes e a voz poderosa de Isao Sasaki.
Yamato teve continuações, spin-offs, movies, OAVs, live action e, claro, uma remake que elevou ainda mais a qualidade do original sem abrir mão, como no caso de Sailor Moon (美少女戦士セーラームーン), da abertura icônica. Foi um fenômeno e abriu caminho para Gundam ( ガンダムシリーズ) pudesse explodir em 1979 e mudar definitivamente o fandom japonês. É isso. Precisava marcar esta data.
Kanata Kara (彼方から), de Kyoko Hikawa, é um isekai publicado entre 1993 e 2003 na revista Lala. Ele é contemporâneo de Fushigi Yuugi (1991-1996), que teve animação, e Anatolia Story (1995-2002), Amakusa 1637 (2000-2006), por exemplo, só para citar três séries shoujo que tem premissa semelhante. Como fui olhar Kanata Kara? Bem, conhecia o mangá, nunca tinha lido nada dele, mas alguém sugeriu a semelhança com Hoshifuru Oukoku no Nina (星降る王国のニナ), não vi nenhuma significativa, nenhuma mesmo, mas comecei a ler o volume #1 perto da meia noite e só fui dormir depois de terminar. Mas vamos ao resumo desse começo da série:
Um dia, caminhando para casa da escola, Noriko, uma simples colegial, acaba sendo pega em um atentado terrorista. Em vez de ser explodida em pedaços, ela se vê transportada para outro mundo; um mundo em que a escuridão parece estar aumentando, enquanto os poderosos dos vários estados locais procuram desesperadamente por um ser conhecido como o Despertar, que dizem que irá acordar o Demônio do Céu. Ela acha esse novo mundo perigoso e assustador, mas Noriko não tem escolha a não ser se juntar ao homem misteriosamente poderoso que ela encontra ao chegar. O enigma deste mundo e seu papel nele se revelarão gradualmente, mas o mais importante primeiro: Noriko deve aprender a língua deles!
O que mais me pegou nesse início de Kanata Kara foi exatamente isso, Noriko não fala a língua do lugar. Ela entende rapidamente que é questão de sobrevivência conseguir se comunicar. Noriko passa a prestar atenção e começa a captar palavras como "água" e verbos que poderiam facilitar a sua comunicação, especialmente, com Izark, o guerreiro solitário que a resgata e protege dos perigos da floresta onde Noriko se materializa e de todos os que querem ter acesso a ela. Sabemos quase nada de Izark, mas, em um determinado momento do volume #1, ele diz em pensamento que precisa matar Noriko. Obviamente, ele não conseguirá, o destino dos dois, como na maioria dos mangás do tipo, está selado desde o seu primeiro encontro.
Se vocês quiserem spoilers, o mangá já tem quase trinta anos, Izark é o demônio, ou, assim, ele acredita. Por isso, sofreu com o ostracismo e leva uma vida solitária. Estar com Noriko irá causar transformações nele. No final do primeiro volume, trata-se do gancho mesmo que termina o capítulo, ele começa a passar mal, quando Noriko vai ajudá-lo, ele repele a moça.
Enfim, Kanata Kara é um mangá interessante, ele recebeu o maior prêmio da ficção científica japonesa, o Seiun, na categoria mangá em 2004. Sim, mangás de fantasia são, em alguns casos, considerados ficção científica especulativa. O pessoal da Literatura certamente explicaria melhor que eu. Há gêneros que são considerados fantasia pura, como Senhor dos Anéis, ou Guerra dos Tronos, e outros que, por motivos que muita gente, como meu marido, acha absurdos, acabam caindo ou em ficção científica social ou em ficção científica especulativa, o que eu acredito que seja o caso de Kanata Kara. De qualquer forma, nada vi de ciência nesse primeiro volume.
