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sábado, 1 de agosto de 2026

A autora de "A Rosa de Versalhes" revela suas lutas passadas e seus sentimentos em relação aos jovens, em conexão com a inclusão de uma questão no Exame Comum de Admissão na Universidade: "Oscar é o meu ideal".

Passei a semana fora porque estava participando da ANPUH-Minas em São João Del Rei.  Participei de duas formas: ministrando com a prof.ª Natania Aparecida da Silva Nogueira um minicurso sobre Quadrinhos e Ensino e apresentando uma comunicação sobre a Rosa de Versalhes (Versailles no Bara/ベルサイユのばら) do ST História e Mídias.    Para montar meus slides, retomei a questão que usou o mangá de Riyoko Ikeda como texto motivador na prova de História no Exame Comum de Admissão na Universidade (大学入学共通テスト, Daigaku Nyuugaku Kyoutsuu Test), em 17 de janeiro.  Por conta disso, tropecei em uma entrevista com Ikeda que eu não conhecia e que é uma das melhores que  eu já vi, porque ela traz questões que eu não vi a autora trazendo de forma tão clara.  Inclusive reconhecendo que mangás têm lugar na universidade, porque ela fala contra isso na entrevista que está na edição italiana que eu tenho em casa.  Tenho um post, que já está desatualizado, com entrevistas traduzidas de Riyoko Ikeda.

Ikeda não considera a Rosa de Versalhes sua melhor obra; ela considera Orpheus no Mado (オルフェウスの窓) sua obra-prima.  Agora, parece que, ao mesmo tempo que ela ama a Rosa, ela meio que se ressente deste mangá ter eclipsado outros trabalhos que ela valoriza mais.  E destaco esse trecho: "É verdade que, depois de "A Rosa de Versalhes", recebi uma enxurrada de ofertas para trabalhos históricos, mas me orgulho de ter criado muitas obras que abordam questões sociais. Explorei aspectos crus da natureza humana, desde bombas atômicas e minorias sexuais até bullying escolar e as dificuldades enfrentadas por mulheres de carreira. Não sei se o mangá pode resolver problemas sociais, mas acredito que ele pode, pelo menos, apresentar a existência dessas questões. No entanto, os temas que abordei estavam muito à frente de seu tempo e não foram discutidos na época. Depois, sinto um pouco de tristeza por terem sido soterrados pela sombra de "A Rosa de Versalhes" e esquecidos.".

Enfim, poderia me estender muito na discussão dessa entrevista, mas estou correndo.  Para quem quiser ler o original, link AQUI.  Mantive a estrutura original da entrevista, inclusive com as ilustrações nos lugares em que aparecem na entrevista.  A tradução está abaixo:


A autora de "A Rosa de Versalhes" revela suas lutas passadas e seus sentimentos em relação aos jovens, em conexão com a inclusão de uma questão no Exame Comum de Admissão na Universidade: "Oscar é o meu ideal".

Yurie Otani

Uma questão relacionada a "A Rosa de Versalhes" que apareceu no Exame Comum de Admissão na Universidade (Foto: Departamento de Fotografia e Vídeo, Minako Shinzaki)

Uma questão relacionada ao mangá shojo "A Rosa de Versalhes" apareceu na prova de admissão à universidade para "História Geral e Exploração da História Mundial", realizada em 17 de janeiro, causando grande repercussão. "A Rosa de Versalhes", uma obra-prima atemporal ambientada durante a Revolução Francesa, retrata a vida da Rainha Maria Antonieta e da bela jovem Oscar, que se vestia como homem. A autora, Riyoko Ikeda (78), escreveu em seu blog que ficou "tão comovida que pensei: 'Que bom que estou viva!'" sobre a inclusão da questão na prova. Conversamos novamente com Ikeda-sensei para saber mais sobre seus pensamentos a respeito de "A Rosa de Versalhes" e sua mensagem para os jovens que vivem na atualidade.

— Você sabia de antemão que "A Rosa de Versalhes" seria incluída no Exame Comum de Admissão na Universidade (Common Test)?

Não, havia o risco de vazamento de informações e eu não fui contatada (pelo Centro Nacional de Exames de Admissão ao Ensino Superior). Quando soube pelos jornais, fiquei muito feliz, embora achasse que devia ser extremamente vantajoso para as mulheres. "A Rosa de Versalhes" é publicada em série há mais de 50 anos, desde 1972, e eu já tenho quase 80 anos. As pessoas que fazem o Exame Nacional de Admissão ao Ensino Superior hoje são os netos dos leitores daquela época, então me sinto muito honrada por ter tido essa oportunidade de ser vista pelos jovens.

— A pergunta incluía vários painéis da obra, acompanhados da observação de que "pode-se pensar que as mulheres aristocráticas daquela época eram colocadas em uma posição subordinada a seus pais e maridos patriarcais". Quais foram seus pensamentos ao retratar a situação difícil das mulheres que viviam em uma sociedade dominada por homens?

Antes do casamento, elas estavam sob o controle do pai, e depois do casamento, sob o controle do marido. Eu achava que era uma vida terrível, mas, por se tratar de um fato histórico, retratei-a de forma imparcial, sem envolvimento emocional excessivo.

Questões relacionadas a "A Rosa de Versalhes" que apareceram no Exame de Admissão à Universidade (Parte 1)

Mas o patriarcado persiste no Japão há muito tempo, não apenas durante a era da "Rosa de Versalhes". Eu mesma saí de casa jovem e vivi como quis depois de me casar aos 22 anos, então não acho que me sentisse frequentemente vítima dos homens.

Por outro lado, era doloroso quando eu não conseguia ter filhos e outras mulheres me perguntavam: "Você é mesmo uma mulher?". Sempre que eu abordava questões de criação de filhos ou educação em palestras, as mulheres na plateia quase sempre diziam: "Você não tem o direito de dizer essas coisas, já que não tem filhos". Era uma época em que a ideia de que uma mulher que não podia ter filhos não era uma mulher era considerada normal.

Oscar expressa todos os meus sentimentos.

— Você reflete sobre as dificuldades que enfrentou como mulher em "A Rosa de Versalhes"?

Minha crença na importância da liberdade é perfeitamente expressa pela personagem Oscar. Suas palavras e seu modo de vida são o meu ideal.

Oscar nasceu como a filha caçula de um general francês e, como todas as suas irmãs eram meninas, foi criada como um menino para se tornar a sucessora do pai. No fim, ela é grata ao pai por isso, sentindo que pôde conhecer um mundo mais amplo do que suas irmãs jamais poderiam ter conhecido. Oscar era uma pessoa que constantemente se rebelava contra a época.

