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domingo, 30 de outubro de 2011

Biografia em desenho mostra como o mangá ficou adulto



Não concordo com o título, tampouco com algumas reflexões do autor. As temáticas dos mangás, algumas delas, pelo menos, sempre foram consideradas adultas ou não tão infanto-juvenis, especialmente quando comparadas com o quadrinho americano de massa pós-comic code. Mas, enfim, quem estiver em São Paulo pode assistir Tatsumi e eu vou procurar para dar uma olhadinha, também. A matéria saiu na Folha de São Paulo de hoje.

Biografia em desenho mostra como o mangá ficou adulto

DE SÃO PAULO


Quem não frequenta lojinhas no bairro paulistano da Liberdade em busca de mangás provavelmente não sabe o que é gekiga ou quem é Yoshihiro Tatsumi. Um belo filme de animação responde.

"Tatsumi", dirigido por Eric Khoo, é uma transposição para a tela do gekiga, um termo japonês que define mangás de temática adulta. Em japonês, gekiga quer dizer "figuras dramáticas". O gênero foi criado por Tatsumi na década de 1950. Ele mirava um público mais velho que os adolescentes que devoraram os mangás da época. Fez sucesso e depois muitos desenhistas o seguiram.

O filme é quase uma biografia de Tatsumi, mas pouco convencional. É baseado em seu livro de memórias e traz cinco narrativas passadas no Japão do pós-Guerra. Como todo gekiga que se preze, tem drama, violência e questionamentos morais. Não é exagero dizer que Tatsumi fez para o mangá o que o americano Will Eisner fez para os quadrinhos, trazendo ao gênero densidade psicológica e realismo.

Eisner chamou suas histórias humanas de "graphic novels", numa clara tentativa de ressaltar que não eram gibis comuns para a garotada. Assim aconteceu com o gekiga, mas atualmente os estilos de mangá absorveram muito dessa cartilha e a diferenciação perdeu o sentido. Para quem não se interessa pela arqueologia do mangá, "Tatsumi" pode ser visto como um desenho adulto bem legal. (THALES DE MENEZES)

TATSUMI
DIREÇÃO Eric Khoo
PRODUÇÃO Cingapura
QUANDO hoje, às 15h, no Olido
CLASSIFICAÇÃO 14 anos
AVALIAÇÃO bom

sábado, 6 de agosto de 2011

The Borgias estréia amanhã no Brasil! YESSS!!!



Ainda estou devendo a resenha, ou resenhas, da série The Borgias. Só que amanhã ela estréia aqui no Brasil e não poderia deixar de repassar essa matéria da Folha. Quem não assistiu ainda e tem o excelente canal TCM, não perca! The Borgias é uma das melhores coisas que já vi na TV. Todo elenco está bem afinado, o Jeremy Irons dá um show de interpretação e de sexy appeal (*O que foi aquela aula de geopolítica usando o corpo da Giulia Farnese?*). O menino que faz o Cesare, François Arnaud, fica só um pouco atrás do mestre. E as mulheres, Lucrezia Borgia (Holliday Grainger) e a Giulia Farnese (Lotte Verbeek), não estão lá somente para enfeitar, embora sejam lindíssimas as duas. E o “vilão”? Usar vilão é esquisito, já que Rodrigão não presta, mas a gente torce por ele, então o vilão é o Cardeal Giuliano Della Rovere – futuro Júlio II (*que não prestava, também*) – é um espetáculo, também. Fora isso, tem a abientação, o figurino... Mas pode deixar, mais cedo ou mais tarde eu faço a resenha dessa série maravilhosa. Segue a matéria da Folha, que, claro, não cita nenhum mangá (*mas eu falo, veja esse post aqui*), mas falha daquele nojo que é a quadrinização do Jodorowsky e Manara, que é só escatologia e reprodução daquilo que de pior (*os inimigos*) disseram dos Borgia. Enfim, se puder, assistam a minissérie. ^__^

"Os Bórgias" põe mafioso de batina para ser papa

Criada pelo cineasta Neil Jordan, série tem Jeremy Irons no papel principal

Seriado estreia primeira temporada amanhã e já tem uma segunda leva de episódios encomendada

VITOR MORENO
DE SÃO PAULO


Os Bórgias blasfemam, trapaceiam, matam e até cobiçam a mulher do próximo. Em suma, pecam tanto quanto o resto dos mortais. O que os diferencia é que fazem isso no seio do Vaticano. Trata-se da família do papa. A série que leva o nome do clã começa com a morte do papa Inocêncio VIII, em 1492. Como manda a liturgia, o colégio de cardeais se reúne para escolher seu sucessor. É aí que Rodrigo Borgia (Jeremy Irons, vencedor do Oscar por "O Reverso da Fortuna", de 1990) começa a botar as manguinhas de fora. Sem um favorito absoluto no páreo, ele faz conchavos e compra votos até virar o papa Alexandre VI.

Ao cardeal Ascanio Sforza, por exemplo, promete o cargo de vice-chanceler. "Qualquer coisa que você veja no seriado, não é nem metade do que já ocorreu dentro dos muros do Vaticano", diz por telefone à Folha Peter Sullivan, que vive o personagem. "Tentei não ter preconceito com a forma que eles tinham de pensar, porque é como se via o mundo naquela época", afirmou. "Atualmente os cardeais são mais espertos para disfarçar as coisas que eles aprontam, mas alguns não são tão diferentes dos de antigamente."

LAÇOS DE FAMÍLIA

Espécie de "Poderoso Chefão" de batina, Rodrigo também comanda com mão de ferro sua família pouco convencional. Transitam ao seu redor a ex-companheira, uma amante e quatro filhos. Todos, em um momento ou outro da primeira temporada, são usados para promover alianças, combater inimigos ou trazer algum tipo de benefício ao sumo-pontífice.

Por mais ficção que pareça nos dias de hoje, a história é baseada – livremente – em fatos reais. A família, que realmente existiu, já inspirou outras obras ao longo dos anos, como uma recente série de HQs de Alejandro Jodorowsky e Milo Manara. A nova versão televisiva rendeu bons índices de audiência nos Estados Unidos e indicação a três Prêmios Emmy, incluindo melhor direção para o criador da série, o cineasta Neil Jordan (ganhador do Oscar de roteiro original por "Traídos pelo Desejo", de 1992). A segunda temporada está garantida.

NA TV Os Bórgias Estreia da série QUANDO amanhã, às 22h, no TCM CLASSIFICAÇÃO não informada

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Colin Firth ganha matéria no Correio Braziliense



Por conta do Discurso do Rei e da possibilidade concreta do Oscar, o Correio Braziliense veio com uma matéria sobre o Colin Firth. No geral, ela está OK, mas há um problema que começa pelo título. Firth não é coadjuvante na maioria dos seus filmes, talvez, isso possa ser até verdade para produções de grande destaque internacional, como Shakespeare Apaixonado, mas não dentro do cinema inglês. Eu não preciso nem forçar a memória para começar a enfileirar os filmes de Another Country, passando por Valmont, Febre de Bola, Trauma, A Hora do Porco, A Última Legião, mesmo A Verdade Nua e Moça com Brinco de Pérola. Fora coisas para a TV, como Orgulho & Preconceito, claro, porque sem essa série não haveria Bridget Jones... nem o livro. E ele fez algumas comediotas americanas menores, como o sofrível Hope Springs, mas eterno coadjuvante não procede. E, bem, todos os atores e atrizes fazem coadjuvantes, ou, não? Mas agora a grande imprensa parece ter descoberto o Colin Firth.

A matéria não está completa, ela só está disponível na íntegra para assinantes. Eu sou assinante, mas é aquela versão horrorozinha digital que você não pode copiar, nem baixar. A segunda parte da matéria se chama “Majestade”. Lá eles reforçam a história do “eterno coadjuvante”; falam que ele agora está se envolvendo em produções mais comerciais, como Dorian Gray; dizem que este filme de 2009 está para estrear no Brasil (*Really?! E Ágora?!*); falam da Livia, a esposa italiana do Firth. E diz ainda que ele é “devoto da cartilha de Jane Austen e Shakespeare”. Olha, quem já leu as entrevistas dele, inclusive eu tenho a da edição de aniversário de Orgulho & Preconceito (1995) sabe que ele não era leitor de Austen. Ele é até solta que sempre achou que era “livro de mulherzinha”. Mas, enfim, há uma única fala direta dele é a seguinte “Meu instinto primário como ator não é a grande transformação. É emocionante quando um ator consegue fazer isso, mas eu não consigo.”. Ou seja, ninguém espere que ele emagreça 20 quilos ou algo do gênero para um papel... E nem precisa, né? Segue a matéria.
Colin Firth deixa para trás o passado de coadjuvante e briga pelo Oscar


Tiago Faria

A uma semana do Oscar, a lista de favoritos à premiação mais tradicional de Hollywood ainda desperta um punhado de dúvidas. Em tese, o filme britânico O discurso do rei está muito à frente da concorrência. Mas há quem acredite numa reação de A rede social (o preferido da crítica) e Bravura indômita (o faroeste azarão). Entre as atrizes, a vitória de Natalie Portman, por Cisne Negro, parece certa — pelo menos se Annette Bening, ignorada três vezes pela Academia, não somar pontos por teimosia. Melhor filme estrangeiro? Imprevisível. Pelo menos num quesito, no entanto, especialistas e palpiteiros são unânimes: só uma zebra tiraria de Colin Andrew Firth o troféu de melhor ator.

O inglês de 50 anos disputa o principal holofote da indústria cinematográfica com Javier Bardem (Biutiful), Jesse Eisenberg (A rede social) e James Franco (127 horas). Mas o candidato que lhe oferece algum perigo, curiosamente, é Jeff Bridges (Bravura indômita), que superou Firth em 2010 nessa mesma categoria. Na ocasião, o britânico foi indicado graças à performance contida de Direito de amar, melodrama assinado pelo estilista Tom Ford. Perdeu para o cantor country desleixado, decadente, defendido por Bridges em Coração louco. Desta vez, no entanto, o jogo inverteu. Pela interpretação de George VI em O discurso do rei, o britânico de Hampshire acumulou mais de 20 prêmios — entre eles, o Globo de Ouro, o Bafta e a estatueta do sindicato dos atores de Hollywood. De lambuja, conquistou uma estrela na Calçada da Fama.

Eleito o melhor de 2010 por associações de críticos de Nova York e Los Angeles, Firth fez mais: enterrou em definitivo um estigma que o perseguia desde que estreou nas telas, em meados dos anos 1980. No cinema britânico e nos grandes estúdios americanos, o intérprete sempre foi considerado “apenas” um respeitável coadjuvante. Poucos foram os papéis de destaque numa carreira que já conta com mais de 60 filmes — para a telona e a tevê, onde brilhou em 1995 na minissérie Orgulho e preconceito. Até Direito de amar, a imagem de bom moço, ideal para personagens engomadinhos, prejudicou a trajetória do astro. Num dos papéis mais conhecidos do público, em O diário de Bridget Jones (2001), ele é o homem “para casar”: o pretendente sério, bem-sucedido, mas sem o “sex appeal” do adversário, Hugh Grant. Um tipo às vezes terrivelmente comum.

