Na terça-feira, 10 de julho, foi comunicado o falecimento de Benedito Ruy Barbosa. Comentei no Shoujocast, mas acabei não concluindo um post, porque esta semana praticamente não publiquei nada; o trabalho estava me sugando. Benedito Ruy Barbosa faleceu aos 95 anos; assim como no caso de Manoel Carlos, que também partiu este ano, não foi bem uma surpresa. Sua saúde estava em declínio, o que sinalizava que ele talvez não tivesse mais muito tempo por aqui. Já há vários anos, ele contava com o apoio de membros da família para escrever suas novelas; primeiro, as filhas Edmara e Edilene, mais tarde, o neto Bruno Luperi.
Benedito Ruy Barbosa estreou na teledramaturgia em 1966 com Somos Todos Irmãos, na TV Tupi. Nascido em uma cidade paulista chamada Gália, ele era um especialista em vida no campo e em imigração, temas recorrentes em suas tramas. Sua estreia na Globo foi com Meu Pedacinho de Chão (1971), que tinha caráter didático-pedagógico. Sua carreira na emissora foi interrompida por um incidente que eu considero uma demonstração e tanto de caráter. O novelista Lauro César Muniz foi demitido da emissora, porque sua novela, Os Gigantes, era um fracasso de público e crítica, além de tocar em temas muito sensíveis e que não foram muito bem digeridos à época e não seriam hoje, com certeza. Boni, diretor artístico da Globo na época, acabou se vendo forçado a demitir o autor da novela e Benedito Ruy Barbosa foi convocado para terminar a trama do colega. Ele se recusou e acabou pedindo sua demissão em solidariedade a Muniz e por estar magoado, afinal, a Globo não aceitara produzir sua grande saga sobre a imigração para São Paulo: Os Imigrantes. Ele e Muniz foram para a Bandeirantes.
Os Imigrantes (1981) foi um sucesso e acompanhou três gerações de gente das mesmas famílias. Infelizmente, nunca consegui assistir essa novela inteira, ou pelo menos a primeira e a segunda fases, que são consideradas as melhores. Benedito Ruy Barbosa tentou reeditar a ideia em Esperança (2002), mas a Globo não deixou. Aliás, como a emissora não aprendeu nada, ela se negou a produzir Pantanal. Seu Benedito pegou seu projeto e foi para a Manchete e Pantanal acabou com a audiência da Globo em 1990. Virou um fenômeno. Trinta e dois anos depois, a Globo produziu um remake de Pantanal. Aliás, imagino que Benedito Ruy Barbosa deve ser o autor com o maior número de remakes de suas novelas. Foram seis até o momento: Cabocla (2004), Sinhá Moça (2006), Paraíso (2009), Meu Pedacinho de Chão (2014), Pantanal (2022) e Renascer (2024).
Não sou fã de Benedito Ruy Barbosa; seu patriarcalismo e a forma como ele reabilita e celebra os grandes senhores de terra são bem enervantes. Fora isso, ele reciclava pedaços de suas novelas o tempo inteiro. Fragmentos grandes de tramas de Os Imigrantes foram reciclados em Terra Nostra (1999), por exemplo. Todos os seus coronéis eram "José", ou quase todos, e sempre tinham um diabinho na garrafa. Havia a fixação pelo filho "macho", mesmo quando, no caso do livro Sinhá Moça, a mocinha tinha uma filha no final da trama e não um filho no original. E houve o fetiche da virgindade da professorinha em Renascer... Argh!
A novela mais antiga de Benedito Ruy Barbosa da qual me recordo é Paraíso (1982), que eu gostava bastante. Já Sinhá Moça (1986) é uma das minhas novelas favoritas e a considero bem superior ao remake. E reconheço o mérito do autor, porque ele pegou um livro fraco e transformou em uma grande novela, cheia dos problemas de sempre, além de outros, porque ele tinha que falar de escravidão. Queria poder rever Vida Nova (1988). Na época em que foi exibida, achava a novela chata, mas, quando estava no 3º Ano, meu professor de História Geral elogiou tanto a trama, como ela abordava bem a questão da imigração (*inclusive de nordestinos para São Paulo*), que eu tenho curiosidade em olhá-la de novo desde então, só que duvido que ela seja disponibilizada, porque foi o trágico último trabalho de Lauro Corona.
Agora, Pantanal e Renascer (1993), que teve uma primeira fase brilhante, me torturaram muito. Mamãe me fazia sentar na sala e assistir, porque era programa familiar obrigatório. Graças a essas duas novelas, me tornei muito crítica das obras do autor e atenta às suas temáticas e clichês, mas sou grata, porque ele me apresentou o Almir Satter. 😉Apesar do visual, considero o remake de Meu Pedacinho de Chão insuportável. A primeira fase de Velho Chico (2016), sua última novela, foi outro espetáculo à parte, mesmo com os vícios de sempre. A BBC fez uma matéria interessante sobre como Benedito Ruy Barbosa usou sua novela para discutir temas relevantes, como a intersexualidade e a, reforma agrária. E, sim, ele fez isso, do jeito dele, com problemas, mas corajosamente foi lá e fez. E como os autores que começaram a escrever suas tramas durante a Ditadura Civil-Militar eram mais competentes que os de hoje e como a TV, mesmo com suas limitações, era mais corajosa, também. Imagino mesmo que a Globo force um remake de O Rei do Gado (1996), que é a tal trama que tem nos sem-terra um dos seus núcleos mais importantes.
Enfim, eu tenho vários textos comentando tramas de Benedito Ruy Barbosa ou falando dele de alguma forma, espero ter listado todos aqui, porque são muitos, nem imaginava que eram tantos:
- Comentando “A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo” (2010)
- Comentando os Primeiros Capítulos de Meu Pedacinho de Chão (2014)
- Novelando: Algumas considerações sobre o que está, ou estava no ar (2014)
- Comentando os dois primeiros capítulos de Velho Chico (2016)
- Mais algumas palavras sobre Velho Chico ou Como Destruir uma Personagem interessante em uma cena (2016)
- Comentando o livro "Novela: A Obra Aberta e seus Problemas" (2016)
- Novelando: Hoje reestreia Sinhá Moça (2018)
- Novelando com muito Atraso: Comentando Sinhá Moça (1986) (2018)
- Comentando Sinhá Moça pela última vez e mais umas palavrinhas sobre algumas tramas atuais (2018)
- O Brasil em capítulos: Como as novelas e minisséries contam a história do Brasil (2019)
- Comentando o filme Sinhá Moça (Brasil, 1953): Antes Tarde do Que Nunca (2019)
- Confirmado o Remake de Pantanal em 2021, só não sei se vai ter Pantanal para as filmagens (2020)
- Comentando 70 Anos esta Noite: Um breve tributo a sete décadas de telenovelas ou às produções da Globo? (2021)
- Comentando rapidamente o primeiro capítulo do remake de Renascer (2024)
- Comentando a Primeira Fase de Renascer: Definitivamente, é uma nova novela e vai muito bem até o momento (2024)















































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