Minha intenção com "A Rosa de Versalhes" era ser um mangá infantil, mas recebi muitas cartas de fãs, principalmente de mulheres adultas. Naquela época, as mulheres trabalhadoras eram frequentemente forçadas a uma vida de servir chá e fazer cópias no escritório, casando-se e abandonando seus empregos ao atingirem uma certa idade. Acho que as mulheres que queriam trabalhar duro enfrentavam uma época muito difícil e dolorosa.

Questões relacionadas a "A Rosa de Versalhes" que apareceram no Exame de Admissão à Universidade (Parte 2)

Por isso, tantas mulheres admiravam o estilo de vida livre e forte de Oscar. André, o fiel apoiador e maior confidente de Oscar, também era popular, e eu frequentemente via comentários como: "Eu gostaria de ter alguém como André na minha vida".

No entanto, também houve críticas de que "isso não é historicamente preciso"...

—  A questão do Exame Comum incluía a observação de que "a capacidade de retratar as emoções e os conflitos de pessoas no passado que não foram registrados pode ser a força da ficção". Como alguém que trabalhou em muitas obras históricas, qual a sua opinião sobre essa observação, Ikeda-sensei?

Concordo. No entanto, como se trata de ficção, os pensamentos e ideias do autor também estão presentes, e não necessariamente são fiéis aos fatos históricos. Em relação a "A Rosa de Versalhes", recebi críticas de pessoas instruídas dizendo: "Isso não é historicamente preciso". Claro, isso é natural, já que a própria Oscar é uma personagem fictícia. Respondi: "Não estou escrevendo um livro de história". Espero que os leitores apreciem a ficção como ficção e também estudem os fatos históricos adequadamente.

É verdade que, depois de "A Rosa de Versalhes", recebi uma enxurrada de ofertas para trabalhos históricos, mas me orgulho de ter criado muitas obras que abordam questões sociais. Explorei aspectos crus da natureza humana, desde bombas atômicas e minorias sexuais até bullying escolar e as dificuldades enfrentadas por mulheres de carreira. Não sei se o mangá pode resolver problemas sociais, mas acredito que ele pode, pelo menos, apresentar a existência dessas questões. No entanto, os temas que abordei estavam muito à frente de seu tempo e não foram discutidos na época. Depois, sinto um pouco de tristeza por terem sido soterrados pela sombra de "A Rosa de Versalhes" e esquecidos.

Riyoko Ikeda (Foto cedida por Riyoko Ikeda Production)

Jovens acham "A Rosa de Versalhes" difícil de ler

—  No entanto, "A Rosa de Versalhes" se consolidou como uma obra-prima atemporal, com uma adaptação para filme de animação lançada no ano passado. Qual você acha que é o motivo de ser amada há mais de meio século?

Honestamente, nunca pensei nisso, então não sei. Na época em que estava sendo publicada em formato de folhetim, recebi uma carta que dizia: "Sua mera existência neste mundo é uma aberração. Quero testemunhar sua queda." Cinquenta anos se passaram desde então, então espero que essa pessoa continue viva e veja meu fim (risos).

Contudo, tenho a sensação de que obras históricas como "A Rosa de Versalhes" podem se tornar cada vez mais difíceis de aceitar no futuro. Recentemente, recebi uma carta de uma leitora, por volta da idade do colegial, que escreveu: "Recomendei 'A Rosa de Versalhes' a um amigo, mas ele disse que era muito difícil de ler." Fiquei surpresa. Em primeiro lugar, os nomes dos personagens são difíceis, e entender o contexto histórico também foi um desafio. Talvez estejamos numa época em que obras sérias sejam evitadas, e obras de entretenimento fáceis de entender, como romances cotidianos, estejam ganhando popularidade. É por isso que fico tão feliz que tenha sido incluído nas questões do Exame Comum desta vez. Para todos os jovens, por favor, leiam "A Rosa de Versalhes" pelo menos uma vez. Pode ser útil algum dia, em algum lugar.

(Composição/Departamento Editorial da AERA, Yurie Otani)

Ver perfil da autora Yurie Otani
Nascida em Tóquio em 1995. Formada pela Faculdade de Artes Liberais da Universidade Cristã Internacional. Após iniciar sua carreira como jornalista na sucursal de Mito do Asahi Shimbun, trabalhou nas redações do "Weekly Asahi" e do "AERA". Como jornalista versátil, busca responder às perguntas "por quê?" do seu cotidiano. Ela apresenta o programa de rádio e podcast "AERA no Dabera Radio", disponível no YouTube.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Novo livro sobre Yuri promete discutir o gênero sob uma perspectiva dos estudos feministas e queer

O Yuri é  um gênero aborda  o amor e a amizade entre mulheres.  Não considero que é uma demografia, porque está distribuído em publicações das mais diferentes demografias (shoujo, josei, shounen, seinen etc.) e as revistas e selos especializados são bem restritos.  O interesse por material yuri, que cada vez está  sendo mais referido como GL (Girls Love), é grande, mas sempre desconfio que há uma boa dose de fetiche masculino nesse balaio, ainda que muitas mulheres se sintam felizes de terem algum material lésbico para consumir.  Estabelecido isso, o livro Hajimete no Yuri Studies: Queer/Feminist no Shiten Kara (はじめての百合スタディーズ: クィア/フェミニストの視点から), em português Introdução aos Estudos Yuri: Uma Perspectiva Queer/Feminista, foi escrito por três otaku e se propõe a discutir yuri a partir da perspectiva feminista, lésbica e queer, abordando, também, como o material é recepcionado no Japão e nos Estados Unidos, principalmente.  O livro será lançado em 27 de fevereiro no Japão.

No livro há capítulos escritos por Erica Friedman e Shinada Reika.  Erica Friedman é a responsável pelo site Yuricon e uma das pessoas que mais conhecem yuri nessa internet e fora dela.  Ela publicou um livro sobre a história do gênero; eu tenho em casa.  No site Yuricon, há uma longa descrição do livro, com o sumário e tudo mais.  Está em japonês, então, traduzi e trouxe dois trechinhos para cá: "As definições de yuri, assim como os escritores e leitores, são diversas. Embora animes, mangás, dramas e outras obras que poderiam ser chamadas de "yuri" estejam facilmente disponíveis, o gênero yuri muitas vezes tem sido isolado do público yuri da vida real e dos debates feministas e queer. Este livro aborda a história e a evolução do yuri tanto no Japão quanto no exterior, e reexamina o gênero, que é aberto a todos, a partir da perspectiva daqueles que estão envolvidos." e "Exemplos de Tópicos Abordados Neste Livro: Yuri sem "Lésbicas" / Tendências Atuais em Animes Yuri / Diferenças entre Animes Yuri e Dramas de TV / Igualdade e Diferenças de Poder em BL e Yuri / O Olhar Feminino sobre Mulheres / Combatendo a Supremacia Heterossexual e a Afinidade do Yuri / Masculinidade e Identidade / Representação Transgênero e Yuri / "Yuri" Fora das Revistas Yuri / O Futuro do Gênero Yuri... etc.".