O perfil austero do ator pode não provocar faíscas em fitas românticas, mas se adapta perfeitamente à pompa de produções de época — principalmente a tipos aristocráticos como o protagonista de Valmont — Uma história de sedução (1989) e o Lorde Wessex, de Shakespare apaixonado (1998). É em O discurso do rei, entretanto, que Firth prova total afinidade com a imponência dos nobres. Com a missão de garantir profundidade dramática a um rei gago, incapaz de encarar o microfone e se dirigir ao povo do Reino Unido, o ator é o maior responsável por imprimir verossimilhança a um filme cujo roteiro recebeu reprimendas por tingir a monarquia com tons amenos, róseos.

Para compor o personagem, Firth se inspirou nas experiências do roteirista David Seidler, que enfrentou a gagueira na infância, e buscou o monarca elegante que submergiu na figura muitas vezes risível de um líder que, à primeira vista, parecia hesitante, frágil. “O mais dolorido na história de George VI é que, quando você lê o que ele escreveu, descobre um homem sutil, com uma esperteza, um senso afiado de ironia. E ele era considerado um tolo simplesmente porque não conseguia expressar tudo isso. Era um homem quase invisível”, contou à BBC. Pai da rainha Elizabeth II, o poderoso recorreu a um terapeuta de fala (Geoffrey Rush) para superar a crise pessoal.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Doramas Coreanos fazem sucesso nos EUA



O jornal The Korea Times fez uma matéria bem simpática falando do sucesso dos K-Dorama nos EUA. Segundo a jornalista, Jane Han, os doramas coreanos estão conquistando um lugar no coração dos americanos e americanas. E eu vou traduzir algumas falas que demonstram a fascinação e mesmo o vício que muitos americanos vêm desenvolvendo pelas novelas coreanas:
“NCIS e CSI são bons, mas isso é dorama de ação em um nível totalmente diferente. É o tipo de show que você promete para si mesmo ‘só mais um episódio’ e você termina assistindo até o nascer do sol,” diz Rick Stone, 32, se referindo à “Iris”, hit da KBS.

“O primeiro drama coreano que eu assisti foi ‘Coffee Prince.’ Eu assisti todos os 17 episódios em 36 horas… todo episódio termina de uma forma que você precisa continuar assistindo,” Shannon Simmons escreveu em sua resenha sobre o popular drama da MBC estrelado por Gong Yoo e Yoon Eun-hye.

Discutindo o ultimo grande hit da SBS a série “Secret Garden,” Allison Smith escreveu, “É uma mistura perfeita de romance, comédia e um pouco de fantasia, mas não muito para ser brega.”
A matéria é curtinha e quem tem inglês intermediário consegue ler sem problema. Eu assisti muito pouco dorama até hoje, coreanos menos ainda, mas o filme de Antique Bakery coreano é a melhor versão live action da obra da Fumi Yoshinaga, na minha opinião. Também acredito que doramas em geral, japoneses ou coreanos, poderiam encontrar público aqui no Brasil. Basta alguém ter a boa idéia de lançá-los ou colocá-los na TV. Eu descobri, por exemplo, que há na TV por assinatura um canal especializado em novelas mexicanas da Televisa, o TLN. E só passa novela mesmo. Dizem que passa seriados mexicanos, mas eu só vi novela na programação. Por que não um canal com doramas?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A Folha de São Paulo fala da Rosa de Versalhes



OK, foi uma boa e uma má surpresa. Boa, porque ver Ikeda em evidência, ver A Rosa de Versalhes citada na Folha de São Paulo, ver a relação com o sucesso internacional, possa ajudar o mangá a chagar por aqui. Ruim, porque a Rosa foi descrita como trama “polêmica” (*deixa eu traduzir a segunda parte da entrevista de Ikeda, onde ela desmonta parte do que foi descrito como polêmica, o “travestismos” de Oscar”), e com insinuações homossexuais. Será que o autor da matéria (*que eu respeito e sei que às vezes passa por aqui*) leu A Rosa de Versalhes? Me lembrou a matéria sobre Shoujo Kakumei Utena, que comentei aqui tempos atrás. Sinceramente, A Rosa não causou esse tipo de “polêmica”, Riyoko Ikeda foge desesperadamente de concretizar qualquer insinuação homossexual (*particularmente lesbiana*), a autora não é referência na área em termos de shoujo mangá. Matar Oscar causou mais polêmica entre as leitoras. Até ameaça de morte Ikeda recebeu...

Essa coisa de chamar polêmica para uma obra, especialmente mangá e shoujo, pode chamar para o mangá uma atenção errada e decepcionar um público que imagine A Rosa de Versalhes como uma série gay avant garde, ou algo do gênero. A mênção ao movimento feminista, bem mais pertinente, acredito eu, nem sombra. Mas, enfim, estão falando de Riyoko Ikeda em um grande jornal brasileiro! Só que precisou ela aparecer em Angoulême, claro... e a referência ao shoujo mangá não aparece nem de forma explicativa. Mas valeu. Fiquei surpresa. Virou quase um Riyoko Ikeda Day” aqui no blog.

"A sociedade japonesa continua conservadora"


Autora do mangá "Rosa de Versalhes", de 1972, Riyoko Ikeda ainda causa polêmica com trama de tom sexual

Desenhista de 63 anos recebeu homenagem no festival internacional de quadrinhos de Angoulême, na França


DIOGO BERCITO

ENVIADO ESPECIAL A ANGOULÊME (FRANÇA)


O recital privado de Riyoko Ikeda, 63, que cantou na segunda-feira no palácio de Versalhes, é repleto de detalhes que fazem do evento uma ocasião inusitada e possivelmente sem repetição. A autora de mangás é conhecida por fazer poucas aparições públicas – isso mesmo em comparação com a cena cultural japonesa, em que mangakás estão entre as personalidades mais ricas, influentes e requisitadas.

Outro traço marcante do acontecimento é o repertório do recital, composto pela rainha francesa Maria Antonieta (1755-1793). Afinal, Ikeda se tornou uma popstar no Japão justamente por retratar a Revolução Francesa – que terminou com Antonieta decapitada – em "Rosa de Versalhes", clássico dos anos 70.
"Acho que sou a única pessoa no mundo que vai ter esse privilégio", diz a autora à Folha, durante o festival internacional de quadrinhos de Angoulême, ao qual ela foi como convidada de honra devido à afinidade entre si e a cultura francesa.

Cercada por uma entourage protetora, Ikeda surpreendeu ao se mostrar acessível aos fãs que a reconheceram nas ruas frias da capital das HQs. Deixou-se fotografar com fãs e assinou exemplares de "Rosa de Versalhes". Aos 63 anos, décadas após a publicação do mangá que garantiu sua fama, Ikeda também chamou a atenção pelos modos elegantes e pelo ar jovial. "Em termos de energia espiritual, sou a mesma de quando publiquei "A Rosa de Versalhes'", diz. "Mas, fisicamente, envelheci muito."

As edições de "Rosa de Versalhes" são marcadas pela força emocional que Ikeda afirma se manter inalterada ao retratar romances proibidos e complicados. A protagonista do gibi é Oscar, garota criada como homem para poder suceder o pai como líder dos guardas do palácio. Além da confusão de gêneros, há insinuação de relações homossexuais entre personagens, o que levou o mangá a receber duras críticas na época de sua publicação e ainda hoje.

"A sociedade japonesa é muito conservadora", diz Ikeda. "É muito diferente, por exemplo, da França." "Rosa de Versalhes" é o 14º mangá na lista de mais vendidos da história dos gibis japoneses, e é apontado como influência para a produção subsequente do país. "Acredito que meu trabalho tem um efeito terapêutico nas pessoas", afirma.

O mangá tem também apoio sólido na pesquisa histórica da mangaká, garantindo um pano de fundo crível. "Quando escrevi "Rosa de Versalhes", li muitos livros, foi difícil", diz. "Hoje, uso a internet, mas não é o ideal. Eu venho de uma geração de leitores, gosto de passar o tempo virando páginas."

domingo, 9 de janeiro de 2011

O novo Sherlock Holmes ganha matéria na Folha de São Paulo



Ninguém consegue me convencer que Sherlock Holmes é viável em tempos de CSI, quer dizer, não a personagem em seu habitat natural, a Inglaterra (*principalmente*) da virada do século XIX para o XX, mas eu trouxe comigo "A Study in Pink" para assistir nas férias. Enfim, assistirei esta semana. O motivo principal é ver como o fofinho do Benedict Cumberbatch se vira como Holmes (*afinal, ele me encantou em Jornada pela Liberdade*), até porque, ser Watson (*interpretado na série por Martin Freeman*) é fácil, Holmes é que periga virar piada. A matéria a seguir saiu na Folha de São Paulo de hoje.

O Napoleão do crime

VANESSA BARBARA - vanessa.barbara@uol.com.br

Fica difícil condenar a pirataria quando uma série como "Sherlock" (2010), da BBC, não tem a menor previsão de ser exibida no Brasil. A primeira temporada contou com apenas três capítulos de 90 minutos cada um, chegando ao fim em agosto de 2010. Trata-se de um folhetim de ação e suspense que transporta o detetive Sherlock Holmes (interpretado por Benedict Cumberbatch) para os tempos contemporâneos.


Na minissérie, Holmes é fã de tecnologia, não desgruda do celular e gosta de provocar o inspetor Lestrade tumultuando entrevistas coletivas com torpedos SMS. Seu lendário parceiro, o dr. Watson (Martin Freeman), registra os casos num blog. Holmes passa o tempo todo agindo feito um maestro louco, insultando os policiais e rebatendo as acusações de que seria um psicopata ("Sou um sociopata funcional", diz). Em vez de charutos, ele é usuário ostensivo de adesivos de nicotina: "Este é um problema de três adesivos!", exclama no episódio-piloto, "Um Estudo em Rosa", que trata de suicídios seriais.

O visual da série acompanha o ritmo multitarefa do herói: numa cena de crime, letreiros se sobrepõem na tela para destrinchar as evidências encontradas, enquanto Holmes pesquisa simultaneamente em seu "smartphone" dados meteorológicos, rotas de trem, informações avulsas e recados pessoais. Embora saiba rastrear endereços de e-mail e tenha alma de hacker, o Holmes da BBC não é tão diferente do original. A um suspeito, diz: "Além dos indícios óbvios de que você é solteiro, maçom e asmático, não sei nada a seu respeito". Ao médico legista, pede que não enuncie seus pensamentos em voz alta, pois está diminuindo o QI de toda a rua. Ele também observa que deve ser "muito relaxante não ser eu" e aproveita cada novo assassinato, alegando que não dá para ficar em casa quando algo divertido assim acontece.

No final da temporada, Holmes sai ao encalço de seu arqui-inimigo prof. Moriarty, o "Napoleão do crime, organizador de tudo o que há de mal nesta cidade". Houve polêmica quanto ao desfecho da série, que atraiu 7,3 milhões de espectadores na Inglaterra, mas a segunda já foi confirmada para o fim deste ano.

domingo, 19 de dezembro de 2010

O Discurso do Rei na Folha de São Paulo



Não pensem que o Shoujo Café virou blog de cinema, o problema é que não tenho nada de mangá urgente para postar e apareceu essa matéria sobre o filme do Colin Firth... Enfim, não acredito que a fofocagem sobre a nobreza, ainsa mais sobre uma personagem terciária no filme, Eduardo VIII, seja a razão do sucesso. Muito provavelmente, as atuações inspiradas do trio principal - Firth, Bonham Carter, Rush - somadas a um roteiro e direção de primeira linha é que tenham feito diferença. Fosse somente a realeza e suas fofocas a razão do sucesso, filmes péssimos como O Enigma do Colar, com a Hillary Swank, seriam indicados para todos os prêmios. É isso.