O traço de Kyoko Hikawa, que é da mesma geração de Chiho Saito, é típico dos anos 1990. Mesmo em sua obra de sucesso mais recente, Otogimoyou Ayanishiki Futatabi (お伽もよう綾にしき ふたたび), ela mantém a fidelidade ao que fazia nos anos 1980 e 1990. E ela tem um traço bem limpo e dinâmico. Não é nada de encher os olhos, mas ela sabe desenhar bem batalhas. Há muita luta nesse primeiro volume, seja de Izark contra criaturas e homens que querem capturar Noriko, ou matá-los, seja entre os grupos de cavaleiro montados em dragões que aparecem em cena com o intuito de capturar "o Despertar".
Falando de Noriko, apesar de ser repetido em mais de um momento pela menina, seja falando, ou em pensamento, que ela é uma "colegial comum", ou seja, a nossa mocinha de shoujo preferencial, que não é nem particularmente bonita, ou inteligente, ou seja, ela poderia ser qualquer leitora, Noriko está acima da média. A compreensão da necessidade de se comunicar e que precisa se mesclar ao lugar em que está, abrindo mão de roupas e objetos que podem denunciá-la como estrangeira, é algo que aponta para um tipo de inteligência que é incomum em muitas protagonistas de shoujo.
Noriko entende rapidamente que Izark quer ajudá-la e aceita o seu comando, seja trocar suas roupas, ou se livrar da pasta da escola, ou mesmo dividir o mesmo quarto com ela, sem aquela resistência burra que aparece em muitos mangás. É necessário, ela quer viver. Eu não fui atrás de spoilers, portanto, não sei se Noriko ficará nesse mundo, ou voltará para casa, afinal, ela tem mãe, irmão caçula e pai escritor de livros de fantasia. Ela tem amigas, ela gosta da escola.
Fechando, antes mesmo de ser transportada para o outro mundo, Noriko tinha sonhos e as amigas diziam que ela se deixava influenciar pelas coisas que o pai escrevia. A menina imagina que os sonhos possam se remeter a alguma vida passada. O humor que existe no primeiro volume está ligado às amigas perguntando ao policial depois que a bomba explode, se não sobrou sequer um pedacinho de Noriko. Como ela pode ter desaparecido? Outra piada é que o comerciante que Izark salva de ladrões cede roupas para eles, inclusive roupas femininas para que Noriko retire as de homem que o guerreiro lhe fez usar, mas cobra pagamento. Se não fosse Izark e Noriko, ele teria morrido, mas comerciante e comerciante!
Enfim, é isso. Espero continuar lendo, mas o meu tempo é bem comprimido, mas fato é que Kanata Kara me surpreendeu positivamente e é lembrado com carinho até hoje, vide esse café colaborativo de 2022. O fator linguístico normalmente fica fora da ficção científica e dos mangás. Todo mundo parece falar a mesma língua. E, claro, queria ver como a relação de Noriko e Izark se desenvolve e se ela fica nesse mundo alternativo ou volta. De resto, é bom ver que houve um tempo em que essa porta ficava aberta, em que os isekai não envolviam sempre a morte e a falta de perspectiva em relação ao Japão atual. E, se quiserem mais sobre essa discussão, fiz Shoujocast sobre isso.
Sábado passado, fui assistir com a Júlia (minha filha de quase 11 anos) o filme Robô Selvagem (The Wild Robot), aposta da DreamWorks para as premiações do ano que vem. O filme é baseado em uma série de livros (*que espero que saiam em português*) chamada The Wild Robot de um escrito chamado Peter Brown e mistura ficção científica, sobrevivência em ambiente hostil, ecologismo e um forte apelo à ideia de família e maternidade. Segue o roteiro do Adoro Cinema:
Em Robô Selvagem, o robô conhecido como "Roz" – a unidade ROZZUM 7134 – naufraga em uma ilha desabitada, precisa aprender a se adaptar a esse novo ambiente e, pouco a pouco, construindo relações com animais nativos e isso inclui até a adoção de um filhotinho de um ganso. O filme é uma adaptação do livro de mesmo nome do escritor Peter Brown.