No artigo do Yahoo Japão sobre o livro, temos outros detalhes.  A capa é de Akiko Morishima. Além disso, o sumário está esmiuçado em detalhes.  O livro parece ser bem interessante e em uma perspectiva que me parece acadêmica  mesmo.  Espero que seja lançado nos Estados Unidos.  Há boa possibilidade de que isso aconteça. 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Vestibular japonês traz questão usando a Rosa de Versalhes para discutir Revolução Francesa e Questões de Gênero

Quando a cultura pop aparece em exames vestibulares, seja aqui ou em qualquer lugar, eu fico feliz, se se trata da Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら) ou outra série que eu aprecio muito, a coisa se torna realmente especial.  Muito bem, segundo vários sites japoneses (*Ex.: 1 - 2 - 3 - 4 - 5 - 6*), e estou usando o MSN, uma questão do Exame Comum de Admissão na Universidade (大学入学共通テスト, Daigaku Nyuugaku Kyoutsuu Tesuto), que ocorre no primeiro fim de semana de janeiro após o dia 13,  sobre a Revolução Francesa usou a Rosa de Versalhes e discutiu questões de gênero, também.  A questão foi aplicada ontem e só mostra a importância que a série tem no Japão, mesmo que a própria Ikeda já tenha dito que os mangás não deveriam ter lugar nas universidades.

Segundo o site, uma das cenas citadas foi aquela em que Oscar, filha de um aristocrata, mas criada como menino por seu pai general, pergunta a ele: "Se eu tivesse crescido como uma mulher normal, teria sido casada aos 15 anos?" [Essa é uma das passagens do mangá que eu mais aprecio, quer dizer, toda essa parte em que o pai de Oscar quer casá-la com Gerodelle e ela fica se questionando sobre sua vida até então e vai se aconselhar com sua mãe, que lhe diz as coisas certas.]  A questão também utilizou a famosa cena em que Oscar, que se aliou aos cidadãos durante a Revolução Francesa, lidera o povo para a batalha, gritando: "À Bastilha!!"  A questão perguntava se os alunos conseguiam organizar corretamente essa cena em ordem cronológica com outros eventos relacionados à Revolução Francesa. O enunciado também incluía uma frase sobre a França da época, dizendo: "Acredita-se que as mulheres aristocráticas da época ocupavam uma posição subordinada a seus pais e maridos dentro de uma ordem patriarcal"🤩

Foto da questão do exame.

A questão causou surpresa e foi amplamente comentada nas redes sociais: "Tirei uma nota tão alta graças a 'A Rosa de Versalhes'!!!" e "Eu realmente deveria ter assistido 'A Rosa de Versalhes'".  A matéria diz que o exame de História Geral "também incluiu questões que convidavam os alunos a refletir sobre a história medieval e do início da era moderna a partir de uma perspectiva de gênero.".  

E vou citar o que a matéria diz sobre as questões de História Moderna e Medieval acrescentando links: "Como tópico sobre a relação entre mulheres e política na Idade Média, foi proposta uma questão que exigia que os alunos interpretassem uma passagem do livro histórico "Gukansho", que afirma que "o Japão realmente se tornou um país onde as mulheres deram o toque final à política", referindo-se a Hojo Masako, esposa de Minamoto no Yoritomo, o primeiro xogum do xogunato Kamakura, que ascendeu ao poder após a morte de Yoritomo.  Também foi apresentada Hino Tomiko, esposa de Ashikaga Yoshimasa, o oitavo xogum do xogunato Muromachi. Embora sua avaliação histórica tenha sido tradicionalmente negativa, com seu envolvimento ativo na política e nas atividades financeiras do xogunato sendo visto como o de uma "mulher má", a questão abordou como as pesquisas têm mudado sua perspectiva para uma visão mais positiva. Alguns pesquisadores observaram que "seu envolvimento na política do xogunato ocorreu em um momento em que seu marido, Yoshimasa, havia abandonado os assuntos governamentais, e que suas atividades financeiras foram essenciais para administrar as finanças do xogunato, além de fornecerem apoio econômico àqueles a quem ela emprestava dinheiro".  O tema das mulheres e da política é debatido desde o período Edo, mas a questão abordou a disseminação de valores patriarcais, incluindo o fato de que a frase confucionista "as galinhas se levantam pela manhã", que significa "uma família ou país onde as mulheres assumem a liderança perecerá", apareceu em textos morais e preceitos familiares de samurais no final do século XVII, e que "resumos e traduções japonesas de biografias chinesas de mulheres começaram a ser publicados, e apoiar os homens passou a ser visto como uma virtude para as mulheres"."

Mangá de Fujita Motoko sobre Hino Tomiko.

Achei lindo isso aqui.  Queria saber se essa prova recebeu reações  negativas do povo que odeia mulheres, que nega a sua participação na política ou que acredita que a manutenção da sua subordinação nos espaços público e privado é legítima.  Imagino que elas também tenham pipocado na internet.  De repente, eu procure ver o que outros sites estão dizendo sobre o ocorrido.  E, para quem não sabe, o mangá da Rosa de Versalhes foi publicado no Brasil pela JBC, que deveria ter relançado no ano passado por conta da nova animação.  O volume #1 continua esgotado e outros estão com o preço exorbitante.  Abaixo, o Shoujocast que eu fiz sobre a animação, mas há muito material sobre o mangá aqui no blog e no meu canal do Youtube, também.

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Se você está em São Paulo, não perca a palestra: "A Expansão Internacional do Mangá e os Estudos sobre o Gênero Boy's Love"

A prof.ª Yukari Fujimoto, especialista em shoujo mangá e BL, estará dando uma palestra em São Paulo na semana que vem.  É um evento gratuito e a reserva de ingresso está sendo feita pelo Sympla.  Se eu estivesse em São Paulo, faria o possível para estar lá.  A descrição do evento é a seguinte:

"A EXPANSÃO INTERNACIONAL DO MANGÁ E OS ESTUDOS SOBRE O GÊNERO BOY'S LOVE

Palestra inédita com a Profa. Yukari Fujimoto

Professora do Departamento de Estudos Internacionais Japoneses da Universidade Meiji. Especialista em mangá e teoria de gênero. Nos últimos anos, conduziu pesquisas sobre recepção do mangá e sobre o gêneroe BL (Boy's Love). Escreveu resenhas de mangás para jornais e revistas e participou de diversos comitês e juris de premiações na área, incluindo o Prêmio Cultural Osamu Tezuka.

