Estava eu no dia de Natal, ou na véspera, e havia uma thread sobre o filme Last Christmas. Que filme é esse? A discussão era sobre o que aconteceu com o par romântico da mocinha, aviso já que teremos spoilers sobre isso depois do trailer. Fiquei me perguntando que filme seria esse. Joguei no Google e apareceu o lindinho do Henry Golding, a única coisa que presta do horrível Persuasão da Netflix, junto com a Emilia Clark, a Daenerys de Game of Thrones. E, sim, eu assisti ao filme, porque acho o Henry Golding lindo. Sem motivação, não encararia algo assim. E o filme é bem razoável, eu diria, filme de Natal cheio de bons sentimentos, celebrando a família, a diversidade e criticando o Brexit como bônus. Emma Thompson e seu marido, Greg Wise, assinam o roteiro. Vamos ao resumo da história.
Kate é uma jovem que leva uma vida um tanto destrutiva. Ela não se dá bem com sua família, especialmente, a mãe. Ela não consegue fazer deslanchar a sua carreira como cantora e trabalha vestida de elfa em uma loja que vende decorações de Natal duvidosas o ano inteiro. Ela vive ficando com sujeitos que mal conhece e parece insensível em relação às necessidades dos outros. Transplantada do coração, ela come mal, dorme pouco e se alimenta pior ainda, o que certamente pode comprometer sua saúde e causa ansiedade em sua mãe.
Fazendo tanta bobagem, ela termina sem casa às vésperas do Natal, porque ninguém a suporta. Enquanto estava no trabalho, ela conhece Tom, um sujeito simpático, gentil e que a ajuda a se encontrar na vida, sem pedir nada em troca. Com o tempo, ela revê seu comportamento, mas não sem antes causar alguns danos às pessoas que ama e que tem consideração por ela.
O filme tem como foco a mudança de vida da protagonista, neste aspecto, ele segue mais ou menos a rota moralista de muitos desses filmes de Natal. O problema está em Kate, em como ela vê a vida e se relaciona com os outros. O trauma, porque sem dúvida é, de passar por um transplante de coração não é utilizado como justificativa para o comportamento destrutivo da moça, ainda que eu ache que um ano somente, menos até, não seja tanto tempo assim, especialmente, quando se vem de uma família problemática.
Os pais de Kate, Ivan (Boris Isakovic) e Petra (Emma Thompson), que é retratada dentro de um estereótipo de mãe eslava, super protetora e, ao mesmo tempo, super exigente e sem muito tato, são croatas e vieram para a Inglaterra fugindo da Guerra da Iugoslávia. A mãe, em especial, nunca se recuperou da perda do lar e dos amigos, que ela diz estarem todos mortos, e vive em uma espécie de bolha e precisa não somente de carinho familiar, o que o filme acaba resolvendo, mas de apoio psiquiátrico mesmo. Já o pai, foge de estar em casa com a esposa. Ele era um próspero advogado, mas não conseguiu validar seu diploma na Inglaterra e tornou-se taxista.
Este, aliás, é o drama de muitos imigrantes. Se você vai para outro país e não é fugindo para salvar sua vida, convém checar se é possível trabalhar no mesmo ramo por lá Muitas vezes, não é mesmo. Com duas filhas pequenas, a família foi tentando se ajustar. Kate era vista pela mãe como uma criança dotada, futura cantora e atriz, já a mais velha, Marta, sente-se jogada para escanteio e busca compensar os pais seguindo a carreira que eles escolheram para ela. Tornou-se advogada, é bem sucedida, mas esconde um segredo, ela é lésbica. Kate, em um dos seus ataques de egoísmo, tira a irmã do armário.
Enfim, o drama de Petra, a mãe, fica ainda mais exposto durante a campanha do Brexit. Ela tem medo de ser expulsa novamente. "Eles nos odeiam", ela diz vidrada na TV e o filme realmente se esforça para mostrar a xenofobia e, por outro lado, ressaltar que isso é absurdo e que a sociedade inglesa é multirracial e diversa. Sem forçar a barra, o filme consegue caracterizar isso muito bem.
Na convivência com Tom, Kate começa a se transformar. Ela passa a ser mais responsável socialmente, vai ajudar em um abrigo, mesmo que tudo tenha começado para procurar o sujeito, que dizia trabalhar lá. Compensa sua chefe, a excelente Michelle Yeoh, pela sua irresponsabilidade no serviço nos últimos tempos. Tenta fazer as pazes com a irmã, o que é bem difícil. Além de dar atenção para a mãe, reconhecendo que ela precisa de ajuda e que esse apoio pode se materializar em ações bem simples.
A relação com Tom, no entanto, não avança como ela esperava e, depois do trailer, eu volto a isso, mas é spoiler mesmo. Ele não aceita ser mais um parceiro sexual da moça, mesmo que muito atencioso com ela e a avisa que ela tem que contar primeiro com si mesma, ele não pode, ou deseja, ser sua muleta emocional. Em certo sentido, o filme reforça que a felicidade precisa ser buscada no equilíbrio conosco mesmo. "Ama o teu próximo como a ti mesmo". Como amar o outro, se você não se ama? Kate não consegue se amar, na verdade, no afã de viver intensamente, afinal, ele esteve na fronteira da morte, ela está se destruindo.
Concluindo, o filme cumpre a Bechdel Rule. Mesmo sendo uma comédia romântica, na verdade, uma dramédia romântica, ele tem boas doses de sororidade, especialmente, a partir do momento em que Kate decide mudar e viver não somente para si, mas para os outros e entende o sofrimento da mãe e os problemas de aceitação da irmã. Apesar disso, não se trata de um filme feminista, pelo menos, não vi nada nele que possa apontar para isso. Filme de Natal, vocês sabem e com o bônus do Henry Golding, que tem pernas longas que parecem de menino de shoujo mangá. Ah, sim! A trilha sonora do filme é muito boa, é um os destaques de Last Christmas.
Se você chegou aqui, quer spoilers. Muito bem, Tom Webster não pode se comprometer com Kate, porque ele está morto. O moço é um fantasma, ele é o doador do coração que salvou a vida de Kate. De certa maneira, ele veio cobrar que ela cuidasse bem o seu coração. Eu faria o mesmo, afinal, ela leva uma vida totalmente destrutiva. Logo colocaria o coração doado a perder.
Ele não queria morrer e, de certa maneira, estará com Kate para sempre. A boboca aqui já sabia disso, tinha pego spoilers, mas acabou derramando umas lágrimas. É isso. Última resenha do ano. Estou tão enrolada, que ficou pendente por vários dias.