A matéria comenta Another Country, eu não assisti todo, porque baixei uma cópia muito ruim. Mas o papel do Firth não é do rabugento, ele faz um aluno em um colégio de elite inglês no início do século XX, e que acaba se tornando amigo do outro pária da escola, o homossexual (Rupert Everett). Aliás, o filme é baseado em peça famosa (*baseada no livro... baseada em uma história real...*) e, parece, toda uma geração de atores ingleses participou da peça ou do filme quando em início de carreira (Colin Firth, Daniel Day-Lewis, Rupert Everett, Kenneth Branagh, Cary Elwes, etc.). Talvez, finalmente eu pegue para assistir... Aliás, tenho um monte de coisas para ver aqui no HD. Segue a matéria.

Globo de Ouro aposta em dramas da realeza

"O Discurso do Rei" soma sete indicações

FERNANDA EZABELLA
DE LOS ANGELES

Um filme sobre a superação da gagui-gui-gui-ce pode ser tão arriscado quanto uma piada de mau gosto no começo de um texto. Mas coloque na tela personagens excêntricos e picuinhas da monarquia e você terá um trabalho com potencial para muitos prêmios. "O Discurso do Rei", o filme do ano sobre a família real britânica, foi indicado na semana passada para 11 categorias do Critics" Choice Awards, sete do Globo de Ouro e quatro do sindicato dos atores.

Mais uma vez, o inglês Colin Firth, 50, surge como um dos favoritos ao Oscar e já foi premiado por críticos de Washington e Nova York. Ambientada numa chuvosa Londres dos anos 20 e 30, a história fala sobre o príncipe Albert (Firth), duque de York, segundo na linha de sucessão do rei George 5º. Numa época marcada por pomposos discursos ao vivo, Albert tem um problema: ele gagueja sempre que fica nervoso.

As tentativas de cura o levam a experiências humilhantes e a frustrantes discursos para grandes plateias, cenas um tanto aflitivas. Para ajudar o marido, Elizabeth (Helena Bonham Carter) procura um médico pouco ortodoxo, aspirante a ator e fã de Shakespeare, Lionel Logue, interpretado pelo excelente Geoffrey Rush. O filme gira em torno desta relação, o carismático plebeu e o irritadiço príncipe. Os dois passam a se encontrar diariamente e a executar exercícios no simplório escritório de Lionel, como rolar no chão e gritar impropérios pela janela.

Em breve, Albert será coroado como rei George 6º, após a morte de seu pai e a abdicação ao trono de seu irmão, rei Eduardo 8º (Guy Pearce), já que este não quer largar a boa vida e deixar de se casar com uma mulher divorciada. São fofocas assim, além das confissões do então príncipe no consultório de Lionel, que fazem o espectador espiar os rituais e fraquezas da família real.

Firth volta a chamar atenção pela sisudez da interpretação, algo notável também no premiado "Direito de Amar" (2009), no qual faz um gay que acabou de perder o parceiro de longa data. Tais trejeitos de mau humor também podem ser vistos no seu filme de estreia, sobre a mesma época do filme do rei, "Another Country" (1984), no qual faz um estudante fechadão numa escola de burgueses.

sábado, 30 de outubro de 2010

Todas as Estradas levam ao Banho: O que os antigos romanos e japoneses atuais teriam em comum?



Thermae Romae (テルマエ・ロマエ) é um dos mangás de sucesso do momento e fala sobre uma paixão compartilhada por antigos romanos e japoneses atuais, os banhos públicos. O jornal Mainichi publicou uma matéria em inglês sobre o mangá com direito até a entrevista com o protagonista da história, o arquiteto Lucius Quintus Modestus, segundo o Comic Natalie. Eu só conseugi achar a primeira página, então, decidi traduzir assim mesmo. queria a continuação, pois o texto terminou meio que no ar. De qualquer forma, os mangá de Mari Yamazaki parece ser muito engraçado e bem doido.

Todas as Estradas levam ao Banho

Alguma vez você já pensou sobre o que os japoneses e os antigos romanos poderiam ter em comum?

Os ávidos leitores dos livros de Shiono Nanami responderiam “sim” e seriam capazes de citar algumas semelhanças, mas a questão nem seria levada em consideração pela maior parte dos japoneses.

Entretanto, isso começou a mudar quando a personagem de mangá Lucius Quintus Modestus, um arquiteto da Roma Antiga especializado em termas, começou a sua jornada pelo tempo até o Japão atual. Estranhamente, sua viagem da Roma do século II para o Japão do século XXI só se limita aos lugares relacionados com o banho, como o “sento,” as águas termais, e os banheiros das casas das pessoas.

A viagem temporal pelos banhos de Lucius foi reunida em um mangá, “Thermae Romae” por Yamazaki Mari, no final de 2009. O mangá conseguiu tamanha popularidade que três meses depois de sua publicação recebeu o "Manga Taisho 2010," baseado nos votos de vendedores de livrarias, e ganhou o Tezuka Osamu Cultural Prize na categoria de histórias curtas em abril. Além disso, o segundo volume parece ter vendido mais de 1 milhão e meio de cópias.

Como um resultado do sucesso do mangá, mais japoneses do que antes começaram a pensar sobre as similaridades entre os antigos romanos e eles mesmos. Para Lucius, a maior semelhança entre os orgulhosos romanos e a “tribo de cara achatada”, que é como ele chama os japoneses, é o amor pelos banhos e o entusiasmo e esforços investidos para criar um ambiente confortável para desfrutá-los.

Os antigos romanos que tinham fornecimento de água e um sistema moderno de encanamentos avançado para a sua época, amavam as “termas,” ou casas públicas de banho, tanto que praticamente toda ruína romana descoberta tem vestígios de um banho público. Fora um punhado de pessoas extremamente ricas tinhas seus próprios banhos em casa, pessoas de todas as classes – indo dos relativamente ricos até os escravos – utilizava os banhos públicos. O propósito do banho não era somente lavar os corpos, mas também relaxar, passando o tempo na banheira da mesma forma que os japoneses amam fazer. Este amor pelo banho compartilhado por antigos romanos e japoneses modernos pode parecer ultrapassado, considerando que nos países ocidentais modernos as casas de banho não gozam da popularidade que eles têm no Japão. (Continua?)

sábado, 17 de abril de 2010

Saint Oniisan aparece em matéria na Revista Época



A revista Época Negócios trouxe uma matéria sobre a febre entre as mulheres japonesas por imagens de Buda e como isso alavanca o consumo no país. Na chamada da matéria imagem do mangá seinen Saint☆Oniisan (聖☆おにいさん) sem citar que Jesus e Buda são co-protagonistas da série. A citação à série é a seguinte: “Até uma artista de manga, Hikaru Nakamura, vendeu mais de 320 mil cópias de “Jovens Santos”, uma história em quadrinhos que tem Buda como um jovem solteiro que mora nos subúrbios de Tóquio – levando até o prêmio de melhor manga de 2009.” Achei esquisitíssimo não falarem em Jesus, até porque, o título do mangá está no plural. De qualquer forma, vale pela curiosidade. O link para a matéria é este aqui.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Reeditando textos antigos: “A César o que é de César!” - O Shoujo Mangá visita a Itália



Como falei esta semana do encerramento de Cantarella (カンタレラ), decidi postar a matéria que fiz para a Neotokyo tempos atrás. Aliás, não lembro bem para qual edição, mas foi antes da edição 20, agora, já está para sair a 50. Não fiz alterações no corpo do texto, só retirei uma parte que falava da Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら). Na época, não havia scanlations traduzidas do mangá Cesare (チェーザレ) de Fuyumi Souryou, por isso, ele não está incluído. E Bronze no Tenshi (ブロンズの天使) não é mais o mangá atual de Chiho Saito, mas, sim, Ice Forest. (アイス フォレスト). Também mudei de idéia em relação ao Falco quando avancei na leitura do mangá. Ele é um bobão... mas não vou comentar isso. Para um filme sobre Alexandre VI, recomendo O Conclave. Segue a matéria.

“A César o que é de César!” - O Shoujo Mangá visita a Itália

Desde a Rosa de Versalhes, em 1974, muitos mangás para garotas têm usado a História como pano de fundo. Pode ser algo local, como a Revolução Meiji e o Shinsegumi, no recente Kaze Hikaru, pode ser o Antigo Oriente Médio como em Anatolia Story (*ver Neo Tokyo 4*), ou ainda a Rússia do século XIX, em Bronze no Tenshi. Qualquer cenário parece oferecer possibilidades para uma autora com imaginação. Assim, nos últimos tempos, a Itália Renascentista serviu de pano de fundo para dois mangás muito diferentes: Kakan no Madonna (花冠のマドンナ) de Chiho Saito, autora de Shoujo Kakumei Utena (*Neo Tokyo 5*), e Cantarella de You Higuri.

Agora uma explicação, o César do título não é o imperador – Tibério César – citado na Bíblia, mas César Bórgia, personagem histórica do Renascimento italiano e presença marcante em ambos os mangás. Vilão da primeira série e herói da segunda. Confuso? Não se levarmos em conta a sua trajetória trágica e ao mesmo tempo apaixonada.

Kakan no Madonna: Alguma História e Muita Imaginação


Kakan no Madonna que em português poderia ser traduzido como "A Madonna Coroada (*de flores*)" é um mangá composto de sete volumes originais, quatro reencadernados, e começou a ser publicado no ano de 1992 na revista Petit Flowers, seguindo até 1994. É a série longa de Chiho Saito anterior a Shoujo Kakumei Utena (少女革命ウテナ). Madonna foi mais uma incursão da autora no campo dos mangás históricos, inspirada claramente por Riyoko Ikeda e sua Rosa de Versalhes.

A própria Saito, em um dos seus free-talks (*os bate-papos que vem nos cantinhos de alguns mangás*), comenta que ao escolher o país da sua história teria evitado a França porque esta já tinha a Rosa de Versalhes, não precisando de mais nenhum mangá. A autora bem que poderia ter criado a sua história francesa, mas teria que sofrer com as comparações inevitáveis. Nada mais sábio do que procurar outro país. Saito pensou na Inglaterra, mas disse que esta era muito fria (*clima?*povo?*), em Portugal e na Espanha, mas acabou escolhendo a Itália dos Bórgia, dinastia espanhola que até hoje surpreende muita gente com a sua trajetória. Em Kakan no Madonna, Chiho Saito, também discute mais uma vez – vide Shoujo Kakumei Utena e seu primeiro mangá, A Mademoiselle e a Espada – as questões de gênero, colocando em discussão os papéis femininos e masculinos através do drama da protagonista.

A Madonna Coroada é ambientada no Renascimento italiano e conta a história de Leonora, moça burguesa, pobre, que acaba sendo dada pelo pai em casamento ao irmão do governante da cidade de Pádua. O rapaz era seu companheiro de jogos, em especial de esgrima, especialidade da moça. O casamento arranjado não era algo incomum na época e Leonora se submete à autoridade paterna. Estranho, no entanto, era um moço rico e nobre aceitar casar com uma mulher que não tivesse um grande dote. Leonora pensa, portanto, que mesmo não amando, é amada.