Nesta palestra, a professora tratará dos seguintes temas:
- A importância dos estudos sobre mangá na Academia
- O panorama do mundo dos mangás
- A influência dos mangás japoneses no mundo dos mangás
E ainda:
- O surgimento e a história do gênero Boy's Love
- Por quê estudamos a BL e seu interesse de pesquisa na área

Realização: Centro de Estudos Nipo-Brasileiros
Correalização: Chá com arte e Comissão de Artes Plásticas do Bunkyo"

domingo, 18 de maio de 2025

Shoujocast responde: shoujo mangá, novela, ficção científica e vida acadêmica.

Meses atrás, abri uma caixinha no Instagram para que vocês enviassem perguntas.  Foram poucas, juntai todas menos uma, que foi respondida em outro programa, e trouxe para cá.  A caixa continua aberta, assim como a área de comentários.  Espero que o programa seja interessante para vocês.  

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Seminário “Quadrinhos e Terceira Idade”, minha apresentação está disponível no Youtube



O Núcleo de Pesquisa em Quadrinhos (NuPeQ), da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), juntamente com a Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial (ASPAS), realizou o evento “Quadrinhos e Terceira Idade” entre 23 a 25 de setembro.  Ele foi on line e eu participei no segundo dia com um trabalho intitulado "Do alívio cômico aos protagonistas inspiradores: discutindo as transformações na representação dos idosos nos quadrinhos japoneses" (slides AQUI).  Não trabalho com o tema, acredito que 90% dos colegas no seminário também, não.  Foi uma proposta bem nova, então, são somente reflexões iniciais.  Nem sei se posso dizer que gostei do que apresentei.  Devo transformar o material em um Shoujocast em breve.

Na minha mesa, além da amiga Natania Nogueira, que tem muita responsabilidade no início dos meus trabalhos acadêmicos com quadrinhos, estavam dois professores que são referência no campo de estudos de arte sequência no Brasil.  O prof. Waldomiro de Castro Santos Vergueiro (USP / Observatório de Histórias em Quadrinhos / ASPAS) e a prof.ª Sonia Maria Bibe Luyten (USP / ASPAS), simplesmente a primeira pessoa do mundo a defender uma tese de doutorado sobre mangá no mundo.  Enfim, coloquei para começar o vídeo na minha fala, mas recomendo assistir completo, claro.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Sonia Luyten, pioneira dos estudos acadêmicos sobre mangá no mundo, recebe comenda do Imperador japonês

Conhecer pessoalmente a prof.ª Sonia Luyten foi uma grande honra para mim.  Sempre sorridente, acessível e empolgada em relação aos mais diversos aspectos da cultura pop japonesa, quem olha para ela, e tem na cabeça a ideia do intelectual na torre de marfim,  não imagina o quão importante esta mulher é para os estudos sobre quadrinhos no Brasil e o quanto ela contribuiu para o desenvolvimento da pesquisa acadêmica sobre mangá.  Luyten foi a primeira pessoa no mundo a defender uma tese de doutorado sobre mangá.  Só isso.  Esta tese se tornou o livro Mangá: o poder dos quadrinhos japoneses, que já teve várias edições.  

Muito bem, a prof.ª Luyten recebeu do imperador do Japão a comenda da Ordem do Sol Nascente com Raios de Ouro e Prata.  Para quem quiser visualizar as várias comendas e seus graus, elas estão aqui.  A cerimônia de entrega das condecorações irá acontecer no próximo dia 26 de julho, em um evento reservado, promovido pelo Consulado Geral do Japão em São Paulo, segundo o site Sushi Pop.

Outros brasileiros que receberão a homenagem são homenageados, como o deputado federal pelo Paraná, Luiz Nishimori (PSD) e Sohaku Raimundo César Bastos, presidente do Instituto Cultural Brasil-Japão, sediado no Rio de Janeiro, entre outras personalidades ligadas à cultura japonesa.  Para a lista completa dos homenageados deste ano com as respectivas comendas, que são dividas em classes, é só clicar aqui.  A listagem está em inglês.




sábado, 11 de novembro de 2023

Romance ou nomance? Adolescentes preferem ver menos sexo, mais amizades, relacionamentos platônicos na tela (Artigo traduzido)

Tropecei em uma matéria em um site brasileiro sobre o relatório Teens & Screens da UCLA (Universidade da Califórnia) e que os adolescentes da Geração Z querem ver menos romance e sexo nas séries, filmes e tudo mais.  Eu de cara lembrei da história do sujeito que propôs criar um comando que permitisse à audiência pular cenas de sexo (desnecessárias).  Mas o fato é que fiquei curiosa e fui atrás da pesquisa.  Cheguei no site da UCLA e decidi traduzir o artigo que estava lá e deixo, também, o link para o relatório completo.  Como não poderia deixar de ser, fiz comentários, eles estão entre colchetes.  E abo logo dizendo que acho que criaram uma confusão ao misturar Geração Z, nascidos a partir de 1995, com adolescentes.  Aliás, o recorte etário dos entrevistados vai dos 10 aos 24 anos.  

Considero muito complicado, se é que foi o caso, submeter uma criança de 10 anos, como minha filha, a mesma entrevista sobre sexo e romance que seria dada aos meus alunos e alunas de 16 anos, mais ainda para alguém de 24 anos.  Vai dar distorção nesse negócio, ou deveria dar, porque ou os mais jovens, que não são adolescentes, mas crianças, estariam maduros demais, ou os mais velhos infantilizados. Ou, de repente, quem assiste, comenta e gosta de coisas como Bridgerton deve ser gente velha como eu. Imagine um mundo cheio de clones de Crepúsculo?!  Enfim, segue o artigo.  Não tinha imagens, não coloquei nenhuma.