Chegou a hora de comentar o melhor e o pior do ano (*segundo a Valéria*), é a retrospectiva Shoujocast 2022. Ano emocionante, com muitos anúncios e lançamentos de mangás femininos, com as eleições mais animadas e assustadoras desde a redemocratização. Se você sobreviveu a 2022, você é forte! Espero que vocês gostem e aviso que ficou bem longo.
(P.S.: Colocarei os links do programa no primeiro comentário, mas acho que somente amanhã. Desculpem!)
No dia 14 de ddezembro, foi ao ar na NHK o documentário "Inheriting the Sailor Crystal ~Pretty Guardian Sailor Moon Special!~. A descrição do programa, que tem 28 minutos e legendas em inglês é a seguinte: "A série japonesa Sailor Moon encantou fãs em todo o mundo por décadas e continua a alcançar novos espectadores 30 anos desde sua estreia. Neste especial de bastidores, entrevistamos as pessoas envolvidas no processo criativo do lendário mangá e anime. Assista e aprenda os segredos do por que "Pretty Guardian Sailor Moon" foi capaz de capturar os corações das fãs do sexo feminino em todo o mundo." E conquistou muitos fãs homens, também. Há uma brasileira no documentário. Para assisti-lo, basta clicar aqui. (Agradeço ao Pedro por ter me avisado do programa.)
O ranking da Oricon da penúltima semana do ano tem uma boa representação de shoujo e josei. O último volume de Chihayafuru é o em melhor colocação, Onna no Sono no Hoshi continua com seu volume normal no top 10, além de Seijo no Maryoku wa Bannou Desu, que teve anime algumas temporadas atrás. E há mais dois shoujo, um é romance escolar, o outro sobre um rapaz e seus gatos.
Consegui reassistir a versão de 1949 de Little Women ontem à tarde, era meu desafio de Natal. Esta adaptação, a primeira em cores, foi a que me apresentou a história completa, quer dizer, eu acredito ter assistido no final da infância, mas, pensando bem, não tenho certeza, talvez, eu já tivesse uns 13 anos e lido a versão adaptada do clássico da Coleção Elefante (Ediouro). O filme de 1949 usou o mesmo roteiro do filme de 1933 como base, por isso, há sequências (*inventadas*), que são absolutamente iguais, no entanto, os novos roteiristas, Sally Benson e Andrew Solt, modificaram alguns detalhes do original premiado com o Oscar de Victor Heerman e Sarah Y. Mason. É um bom filme, mas podando comparar com o de 1933, o mais antigo é melhor. E peço já minhas desculpas, se eu começar a voar demais e fazer comparações ao longo do texto.
Little Women (*aqui, As Filhas do Dr. March, Adoráveis Mulheres, Quatro Irmãs ou, ainda, Mulherzinhas*) é a obra mais conhecida da escritora norte-americana Louisa May Alcott (1832–1888) e foi escrito entre 1868 e 1869. Trata-se de um livro semiautobiográfico, colocando muitas situações vividas pela família da autora dentro da história, sendo que Jo, a protagonista, é inspirada diretamente na própria escritora. Para quem nunca ouviu falar este livro, ou viu qualquer uma das suas adaptações, Little Women conta a história das quatro irmãs March (Meg, Jo, Beth e Amy), mostra seu amadurecimento e a transição da adolescência para a idade adulta com suas alegrias, dores e desafios (Bildungsroman) durante o período da Guerra de Secessão (1861-65). Eu amo Little Women e tenho resenha do filme de 1994, da série da BBC de 2017, da versão da Greta Gerwig e do filme de 1933 no blog. Esta agora é a última que farei de uma adaptação já existente do clássico.
O filme começa com Marmee (Mary Astor), a mãe das meninas, lhes dizendo que não haverá presentes naquele Natal, porque precisam investir tudo que tem no esforço de guerra. As meninas, Meg (Janet Leigh), Jo (June Allyson), Amy (Elizabeth Taylor) e Beth (Margaret O'Brien), ficam tristes, mas logo aparece a rabugenta Tia March (Lucille Watson) com um dólar para cada uma delas. As quatro se animam e saem para comprar presentes para si mesmas, mais tarde, porém, enquanto a mãe está atendendo uma família de imigrantes pobres, os Hummel, elas se arrependem e trocam seus presentes por algo para Marmee. As garotas deixam os presentes embaixo da árvore de Natal. Na versão de 1933, não havia essa decoração e acredito que a moda das árvores de Natal não tinha se espalhado ainda, fora que a pobreza das March não lhes permitiria comprar decorações para a casa; Só que, em 1949, imagino que a produção via o adereço como um signo importante para marcar que era um filme natalino.
Antes de trocar os presentes, as irmãs são mostradas em casa. Jo chega correndo e pulando a cerca, se estabacando no chão, como uma forma de estabelecer que ela é uma tomboy e desastrada. Meg, que está costurando as próprias roupas, reclama da pobreza, como no livro, e dos modos da irmã. Amy se estranha com Jo, critica seu comportamento masculino e é ridicularizada pela protagonista por tentar falar difícil e usar as palavras de forma errada. Enquanto isso, Beth é mostrada arrumando a árvore de Natal e tentando apaziguar as coisas. Jo se mostra curiosa sobre o garoto que agora é seu vizinho e que sempre as observa da sua janela, mas Meg, apesar de curiosa, acha inapropriado ficar espiando. Jo acena para Laurie (Peter Lawford), que retribui o cumprimento, o que faz com que a garota fique um tanto envergonhada e Meg feche as persianas. Ainda na véspera de Natal, as meninas são mostradas ensaiando uma das peças de Jo, a garota sonha em ser escritora.
No dia de Natal, elas têm um café da manhã especial, mas ao saberem que a mãe está atendendo os Hummel, que eles tem um bebê recém-nascido e passam fome, decidem presentear a família com sua refeição. A única que resiste é Amy, mas ela é voto vencido. É interessante que quando falam do café neste filme, fazem referência ao Brasil, o item se tornou um luxo, porque em tempos de guerra, os navios devem se mobilizar para o esforço bélico e, não, para importar o produto. No caminho para os Hummel, elas encontram com Laurie, o vizinho, e o John Brooke (Richard Stapley), seu tutor, que olha insistentemente para Meg, que se sente desconfortável. Nesta versão, o Sr. Lawrence (C. Aubrey Smith) não manda uma ceia especial para as meninas como uma forma de compensá-las pelo ato de bondade. É estranho, porque este é um momento importante do início da história para mostrar que o velho vizinho não era rabugento, mas um cavalheiro gentil, fora que esta parte do livro está presente em todas as adaptações.