Fui ao cinema assistir Robô Selvagem, porque achei o trailer muito bonito e estava com muita saudade da sala de exibição. Depois que me mudei e da COVID, ir ao cinema se tornou algo muito raro na minha vida e eu sinto muita falta. Curiosamente, um filme tão bem executado já saiu de cartaz em Brasília. Aliás, nunca vi tanta fragmentação nas salas de cinema. Há muita coisa em cartaz, filmes menores dividindo a mesma sala de exibição para desaparecerem rapidamente. Só os grandes lançamentos, e sendo DreamWorks Robô Selvagem deveria ser um deles, ficam por muito tempo, enfim...
Em Robô Selvagem, estamos em um futuro que parece ser próximo. O nível dos mares subiu e a humanidade, ou o que sobrou dela, vive em cidades super tecnológicas. Unidades como ROZ foram feitas para servir esses humanos. Ao cair na ilha, ROZ precisa de uma missão e se esforça para encontrar uma. Ela aprende a língua dos animais, para que eles possam interagir de forma "humanizada" com ela, e toma como missão proteger e criar um ganso anão.
Bico-Vivo, este é o nome que ROZ e seu amigo, a raposa de nome Astuto, lhe dão, é órfão por causa de um acidente provocado por ROZ. Não foi de propósito, mas ao matar a família do gansinho, ela o salvou. Gansos anões estava condenados a morrer. ROZ, ao tomar Bico-Vivo como sua missão, lhe dá a possibilidade de uma família e um futuro.
U:ma das questões importantes do filme é que a ideia de família como aquela que nós elegemos como tal. ROZ é um robô, não deveria sentir, nem precisar de companhia, mas ela acaba desenvolvendo consciência, algo que me fez lembrar de Data de Jornada nas Estrelas, que também se torna pai em um determinado episódio. Não somente isso, mas ela adota uma identidade de gênero feminina. Ela se torna mãe. A maternidade é tratada de forma bem tradicional no filme, diga-se de passagem, ainda que a ideia de família seja bem moderna e inclusiva, afinal, a de ROZ é composta por uma robô, uma raposa e um ganso.
O fato é que ROZ consegue sobreviver, se adaptar, cumprir sua missão e interferir na dinâmica da ilha. Todos os animais interagem com ela, reconhecem suas qualidades e aceitam que ela é parte da vida selvagem como eles são. ROZ defende a cooperação, não a competição, algo estranho para a maioria dos animais que vivem em um ambiente no qual uns morrem para que outros consigam sobreviver.
Só que ROZ fica dividida entre permanecer na ilha, mesmo depois de cumprida sua missão com Bico-Vivo, que em dado momento se torna um adolescente ressentido muito verossímil, e voltar para a sua matriz. Afinal, ela tem uma programação e quer estar (*aqui, temos consciência e sentimentos*) com os de sua "espécie". Só que, ao tentar contato, ela atrai até a ilha a corporação que a criou e temos um pequeno vislumbre desse capitalismo violento do futuro.
É só um vislumbre, mas ele é o suficiente para que a gente imagine que o mundo perfeito dos vídeos de propaganda que ROZ assiste esconde muitas coisas feias. A corporação quer recuperar ROZ e entender como ela desenvolveu consciência (*deveriam tentar entender como ela não foi destruída, ou parou de funcionar, depois de tantas aventuras e desventuras*). Para isso, ela é capaz de tudo, inclusive de destruir a ilha e incapacitar para sempre a própria ROZ. Não sabemos como é o mundo do futuro, mas, certamente, nós, humanos, aprendemos muito pouco.
Gostei sinceramente de Robô Selvagem. O filme consegue dialogar com adultos e crianças e fica no limite de ser excelente. Motivo? Robô Selvagem não se furta de mostrar a morte e não demoniza os animais carnívoros, ou esconde que existe uma cadeia alimentar que implica em sacrifícios. O problema é que o filme vende a ideia de cooperação, sim, era necessário para salvar a ilha, mas será que os animais deixaram seus hábitos naturais por influência de ROZ e se tornaram, sei lá, veganos? Não fica claro. Outro ponto que tira uma nota máxima do filme é que ele precisava sacrificar ROZ e tinha que ser um sacrifício completo e absoluto. Mas faltou coragem, ou, sei lá, teremos uma continuação, afinal, são três livros.