Romance ou nomance? Adolescentes preferem ver menos sexo, mais amizades, relacionamentos platônicos na tela

Elizabeth Kivowitz | 25 de outubro de 2023

Principais conclusões
  • 47,5% dos entrevistados com idades entre 13 e 24 anos acham que a maioria dos programas de TV e tramas de filmes não precisam de conteúdo sexual; 51,5% querem ver mais foco em amizades e relacionamentos platônicos.
  • 56% das pessoas entre 10 e 24 anos preferem conteúdo original a franquias e remakes.
  • O dobro de adolescentes prefere lançamentos massivos a episódios semanais.
  • Os adolescentes querem ver vidas como as suas retratadas na tela.
O relatório Teens & Screens deste ano do Center for Scholars & Storytellers, ou CSS, da UCLA, descobriu que os adolescentes - além do grupo demográfico de 18 a 24 anos que os anunciantes normalmente visam atingir - acham que sexo e romance são muito proeminentes em programas de TV e filmes, preferindo ver mais amizades e relacionamentos platônicos. [Um jovem negro de 17 anos da Geórgia disse: “Não gosto [que] toda vez que um personagem masculino e feminino estão juntos na tela, os estúdios sentem a necessidade de fazê-los se apaixonar. Há uma completa falta de relacionamentos platônicos no cinema americano.”  Não discordo dele, trata-se de uma imposição narrativa que já me cansou, mais amizade, menos romance, fariam bem, mas sem retirar o romance e o sexo, porque essa onda conservadora é muito assustadora.  Uma jovem asiática de 23 anos de Nova York falou sobre outro estereótipo de relacionamento: “O cara é um idiota com a mulher, mas ela acaba se apaixonando por ele”.]

Quase metade dos adolescentes entre 13 e 24 anos acha que o romance é usado em demasia na mídia (44,3%) e que o sexo é desnecessário na trama da maioria dos programas de TV e filmes (47,5%). A maioria (51,5%) deseja ver mais conteúdo focado em amizades e relacionamentos platônicos, com 39% buscando mais personagens aromânticos e/ou assexuados (ace/aro) na tela.

“Embora seja verdade que os adolescentes querem menos sexo na TV e no cinema, o que a pesquisa realmente diz é que eles querem mais e diferentes tipos de relacionamentos refletidos na mídia que assistem”, disse a Dra. Yalda T. Uhls, fundadora e diretora. do CSS, coautora do estudo e professora adjunta do departamento de psicologia da UCLA.

Em quarto lugar em uma lista de estereótipos mais odiados pelos adolescentes estavam os tropos românticos, que incluíam histórias sobre como os relacionamentos são necessários para a felicidade, como os protagonistas masculinos e femininos sempre terminam juntos romanticamente e triângulos amorosos. Embora a popularidade de “Crepúsculo” e “Jogos Vorazes” tenha turbinado o tropo do triângulo amoroso, o que antes era uma novidade tornou-se comum, e os adolescentes parecem ter cansado dessas histórias. [Desculpem, mas desde quando triângulos amorosos e romances heteronormativos são invenção do século XXI?!  Em que mundo esse pessoal vive?]

“Sabemos que os jovens sofrem uma epidemia de solidão e procuram modelar a arte que consomem. Embora alguns contadores de histórias usem o sexo e o romance como um atalho para a conexão entre os personagens, é importante para Hollywood reconhecer que os adolescentes querem histórias que reflitam todo o espectro dos relacionamentos”, disse Uhls, acrescentando que estudos recentes mostram que os jovens estão fazendo menos sexo do que seus os pais fizeram na sua idade e muitos preferem permanecer solteiros. [Será que essa rejeição não vem, também de uma infantilização talvez até defensiva? Está cada vez mais difícil para os jovens conseguirem sair da casa dos pais, conseguir um emprego que os sustente.  E não é bem culpa deles, mas da atual fase do capitalismo mesmo.]

O relatório, um retrato anual abrangente da adolescência e da mídia, entrevistou 1.500 pessoas com idades entre 10 e 24 anos (refletindo as idades da adolescência definidas pela Academia Nacional de Ciências) em agosto, com a participação de 100 jovens de cada faixa etária. Os entrevistados refletiram de perto o censo dos EUA de 2020 em raça e gênero. A pesquisa foi apoiada pela coleção de Funders for Adolescent Science Translation. [Crianças de 10-12 anos sendo tratadas como adolescentes e respondendo sobre sexo?  Se perguntassem para a minha menina sobre isso, eu tenho certeza que ela faria coro com essa iddeia de menos sexo, porque, na média, crianças não sabem muito bem o que é sexo, o que é romance e acabam constrangidas se expostas a esse tipo de cena.  E, quando se trata de sexo, nem devem ser.  E nos EUA há classificação indicativa, também, oras!  Que corte etário mais insano, misturar criança com jovem adulto.] 

Nos hábitos de visualização, 50,5% dos adolescentes entrevistados expressaram uma preferência forte ou ligeira por assistir programas compulsivamente de uma só vez [binge watching, é o termo.], enquanto 25,5% preferiram ver episódios semanais.

Os adolescentes também mostraram uma forte preferência por conteúdo original, com 56% escolhendo filmes e programas de TV originais em vez de remakes, franquias ou aqueles baseados em propriedade intelectual pré-existente, como um livro, história em quadrinhos ou história em quadrinhos.

As preferências de mídia dos adolescentes em 2023 tenderam para o familiar. Em 2022, o tema que os adolescentes mais queriam ver na tela era “vidas diferentes das minhas”, mas em 2023 caiu para a 9ª posição e “vidas como as minhas” subiu para a 2ª posição. os super-heróis ainda ficaram em quarto lugar entre os temas que mais desejam assistir.  [E qual foi o primeiro lugar?  Fui no relatório e descobri que é "Conteúdo que transmite esperança e edificante com pessoas superando todas as probabilidades" = histórias de superação.  Acho que isso ainda é efeito da pandemia.  De qualquer forma, não é algo ruim que as pessoas queiram se ver representadas em tela.  E vale para sexo, etnia, religião, orientação sexual, identidade de gênero, agora, o que me preocupa é se as pessoas queiram se ver sempre de forma elogiosa, como se fosse uma celebração, inclusive, de questões que podem e merecem ser criticadas.]

Os adolescentes de hoje escolheram “Homem Branco” como o herói hipotético preferido das suas histórias, enquanto em 2022, “Homem Negro” foi a resposta principal. Este ano, os adolescentes mais velhos (18–24) escolheram “Mulher Negra” como heroína. “Homem Branco” também continua sendo a escolha da maioria dos jovens quando solicitados a escalar o vilão. ["Homem Branco" como herói e vilão preferido da maioria... Chaato!  Ainda segundo a pesquisa, o estereótipo que os respondentes mais odeiam é ver POC (people of color/pessoas de cor), especialmente negros, fazendo papel de vilão.]

“Como membro da Geração Z, não fiquei surpreso com parte do que estamos vendo este ano”, disse Stephanie Rivas-Lara, gerente de engajamento juvenil da CSS e primeira autora do estudo. “Tem havido um amplo discurso entre os jovens sobre o significado da comunidade após a COVID-19 e o isolamento que a acompanha.” [Viu?  Eu escrevi isso sem chegar até essa parte do artigo.]