Ainda no dia de Natal, Jo e Meg comunicam à mãe que irão trabalhar para ajudar a família, a irmã mais velha como governanta de quatro crianças e a protagonista como acompanhante de Tia March. Já Amy é punida na escola por fazer uma caricatura do professor, que foi interpretado pelo mesmo ator (Olin Ross Howland) nas versões de 1933 e 1949. Ele quase bate na menina e, depois do susto, Amy esnoba as colegas, que estavam do lado de fora esperando para saber se ela tinha apanhado, mas nada é dito sobre Amy ser retirada da escola após o incidente. No livro, ela recebe castigos corporais e é tirada da escola por Jo. No livro, o incidente se presta a fazer uma critica ao tipo de educação que era oferecida às crianças em geral e às meninas em particular. Jo defende que Amy irá aprender mais estudando em casa com ela.
Por fim, Jo decide visitar o neto do vizinho. A garota, que queria ser um homem e lutar na guerra, estava fascinada pela história de que Laurie teria fugido da escola, mentido a idade e se alistado para lutar, ferido e descoberto, fora devolvido ao avô. Olha, isso não está no livro e a história não é nem desmentida por Laurie, nem confirmada por ele. Laurie, no livro, morava na Europa, ficou órfão de pai e mãe e foi mandado para a casa do avô, que não queria o casamento de seus pais e não vê com muitos bons olhos os hábitos e aspirações do garoto, que deseja ser pianista, como a mãe. Bem, nada disso está no filme. O fato é que Laurie e Jo se tornam bons amigos.
Laurie não se importa de Jo ser uma tomboy, nem a repreende como sua irmã mais velha, Meg, faz. Além disso, este Laurie parece deixar meio evidente desde suas primeiras cenas, que não vê Jo somente como uma amiga. É nesta visita que o problema de Jo com as lareiras é apresentado, ela já chamuscou mais de um vestido por se sentar perto demais do fogo. No Ano Novo, as meninas são convidadas para um baile na casa do Sr. Lawrence. Jo tem que ir com um vestido remendado por causa de uma queimadura e suas luvas estão manchadas. Meg diz que não irá se Jo não tiver luvas e troca uma das suas com uma das estragadas da irmã. Não era considerado adequado que houvesse contato direto pele a pele, por isso, homens e mulheres deveriam usar luvas durante a dança. No livro, a festa foi na casa da Sr.ª Gardiner e somente Jo e Meg comparecem, as outras irmãs são jovens demais para bailes.
Assim como na versão de 1933, o Sr. Lawrence conhece Amy e Beth, a quem convida para ir até sua casa tocar o piano que está sem uso (*nada é dito sobre o desejo de Laurie ser pianista, como a mãe italiana, o que desagrada o avô*), no baile em sua casa. Enquanto isso, Meg tem a chance de conversar e dançar com John Brooke. As meninas saem cedo da festa, porque Beth cai em prantos após ouvir uma conversa da Sr.ª Gardiner (Isabel Randolph) com a filha acusando a mãe das meninas de tentar enredar Laurie para que ele se case com Jo (*no livro, a conversa existe, mas em relação à Meg e a autora do insulto é a Sr.ª Moffat*). Meg esquece uma de suas luvas e Brooke passa a carregá-la em seu bolso como um tesouro. Nessa primeira parte do filme, Jo vende seu primeiro romance por um dólar e Laurie se espanta por ser muito pouco. Era mesmo, mas não podemos esquecer que o rapaz nascera rico, enquanto elas eram muito pobres. Fora isso, Jo fala do prazer em ganhar seu próprio dinheiro, algo que parece um conceito estranho para um rapaz que nasceu privilegiado. Quando Jo descobre que Meg e Brooke estão apaixonados, ela se desespera, porque o casamento significaria a separação das irmãs.
Chega um telegrama de Washington avisando que o pai das moças está doente. A Srª March manda Jo pedir dinheiro emprestado para a tia-avó, que humilha a garota. O tempo passa e Jo não retorna. Tia March vem em pessoa entregar o dinheiro e a apreensão em relação ao sumiço de Jo aumenta. No fim das contas, a protagonista retorna com uma boa quantidade de dinheiro, porque vendeu o cabelo para que a mãe tivesse recursos na viagem. Todos ficam consternados, Laurie se espanta e diz que ela está parecendo um porco-espinho atraindo a ira das outras irmãs, enquanto Jo finge que não se importa. Enquanto a mãe está fora, Beth adoece de escarlatina, pois continuou visitando os Hummel a pedido da mãe, enquanto as outras irmãs haviam esquecido da promessa. Jo, Meg e Hannah (Elizabeth Patterson), a empregada, mergulham no desespero, porque Beth parece estar vivendo suas últimas horas. Já Amy, que no livro e nas outras versões é enviada para a casa da Tia March, porque nunca tivera a doença, fica esquecida nesta parte do filme.
No fim das contas, a menina sobrevive, a mãe chega em tempo de ajudar na sua recuperação. Essa chegada em tempo da mãe acontece graças a um telegrama que Laurie enviou sem avisar ninguém. Quando Jo fica sabendo, ela abraça e beija o rapaz para depois se desculpar. Mesmo sendo amigos íntimos, esses arroubos não eram normais. Laurie, por outro lado, diz que gostou e, mais uma vez, lança para ela um olhar apaixonado. A marcação dos sentimentos de Laurie é muito mais forte nesse filme, do que na maioria das adaptações. Dias depois, Jo e Maeg carregam Beth para a sala, ela não está andando ainda. É engraçado, porque na versão de 1933, a Jo de Katharine Hepburn carrega sozinha a irmã e a atriz era uma adulta e bem mais pesada que a menininha do filme de 1949. É neste momento que o Sr. March (Leon Ames) retorna da guerra com o Sr. Brooke.
Laurie presencia o reencontro da família e olha apaixonadamente para Jo, ele deseja pertencer àquele grupo não somente como amigo, mas como parente mesmo. Apesar dos sofrimentos, a família está unida, no entanto, as meninas estão crescendo. Meg e Brooke, que acompanhara a mãe das moças até Washington, o que serviu para aproximá-lo dos pais dela, terminam por se casar. Jo recusa o amor de Laurie, despertando a revolta do rapaz. Neste ponto, as falas de Laurie no livro, e que não estavam no filme de 1933, são colocadas no filme para enfatizar o quão magoado ele está. Só que Jo não o ama, quer ser escritora, e não cede nem quando ele argumenta que seu avô apoia o casamento dos dois. Já Amy sonha em ser uma dama e se torna a sobrinha favorita da tia velha, já nessa primeira parte do filme é possível vê-la lançando olhares para Laurie, o que só é possível porque ela não é a mais nova das irmãs, explicarei isso logo abaixo. E Beth,? Ela permanece em casa, com sua saúde permanentemente debilitada, não há muito espaço para que ela possa sonhar com um futuro seja ele o casamento, ou uma carreira.