No dia de seu casamento, um cavalo entra em disparada na cidade, ameaçando as pessoas. Leonora retira seu véu e o atira sobre os olhos do cavalo que assim é dominado. O belo cavaleiro então a reconhece e, para espanto da moça, a chama de "Madonna Coroada". Só que o cavaleiro é reconhecido como sendo o rei de Nápoles, que foi destituído de seu trono, e vaga pela Itália tentando retomar o que é seu por direito. Inimigo de Pádua, deveria, portanto ser preso. O rapaz foge, mas deixa Leonora impressionada.

Na sua noite de núpcias, a moça descobre que não era amada e, pior, é quase violentada por seu jovem marido, fato que deveria ser mais do que comum na época. O ato, entretanto é interrompido por um dos acessores do jovem noivo, Don Popolo. O rapaz acaba deixando a noiva sozinha, sob protesto, para resolver alguns problemas urgentes. Leonora sai na ponta dos pés e se põe a escutar atrás da porta. O que descobre é que a tal "A Madonna Coroada" seria um quadro de Leonardo da Vinci, pintado 20 anos antes, quando Leonora nem era nascida. Assim, Paolo confessa que se casara com uma moça de tão baixa posição porque ela era a própria Madonna e, de acordo com antiga lenda, traria em seu corpo a chave para encontrar uma lendária espada. Quem possuísse a arma mágica seria o rei da Itália e poderia reconstruir o Império Romano. Bem, Chiho Saito não economizou na imaginação.

Leonora, assustada, acaba caindo em uma câmara secreta onde se encontrava a própria “Madonna”. Decidida a descobrir o mistério e, quem sabe conseguir a espada, ela rouba o quadro e foge. No caminho, encontra um mercador a quem oferece seus preciosos cabelos cor de prata em troca de roupas masculinas e tintura para cabelo. Vestida de homem e com cabelos curtos e negros, ela se torna Leo e parte em busca de Leonardo da Vinci, o único que teria todas as respostas.

Em sua jornada acaba reencontrando o Rei de Nápoles, Falco, que está desfalecido e faminto na beira da estrada. Graças ao seu talento com a espada, conseguem juntos escapar dos guardas enviados por seu marido, já ciente do disfarce da moça. Ambos se tornam companheiros de viagem, já que Falco também tem a intenção de encontrar Da Vinci e tentar conseguir a espada restaurando a glória de seu reino. A partir daí começam a vagar juntos pela Itália, o Rei sente uma estranha atração pelo rapaz, algo que não consegue explicar, mas seu coração pertence à moça que encontrou na cidade de Pádua, a “Madonna”. Em seu caminho encontram várias personagens como Maquiavel, Rafael, Luís XII da França, e o próprio Leonardo Da Vinci, claro, pois é ele quem revela o segredo da Madonna... Não, eu não vou contar qual o segredo e estragar a surpresa. E se o mangá aparecer aqui no Brasil, ein? O fato é que graças a ajuda de Da Vinci que Leonora começa a cumprir as profecias.

É também por conta do segredo da Madonna, que a moça conhece os ambiciosos irmãos Bórgia, César e Lucrecia, filhos do Papa. César, interessado na espada lendária que lhe concederia um poder absoluto, reconhece de cara que Leo, além de mulher, é a Madonna e a seqüestra, não sem antes humilhar Falco por sua pobreza e por não ter descoberto o segredo de "seu companheiro" de viagem. Aliás, se nosso Falco tem algum defeito é a sua ingenuidade e vai pagar caro por isso. A partir daí temos muitas idas e vindas, com César tentando eliminar Falco mais de uma vez, numa delas usando um veneno de nome “cantarella”.

O César de Chiho Saito, o antagonista da história, é uma personagem cheia de sensualidade, um grande guerreiro, inteligente e com muita presença de espírito. César é capaz de fazer qualquer coisa pelo poder, mas realmente se sente atraído por Leonora, deseja tomá-la de Falco e possuí-la a todo custo, de corpo e alma. Aliás, pobre Falco, mesmo cheio de boas qualidades, é difícil dividir o quadrinho com alguém como César Bórgia! Além da Madonna, há mais alguém com quem César se preocupa, é sua irmã e amante Lucrécia. A tendência é que mesmo que César Bórgia apronte coisas terríveis, minta, faça chantagem, torture, mate, estupre e tudo mais que for preciso para conseguir o que quer, os leitores ainda sintam alguma simpatia por ele. E Chiho Saito faz de propósito, pois constrói um vilão fascinante.

A ambientação renascentista é um convite para que a autora mostre toda a fluência e beleza de seu traço, tudo é muito lindo, e a menos que você não curta “coisas bonitinhas”, irá gostar. Fora isso, a autora também explora ao máximo as dificuldades enfrentadas por Leonora para manter a sua identidade feminina em segredo e, claro, os percalços que ela e Falco enfrentam para terminarem juntos no final. A melhor definição para Madonna é que a série é um romance histórico no estilo capa-e-espada com muitas reviravoltas.

Se há algum defeito, e como é uma obra de ficção assumida isso não é problema a meu ver, é que a autora toma muitas liberdades com os fatos e personagens históricas. Não há nada do rigor mostrado por Riyoko Ikeda na Rosa de Versalhes ou Chie Shinohara em Anatolia Story. O fundo histórico é só um fundo mesmo, pintado nas cores brilhantes que Chiho Saito escolheu. Isso irritou profundamente alguns leitores e leitoras italianas, pelo que acompanhei nos fóruns de lá. Quer um exemplo dessas “liberdades”? Saito transforma Leonora em uma espécie de Papisa! Quem já ouviu falar da lenda medieval da Papisa Joana, pode imaginar que esta é a fonte remota de sua inspiração. Nada disso, entretanto, diminue a força e a beleza de sua Madona Coroada.

Cantarella: O Doce Veneno dos Bórgia


Depois da Madonna Coroada, eu não imaginava encontrar outro mangá ambientado no Renascimento tão cedo, só que acabei me deparando com Cantarella. Já tinha visto o pessoal comentando em alguns sites italianos e decidi arriscar. A principio, fiquei com a pulga atrás da orelha, porque o material estava rotulado como “yaoi”. Sei que alguns leitores já começaram a torcer o nariz aqui, mas a questão é, Cantarella não é BL, nem yaoi, mas, sim, esta é a especialidade de sua autora, You Higuri. Daí, muita gente rotular antes de ler.

Cantarella começa com o nascimento de César Bórgia. Sua mãe ouve uma voz sinistra e é atingida por um raio. O filho nasce prematuro e ambos passam bem, mas ela sabe que há algo sinistro envolvendo o acontecimento. O encontro com o pai da criança, o Cardeal Rodrigo, deixa claro que a alma de César foi “vendida ao demônio” por ele em troca de alguma coisa. A mulher tenta matar o próprio filho e livrá-lo da maldição, mas um estranho incêndio destrói tudo, só o bebezinho sobrevive.

César vai morar no palácio dos Bórgia e passa a ser cuidado pela atual amante do pai, a gentil Vannozza Catanei. Na infância César é mostrado como um menino, inteligente e esforçado, só que seu pai só tem olhos para Juan, filho de Catanei, uma criança mimada e cruel. Já Lucrécia, a menininha mais doce do mundo, sofre com as maldades de Juan. Além disso, depois, ainda será separada da mãe, que é obrigada a se casar para abafar comentários maldosos contra o Cardeal, e de César, seu irmão querido que sempre a protege, pois, para a nova governanta das crianças, o garoto é uma má influência.

O fato é que todos que cercam os Bórgia são interesseiros, mentirosos e, não raro, tem algum motivo para buscar vingança. No primeiro volume, César escapa de várias armadilhas e tem que aprender a se virar com a espada e o punhal. Logo vem a tona o desejo do pai de que ele siga carreira na Igreja, enquanto a Juan caberia um ducado, a carreira militar e um bom casamento. César se tornou realmente arcebispo aos 17 anos, cardeal aos 22, não por direito e competência, mas por influência do pai. Mas como fica evidente no mangá (e na História), ele não tinha nascido para isso.

O futuro da personagem, sempre atormentado por vozes demoníacas, começa a se delinear quando é enviado pelo pai ao seminário e alguns inimigos mandam um jovem assassino, Michelotto, atrás dele. Michelotto, braço direito e faz tudo de César, é uma personagem fundamental na trama do mangá, pois protege o Bórgia, retirando seus inimigos do caminho sempre que preciso. Ele foi construído a partir de uma personagem real, que aparece discretamente na Madonna Coroada.

Michelotto é um adolescente e seu pai está na prisão, se não matar César, ele morre. Só que César o derrota e eles se tornam amigos, embora fique sempre no ar que Michelotto pode tentar de novo a qualquer momento. Só que, efetivamente, Cesar exerce fascínio sobre ele. E pinta um clima homoerótico entre os dois, claro, afinal, vejam bem quem é a autora da história. Só que não passa disso.

Quando Michelotto ele conhece Lucrécia fica evidente que um forte sentimento nasce entre os dois. O que a autora vai montar ou não um triângulo, vocês descobrem lendo a obra. Só mais uma coisa: é Michelotto que descobre que Alexandre VI, quando ainda era o Cardeal, vendeu a alma do filho ao demônio em troca de poder, muito poder. Assim, nosso César é uma espécie de "Chonchu" (*Lembram do manhwa da Conrad?*), o pai não o quer por perto e, ao mesmo tempo, não poder se livrar dele, muito menos matá-lo.

O que vai ser de César quando ele descobrir qual a fonte de seu tormento? Como controlar os impulsos demoníacos dentro dele? Como manter alguma ponta de humanidade? O César de You Higuri é trágico, bem mais trágico que o de Chiho Saito. E sua história, embora carregada de fantasia, é muito mais pesada, realista, cruel, sem muitos floreios. A arte é linda, mas não tira o impacto do roteiro bem amarrado. Outra coisa a ser ressaltada é que a autora lança um olhar gentil e complacente sobre os dois Bórgia. Se César e Lucrecia pecam, se cometem violências, é porque tudo conspira contra eles e, claro, aqueles que os cercam são sempre piores, mais vis, mais desprezíveis.

Como não há personagens fictícios no centro da ação não é spoiler dizer que o final das protagonistas não será feliz. Basta fazer uma busca em uma boa enciclopédia para comprovar que possuído ou não, César foi muito mais um agente de guerra e destruição do que de paz; já sua irmã, Lucrecia, foi joguete nas mãos da família, de casamento em casamento, até morrer quase tão jovem quanto o irmão. Os Bórgia tiveram muito poder, mas ele foi curto, e até certo ponto, amargo.

Cantarella já conta com 10 tomos encadernados e continua, apesar de nenhum volume ter sido lançado desde junho de 2005 (*Estou escrevendo em setembro de 2006*). Ele sai na revista mensal Princess Gold, a mesma de Eroica, e começou a ser publicado em 2001. Só para constar, “cantarella” era o nome do veneno usado pelos Bórgia para eliminar seus oponentes. A receita se perdeu, mas o que se dizia na época é que a “cantarella” tinha um doce sabor, era inebriante e, claro, fatal. O veneno sempre foi visto pelos “nobres” como um recurso covarde, “arma de mulher”. Mas se é possível fazer a coisa sem grande alarde, porque arrumar uma grande encrenca e derramar sangue? Afinal, “os fins justificam os meios”.