“Os adolescentes olham para os meios de comunicação social como um 'terceiro lugar' onde podem conectar-se e ter um sentimento de pertencimento - e com manchetes assustadoras sobre alterações climáticas, pandemias e desestabilização global, faz sentido que estejam a gravitar em torno do que é mais familiar nesses espaços, ” disse Rivas-Lara, que é bacharel em psicologia e está fazendo mestrado em serviço social pela UCLA.

Os adolescentes também desejam autenticidade. Este ano, o canal do Sr. Beast no YouTube ficou em primeiro lugar na mídia mais autêntica, seguido por programação episódica e filmes, incluindo “Stranger Things”, “Heartstopper”, “Barbie” e “The Summer I Turned Pretty”. Como a plataforma de mídia mais autêntica, a maioria dos jovens escolheu o TikTok. [Sobre Barbie, cito uma fala da atriz Olivia Rodrigo que a Variety transcreveu na matéria sobre o estudo: “Eu não tenho o desejo de. Lembro-me de sair de ‘Barbie’ e pensar: ‘Uau, faz muito tempo que não vejo um filme centrado na mulher de uma forma que não seja sexualizada ou sobre suas dores ou o fato dela ser traumatizada’”.]

sábado, 28 de outubro de 2023

27/10/23 - V Encontro de Animê, Mangá, Ficção Científica e Cultura Pop no Ensino

Para quem quiser assistir a minha participação no V Encontro de Animê, Mangá, Ficção Científica e Cultura Pop no Ensino, ela está on line.  Não falei de shoujo, nem de josei, especificamente, a fala é sobre ciência nos mangás e como isso poderia ser explorado em sala de aula.  O evento é do @amsecpop

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Sexualidades são construções históricas e a gente precisa sempre reforçar isso


Se você caiu aqui de paraquedas, saiba que eu sou historiadora de formação, com graduação, mestrado e doutorado na área.  Sou medievalista aposentada, por assim dizer e especialista em Estudos Feministas e de Gênero.  Obviamente, nada disso me impediria de escrever e falar groselhas, mas acho que eu sou uma profissional relativamente responsável. Vamos falar de História, então!  Saiu uma matéria no jornal O Globo chamado “Seios e pênis grandes eram objeto de ridículo na Roma Antiga, diz historiadora espanhola” e decidi comentá-la.

O livro “Cunnus: Sexo y poder en Roma”, da historiadora  Patricia González Gutiérrez, saiu este ano, é novinho, portanto.  A matéria destaca o desinteresse dos romanos pelos seios das mulheres, ainda que não pontue que na própria imagem escolhida para ilustrá-lo tenha uma mulher com os seios cobertos, algo comum em afrescos e mosaicos de mulheres reais produzidos por esta civilização; informa que a mulher por cima era algo anormal aos olhos dos romanos e que a prostituta da imagem (*descoberta em Pompéia*) deveria receber mais para estar nessa posição; e pontua a aversão dos romanos pelo sexo oral.


Parece novidade, mas boa parte das informações da matéria sobre o livro  já eram acessíveis na minha época de universidade, ou seja, uns trinta anos atrás, porque meu primeiro contato com os textos sobre o assunto datam da época que eu estava fazendo Antiga I e as optativas de Grécia.  “Nos Submundos da Antiguidade”, da Catherine Salles, e o capítulo assinado pelo Foucault, primeira coisa que li dele, sobre Roma no livro “Sexualidades Ocidentais”, já nos trazem discussões sobre isso.  “Sexualidades Ocidentais” já era um livro antigo em nossa língua, ou a galera pegava muito o exemplar na biblioteca, lá em 1994. Eu tenho um exemplar dele e do livro da Salles em casa.  Além disso, essa história dos romanos não se interessarem por seios está em um livro comemorativo da história do sutiã, não é um material acadêmico, vejam só, foi  feito (acho) por encomenda da Duloren, chamado "Sutiãs E Espartilhos - Uma Historia De Sedução"

Não sei o que o livro mais recente traz de novo, nem o índice está disponível no Amazon, mas gostaria de dar uma olhada nele.  É importante pontuar que práticas sexuais são culturais e a gente só sabe o que não era a norma, porque havia quem a transgredia.  Exemplo, sexo oral era visto como algo indigno se praticado por um homem livre em um parceiro ou parceira, ou que fosse algo pedido a uma esposa, PORÉM, não havia lá grande problema se este mesmo homem livre recebesse de um escravo, ou uma prostituta, ou um prisioneiro de guerra.  A ideia era de dominação, se impor sobre o outro. Sexo não era visto como troca, mas como exercício de poder.


Como os romanos adoravam atacar seus oponentes, há historinhas que ficaram para a eternidade acusando adversários, ou suas esposas de práticas sexuais desviantes.  O problema é quando as pessoas ignoram a perfídia e a difamação e tomam como verdade.  Aliás, o filme A Favorita, que não é sobre Roma, se constrói todo em cima de uma difamação tomada como verdade pelos roteiristas e diretor.  

No fim das contas, o que está na mesa, ou na cama, não é o que se faz entre quatro paredes, mas quem está na posição de domínio e, o que é mais importante, se a coisa se torna PÚBLICA.  No sigilo, ninguém tinha nada a ver com isso.  Parece um pouco com nossos dias, não é?  A imagem pública do romano, especialmente os de boa família, era muito importante para ele mesmo e para o clã.  Estamos falando de papéis de gênero (*expectativas de comportamento masculino e feminino em uma dada sociedade*), mas, também, de poder econômico e político.


De resto, houve mudanças com a introdução do cristianismo, mas mesmo nos discursos medievais, o que continuava em jogo era a mesma ideia, quem faz o que com quem, quem está em posição de domínio.  Tanto que as penitências eram diferenciadas a partir das práticas e dos sujeitos envolvidos.  E recomendo o livro “Sexuality in Medieval Europe: Doing Unto Others”, da historiadora  Ruth Mazo Karras.  Deve ter em *.pdf por aí, aliás, os outros dois que eu citei, são fáceis de achar em português para baixar na internet.  

De qualquer forma, destacar que o exercício da sexualidade é histórico e, não, natural, parece ser importante em um momento como o nosso, afinal, vivemos um embate público entre grupos que querem naturalizar comportamentos, gostos, desigualdades roubando-lhes a sua historicidade.  Vamos torcer para que o livro da espanhola saia em português.  Só há versão Kindle no Amazon e está bem em conta, eu diria.

domingo, 23 de abril de 2023

O Shoujocast voltou! Conversa com Natania Nogueira: Pesquisa com HQs, Quadrinhos não são literatura, Maurício na ABL etc.