A adaptação de 1949 fez uma alteração inédita e que nunca foi repetida por nenhuma outra, ela inverteu a ordem de nascimento das irmãs. No início da trama, Meg tem 16 anos, Jo tem 15, Beth tem 13 e Amy está com 12 anos. No filme, Beth é a caçula e não sabemos bem a sua idade, aliás, acho que em nenhum momento é dito a idade de ninguém. Elizabeth Taylor tinha 16 ou 17 anos quando o filme foi rodado e, claro, faz alguém mais jovem nessa primeira parte da história, no entanto, Margaret O'Brien tinha somente 11 ou 12 anos, e era uma menina bem mirradinha. Assim, imagino que a ideia no filme é que Amy tem 13 ou 14 e Beth 10 anos, se muito. O'Brien era efetivamente uma criança e, mesmo assim, ela é um dos destaques do filme, seu nome é o terceiro nos créditos, compondo uma Beth que é adorável e trágica ao mesmo tempo. Agora, é estranho que o tempo passe para todos e ela permaneça presa em um corpo infantil. De qualquer forma, sua última cena do filme, quando interage com Jo, é uma das partes mais bonitas da película inteira.
Falando em idades, mais uma vez, a atriz que interpreta Jo é a mais velha de todas as irmãs. June Allyson tinha 32 anos quando o filme foi lançado e interpretou Jo dos 15 aos quase 30 anos. O problema é que ela aparenta a idade que tem, poderia passar por mais velha até, e mesmo compondo bem a Jo adolescente, basta que a câmera enfoque seu rosto para evidenciar sua idade, porque ela tinha muitas marcas de expressão. Já Janet Leigh tinha 22 anos e poderia aparentar menos tranquilamente. Ela convence como uma moça de 16 anos. Foi uma escolha complicada. Nessas primeiras adaptações, a gente sempre tem que se esforçar para aceitar que atrizes adultas, e que parecem adultas interpretem, Jo. Enfim, já que estou comentando as idades das irmãs, vou falar dos cabelos de Jo e Meg.
Temos a cena de Jo dizendo que não queria crescer e soltando os cabelos depois que Meg comenta, lá no início do filme, que ela já é uma moça e até está usando os cabelos presos. Uma moça de 14, 15 anos, já estaria usando cabelos presos no século XIX, mas apesar da fala mantida de Meg, a mais velha usa os cabelos soltos praticamente o tempo inteiro. O penteado de Meg neste filme é uma versão do que a adolescentes usavam em 1949 e, bem, essa opção foi MUITO ruim. A tomboy Jo de cabelo preso e a corretíssima Meg exibindo suas madeixas louras por aí. Além disso, esta versão coloca uma espécie de namoro entre Brooke e Meg precedendo o pedido de noivado, inclusive com os dois se tratando pelo nome e passeando por aí. Isso não está no livro, nem na versão de 1933, nem na de 1994, 2017 e até a versão de Greta Gerwig foi mais correta nesse quesito.
E é um negócio bem básico em uma história romântica de época, chamar pelo nome denota grande intimidade e é um momento muito valorizado nesse tipo de filme, ou livro. Aliás, esse tipo de coisa permanece vivo dentro de alguns mangás josei ou TL, normalmente, com o mocinho insistindo que a amada o chame pelo seu nome. Antes que alguém pergunte por qual motivo não reclamo de Laurie e Jo, bem, a protagonista é informal e detesta as regras da boa sociedade, além disso, no início do livro, eles são tratados quase que como crianças. Já Meg e Brooke começam o filme interagindo dentro de um clima de romance, fora que ele é um homem adulto e ela se vê como crescida.
No livro, quando Meg chama Brooke pelo nome é um momento de imensa emoção para o rapaz, porque tudo acontece quando a jovem o defende das ofensas de Tia March, que ameaça deserdá-la se ela se casar com um homem pobre. Aliás, é a tal cena do guarda-chuva, que eu sempre reclamo se é cortada, quando o plano de Jo para separar os dois fracassa, pois ela tinha contado a história para a tia. O que Jo acaba fazendo é precipitar o noivado da irmã, tanto em 1933, quanto em 1949, talvez o seu casamento, porque assim como na versão de 1933, não há clareza na passagem do tempo.
No livro, são quatro anos de espera até que Meg complete vinte anos, no entanto, o cabelo de Jo já aparece crescido, Laurie está concluindo a faculdade e Amy está usando saias longas. Depois do casamento e de rejeitar Laurie, Jo cai em um estado de letargia e deseja ir para Nova York, ela lembra que a mãe tem uma amiga, a Sr.ª Kirke (Connie Gilchrist), que poderia contratá-la como governanta de suas crianças (*no livro, Jo fala em ser costureira também*). A mãe concorda e diz que irá conversar com o marido. É em Nova York que Jo irá conhecer o Prof.º Bhaer, que virá a ser seu marido. Comparado com o filme de 1933, parece que a fase de Nova York foi ligeiramente menor, mas é pouca coisa.
Eu falei das idades das atrizes, então, o Prof.º Bhaer nos livros é um homem de 40 anos e que se acha velho demais para Jo que tem vinte e poucos. Além disso, ele é grandalhão e o livro talvez sugira que um tanto acima do peso. Neste filme, escalaram o ator italiano Rossano Brazzi, que é simplesmente o homem mais bonito do filme. Fora isso, ele só era um ano mais velho que June Allyson. Aqui, preciso expressar uma opinião, não sei se você, leitor, ou leitora, concorda, mas quando pegamos fotos antigas, as pessoas tendem a parecer mais velhas do que são. A vida tendia a ser mais curta, não raro mais dura, e tanto homens quanto mulheres, elas talvez mais, não viviam obcecados por essa tentativa de parecerem eternamente jovens, empurrando a ideia de morte para o mais longe possível. Ser adulto lhe dava ônus e bônus, que não eram desprezados. Por isso mesmo, um Rossano Brazzi talvez pareça mais velho aos nossos olhos do século XXI do que seus 33 anos reais, mas ele é indiscutivelmente bonito e atraente. O que me fez lembrar de Jane Eyre (1983) e do Timothy Dalton fazendo o "feio" Sr. Rochester e dizendo-se feio. OK.
Mesmo lindo de se ver, ter um Rossano Brazzi como Bhaer é muito incoerente e aproxima o filme de 1949 de versões posteriores, como as de 1994, 2017 e 2020. Em todas elas, escalaram um ator que é muito distante do professor de meia idade que conquistou o coração de Jo, seja no comportamento, seja na aparência. Se em 1933 não é necessário marcar a diferença de idade entre Jo e Bhaer, porque ela é visível, Paul Lukas era bem mais velho que Katharine Hepburn e isso estava evidente na tela, em 1949, isso não faz sentido, porque não há contraste algum. É mais a interpretação de June Allyson que tenta marcar que ela é jovem, cabeça de vento e um tanto ignorante, enquanto ele é um homem culto, vivido e elegante (*o que o Bhaer do livro, não era*).