Robô Selvagem cumpre a Bechdel Rule. Temos várias personagens femininas, algumas com nomes, protagonista, aliás, é uma robô-mãe. Agora, a questão da maternidade como principal missão das mulheres, ou das fêmeas, é algo central na película. ROZ se torna mãe e, como tal, ela se torna vulnerável e capaz de se sacrificar por seu filho. A maternidade em Robô Selvagem parece beber em referenciais do século XIX, vitorianos, mesmo colocando ROZ como uma heroína de ação, afinal, sendo uma robô, ela tem muitas capacidades.
Uma das mensagens do filme é que não precisamos aceitar um destino que nos foi imposto. ROZ pode ir contra a sua programação, os animais também podem ir além daquilo que a natureza nos impôs, por isso, até um ganso anão pode ter um futuro, porque podemos, sim, construir um mundo melhor e mais inclusivo. Robô Selvagem é um filme simpático e deve estar no streaming daqui a pouco. Uma pena mesmo, minha sessão estava cheia e houve aplausos.
Robô Selvagem deve ser indicado ao Oscar e será muito merecido. A música tema também é bem bonita. Queria ter ouvido a dublagem original com Lupita Nyong'o e Pedro Pascal, mas a dublagem brasileira ficou muito boa, gostei bastante. Espero a série inteira de livros saia por aqui, no Amazon só encontrei o volume 1 em português e só em formato Kindle. E é isso. Espero conseguir ir ao cinema de novo o mais rápido possível.
A edição de setembro da revista Geijutsu Shincho, da editora Shinchosha, que existe desde 1950, traz uma matéria especial focada na carreira de Hagio Moto intitulada "Parabéns!". Segundo o Comic Natalie, a matéria começa com o primeiro mangá que a autora desenhou ainda no jardim de infância. A matéria conta, também, que Hagio Moto adquiriu o hábito de anotar as histórias e desenhos que inventava em um caderno e, no final da adolescência, começou a carregar consigo um caderno de desenho e um livro de esboços o tempo todo.
No especial, serão apresentados aproximadamente 80 recortes cuidadosamente selecionados de 200 cadernos de desenho e esboços. Os esboços de Hagio Moto já apareceram em revistas e catálogos no passado, mas esta é a primeira vez que um número tão grande deles foi publicado juntos. Haverá também a contribuição de Mari Yamazaki, amiga íntima da mangá-ka. Para quem sabe japonês, essa edição vale ouro, na verdade, é algo maravilhoso para qualquer fã de Hagio Moto.
Anteontem, assisti o último filme da franquia The Hunger Games, Jogos Vorazes – A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes (The Hunger Games: The Ballad of Songbirds & Snakes). Não pude ver no cinema e esperei sair no Prime. Não me decidi ainda se gostei do filme, ou não. Apesar de possuir quase duas horas e meia de duração, os eventos parecem acelerados demais, as informações um tanto confusas, fora as contradições com a história original, seja dos livros, seja dos filmes. E, sim, eu li todos os livros, assisti os filmes e há um post com links para todas as resenhas para facilitar a minha vida. Enfim, vamos ao resumo do filme:
Estamos 64 anos antes dos eventos da série original de Jogos Vorazes, quando Katniss e Peeta, representantes do Distrito 12, triunfaram na Arena contra todas as expectativas. Coriolanus Snow (Tom Blyth) tem 18 anos e está se formando na Academia, a escola de elite da capital de Panem como primeiro de sua classe. Pobre por conta da guerra, órfão de pai e mãe e passando severas necessidades junto com a prima e a avó, Snow sonha em receber o Prêmio Plinth por seu desempenho acadêmico, o que lhe permitiria ir para a universidade e sustentar sua família com dignidade. O reitor da Academia, Casca Highbottom (Peter Dinklage), frustra suas expectativas. Ele odiava o pai de Snow e transfere seu rancor para o rapaz.