Finalmente, o Shoujocast voltou! E, neste primeiro episódio oficial do ano, vamos conversar com a professora e pesquisadora Natania Nogueira. Ela fez mestrado sobre mulheres nos quadrinhos norte americanos nos anos 1940 e seu doutorado sobre a subversiva revista feminina Ah! Nana. Além disso, falaremos da candidatura de #MauríciodeSousa para a #ABL (Academia Brasileira de Letras) e a história de quadrinhos serem, ou não, literatura. (Infelizmente, não sei se dará para fazer um índice, porque ficou muito misturada a nossa conversa.)

"Quadrinhos são Literatura": Meus Dois Centavos sobre a discussão e a importância (ou não) a ABL

Está rolando faz alguns dias, uma discussão curiosa sobre se quadrinhos são literatura, vejam bem, não se eles têm valor literário, pois uma parte considerável as HQs possuem texto, ou podem ser lidas como um texto, na mesma medida que qualquer fonte imagética (cinema, quadrinhos, propaganda, ilustração, pintura etc.) ou material (roupas, objetos o cotidiano, esculturas etc.) pode ser analisada como um texto, mas naquele sentido mais obtuso e elitista mesmo.  Se é popular, se pode ser visto como infantil, é inferior, indigno.  Fora, claro, a acusação, comum, principalmente a partir dos anos 1950, de que seria material pernicioso para a juventude, enfim... 

E quem levantou a discussão?  James Akel em sua entrevista para a Revista Veja.  Ele é um dos candidatos à cadeira nº 8 da Academia Brasileira de Letras, a que tem como patrono  Cláudio Manoel da Costa e que ficou vaga com a morte da Prof.ª  Cleonice Berardinelli. Aqui, a feminista vai fazer uma pausa para um ou dois comentários, espero que compreendam o desvio.  Com tão poucas mulheres na ABL, com a tradição  misógina da academia, me causa certa agonia ver que só temos candidatos homens (Maurício de Sousa, James Akel e Ricardo Cavaliere) para a cadeira deixada vaga por uma das dez mulheres eleitas até hoje para a Academia Brasileira de Letras.  

Alguém poderá reclamar dizendo que Heloísa Buarque de Hollanda, acadêmica feminista, a primeira da ABL, foi eleita esta semana para a cadeira 30, deixada vaga com a morte de Nélida Piñon.  Sim, verdade, mas ela é somente a DÉCIMA ELEITA, e foi uma mulher substituindo outra mulher.  Seria justo substituir uma mulher por outra mulher, não acham?  Daí, algum cretino poderia vir comentar escrevendo que mulheres só começaram a se destacar na literatura e em áreas acadêmicas afins muito recentemente.  

Não, você está errado/a, simplesmente houve um grande esforço em invisibilizar a escrita feminina, muitas mulheres escritoras tiveram que se esconder atrás de pseudônimos, por exemplo, porque o que era adequado para um homem em um dado tempo e sociedade (*papéis de gênero é o que chamamos*), poderia não ser para uma mulher.  E, claro, houve um esforço ativo em excluí-las, desestimulá-las.  Há um livro chamado "How to Suppress Women's Writing", que discute muito bem a questão.  O link é do Amazon, mas vocês acham fácil o pdf, para quem quiser procurar.  

Falando nisso, há um vídeo do canal literário Ler Antes de Morrer sobre Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), importante escritora em sua época, um dos idealizadores da mesma ABL, fundada em 1897, mas que não pode receber uma cadeira.  Motivo?  Simples, ela era mulher.  Deram o espaço para seu marido, um poeta português de menor importância para a literatura, mas devidamente habilitado, porque tinha pênis.  Mais infame ainda é ver que Júlia Lopes de Almeida até hoje não consta nos cânones literários escolares.  Aliás, quais as mulheres que aparecem?  No meu tempo de escola, tínhamos Rachel de Queiróz (1910-2003), que foi a primeira mulher na ABL, isso somente em 1979, e Cecília Meireles (1901-1964).  

Hoje, Maria Firmina dos Reis (1822-1917) é lembrada, meus alunos e alunas precisam ler Úrsula, porque está no programa da UnB, mas ainda entra como exceção, e dupla, mulher e negra.  E vocês sabem como é gostoso falar de exceções, não é mesmo?  Elas confirmam a regra, o status quo masculino, mas quando a gente começa a discutir as políticas de exclusão, a coisa fica doída, porque é preciso apontar como ativamente mulheres e outras minorias políticas (negros, indígenas, LGBTQIA+ etc.) ficaram de fora dos livros didáticos e dos espaços de prestígio, pois há muito hominho que se ressente e muita gente desses grupos que endossa o discurso dos privilegiados para continuar recebendo as migalhas da mesa dos senhores.  Sim, estou meio inflamada, reconheço, e estou pouco ligando.

E eu sei que está ficando longo, preparem-se, mas não terminou aí, não. A primeira mulher a se candidatar a uma vaga na ABL foi Amélia Beviláqua (1860-1946), esposa do jurista e membro fundador da agremiação, Clóvis Beviláqua, em 1930.  Amélia Beviláquia advogada, escritora, jornalista e pioneira na luta pelos direitos das mulheres no Brasil.  Só isso. Ela não foi aceita (*óbvio*) e os homens da ABL tiveram que admitir que o "brasileiro" no Artigo 2 do regimento ("Só podem ser membros efetivos da Academia os brasileiros que tenham, em qualquer dos gêneros de literatura, publicado obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livro de valor literário.") não era o tal "universal masculino", era masculino mesmo, a mulher, como bem desenvolveu Simone de Beauvoir em seus escritos, é sempre "o outro", neste caso, não contido no universal masculino, nem autorizado  a estar nos espaços e prestígio.

E Michele Asmar Fanini nos informa no seu artigo "As mulheres e a Academia Brasileira de Letras" que chegaram a reformar o estatuto em 1951 para deixar isso claro "(...) os membros efetivos serão eleitos, nas condições do art. 2.º dos Estatutos, dentre os brasileiros, do sexo masculino, que tenham publicado, em qualquer gênero de literatura, obra de reconhecido mérito, ou, fora desses gêneros, livros de valor literário".  A misoginia, que é uma estratégia de manutenção de espaços de prestígio e/ou poder, sincera é sempre melhor que a hipocrisia, eu diria.

Mas passemos, agora, para o chorume, porque é disso que se trata a entrevista do Sr. Akel.  Maurício de Souza se candidatou a uma vaga na ABL.  Pelo que entendi, sua candidatura pode ser lançada por você mesmo, ou por outros, Maurício foi lá e colocou seu nome no jogo.  afirmou que 'quadrinhos são literatura pura' em sua carta e candidatura.  Segundo Akel, isso o teria meio que obrigado a lançar sua candidatura.  Meus dois centavos?  Ele, um homem da TV, ele o afirma na sua entrevista, foi ator mirim e trabalhou em emissoras como Record, Band e SBT ("Venho da área da televisão. Todas as emissoras do país não chegam nem perto da TV Globo, mas isso não as impede de disputar a audiência.  Já tive várias vitórias improváveis na minha carreira, essa pode ser mais uma."), ele deseja se promover em cima de alguém maior, sabe que isso costuma colar nos nossos dias.