Por que não no Brasil?

Tanto Kakan no Madonna quando Cantarella são mangás excelentes. Eles ilustram bem a diversidade do shoujo mangá e a possibilidade de tratar as mesmas personagens de forma diferenciada, visando mais ou menos o mesmo público e faixa etária. Ambos têm romance, ação, fantasia, violência, um pouco de magia e humor, tudo isso com uma arte magnífica. E Kakan no Madonna tem em Leonardo da Vinci uma das suas personagens centrais. Quer coisa mais na moda do que ele? Então, por que, não? As duas séries ainda fariam muita gente correr atrás de bons livros de História dos Bórgia e do Renascimento, de filmes, quadrinhos e romances sobre a época. Afinal, não foram as japonesas as primeiras a se interessar pela família Bórgia. Você sabia que a Conrad lançou recentemente aqui no Brasil dois volumes de quadrinhos sobre César, Lucrécia e o Papa de autoria de Alejandro Jodorowsky? Você pode até comparar a forma como autores de nacionalidades diferentes e escolas diferentes trabalham o tema. Pois é, será que alguma editora se interessa por algum desses mangás?

You Higuri

You Higuri, é uma autora especializada em mangás yaoi/BL. Nascida em Osaka, formada em design, ela já fez ilustrações de games, character design de anime, e mangás, muitos mangás. É uma das artistas de shoujo mangá da atualidade com o traço mais elaborado e bonito, e é possível ver o seu aperfeiçoamento comparando suas obras antigas e as mais recentes. São seus o famoso Seimaden; o insano e simpático Gakuen Heaven que foi recém transformado em série de tv; o mangá de época, Ludwig II. Esse, sim, bem explícito no conteúdo homoerótico, mas a autora nem precisou inventar muita coisa, já que a personagem histórica, primo da famosa Sissy, imperatriz da Áustria, era realmente homossexual e teve uma vida atormentada e uma morte trágica.

Cantarella é sua obra mais bem sucedida e está sendo publicada na França, na Alemanha e nos EUA. Mesmo sem concluir a história do atormentado César Bórgia, ela é responsável pela arte de Crown, que tem roteiro do veterano Shinji Wada, autor de Sukeban Deka e um dos poucos homens que ainda produz shoujo mangá; e publicou Tenshi no Hutsugi - Ave Maria na revista Gold.

Leonora, uma pré-Utena?


Leonora, a protagonista de Kakan no Madonna, tem que assumir uma dupla identidade. Corajosa, inconformada com os papéis impostos às mulheres, boa espadachim, Leonora é mais uma das heroínas de Chiho Saito e se aproxima, por suas características, de Utena, Oscar, e, principalmente, de Sarasa (*Neo Tokyo 9*), pois todas mantêm alguma forma de dupla identidade para poderem cumprir sua missão. No decorrer da história, irá descobrir que o segredo da Madonna pode mudar a história de toda a Cristandade e ficará dividida entre dois homens: o honrado rei de Nápoles, Falco, e César Borgia, belo e cruel filho do Papa, que usa de todos os truques sujos para possuir o segredo da Madonna e a própria Leonora.

Uma Família de Má Fama

Os Bórgia eram uma família de origem espanhola que, em um momento de intensa agitação política, cultural e religiosa, conseguiu ter muita influência na corte papal, elegendo dois papas, conseguindo para si vários cargos, privilégios e terras, além do direito de quebrar todas as leis e regulamentos que fossem obstáculo. Um dos papas Bórgia, Alexandre VI, teve várias amantes e filhos, reconhecendo todos eles e praticando um nepotismo sem limites. Com uma de suas amantes, Vannozza Catanei, Alexandre VI, na época cardeal e sobrinho do Papa Calixto III, teve cerca de dez filhos reconhecidos, entre eles Cesar (1475-1507), Lucrezia (1480-1519) e Juan, personagens de Cantarella. Sobre os Bórgia os contemporâneos dizem o pior: eram assassinos, chantagistas, conspiradores e incestuosos (*Cesar + Lucrezia, Alexandre VI + Lucrezia e outras possibilidades*). Enfim, sendo tudo verdade, ou parte invenção daqueles que derrotaram os Bórgia, o fato é que normalmente essa família é usada como material por quem deseja criticar a Igreja Católica, esquecendo muitas vezes de analisar todo o contexto e atores envolvidos nos acontecimentos.

César Bórgia


O que torna esta personagem tão fascinante? O que fez com que duas autoras de mangá o escolhessem como personagem central de suas tramas? Bom, talvez sentimentos semelhantes aos que Maquiavel nutria por ele, afinal, acredita-se que foi em honra de César Bórgia que a obra-prima “O Príncipe” foi escrito. Se César se qualificava como o Príncipe perfeito e engenhoso descrito por Machiavel, nunca vamos saber, afinal, com o poder que os Bórgia possuíam, melhor desconfiar das fontes, as que falam mal e as que elogiam. Seus contemporâneos o descreviam como um homem belo, inteligente, ousado, grande cavaleiro, capaz de crueldades extremas, diplomata se necessário, líder competente, mais temido do que amado. Uma dessas vilanias foi bem explorada por You Higuri e é o assassinato do próprio irmão, Juan, que libertou César das obrigações eclesiásticas.

César, Duque de Valentinois, e da Romanha, Príncipe de Andria e de Venafro, Conde de Dyois, Senhor de Piombino, Camerino e Urbino, Gonfalonier e Capitão-Geral da Santa Madre Igreja, se meteu em todas os grandes conflitos que abalaram a Itália de seu tempo. Aliás, o país não existia e era na época uma colcha de retalhos, desunida e constantemente imersa em guerras movidas pela rivalidade entre as cidades, pelos interesses dos grandes senhores nobres, do Papado, do Sacro Império e até do Rei da França. Foi em uma dessas guerras que perdeu sua vida com pouco mais de 30 anos. Nada mais justo, afinal, nada alimenta mais a imaginação do que alguém que tem uma carreira meteórica e cheia de sucessos, não sobra tempo para fracassos, envelhecimento e esquecimento.

Koi Monogatari

Chiho Saito vai voltar a falar do casal, César e Lucrecia, na sua série de oneshots, chamada Koi Monogatari (恋物語), Histórias de Amor. São vários volumes com histórias autoconclusivas, na verdade, mangás curtos da autora que saem como uma coleção, há desde coisas dos anos 80, até material bem recente. O volume de César e Lucrecia é o número 10. A série Koi Monogatari está saindo na Itália, onde Chiho Saito tem muitas obras publicadas. Para quem não sabe, Chiho Saito tem uma produção enorme. Alguns mangás mais longos, como Kakan no Madonna, Kanon e Waltz wa shiroi dress de, e muita coisa em um volume. Sua obra longa mais recente é Bronze no Tenshi que narra a história do poeta russo Alexander Pushkin.

Papisa Joana

A lenda da Papisa Joana, que parece ter inspirado Chiho Saito na composição da trajetória de Leonora, apareceu por escrito no século XIII, mas ela teria vivido no século IX, talvez antes. Embora muita gente tenha considerado a história verídica no decorrer da História, trata-se de uma sátira com o objetivo de criticar o papado em um momento no qual Roma tentava impor o seu poder no Ocidente e até no Oriente.

De acordo com a história, Joana teria sido uma moça vinda do Império Bizantino, talvez da Grécia, e que se vestia com roupas masculinas para que pudesse circular com segurança e estudar. Passando por homem, se destacou por sua inteligência e adquiriu grandes conhecimentos em filosofia e teologia. Depois de vagar pela Europa – coisa comum antes das universidades, já que quem queria estudar deveria ir até os mestres que estavam dispersos – Joana chega a Roma. Lá, é examinada pelos clérigos melhor formados e todos a consideram brilhante. Com a morte de Leão IV, foi declarada João VIII.

Para apimentar a história e fechar a crítica à “depravação” da Igreja, Joana tem casos com vários homens e fica grávida. Esconde seu estado por muito tempo, mas acaba entrando em trabalho de parto durante uma procissão. Como há várias versões, em umas ela morreu de parto e seu filho foi assassinado em seguida, em outras foi apedrejada pela multidão. Isso quando não se acrescenta que os eclesiásticos gritaram “Milagre! Milagre!”, quando um “homem” deu a luz.

Dois Césares Muito Semelhantes

Os Césares de Higuri e de Saito são muito parecidos. Colocadas as imagens lado a lado, e descartadas as diferenças de estilo da arte das autoras, temos uma personagem de traços semelhantes. Morenos, cabelos negros semi-longos, olhos escuros, bonitos superando de longe a maioria das outras personagens. É um perfil muito recorrente dentro das personagens idealizadas em romances femininos, só que César não se qualifica como herói, nem vai encontrar a redenção nos braços da mocinha. Aliás, Chiho Saito geralmente faz personagens masculinas fortes, sensuais e ambíguas com cabelos escuros, vide o caso de Akio de Shoujo Kakumei Utena. De qualquer forma, são coincidências interessantes. Higuri se inspirou em Saito? Será que ambas se inspiraram nos retratos de época de César Bórgia? Será que ambas se inspiraram em romances femininos tipo Harlequin? Você decide!

O Príncipe

Obra maior de Maquiavel é um manual para aqueles que desejam conquistar e manter o poder, sendo que o objetivo disso, claro, seria promover o bem comum (!). O “espelho do príncipe” era um tipo de literatura comum desde a Idade Média, mas Maquiavel ao invés de dizer que o Príncipe precisa ser bom e virtuoso, deixa claro que ele até pode parecer ser, mas que para manter o poder, o buraco é mais embaixo... Se precisasse optar por ser temido ou amado pelo povo, a primeira opção seria a correta. Muitos crêem que O Príncipe seria César Bórgia, que é citado e elogiado por Maquiavel, só que sua morte prematura em batalha, fez com que a obra fosse dedicada a outro, Lourenço de Médici. O livro foi escrito por volta de 1513, mas só foi publicado em 1532. Foi banido pela Igreja por sua amoralidade e colocado na lista dos livros proibidos, o Index.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Romantismo é o antídoto para a crise?



Eu achei a matéria interessante e, por isso, decidi colocar aqui. Eu realmente gosto de ler um bom romance romântico, porque é desses que se fala, sejam de banca (*os tais Harlequin e similares*) ou de livraria. Sei que muitas leitoras têm esse objetivo escapista, embora na base de tudo esteja a diversão. Leitura como diversão é algo que eu considero muito louvável.

No meu caso, como não me identifico nem sonho em estar no lugar de heroínas de romance, fico só observando e lendo as impressões das leitoras, ou as críticas da internet. Só leio os romances "históricos" mesmo, já comentei uns aqui.
To Touch the Sun, por exemplo, é para mim um material muito, mas muito bom mesmo. A matéria chega a falar que em tempos de crise também se lê mais ficção científica, se romântica, porque ela existe nos EUA, ou não, é meio complicado inferir.

A autora do texto faz uma comparação meio esdrúxula entre o escapismo dos romances de banca, com seus finais felizes a granel, E o Vento Levou e a crise econômica. Ora bolas, qualquer um que tenha assistido o filme ou lido o livro sabe que em E o Vento Levou não tem final feliz. Muita gente chora e se deprime com o final da Scarlet e ele está muito longe daquilo que a média das leitoras de Harlequin procura como diversão cotidiana. De verdade há o comentário da voracidade, conheço umas moças da
Adoro Romances que lêem uma dezena de livros por semana. Mas é preciso ver que são livros de leitura rápida e fácil, como a maioria da literatura popular, e aqui incluo os quadrinhos em geral.