A ordem das cenas da fase de Jo em Nova York foram alteradas em relação à versão de 1933, além disso, a sequência em que Bhaer dá sua opinião sincera sobre os escritos de Jo, contos sensacionalistas que ela publicava em revistas populares, é mais curta. Algumas linhas de diálogo foram cortadas, com certeza. Já a criada da Sr.ª Kirke, Sophie (Ellen Corby) que, no livro e nas outras adaptações, é uma mulher jovem e é ajudada pelo Prof. Bhaer com coisas pesadas que tem que carregar, o que desperta a simpatia de Jo, é transformada em uma mulher de meia idade e não recebe ajuda dele.
Enfim, nesta adaptação, Bhaer começa a levar Jo para óperas, peças e outras atividades culturais antes da decepção dela com o fato de Laurie não visitá-la em Nova York e Tia March levar Amy para a Europa em seu lugar. Assim, a tentativa de declaração de amor dele é anterior e não há a carta avisando que a saúde de Beth piorou, quem o impede de dizer que ama a moça é a chegada de uma das crianças, que acordou com a cantoria de Jo na escada. Agora, é meio incoerente imaginar que a família de Jo iria mantê-la no escuro sobre a eminente morte da irmã caçula, ela fica sabendo por Amy em um diálogo que parece mais uma indiscrição da irmã tagarela e, nessa versão, um tanto comilona. O fato é que Jo retorna para a família e deixa Bhaer para trás, a diferença é que ela mais de uma vez que eles estão trocando cartas, o que levanta as suspeitas de Meg sobre os sentimentos da irmã por ele.
A parte final do filme é igualmente corrida, a tal ponto que nada que sugira a aproximação entre Laurie e Amy aparece na película. Na versão de 1933 há uma cena somente e já é pouco. Engraçado é que na propaganda do filme, nas fotos que sobreviveram, investe-se muito na imagem de Elizabeth Taylor e Peter Lawford como um par romântico estabelecido. O nome dele é o segundo dos créditos, o de Taylor, o quarto. Enfim, o casamento dos dois é relatado por Meg para Jo, com um agravante, eles continuam na Europa em lua de mel quando, no livro e nas outras adaptações, a notícia da morte de Beth precipita o casamento dos dois e o retorno, que ficou na dependência do transporte marítimo da época. De qualquer forma, não vemos nem Laurie, nem Amy, amadurecerem, como ocorre nas adaptações mais recentes e no original. Aqui, em 1949, também não houve a fase revoltada de Laurie, ele continuou um bom rapaz o tempo inteiro.
Por qual motivo aconteceu isso? Não sei. Fiquei contabilizando o que de novo foi inserido no filme que possa ter comido tempo de tela, mas é coisa muito rápida, cenas de segundos, algumas já comentei e dei destaque. Outras são uma conversa do pai com Jo explicando a doença de Beth quando ela retorna para casa, há pequenos diálogos de Jo com a irmã doente, temos a cena final de Beth, que é muito bonita. Há ainda a conversa entre Jo e Meg sobre o livro, Bhaer e Amy e Laurie, que é mais longa. O que ficou mais mesmo foi o desdobramento da fala maldosa da Sr.ª Gardiner, com as irmãs jurando que nada iriam falar para a mãe (*no livro, elas falam*) e Jo conversando com a mãe sem contar o ocorrido. "Você tem planos para nós?"
No livro, Meg e Jo participam da conversa e ela é longa, nesta versão, a protagonista tem todo o destaque e várias parte do diálogo são unidas. A Sr.ª March quer que as filhas sejam felizes, tenham caráter, sejam úteis à sociedade e se casem com homens que amem, se forem ricos, ótimo, se não forem, é melhor ser respeitada e amada na pobreza. No livro, como a conversa se estica, a mãe acrescenta que é melhor ficar solteirona do que ser desrespeitada e humilhada em um palácio, ou se tornar uma perdida (*não com esses termos*). O filme de 1949 colocou a Sr.ª March igualando casamento e o ser solteira e feliz. Essa modificação, uma junção, na verdade, com redução de diálogo, acrescenta algo de progressista a um diálogo que, no original, é afetuoso, é efetivamente preocupado com a felicidade das meninas, mas que coloca o casamento como único destino, o resto, o ficar solteirona, não era bem uma opção. Salvo o casamento como destino, eu desejo o mesmo para a minha filha. É o melhor diálogo do filme de 1949 e uma das sequências mais importantes do livro. Mas como houve sequências cortadas, também, então, ficou quase elas por elas. E, no geral, as grandes omissões continuaram as mesmas do roteiro original de 1933.
Como no filme de 1933, Jo escreve seu livro semiautobiográfico e lhe dá o nome de "My Beth" em homenagem à irmã morta. Ela envia o manuscrito para o Prof. Bhaer para que ele avalie a qualidade de seus escritos. Ela confia nele e, assim como em 1933, não há nenhum ar de superioridade por parte do professor em relação ao que Jo escreve. Ele reconhece o seu talento, acredita que ela precisa encontrar um caminho próprio e que o material que ela vinha escrevendo era de baixa qualidade. Não existe sequer um discurso moralizador que está no livro, pois a literatura popular, assim como serão os quadrinhos poucas décadas depois, era considerada material pernicioso já que o número de pessoas alfabetizadas aumentava rapidamente e os exemplares dos jornais, revistas e livrinhos eram bem baatos. E, se a pessoa não tinha como comprar, podia tomar emprestado, como a criada, Sophie, fez nos filmes de 1933 e 1949.
Jo nas duas adaptações reconhece sua ignorância e suas limitações como autora e vê no professor alguém que tem condições de avaliá-la sem a condescendência de amigos e parentes. É interessante que na versão de 1949, Laurie não gosta do que Jo escreve, mas o sentimento parece vir mais do ciúme e desejo de posse, além de um desprezo pelo trabalho. Casando-se com ele, ela jamais precisaria trabalhar, com Bhaer é diferente, ele vê potencial em Jo e a estimula a escrever, mesmo que veja o que ela produz no momento como um material de qualidade duvidosa. E, por fim, ele vem até ela com o livro e a sequência final é quase igual a de 1933, sem o guarda-chuva enganchado na porta e Hannah fechando a casa e recebendo o solitário professor na família. O que eu realmente acho curioso é que tenham cortado o beijo, o livro coloca Jo tomando a iniciativa e beijando seu professor no meio da rua e debaixo do guarda-chuva, mas os filmes parecem achar isso escandaloso. É uma omissão bem puritana, eu diria.