A única chance de Snow é conseguir ser o melhor mentor da décima edição dos Jogos Vorazes. Ao que parece, a organizadora dos jogos, Dr.ª Volumnia Gaul (Viola Davis), vê potencial em Snow e suas sugestões para tornar os jogos, que correm o risco de serem cancelados, um espetáculo mais interessante, lhe agradam. No entanto, ele recebe como tributo a representante do Distrito 12, o mais pobre de todos. Só que Lucy Gray Baird (Rachel Zegler) parece ter algo de especial e se Snow conseguir fazer com que ela desperte a atenção da audiência e atraia patrocinadores, talvez, ainda que remotamente, ele consiga atingir seus objetivos. Só que Lucy Gray não fascina somente a audiência, ela desperta sentimentos em Snow que podem o desviar de seus objetivos de vida.
Para quem não conhece os originais, acredito que seja preciso explicar algumas coisas, a série Jogos Vorazes, publicada entre 2008 e 2010 por Suzanne Collins, é uma distopia que se passa em um país chamado Panem, que ocupa parte da América do Norte. Em Panem, há a Capital e treze distritos. Dez anos antes do início deste filme, cujo livro foi lançado em 2020, houve uma rebelião, que obliterou o Distrito 13 e resultou na criação dos Jogos Vorazes. Todos os anos, para marcar a derrota da rebelião contra a Capital, são organizados jogos inspirados nas arenas romanas e nos modernos reality shows, nos quais dois jovens de cada um dos doze distritos são sorteados. Chamados de tributos, eles precisam ter entre 12 e 18 anos e irão lutar até a morte na arena para o divertimento dos cidadãos da Capital e para lembrar aos distritos o preço alto que eles tem que pagar pela sua insubmissão. Normalmente, os vencedores vêm dos Distritos 1, 2 e 3, os que tem melhores condições de vida, e muito raramente do paupérrimo distrito 12.
Analisar A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes é difícil, porque queria analisar o filme pelas suas próprias qualidades, mas ele acaba se impondo como parte de algo maior, o que o apequena de certa forma. Apesar de sua duração, ele parece correr demais com os acontecimentos. Deveriam ter pensado a ascensão de Snow em duas partes, ou como uma bem produzida série para o streaming, que poderia amarrar melhor as pontas soltas. E seria muito bom contar com a presença de Donald Sutherland, que interpretou a personagem na série original em algum momento do filme, seja como narrador, ou em algum momento da abertura ou do fechamento da película.
Entre as coisas confusas do filme, destaco a que mais me deixou intrigada. O pai de Snow, o General Crassus, era um traidor? O ódio de Casca Highbottom e o fato da família do protagonista ter ficado na miséria me sinalizavam isso, no entanto, parece que ele morreu lutando com os rebeldes. Peguei spoilers dos livros, mas não queria usá-los, o filme deveria me explicar tudo o que eu precisasse saber. Enfim, por qual motivo, então, a família Snow ficou naquela condição miserável? Eles deveriam ter sido compensados de alguma forma pelo heroísmo do patriarca. Estranho. Será que entendi errado? E por qual razão Casca Highbottom odeia tanto Snow? E os alunos não sabiam que ele era o criador dos jogos? Ele não é o diretor da Academia?
A forma como os jogos são organizados é tão precária que pouco lembra o que temos na série original. Ao que parece, será o próprio Snow a refinar o espetáculo conforme ele avança em sua carreira. Ainda assim, os tributos são tratados de forma tão brutal, que vários não chegam vivos à arena. Deixá-los sem comida, sem água, antes de serem lançados na arena não ajudaria a engrandecer o show, visto por esse prisma, parece uma exibição de crueldade exagerada e sem sentido. E ainda há o zoológico humano, que é uma menção aos que existiram realmente na Europa como uma forma de apresentar ao mundo civilizado uma versão inferior da humanidade. Dado o tratamento concedido aos tributos durante todo o percurso até os jogos, isso acaba sendo o de menos.