Outro ponto do texto é o sucesso dos seres sobrenaturais, especialmente os vampiros. Eu já li muitos comentários desses livros da Irmandade da Adaga Negra, mas pelas resenhas na net e pelas impressões que tirei dos comentários das leitoras, parece mais aquela pornografia para mulheres quase Ellora’s Cave com pouco roteiro a oferecer. Fico com a Sookie, com Bloodties, e vou dar uma olhada nessa Anita Blake no futuro. Esses eu passo.

Romantismo é o antídoto para a crise

Motoko Rich
THE NEW YORK TIMES


Durante uma recessão, o que as pessoas querem é um final feliz. Numa época em que os vendedores de livros lutam para atrair leitores, vendas de livros com temática romântica estão superando a de outras categorias de livros e dando um gás para um mercado morno.

A Harlequin Enterprises, editora-rainha dos livros de romance, divulgou que os lucros do quarto trimestre de 2008 subiram 32% em relação ao mesmo período do ano anterior. Donna Hayes, executiva-chefe da Harlequin, diz que as vendas no primeiro trimestre deste ano continuam muito fortes.

Enquanto as vendas de ficção adulta em geral ficaram basicamente estáveis no ano passado, de acordo com a firma de consultoria Nielsen Bookscan, concentrando cerca de 70% das vendas, a subcategoria do romance subiu 7% depois de ficar estagnada nos quatro anos anteriores.

Sci-fi também cresce

Na Barnes & Noble, maior rede de livrarias do país – cujo diretor financeiro, Joe Lombardi, recentemente alertou que suas vendas totais de 2009 devem cair entre 4% e 6% – as vendas de histórias românticas estão em alta. E, nos primeiros três meses do ano, a Nielsen Bookscan registrou alta de 2,4% nas vendas de romances em comparação com um leve declínio nas vendas de ficção adulta geral para o mesmo período.

Os números talvez subestimem a demanda pelo gênero romântico, uma vez que uma parcela significativa das vendas vem de varejistas como a rede Wal-Mart, que não são analisadas pela Bookscan. Como na era da Depressão, quando os leitores tornaram ...E o vento levou, de Margaret Mitchell, um best-seller, os consumidores de hoje estão procurando uma válvula de escape da dura realidade que envolve desemprego e despejos.

– Dado o medo e a tristeza gerais – diz Jennifer Lampe, advogada de Des Moines e leitora ávida de romances que assina um blog literário sob o pseudônimo Jane Litte (dearauthor.com) – ler um romance com final feliz é um alívio.

Essas urgências escapistas também estão ajudando as vendas de ficção científica e fantasia, conta Bob Wietrak, vice-presidente de vendas da Barnes & Noble. Wietrak diz que as vendas de livros com vampiros, mutantes, lobisomens e outras criaturas paranormais estão "bombando". Neste segmento, a série Crepúsculo, de Stephenie Meyer, continua a dominar e inspirar livros semelhantes como as aventuras adolescentes House of night ("Casa da noite", em tradução literal) de P. C. Cast e Kristin Cast.

Leitores de histórias românticas estão entre os fãs mais fiéis, e não deixam de ler uma série ou um autor de que gostem.

– É um público muito dedicado que não vê os livros como um luxo, mas uma necessidade – observa Liate Stehlik, uma das editoras da William Morrow e Avon, selo pertencente à editora HarperCollins Publishers.

O gênero do romance também deve ser especialmente atraente para consumidores durante tempos econômicos difíceis porque muitos dos livros são vendidos no formato mais popular, geralmente encontrados em lojas de conveniência ou em aeroportos. Essas publicações são vendidas por US$ 7,99 (R$ 17,39) ou menos, em comparação com US$ 12 (R$ 26,10) a US$15 (R$ 32,60) pedido por formatos maiores.

Tramas românticas também aparecem com frequência em redes de supermercados como o Wal-Mart ou o Kmart, onde os consumidores costumam fazer compras por impulso. Vários varejistas, incluindo Kmart, Wal-Mart e Kroger, têm vendido pacotes de três livros por US$ 10 ou dois por US$ 5 com novos títulos da Harlequin.

– Se você vai ao Wal-Mart ou Target, está mais propenso a pegar um livro – acredita Hayes, da Harlequin. – E um livro tem um valor incrível nesse ambiente.

Leitores de histórias românticas sempre tiveram a tendência a comprar mais que os leitores de outros gêneros como ficção literária. Então, mesmo que alguns leitores de estejam recuando – as pessoas estão comprando quatro ou cinco em vez de cinco ou seis livros por semana – eles ainda compram mais do que leitores de outras categorias.

Algumas editoras venderam tantos livros de determinados autores que querem testar edições mais luxuosas pela primeira vez, mesmo nesse mercado popular. A New American Library, divisão do Grupo Penguin dos EUA, publicou seis versões populares de romances de vampiros na série Black Dagger Brotherhood ("Irmandade das Adagas Negras", em tradução literal), de J. R. Ward. Ainda esse mês vai publicar Lover, avenged ("Amante, vingado", em tradução literal), também de Ward, em capa dura, com tiragem inicial de 125 mil cópias (números como esse são geralmente exagerados, mas são um sinal da confiança da editora).

Os livros de romance também abocanharam uma proporção maior do mercado literário eletrônico do que outras categorias. Enquanto que a maioria das editoras diz que 1% das vendas vem de e-books, Harlequin diz que as edições digitais respondem por 3,4% de suas vendas.

Leitores mais vorazes

Na Fictionwise, loja de livros eletrônicos recentemente adquirida pela Barnes & Noble, cerca de 50% das vendas são de histórias românticas, diz Steve Pendergrast, diretor de tecnologia.

– Leitores de romance tendem a ser mais vorazes – analisa Pendergrast. – A capacidade de baixar instantaneamente e começar a ler é mais importante para esse tipo de público do que para qualquer outra categoria de leitor.

O mercado crescente do romance digital atrai vários novatos, incluindo pequenas editoras independentes como Ellora’s Cave, Samhain Publishing e Ravenous Romance. Como elas não têm custos de distribuição ou estoque, podem vender livros ainda mais baratos do que as edições populares. A Ravenous Romance, especialista em ficção erótica, vende e-books por US$ 4,99 (R$ 10,86) cada.

– É o mesmo que uma bebida cara no Starbucks – diz Lori Perkins, diretor editorial. – Com esse preço, quem não iria querer um livro?

domingo, 18 de janeiro de 2009

O que Jane Austen diria a Charles Darwin



Poucas coisas me parecem mais absurdas do que psicologia evolutiva para as massas, isto é, aquilo que chega aos jornais e prateleiras. E essa matéria da Folha me lembrou a tal pesquisa das frutinhas vermelhas. Não conhece? Mulheres preferem "vermelho" ou tons "róseos", porque fomos coletoras de frutinhas no passado. Em outras praias discursivas iriam chamar isso de "karma". Eu devo ser uma aberração evolutiva, já que prefiro azul e preto, embora na minha fase atual de vida não dispense nada da paleta de cores. Pois bem, mas a matéria fala em Jane Austen, em Mr. Darcy, em Heathcliff e nas Irmãs Brontë. Não pensem, no entanto, que estou concordando com as conclusões desta pesquisa com meia dúzia de gatos pingados. No demais, sou culturalista e não acredito em comportamentos políticos, sociais e outros como fruto de mecanismos evolutivos ou que a literatura possa ser uma representação disso tudo. A matéria veio da Folha de São Paulo.

O que Jane Austen diria a Charles Darwin

Moral implícita da literatura tem papel evolutivo nas sociedades modernas, sugere estudo de psicólogos

PRIYA SHETTY
DA "NEW SCIENTIST"

Por que o hábito de contar histórias perdura através do tempo e das culturas? Talvez a resposta esteja em nossas raízes evolutivas. Um novo estudo sobre a forma com que as pessoas reagem à literatura vitoriana sugere que os romances funcionam como uma espécie de cimento social, fortalcendo os tipos de comportamentos que beneficiam as sociedades. A literatura "pode condicionar a sociedade continuamente de forma que lutemos contra impulsos básicos e trabalhemos de forma mais cooperativa", afirma Jonathan Gottschall do Washington and Jefferson College, da Pensilvânia.

Gottschall e seu co-autor Joseph Carroll, da Universidade do Missouri em Saint Louis, estudam como as teorias de evolução de Darwin se aplicam à literatura. Junto de John Johnson, psicólogo da Universidade do Estado da Pensilvânia em DuBois, os pesquisadores pediram a 500 pessoas que preenchessem um questionário sobre 200 romances clássicos vitorianos. Os voluntários tinham de definir os personagens como protagonistas ou antagonistas. Depois, deveriam descrever suas personalidades e motivações, dizendo, por exemplo, se eram conscienciosos ou sedentos por poder.

Elizabeth x Drácula

A equipe descobriu que os personagens se encaixavam em grupos que refletiam a dinâmica igualitária de sociedades de caçadores-coletores, nas quais a dominância de indivíduos era suprimida em prol do bem geral. Os resultados do estudo estão na revista "Evolutionary Psychology" (vol. 4, pág. 716).

Protagonistas como Elizabeth Bennett, de "Orgulho e Preconceito", de Jane Austen, tinham pontuação alta em concienciosidade e dedicação. Por outro lado, antagonistas como o conde Drácula, do livro de Bram Stoker, pontuavam mais como caçadores de status e em dominância social.

Nos romances, o comportamento dominante é "poderosamente estigmatizado", afirma Gottschall. "Os malvados e as malvadas são apenas máquinas de dominação; estão obcecados por continuar prosseguindo nisso, raramente têm comportamento pró-social."
Apesar de pouca gente no mundo de hoje viver em sociedades de caçadores-coletores, "a dinâmica política operante nesses romances, ou seja, a oposição básica entre comunitarismo e comportamento de dominação, é um tema universal", afirma Carroll.

Christopher Boehm, um antropólogo cultural que Carrol reconhece como importante influência em seu estudo, concorda. "Democracias modernas, com sua separação entre os poderes e equilíbrio entre eles, estão promovendo um ideal igualitário."

Nas respostas dos voluntáriso às questões, poucos personagens eram julgados ao mesmo tempo bons e maus, como Heathcliff de "O Morro dos Ventos Uivantes", de Emily Brontë, ou o sr. Darcy, de "Orgulho e Preconceito". "Eles revelam a pressão que é exercida sobre a manutenção da ordem social total", afirma Carroll.

Lição de moral

Boehm e Carroll dizem crer que os romances tenham o mesmo efeito que os contos com lição de moral das sociedades antigas. "Assim como os caçadores-coletores contavam sobre trapaça e intimidação para manter as pessoas mobilizadas no objetivo de evitar que os malvados vencessem, os romances nos direcionam para os mesmos problemas", afirma Boehm. "Eles têm uma função que continua a contribuir para a qualidade e para a estrutura da vida em grupo."

"Talvez as narrativas -sejam as da televisão ou as de contos populares- sirvam na verdade a uma função evolutiva específica", diz Gottschall. "Elas não são apenas subprodutos da adaptação evolutiva."