Falta falar um pouquinho do figurino. Algo que me saltou aos olhos é que Jo parece sempre estar usando roupas para o dia em qualquer situação. Ela sempre está com gola alta, mesmo que as mangas não sejam longas. É assim no baile na casa de Laurie e ela usa o vestido de gola alta que usou no casamento de Meg para ir à ópera. Na versão de 1933, achei o vestido da ópera de Katharine Hepburn muito rico, mas o usado por June Allyson foi pior, porque era inadequado mesmo (*foto abaixo*). E, no geral, o figurino do filme de 1949 também dialoga com as roupas femininas usadas à época, o que não chega a ser um grande problema, o que ficou ruim foi tomar os cabelos como referência, inclusive para os homens. E como eu odeio essa franjinha de June Allison! A produção de 1949 pode ter sido mais rica, mas a de 1933 me pareceu mais sincera com a época que buscava retratar.
Acredito que mais do que outras adaptações de Little Women, este filme é sobre Jo e o trailer, que está no final, explica que é sobre como uma menina se torna mulher. E o que é se tornar mulher? É descobrir o amor por um homem. A Jo, neste filme, explica para as irmãs, especialmente, Meg, o que é amar, como uma mulher se sente, mesmo sem nunca ter amado. Ela se sente credenciada por ser escritora. Quando Bhaer lhe sugere que escreva sobre o que ela sabe e conhece, ela terá que buscar dentro dela sentimentos que estão lá e abandonar as superficialidades dos romances que ela vinha escrevendo. Ela ama sua família, ela ama os amigos, mas ela precisa entender que ama Bhaer e é o que ela consegue entender no final, algo que Laurie, na sua explosão de raiva, já tinha anunciado. Curiosamente, e falo disso mais longamente na resenha sobre o filme de 2020, Alcott não queria dar um par para Jo, mas o editor forçou a barra, uma mocinha só pode terminar um romance em duas condições, ou casada, ou morta. Jo se casa.
Concluindo, é um bom filme, mas que acabou deixando questões importantes de fora. Lembraram de que Amy usava um pregador para tentar afinar o nariz, mas esqueceram dela durante a doença de Beth, por exemplo. Introduziram diálogos do livro, mas insistiram em bobagens como colocar Amy e Beth em um baile no qual elas não deveriam estar. Jo, assim como no filme de 1933, exclama "Cristóvão Colombo" para horror das irmãs, mas Meg anda de cabelo solto mesmo dizendo que a irmã é uma moça agora e deve prender o seu. E, bem, colocaram um Prof. Bhaer bonito e jovem demais para fazer contraste com Jo e ele nem parecia tão pobre assim, como deveria ser. Continuo, claro, tendo carinho por este filme, mas ele acabou empalidecendo em contraste com a versão que lhe serviu de base. Se der, eu farei um post comparativo das adaptações, quem está melhor no papel, segundo a minha opinião, claro. Para quem se interessou pelo livro, a edição com notas e ilustrada da Zahar está em promoção no Amazon, mas há outras, inclusive gratuitas.
Ontem, havia uma thread no Twitter de recomendações de filmes de Natal. Vivemos no Brasil, aqui não tem neve, mas filme de Natal normalmente nos remete ao Hemisfério Norte, ou às películas sobre o Nascimento de Jesus. Aliás, tenho uma resenha sobre a animação sofrível A Estrela de Belém, aqui no blog, lembro de ter saído da igreja e ido assistir com a Júlia em um domingo, acho que foi a única vez que fui ao cinema domingo na minha vida. Voltando, alguém falou em Harry Potter, que só vale pelo aspecto neve; uma amiga citou o queridíssimo O Enigma da Pirâmide (Young Sherlock Holmes), um filme que eu amo, mas eu lembrei de uma escolha óbvia, Little Women, tirando a versão última da Greta Gerwig, todas as outras, incluindo as animações, começam sempre com o Natal sem presentes.
Little Women (*aqui, As Filhas do Dr. March, Adoráveis Mulheres, Quatro Irmãs ou, ainda, Mulherzinhas*) é a obra mais conhecida da escritora norte-americana Louisa May Alcott (1832–1888) e foi escrito em 1868 e 1869. Trata-se de um livro semiautobiográfico, pois coloca muitas situações vividas pela família da autora dentro da história, sendo que Jo é a própria escritora. Para quem nunca ouviu falar este livro, ou viu qualquer uma das adaptações, Little Women conta a história das quatro irmãs March (Meg, Jo, Beth e Amy), mostra seu amadurecimento e a transição da adolescência para a idade adulta com suas alegrias, dores e desafios (Bildungsroman). Eu amo Little Women e tenho resenha do filme de 1994, da série da BBC de 2017 e da versão da Gerwig aqui, mas faltam (*dos que são acessíveis e pretendo ver*) as versões de 1933 e 1949. Coloquei as duas para baixar e veio a de 1933 primeiro. Assisti ontem e eis a resenha. O filme foi um marco por ser a primeira versão sonora para o cinema, houve duas anteriores (*1917, 1918*), só que mudas. Se tudo der certo, faço a do filme de 1949 no domingo, que foi a primeira que eu assisti na vida e pela qual tenho um imenso carinho.
A versão de 1933 começa no Natal, como no livro, com a mãe das meninas em um posto de distribuição de donativos, a Marmee (Spring Byington) original, a mãe de Alcott, foi pioneira na profissão do serviço social. É inverno, estamos durante a Guerra de Secessão (1861-65), mas o filme dialoga diretamente com o presente (*da época*), a Grande Depressão, fruto da Quebra da Bolsa de Nova York (1929). Marmee se apieda de um idoso com quatro filhos homens, todos envolvidos na guerra (*dois mortos, um prisioneiro e outro gravemente ferido*), além de um casaco quente, ela lhe dá o pouco dinheiro que tem consigo e se sente abençoada por ter as quatro filhas perto de si, ainda que seu marido (Samuel S. Hinds) esteja servindo como capelão na guerra (*mesmo sem precisar, por causa da idade*). A partir daí, o filme vai nos apresentando as quatro garotas.
Meg (Frances Dee) e Jo (Katharine Hepburn) trabalham, a primeira como governanta de quatro crianças, a segunda atendendo a tia-avó idosa, solteirona e rica (Edna May Oliver), que atormenta seus dias. As moças querem chegar mais cedo em casa já que é véspera de Natal, mas Tia March prende Jo em sua casa por mais tempo, porque ela não limpou a casa direito. Ainda assim, a velha rabugenta dá 1 dólar e presente para cada uma das sobrinhas. A seguir, vemos Amy (Joan Bennett), a caçula, sendo repreendida na escola por fazer uma caricatura do professor. Amy é humilhada, mas enfrenta as colegas de cabeça erguida. A menina se ressente por não ser mais rica, nem ter memórias do tempo em que a família tinha posses. Além disso, ela é egoísta e tenta falar difícil, utilizando palavras com sentido trocado, ou faladas de forma incorreta. A quarta das irmãs, Beth (Jean Parker), é apresentada com seus gatinhos e seu velho piano com as teclas defeituosas. Ela não vai à escola, é tímida demais e fica em casa boa parte do tempo ajudando a criada dos March, Hannah (Mabel Colcord), que permaneceu com eles dos dias de abundância.