Algo que parece ter sido consertado em relação ao original, e que eu pontuei em uma das minhas resenhas do livro 2, acho, é a política de compensação para causar desunião nos distritos. A inspiração óbvia da sociedade de Panem é Roma, mas a autora original, parecia não entender que os romanos não foram tão dominantes por mil anos usando somente da força e do terror. Então, temos a família de Sejanus Plinth (Josh Rivera), amigo de Snow, que sendo do distrito 2, ficou do lado da Capital durante a revolta e recebeu a cidadania.
A família Plinth, no entanto, tem que mostrar a cada momento que é fiel, usando sua riqueza para isso. A amizade de Sejanus e Snow é carregada de dubiedades por parte do protagonista. Ele certamente ama o amigo, mas ama muito mais a si mesmo, conforme ficará claro ao longo do filme. Sejanus, por outro lado, é patético, um menino mimado e superprotegido, carregado de culpa e que tenta posar de revolucionário. Em alguns momentos, chega a dar pena do pragmático Snow se metendo em encrencas para ajudar o amigo, que, sempre que a coisa fica difícil, trava e começa a choramingar. Até consigo ter alguma compaixão, afinal, ele só tem 18 anos, mas não consigo ter muita pena, não.
Se a ideia de uma política de compensação parece fazer sentido, a confraternização entre Peacekeepers (*os soldados da Capital*) e a população do Distrito 12 não é. Estando a guerra tão recente, rebeldes ainda a solta, é muito, muito estranho, que os soldados pudessem ir se divertir nos bailes da população local. Até consigo imaginar que a Capital oferecesse diversão segregada para seus soldados, mas a confraternização que vemos no filme, não. Aliás, no original parecia que não havia diversão alguma para os habitantes do Distrito 12, que mais parecia um grande campo de trabalho. Essa familiaridade inventada neste filme está em contradição com a lógica da série.
Outra mudança foi a convivência tão próxima entre as duas castas do Distrito 12. Havia os mineiros, de pele cor de oliva, cabelos e olhos escuros, e os que moravam na cidade, vivendo em uma situação menos desconfortável e com pela clara e cabelos louros. Isso é muito enfatizado nos primeiros filmes e nos livros. Katniss e Peeta viviam no mesmo Distrito, mas em mundos diferentes. A diversidade racial não era uma marca do Distrito 12, aliás, os originais me sugerem que a Capital segregava etnicamente os distritos, mas isso é uma percepção minha. Enfim, no Distrito 12 de A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, a filha do prefeito não é loura e namora um dos membros do bando de Lucy Gray, além disso, todos frequentam o mesmo arrasta pé ao som de música country (*Argh!*).
Escrevi um monte de coisas e não falei dos protagonistas. Lucy Gray é uma personagem carismática, pela correria do filme, suas origens não são muito bem explicadas. Seu povo "o Bando" (*the Covey no original*) era formado por artistas nômades que terminaram, por causa da guerra, confinados no Distrito 12. Ainda assim, eles não são submetidos ao duro regime de trabalho dos demais moradores. A política da Capital nesse pós-guerra parece mais flexível do que nos filmes e livros originais.
Há muita cantoria no filme, afinal, Rachel Zegler tem uma bela voz e esse atributo é importante para seduzir a audiência dos jogos, nós que assistimos o filme e o próprio Snow. Os dois são obrigados a cooperar nos Jogos, os dois são órfãos e vistos como estranhos. Surge um sentimento entre eles que Snow tenta evitar desde o início, vide a cena de quase beijo quando ela está no zoo humano. Snow precisa usar Lucy Gray e mesmo que seus sentimentos por ela existam, seu projeto de futuro vem antes de qualquer coisa.