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Matéria Sobre Cosplays no Mais Você



O Mais Você é o programa da Ana Maria Braga e acabou de passar uma chamada de uma matéria sobre cosplays. Meu pc está desconfigurado, a placa de TV está gravando, mas fica sem som (*Marido prometeu formatar tudo durante a minha ausência... Cheguei e o PC ainda estava morto*). A Globo deve colocar a matéria on line no site do programa. Se eu pudesse, gravaria e colocaria no Youtube.
Eu não assisti, mas o link da matéria é este aqui.

sábado, 15 de novembro de 2008

Animecast fala de Ouran




Algum tempo atrás, recebi um e-mail de uma leitora do blog falando que ela faz parte da equipe do site Anime Cast e que eles fariam um programa sobre Ouran Host Club. Foi daí que comecei a pesquisar sobre Podcast e ainda não entendi direito como posso colocar um aqui. enfim, o programa foi bem grande, mais de uma hora, mas foi divertido. Confesso que não gostei de algumas brincadeiras, não concordo com muitos dos comentários gerais sobre o anime (*o último capítulo, para mim, foi um dos melhores finais abertos de todos os tempos. ainda mais porque sabemos que não teremos uma segunda tmeporada*) mas, no final, valeu a pena, seja por perceberem coisas que eu não vi ou lembrava no anime de Ouran Host Club, ou porque tiveram umas sacadas geniais. Exemplo:

1) Compararam o Mori com o Cigano Igor. Lembram? Grandão, bonitão, mas ele e uma samambaia atuando era a mesma coisa... OK, eu não acho que o Mori seja assim, o Igor tentava falar mais que ele, também. Mori é uma das personagens que eu mais gostava no anime e gosto no mangá, mas eu ri assim mesmo. Não consegui evitar. ^_^

2) Kyouya faria um estrago com um Death Note na mão. Oh, yeeees!!!!! Faria, sim. Concordo com um dos rapazes do programa, ele nem pensaria duas vezes, tacaria o nome no livro.

3) Uma das meninas, comentou sobre um vídeo com duas cosplayers dos gêmeos de Harry Potter assistindo Ouran. E eu ainda achei outro feito por umas garotas francesas. ^_^ Ficou engraçado e vale assistir. São os que estão aí em cima.

sábado, 1 de novembro de 2008

Mandarake na UOL



A portal da UOL trouxe uma matéria sobre a Mandarake, uma imensa loja de mangás, animes e tudo mais que você possa imaginar em Akihabara. São 8 andares de puro deleite. A matéria é fraquinha (*Oh, vejam tem Naruto completo!*), mas serve para visualizar o que uma loja de verdade no Japão tem a oferecer. A página da Mandarake (*em inglês*) já apresenta na abertura um menu de figurinhas com coisa nove e clássicos, como a Rosa de Versalhes, basta clicar e babar. :)

domingo, 3 de agosto de 2008

Breve História do Comiket



O site Comipress colocou no ar uma matéria longa sobre o Comiket, a maior aconvenção de fanzines do Japão e que se realiza desde os anos 70. Não vou traduzir, mas recomendo a leitura. Eu ouvi falar a primeira vez do Comiket no anime Comic Party e desd então percebi que o evento e o prédio onde ele se realiza aparecem em várias séries.

sábado, 2 de agosto de 2008

Dificuldades de Comunicação



Abrindo o Japan Probe hoje, vi uma matéira sobre a quantidade de crianças estrangeiras nas escolas japonesas. São cerca de 25 mil nas escolas públicas e o Governo do Japão, mal ou bem, busca integrá-las. O IPC sempre comenta as medidas tomadas pelo governo japonês nesse sentido. Já li sobre isso em vários lugares. O interessante é que o foco da matéria acabou recaindo nos brasileirinhos que aprendem japonês e começam a ter problemas em se comunicar em língua portuguesa com pais que usam a língua pátria em casa mas não ensinam ou conseguem ensinar a sua língua aos filhos, e o Japan Probe comenta uma extensa matéria do Japan Times sobre o problema e as soluções buscadas. E isso vale tanto para a escrita, quanto para a expressão oral, assim como para a capacidade de pensar em português.

O Japonês que deveria ser a segunda língua, vira a primeira e algumas crises familiares acontecem por conta disso, já que os pais não são fluentes em japonês. Para tentar ajudar essas crianças a cidade de Hamamatsu, com uma grande população brasileira, na Prefeitura de Shizuoka, criou classes de língua portuguesa para ajudar essas crianças. Há mais de cem matriculados. O Japan Times também fala dos pais brasileiros que estão transferindo seus filhos para escolas brasileiras binlingües como forma de tentar remediar o problema.

sábado, 12 de julho de 2008

O Brasil nos Animes



Recomendo uma visita ao site Subete Animes que traz uma matéria bem legal sobre as citações aos Brasil nos animes. O autor até pede que as pessoas deixem nos comentários outras referências que ele tenha esquecido. Vale a visita.

sábado, 5 de julho de 2008

Mangás Harlequin: Quando um Gênero Popular Encontra Outro



Como tenho um leitor que já perguntou duas vezes o que são mangás Harlequin, estou postando aqui a matéria que fiz para a Neo Tokyo no final de 2006 (*acho*). Não fiz a revisão da matéria, hoje eu já tenho algumas coletâneas (*exemplo*) aqui em casa e fui uma das que se confundiu misturando o traço da Chieko Hara (*é ela que fez a tal capa da edição de primavera*) com o da Yumiko Igarashi. E a Chiho Saitou de Utena é só capista. Se você comprar uma coletânea querendo um quadrinho dela no miolo, vai se arrepender.

Para os fãs da Deborah Simmons uma notícia boa: ela voltou a escrever. Este ano sai um livro dela; se passa na Época da Regência (*é o período de 1811 à 1820, antes do governo da Rainha Vitória, quando se passam alguns dos livros da Jane Austen*), mas ela disse ter retomado a saga dos De Burgh. Basta escrever para ela que ela responde em menos de 24 horas.

Deveria colocar no Shoujo House, mas só farei isso quando tiver tempo de atualizar. Para mais posts sobre mangás Harlequin, é só dar busca no blog, vai aparecer muita coisa, inclusive os rankins ga Taiyosha, pois em semana e lançamento o top ten dos josei traz pelo menos 4 ou 5 títulos Harlequin.


Estou envolvida com a pesquisa para fazer esta matéria faz uns oito meses. Até meados do ano passado, nunca tinha ouvido falar em mangá Harlequin e nem sequer sabia direito o que eram os livros Harlequin. Foi um caminho longo, tive que comprar alguns mangás, conversar com um monte de gente, ler alguns livros, vencer uma série de preconceitos e, sim, aprendi uma série de coisas interessantes e pretendo dividir com vocês.

O QUE É HARLEQUIN?

Os livros Harlequin são romances populares geralmente escritos por mulheres para mulheres. Nesse sentido, se aproximam dos shoujo-josei e suprem de certa forma uma lacuna. No Ocidente, quadrinhos são feitos em geral por homens e mesmo que nos EUA houvesse um número considerável de desenhistas e roteiristas, elas foram empurradas para fora do mercado. O que quero dizer é que no Japão, as mulheres fazem quadrinhos e escrevem, nos EUA e em outros países, elas só podem escrever... Ou nem isso.

O tema dos livros Harlequin é o amor romântico. Pode ser nos dias de hoje, com pessoas comuns, ou contando histórias ao estilo “cinderela” com sheiks de países árabes inexistentes ou magnatas gregos. Podem ser histórias de espionagem, ficção científica ou fantasia, desde que tenham um bom romance. Podem histórias com piratas, damas medievais ou cavaleiros; podem se passar nos EUA, na Escócia, na Austrália, na China ou na África, desde que o romance central seja muito bom. Comédia ou drama choroso, historinha água com açúcar ou picante, se o casal protagonista não convencer, o livro será rejeitado.

Já devem saber que estou falando dos romances de banca de jornal que muita gente olha com desprezo. Nem todos são Harlequin, mas a editora está presente no Brasil faz tempo; primeiro seus livros saíam pela Nova Cultural, agora, são publicados somente com o seu selo. Antes de me propor a escrever esta matéria, eu não tinha lido nenhum livro e tinha um preconceito ferrado contra eles, afinal “literatura de mulherzinha” é algo ruim, não é? Eis o ponto, mangá também é literatura popular, livros de faroeste, ficção científica, espionagem, e mesmo clássicos consagrados de hoje em dia, como Os Três Mosqueteiros, foram literatura popular e barata um dia... Por que o estigma maior é sempre maior com aquilo que é feito para mulheres?

HARLEQUIN ENTERPRISES: UMA EMPRESA BEM SUCEDIDA
A Harlequin é canadense e foi fundada em 1949. Nos seus primeiros tempos, todo tipo de romance popular saía com o selo Harlequin, mas depois de comprar definitivamente a editora de romances femininos Mills & Boon em 1971, o nome passou a se aplicar somente aos livros românticos para mulheres. Presente em vários países do mundo, inclusive o Brasil, a Harlequin publica mais de 100 livros todos os meses em cerca de 27 línguas. Alguns romances Harlequin já foram transformados em filmes e volta e meia são exibidos no canal por assinatura Hallmark.

É uma verdadeira linha de montagem, e assim como acontece com os mangás, nem todos os livros são magníficos, são passatempo ligeiro e a maioria será esquecida. Algumas autoras irão se destacar e angariar fãs em todo o mundo, como Deborah Simmons, que entrevistei para esta matéria, outras irão parar no seu primeiro livro, ou mudar de pseudônimo para tentar de novo. Quando se trata de um produto de massa, ou você vende ou não tem espaço.

Hoje a Harlequin Enterprises opera com vários selos além do Harlequin: Red Dress Ink para romances moderninhos ao estilo Bridget Jones, que em inglês são chamados de “Chick Lit”, thrillers e literatura em geral sob o selo MIRA; LUNA para os romances de fantasia, Steeple Hill e Steeple Hill Café para romances cristãos e Gold Eagle para livros de ação e aventura para homens. Cuidado, mesmo que você despreze os romances de banca, pode ter lido e gostado de algum produto da Harlequin!

UMA EDITORA PARA AS MULHERES
A Editora Japonesa Ohzora foi fundada em 1990 e publica várias antologias (shoujo, josei, shounen, seinen, etc), além de livros, volumes encadernados de mangá e outros tipos de revista, como a Diva’s. A editora se anuncia como a líder no mercado de quadrinhos para mulheres adultas no Japão, o que pode ser somente parte da propaganda.

A Ohzora mantém várias revistas femininas como a Pastel , a Missy, a Shiawase na Kekkon, a Young Love Comic Aya, Hi Mystery, a Ladys Comic Special Aya, a Cool-B (yaoi), entre outras. O interessante é que a maior atenção é para as mulheres adultas que, lá no Japão, continuam lendo mangá, desde que encontrem algo do seu interesse. Lembram da matéria de Nodame Cantabile (NT13)? Nela eu comentei que as revistas josei ou lady’s comics surgiram muito tarde no Japão, se comparado com as revistas seinen, mas elas existem e algumas são bem populares.