Jo está curiosa sobre o garoto que agora é seu vizinho rico e que sempre as observa da janela, mas Meg acha inapropriado ficar espiando. As meninas planejam o que farão com o seu dólar, mas depois desistem e decidem presentear a mãe. Na manhã de Natal, elas têm um café da manhã especial, mas ao verem a mãe chegando em casa cedo e com o ar preocupado, elas aceitam presentear uma família de imigrantes pobres, os Hummel, com sua refeição. Ao saber do que as meninas fizeram, o Sr. Lawrence (Henry Stephenson) decide mandar uma ceia especial para a família March e ela chega bem na hora em que as irmãs estão apresentando uma das peças de Jo para as meninas da vizinhança. Jo deseja ser escritora e tem o apoio da família.
Como uma compensação pela ceia especial e para matar a curiosidade, Jo decide visitar o neto do vizinho. O menino, que prefere ser chamado de Laurie (Douglass Montgomery), acaba se tornando seu amigo. Ele não se importa de Jo ser uma tomboy, nem a repreende como sua irmã mais velha, Meg, faz. No Ano Novo, as meninas são convidadas para uma festa na casa do Sr. Lawrence, que conhece Amy e Beth, a quem convida para ir até sua casa tocar o piano que está sem uso (*nada é dito sobre o desejo de Laurie ser pianista, como a mãe, o que desagrada o avô*). Enquanto isso, Meg conhece John Brooke (John Davis Lodge), tutor de Laurie, e os dois terminam se apaixonando para desespero de Jo, que deseja que as irmãs estejam sempre unidas. Nessa primeira parte do filme, Jo vende seu primeiro romance por um dólar e Laurie se espanta por ser muito pouco. Era mesmo, mas não podemos esquecer que o rapaz era rico.
Chega um telegrama de Washington avisando que o pai das moças está doente. A Srª March manda Jo pedir dinheiro emprestado para a tia-avó e a moça demora a voltar. No fim das contas, Jo retorna com muito mais, porque vendeu o cabelo para que a mãe tivesse mais recursos na viagem. Todos ficam consternados e a jovem finge que aquilo não foi nada frente o sacrifício que a o pai e outros soldados estão fazendo. Enquanto a mãe está fora, Beth adoece de escarlatina, pois continuou visitando os Hummel a pedido da mãe, enquanto as outras irmãs haviam esquecido da promessa. Amy é mandada para a casa da Tia March, porque ainda não teve a doença, e as irmãs e Hannah mergulham no desespero, porque Beth parece estar vivendo suas últimas horas.
No fim das contas, a menina sobrevive, a mãe chega em tempo de ajudar (*graças a um telegrama de Laurie*) na sua recuperação e o Sr. March retorna da guerra pouco depois. Apesar de pobres, a família está unida, no entanto, as meninas estão crescendo. Meg e Brooke terminam por se casar. Jo recusa o amor de Laurie e quer seguir sua carreira como escritora. Amy sonha em ser uma dama e se torna a sobrinha favorita da tia velha. Já Beth, ela permanece em casa, com sua saúde permanentemente debilitada, não há muito espaço para que ela possa sonhar com um futuro seja ele o casamento, ou uma carreira.
Acredito que é a terceira vez que eu assisto este filme, desta vez, com o objetivo de fazer uma resenha. Começo dizendo que acho um filme muito bom e que tenta captar o que é essencial do livro, sacrificando, claro, algumas partes que eu amo, e modificando outras. E o filme foi reconhecido à época como um grande sucesso e recebeu o Oscar de melhor roteiro adaptado, assinado pelo casal Victor Heerman e Sarah Y. Mason, desconfio que mais dela, do que dele. Ambos tiveram importância na história do cinema, mas Mason foi"(...) a primeira supervisora de roteiro em Hollywood, tendo inventado a arte da continuidade cinematográfica quando a indústria mudou do cinema mudo para o falado". Depois do sucesso de Little Women, eles foram convidados para escrever o roteiro da primeira adaptação de Orgulho & Preconceito, mas ele foi descartado, não sei por qual motivo.
Sim, o roteiro é bom, mas o filme depende demasiadamente de Katharine Hepburn, e não poderia ser diferente, porque ela é um furacão. Sua Jo é a perfeita tomboy, correndo, pulando, escalando, esgrimindo com Laurie usando um atiçador de lareira e soltando o cabelo em sinal de revolta, porque não quer crescer. O problema, pelo menos para mim é que a atriz não consegue mesmo convencer como uma menina de 15 anos no início do filme, a gente releva, claro, mas é evidente que se trata de uma mulher adulta, que parece ser adulta e imponente, em um papel de menina. E Hepburn era a mais velha das atrizes interpretando as irmãs March. Da mesma forma, Douglass Montgomery parece velho demais para ser Laurie e a maquiagem não ajuda muito, ela parece envelhecer o elenco e ter algo daquele efeito dramático da época do cinema mudo. A maquiagem parece envelhecer o elenco a ponto de Jean Parker, que faz Beth, e era a mais jovem das atrizes do elenco, uma adolescente mesmo, parecer uma mulher adulta. Talvez, no caso dela, as sobrancelhas finíssimas, típicas da época tenham piorado a situação. A única que parecia jovem o suficiente na primeira fase é Frances Dee, que passa um ar de doçura e gentileza.
Agora, o que eu realmente amo nesta versão de Little Women é o Prof. Bhaer. Acredito que este filme, sacrificando outras partes da história, claro, é o que dá mais espaço para o professor alemão que termina se casando com a mocinha. Jo o conhece quando segue para Nova York para ser governanta das filhas (*no filme filhos*) da Sr.ª Kirke, uma amiga de sua mãe. No livro, ela parte por sugestão de Sr.ª March, que vê a filha muito triste por ter rejeitado Laurie e pelo afastamento dos dois e a falta de perspectiva na vida. Neste filme, é um pedido de Jo. Aliás, um dos problemas deste Little Women é a marcação de tempo entre o pedido de casamento de Brooke para Meg (*e temos a deliciosa cena do guarda-chuva com tia March*) e o casamento dos dois. No livro, se passam quase quatro anos, porque Meg tem 16 e os pais acreditam que ela deve esperar até os 20 para se casar.