E quem vai guiar Snow para que ele escolha o lado sombrio, por assim dizer, é a doutora Volumnia Gaul. E isso não é spoiler, afinal, sabemos que Coriolanus Snow é o vilão de Jogos Vorazes mesmo. Enfim, Gaul vê potencial nele e o submete a uma versão particular dos Jogos Vorazes, ela vai guiando, manipulando e moldando Snow até que ele revele o que tem de pior e consiga se tornar digno de se tornar seu pupilo. Para isso, ele terá que deixar para trás qualquer escrúpulo e trair as pessoas que ama, ou pensou amar.
Não sei se já faz muito tempo que não revisito Jogos Vorazes, mas este filme me pareceu mais violento que os originais. As mortes na arena foram mais sujas, as penas importas pela Capital mais cruéis. A ideia da árvore forca no Distrito 12 deu um tom de crueldade a mais para o filme, assim como os pássaros espiões, os jabberjays, tiveram um papel crucial no massacre dos revoltosos e em eventos que mudaram para sempre a vida de Coriolanus Snow. Falando na árvore, ela não existe mais nos tempos de Katniss, mas a música cantada por Lucy Gray, sim. E, bem, Gray não é avó de Katniss, algo que pode ser sugerido pela forma como o filme termina. Aliás, se assim fosse, Katniss seria neta de Snow.
Volumnia Gaul é a única personagem desse filme que lembra os habitantes da Capital nos filmes originais. Sua roupa é colorida, seu cabelo chamativo, seu rosto mostra que ela passou por intervenções estéticas. Ela destoa da monotonia calculada do figurino, maquiagem e cabelos das demais personagens. A Capital deste filme é cinzenta, escura, os cidadãos se vestem com um figurino inspirado nos anos 1940. Tudo parece econômico. Tigris (Hunter Schafer), prima de Snow, e a avó dos dois (Fionnula Flanagan) usam roupas coloridas, porque a moça é uma estilista e cria a partir dos materiais que tem em mãos, ainda assim, o figurino é claramente inspirado nos anos 1940, no mundo de restrições impostas pela 2ª Guerra Mundial. Já o uniforme da Academia junta calças e saias em uma mistura estranha, a cor é bonita, mas não ficou lá tão visualmente interessante.
Quanto à arquitetura usada no filme, não sou especialista, mas me lembrei do Brutalismo soviético. Panem é uma sociedade autoritária, inspirada na Roma Antiga, na Alemanha Nazista, mas, acredito, também, na URSS. E a tecnologia no filme é absurdamente atrasada. Não sei se a escolha foi boa, porque em sessenta e poucos anos não seria possível chegar ao avanço tecnológico dos filmes originais. O laboratório da Dr.ª Gaul parece destoar do resto do filme, pois fora dali ainda estamos na TV à válvula, telefone que funciona mal e coisas do gênero.
Caminhando para o fim. Os Jogos em si conseguiram ser bem apresentados. Mas imagino que muita coisa foi mutilada do livro original para que coubesse mais coisas no filme. A adaptação precisava apresentar personagens, falar dos Jogos e ir da Capital para o distrito 12, tentar nos convencer com o amor de Lucy Gray e Snow, mostrar como o rapaz optou pelo mal. Coisa demais para um único filme, enfim. Ainda que considere A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes um filme razoável, ele não conseguiu me impactar em nenhum momento.
De resto, continuo considerando contraditório escrever um livro ou produzir um filme sobre a juventude de Snow, mais coerente seria construir uma série mostrando sua ascensão de forma completa, se acham que a personagem vale o esforço. E consegui recuperar o post de quando o filme foi anunciado e mantenho o que eu escrevi lá: "Suzane Collins poderia contar outras histórias sobre Panem, que não precisávamos de uma humanização de Snow.". Depois de assistir ao filme, meio que preciso olhar o livro, porque ficaram tantas lacunas que eu tenho curiosidade em saber o quanto o filme se afastou da obra original e truncou a história da conversão ao mal, porque é mal mesmo, de Coriolanus Snow. É isso.