A partir daí, ela usa de critérios equivocados para desqualificar os quadrinhos: "Na Justiça, a toga do juiz é parte da liturgia do cargo. Ninguém tira. Da mesma forma, a letra no papel é a liturgia da literatura. Histórias em quadrinhos estão no campo do entretenimento, não da educação, como ele defende. No dia em que acabarem os livros, acabou a literatura. A ABL não pode perder sua essência." Bem, começando com a história o juiz, não é a roupa que faz o magistrado, na verdade, ele só pode usar toga exatamente por ser juiz, não o inverso.  Por isso, se um Gilmar Mendes estiver de calções e camisa com estampa havaiana na praia, ele ainda será juiz, tanto quanto eu serei professora da instituição na qual sou concursada.  Quadrinhos são entretenimento, tanto quanto o pode ser a literatura, salvo se a gente começar a discriminar, o que é bem elitista e arcaico, a literatura de verdade, um Machado de Assis, por exemplo, de uma que não seria, como Senhor dos Anéis.

Como meu queridíssimo professor de literatura da 3º ano, Sérgio Fonseca, não cansava de dizer, o que hoje (*lá nos anos 1990*) é alta literatura, foi lançado como folhetim.  Você lia e podia jogar fora.  Muitos dos grandes clássicos do século XIX saíam em fascículos em jornais e revistas para públicos variados.  E era entretenimento, também.  Quanto ao valor educativo, quadrinhos estimulam o gosto pela leitura e auxiliam na alfabetização de crianças, seja, aqui, no Brasil, ou em outros países, como o México, que condecorou Yolanda Vargas Dulché por ter impulsionado a alfabetização no país nos anos 1940 e 1950 com sua personagem Memín Pinguín.  Prometo fazer um post sobre essa mulher, porque ela merece.

Mas se o Sr. Akel tivesse lido o estatuto da ABL, o artigo 2º que eu citei, veria que está lá, com todas as letras, que o candidato precisa ter pelo menos um "livro de valor literário".  E Maurício tem, inclusive livro mesmo, ilustrado e em colaboração com gente de diversas áreas acadêmicas.  Cito um bem recente em que ele trabalhou junto com a grane historiadora Mary Del Priore sobre os duzentos anos da independência do Brasil.  Fora isso, um dos objetivos da ABL é promover a língua portuguesa, algo que os quadrinhos de Maurício de Sousa fazem bem.  

Mas James Akel, que defende um modelo tão fechado de literatura, produziu o quê mesmo?  Cito a entrevista: "Sua grande contribuição à literatura, nos moldes que o senhor defende, foi um livro sobre marketing no setor hoteleiro. Não é pouco para se tornar imortal?" "JA: Meu livro foi muito elogiado e adotado em vários cursos de turismo, inclusive na USP. Além dele, tenho três peças de teatro escritas. (...)".  Vi o povo o design criticando a capa o livro, não irei nessa seara.  Tentei encontrar as três peças ele, na Wikipedia só há duas - República das Calcinhas (2014) e Democracia Sem Vergonha (2015) - a outra peça citada é dirigida e produzida por ele, mas assinada por outro.  

Tentei achar informações sobre suas peças, vi até alguma coisa sobre República das Calcinhas na rede, mas nenhuma linha sobre a qualidade da peça, todas as notas giravam em torno da estreia de Andressa Urach, antes de sua quase morte e fase evangélica, quando ela ainda insistia que tivera um affair com o jogador Cristiano Ronaldo, como atriz.  E é só isso e Akel entende de marketing.  Ele é comentarista político, também, bolsonarista, diga-se de passagem, e já saiu em defesa da Ditadura Militar e da tortura.  E cito uma parte da matéria que linkei na frase anterior:

"O ataque a Mauricio de Sousa deu notoriedade a James Akel. É uma tática comum do bolsonarismo e da nova direita: elege-se um alvo mais ou menos unânime (vacinas, urnas eletrônicas, a "Turma da Mônica") e, a partir de declarações estridentes e agressivas, ou às vezes apenas absurdas, um candidato obscuro de repente se vê dando entrevistas e sendo assunto nas redes sociais."

Sinceramente?  Preferia não saber nada sobre este senhor.  Na mesma entrevista, como não poderia deixar de ser, ele ataca Gilberto Gil e Fernanda Montenegro.  Gil é letrista de grande valor e tem publicados pelo menos quatro livros; Fernanda Montenegro é autora somente de sua autobiografia, mas prestou grande serviço à promoção da nossa língua com sua carreira brilhante, mas cito a entrevista: 

"Não tem medo de se manchar com uma campanha tão polêmica?" "JA: Se estivesse disputando com qualquer um — Fernanda e Gil inclusos —, diria a mesma coisa: tenho mais a agregar à ABL. Pode ser que a maioria dos membros diga que eu não estou correto e não vote em mim. Tudo bem, já trouxe o questionamento para a pauta. Isso era necessário."

Bem, se Maurício de Sousa não merece só elogios, e o Alexandre Link discute isso muito bem no final de seu segundo vídeo sobre essa confusão, ele agrega muitíssimo mais à ABL do que o Sr. Akel.  E ele afirmou que sua “candidatura à ABL é para reunir esforços com todos os acadêmicos em levar a importância desta entidade secular para que crianças e jovens conheçam mais a nossa literatura e grandes autores que por lá estão e já estiveram”.  

E, sim, ele pode ajudar a promover a ABL e a língua portuguesa, além disso, não se trata de transformar quadrinhos em literatura, mas reconhecer sua função social, seu valor literário, e que quadrinistas merecem ter seu valor reconhecido.  Países como o Japão e a França, condecoram seus artistas e poderíamos copiar essas nações neste aspecto.  Aliás, os franceses homenageiam os seus quadrinistas e os dos outros, há vários posts sobre isso no Shoujo Café.  Maurício de Sousa, sua marca, sua empresa, as personagens icônicas que criou, ajudam a divulgar o Brasil, nossa cultura e nossa língua, aqui, e em vários países.  Espero que seja eleito e que a ABL possa se tornar um espaço melhor e, não, pior.

P.S.: Minha tecla "d" está travando.  Se, por acaso, ficar faltando esta letra em alguma palavra, por favor, me avisem, porque posso ter deixado passar.