Seguindo esta linha de ação, em 1998, a Ohzora aproveitou-se do imenso sucesso dos romances Harlequin no Japão, e fez uma parceria inédita. Que tal transformar os livros em mangá? Pois é, quem nunca sonhou em ter seu livro favorito ou pelo menos um livro que gostasse em forma de mangá? E se o traço fosse de uma Chiho Saito, que tal? É isso que a Ohzora oferece, em sua antologia mensal Harlequin, na Bessatsu Harlequin que é bimestral, e nas edições especiais temáticas e edições para cada estação do ano.

De acordo com a editora, já foram mais de 250 livros convertidos em quadrinhos, e mais de 9 milhões de volumes encadernados. Parece pouco? Mas lembrem-se que esses quadrinhos não têm anime, nem dorama, mas não raro há algum Harlequin entre os josei mais vendidos do Japão. Um detalhe importante do material Harlequin é que os romances são sempre heterossexuais, já que os livros têm esse enfoque, não existe nenhuma influência yaoi/BL neles. Acaba sendo uma alternativa interessante para quem não curte o homoerotismo tão forte nos shoujo mangá.

QUEM DESENHA?
O nível das desenhistas dos romances Harlequin é variável. As três edições americanas que comprei são boa prova disso. Misao Hoshiai de Holding on to Alex tem um traço bonito e domina bem a narrativa de shoujo mangá; Yukino Hara de No Competition é mediana, tem bons momentos, mas não convence; e Kako Itoh de a Girl in a Million tem traço de fanzineira inexperiente o que termina de desqualificar o roteiro fraco demais. Há coisas para todos os gostos. Já Nanao Hidaka, que converteu a Saga de Burgh e outros livros de Deborah Simmons para mangá, faz um bom trabalho, mesmo tendo seus altos e baixos. Vocês mesmos podem avaliar pelas imagens da matéria.

A Ohzora contrata desde artistas iniciantes até estrelas do shoujo mangá para sua coletânea Harlequin. Querem ver? Dentre as mangá-kas que fazem ou fizeram Harlequin temos autoras clássicas Yumiko Igarashi, desenhista de Candy Candy e responsável pela capa da última edição de primavera, e Youko Hanabusa, autora de Lady Lady!!, Chieko Hara, Chiho Saitou (*que naturalmente já faz coisas ao estilo Harlequin*) foi responsável por várias capas, inclusive as duas últimas Bessatsu Harlequin, e a quase pornográfica Kayono fez pelo menos dois mangás.

O PROBLEMA DOS ROTEIROS

Como converter um livro que pode chegar a 400 páginas em um quadrinho com uma média de 140 páginas? Um dos pontos fracos de alguns mangás Harlequin são os roteiros. Conversei com algumas leitoras de romances que pegaram os mangás e a reclamação foi exatamente essa, o quadrinho é ruim porque o livro foi simplificado ao extremo. Mesmo sem ter lido os livros, suspeitava disso.

No Competition, por exemplo, parece ser uma história bem interessante, mesmo que clichê: a moça que se acha o patinho feio, porque sua irmã gêmea tem tudo que quer, assim não consegue perceber que é uma excelente pessoa, uma pintora talentosa, e, sim, uma mulher atraente. O resultado, no entanto, é muito aquém do esperado. Testei com minhas alunas –afinal, poderia ser rabugice minha – e elas não gostaram. Preferiram Holding on to Alex, que é de um machismo de doer, mas tem um roteiro que flui muito melhor e traço bem superior.

Será que todos os mangás Harlequin têm esse mesmo problema? Quando consegui ter acesso aos volumes japoneses da Saga De Burgh que são da coleção Harlequin Premium Comics, vi que não. Com cerca de 350 páginas, houve uma boa adaptação. Afinal, há espaço para colocar quase tudo, a maioria dos diálogos é mantida e pouca coisa foi mudada. Como tinha lido os livros, posso dizer sem medo que são bons exemplos de Harlequin mangá.

HARLEQUIN NOS EUA

Em 2005, a Dark Horse, uma das mais respeitadas editoras de quadrinhos dos EUA, anunciou uma parceira inédita com a Harlequin e a Ohzora. A editora iria publicar mangás Harlequin nos Estados Unidos. Sem experiência com shoujo e vendo o crescente interesse pelo gênero, queriam participar dos lucros que tinha Fruits Basket como propulsor. Acredito que a Harlequin também tenha percebido isso e sem know-how na área, buscou uma parceria forte.

O anúncio foi cheio com pompa e o press release provocou riso em vários sites especializados dos EUA, pois citava Ah! Megami-sama como shoujo, só para começar a lambança. Enfim, as coisas não começaram bem e o material selecionado foi muito irregular. Os mangás escolhidos padecem do problema do roteiro comprimido, e perdem feio para os shoujo e josei mangá “puros” que estão no mercado de lá.

Para se ter uma idéia, apesar de serem considerados josei/lady’s comics no Japão, a Dark Horse e a Harlequin decidiram dividir a coleção – Harlequin Ginger Blossom – em duas faixas, a rosa, para jovens leitoras e a violeta, para leitoras, nas palavras deles, “mais sofisticadas”. Pois bem, a única grande diferença entre uma e outra é ter ou não sexo, ou algo que pareça sexo. Veja que há livros Harlequin que tem muito sexo, outros fazem a linha “água com açúcar”. E a Dark Horse anuncia como “(...) um degrau de romantismo acima da mesmice que está nas prateleiras hoje em dia”.

Tudo o que li me pareceu muito pueril, antiquado e pouco relacionado com o tipo de mangá que tem feito sucesso nos EUA. Só publicaram histórias contemporâneas, nada de romances históricos, por enquanto. Em meados de 2006, a Harlequin assumiu sozinha a publicação e eliminou a série violeta, optando somente pelo material mais “leve”. Pergunto-me se eles estão se saindo bem nas vendas. Os EUA é o primeiro país onde os mangás Harlequin da Ohzora estão sendo publicados e só lamento que não tenham lançado nada com o traço de autoras consagradas como Chiho Saito ou Yumiko Igarashi.

MINHA EXPERIÊNCIA

Até os 30 anos nunca tinha lido nada da Harlequin. Na adolescência, a leve idéia de colocar as mãos em romances “melosos” (*Será?*) de banca de jornal seria degradante. Os títulos me pareciam horrorosos (*e alguns são mesmo!*) e chegava até a debochar de algumas amigas... Nenhuma estagnou na vida por conta dessa “mácula” em seu currículo. Daí, ano passado, descobri os tais mangás Harlequin, graças a duas amigas que liam mangá e romances de banca. Comecei com o material que estava saindo nos EUA, e detestei!

Holding on to Alex com seu mocinho possessivo e egoísta, e a heroína que desiste de ser bailarina porque o sujeito acha que qualquer coisa que ela faça sem ser em função dele é traição, me enojou. Tinha me proposto a não tentar de novo, mas como minhas amigas desconfiaram, eu precisava com algo que parecesse comigo. E elas estavam certas.

Assim como existe mangá para todos os gostos, há Harlequin para todos os gostos (*inclusive masculino*). Só para citar um exemplo, detesto mangás tipo Boku Wa Imouto ni Koi wo Suru e Hot Gimmick, mas seria leviandade dizer que porque não gosto deles todo shoujo mangá é ruim... Bem, tem gente que faz dessas coisas, vocês sabem! Assim, elas sugeriram Deborah Simmons e a Saga De Burgh e eu gostei. Devorei os livros e encomendei os mangás. Como já comentei, a adaptação foi bem feita e as 350 páginas, muitas delas coloridas, deram conta dos livros. Um deles foi convertido em dois volumes. Aliás, Deborah Simmons teve sete ou mais de seus livros transformados em mangá.

A Saga De Burgh se passa na Inglaterra, século XIII, governo de Eduardo I, um dos melhores períodos para usar em romances de qualquer espécie com a conquista de Gales e a luta contra os escoceses. Os De Burgh são sete irmãos (Dunstan, Simon, Stephen, Geoffrey, Robin, Reynold e Nicholas), mais o pai deles, o Conde Campion. São histórias com romance, alguma aventura, um pouco de sexo e muito humor.

Invariavelmente terminam com o casamento de um dos rapazes, a ponto de um dos irmãos começar a pensar que alguém enfeitiçou a família. Claro que eles são medievais muito limpinhos, mas fidelidade histórica é algo muito relativo tanto em romances quanto em mangá.

Quatro livros foram transformados em mangá até agora: O Lobo Domado (Taming the Wolf - Ookami wo Aishita Himegimi), O Anel de Noivado (The De Burgh Bride - Masei no Hanayome) e Coração de Guerreira (Robber Bride - Kishi to Onna Touzoku), e Um Lorde para Amar (My Lord De Burgh - Majo ni Sasageru Chikai), todos valem a pena. A Harlequin do Brasil não tem experiência com mangás, mas a relações públicas da empresa, Vírginia Rivera, disse que há interesse em publicá-los. Temo que acabem lançando o que está saindo nos EUA, material antiquado, ruim, e que não explora todas as potencialidades desse encontro entre literatura feminina e mangás para mulheres. Os leitores de mangá pensariam mal dos livros, e os leitores de Harlequin mal dos mangás.

ENTREVISTA COM DEBORAH SIMMONS

Eu enviei um e-mail para a autora, para saber sobre a adaptação de seus livros para formato mangá e ela foi muito gentil em responder. Nada mais justo do que concluir a matéria com parte de sua entrevista.

1) Por que você se tornou uma novelista?
- Deborah Simmons: Minha mãe era uma professora de inglês e escrevia poesias, assim ela esperava que seus filhos escrevessem, e depois da faculdade eu passei muitos anos trabalhando em um jornal. Como era fã de romances históricos, eu sempre imaginava que poderia escrever um. Mas somente quando fiquei em casa por conta do nascimento de minha filha que eu finalmente comecei um manuscrito. Chamava-se Heart's Masquerade, foi publicado pela Avon em 1989.

2) De onde você tira inspiração?
- DS: Das pesquisas que faço.

3) Qual o seu período favorito? Idade Média ou Regência?
- DS: Como alguns dos primeiros romances que li eram de Georgette Heyer, Eu tenho que dizer Regência. As roupas, a linguagem, e os costumes são tão divertidos de descrever (e ler) sobre.

4) Por que tantos de seus livros se passam na Inglaterra?
- DS: Acho que é porque muitos dos meus livros favoritos, de Heyer e Jane Austen, se passam lá.

5) Você foi consultada sobre a adaptação de seus livros para mangá no Japão? Você teve alguma participação no processo?
- DS: Eu não tive nenhuma voz ativa no processo. Mas Nanao Hidaka foi muito gentil e me enviou algumas imagens lindas e algumas cópias das novelas que ela ilustrou.

6) Você é leitora de quadrinhos? Se não é, Por quê?
- DS: Eu acho que sempre estive muito imersa em outros gêneros (romances, chick lit, livros de pesquisa, e biografias). O que você recomendaria como introdução ao gênero?

7) Você me disse [em e-mail anterior] que seus livros são muito famosos no Japão. Você sabe por quê? Você recebe muitas cartas de fãs do Japão? E do Brasil?
- DS: Eu realmente não faço idéia do que faz com que eu tenha tantos fãs no Japão e no Brasil. Meus livros também vendem bem na França e na Itália. Se ao menos eu fosse tão popular na América do Norte!

Agradeço muito a Sett e a Thalita pelo apoio e consultoria para fazer esta matéria.

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