Porque a marcação do tempo parece confusa? Bem, Jo continua com seus cabelos curtos, eles não cresceram, mas, quando ela está em Nova York, eles parecem longos de novo. Por outro lado, Amy e Beth já estão usando saias longas e não as de menina no casamento da irmã, num salto de quatro anos, uma teria 16 e a outra 17 anos. Aliás, Laurie só tem três cenas realmente boas neste filme, a da luta de espadas com Jo, uma em que os dois saem em uma desabalada carreira da cidade até em casa depois que ele finge (*será?*) que vai beijar Jo, e a do pedido de casamento recusado. Nesta cena, o cabelo do ator não está lambido para trás e parece mais natural. Assim, não consigo achar esse Laurie interessante, mesmo que o ator seja uma beldade para a época. Aliás, eu não tenho problema algum com o padrão de beleza masculina dos anos 1930, mas o cabelo do moço e a maquiagem pesada meio que estragaram as coisas. Curiosamente, o prof. Bhaer (Paul Lukas) não está com o excesso de maquiagem dos demais homens do filme.
Ainda vou reassistir o filme de 1949, mas acredito que Paul Lukas é o meu professor Bhaer favorito. Ele é gentil com Jo, ele passa no olhar a adoração que sente por ela, ele tenta consolá-la e, ao mesmo tempo, recua, porque não tem certeza de que seu afeto será bem recebido, ou se é adequado demonstrá-lo em público. Nada dos excessos de intimidade que as últimas adaptações insistem em colocar. Acho muito simpáticas as cenas dele com Katharine Hepburn, uma das mais fofas é ela pregando os botões da roupa dele com ele dentro da roupa. 😄 No livro, ela lhe faz essas pequenas gentilezas, porque ele vive desalinhado e é esquecido, nesta fase da história, Jo se tornou muito competente nas prendas domésticas. No filme, ela continua um tanto moleca e desastrada.
O que o filme não mostra, mas a maioria das adaptações corta mesmo, são os sobrinhos o professor. Ele precisava sustentá-los e, por isso, sua felicidade pessoal sempre estava em segundo plano. Além disso, ele temia não ter nada a oferecer para Jo, além de ser bem mais velho que ele, algo muito bem caracterizado neste filme. Ele também não usa barba, mas nunca escalam um Laurie moreno e de cabelos encaracolados, também, então, paciência. O único Bhaer com barba que me lembro é o da minissérie da BBC, só que, nesta adaptação, o ator era jovem demais. Enfim, como em toas as adaptações, porque no livro é diferente, Jo pede que ele avalie seus escritos, Bhaer o faz de forma muito eloquente e apaixonada, tentando não a ofender, ele diz que o que ela escreve é de baixa qualidade, mas que ela tem potencial e ele reforça que ela pode fazer muito melhor. Resumindo, ele não faz mansplaining, ele lhe dá um sincero conselho, conforme lhe foi pedido. Ele não tenta tutelar Jo, ou age com superioridade, no que, aliás, isso se afasta um pouco do livro original.
Só que a cena escala para algo a dramédia, porque é Katharine Hepburn e é o tom do filme, e Jo acabou de sofrer uma dupla decepção, Laurie passou por Nova York e não veio vê-la, nem lhe mandou notícias e Amy foi escolhida por tia March para ir para a Europa. O pobre Bhaer acredita que ele é o responsável pela sua choradeira, depois, ele acaba sendo levado a acreditar que Jo está apaixonada por Laurie. Como forma de compensar Jo, ele passa a levá-la para ver óperas, consertos e peças, como uma forma de mostrá-la um pouco da Europa que está em Nova York. Nada de bailões da terceira classe do Titanic, como no filme de 2020, ou oferecer bebida alcóolica para a mocinha, como em 1994. O professor do filme de 1933 é um romântico, não um rebelde, ele corteja Jo, porque é o que ele está fazendo, sem tentar desvirtuá-la. E isso é o que está de acordo com o livro, que tem uma ideia moralizadora mesmo, fora que a família March verdadeira, a da autora do livro, era quaker e sua mãe participava das campanhas de temperança, que vão culminar na Lei Seca nos Estados Unidos. No livro, isso aparece quando Laurie repreende Meg por estar bebendo em um baile, mas o filme de 1933, não colocou essa parte.
No exato momento em que o professor está prestes a se declarar, depois que Jo diz que falou dele em suas cartas para a família, o que o deixa muito tocado, ela recebe uma missiva comunicando da piora de Beth e parte. Como ficamos muito tempo na primeira parte, as meninas adolescentes, e outro tanto em Nova York, a parte final do filme é corrida. A Beth de 1933, me parece a mais sem sal de todas, pelo menos nessa parte final da doença. E vemos nada de Amy na Europa, assim como Laurie não tem sua fase juventude transviada por conta da rejeição de Jo. A notícia da morte de Beth chega na Europa e é encaminhada rapidamente a aproximação entre Amy e Laurie. Enquanto isso, Jo, o real centro do filme, chora, escreve seu livro e o envia ao professor.
Nessa fase final, vemos pouco de Meg, também, mas os gêmeos aparecem e uma das crianças era filha do ator que faz o Sr. Brooke, que era um sujeito de uma poderosa família de políticos e abandonou a carreira pouco depois. E temos um final corrido com a volta de Amy e Laurie, ele usando um bigode para fazer parecer que a personagem amadureceu um tanto, e Jo reencontrando o Prof. Bhaer. O final dos dois será meio que copiado por quase todas as adaptações posteriores, porque os últimos capítulos do livro são meio que tesourados, sempre enfiam que ele lhe trouxe o livro que ela escreveu (*coisa que não está no original*) e deixam só a cena do guarda-chuva. Depois de desfeito o malentendido, porque Bhaer acreditou que Laurie e Jo tinham se casado, ele se declara e temos um dos meus diálogos favoritos:"I have nothing to give but my heart so full and these empty hands." "They're not empty now" ("Eu não tenho nada a oferecer a não ser este coração tão cheio e estas mãos vazias." "Não estão vazias agora".). Nesta versão, não temos beijo, como no livro, aliás, mas temos Jo entrando em casa com o professor e quase enganchando o guarda-chuva na porta, porque os dois estão muito emocionados. Hannah sorri e fecha a porta. Sobem os créditos.
Falta comentar algumas coisas. Curiosamente, várias partes do livro que sempre costumam ser contempladas, não estão nesta película. Amy não diz que o cabelo de Jo é sua única beleza, tampouco queima os escritos da irmã por pirraça. Meg tem uma personalidade bem mais conformada, não reclama das crianças de quem toma conta, ou de ter que trabalhar, tampouco é vaidosa como no original. Não arrebenta seus pés para usar os sapatos de festa apertados, não inveja as outras moças, nada disso. Brooke certamente não teria problema em contentar a Meg deste filme com seu magro ordenado. E Jo não queima o cabelo de Meg por acidente, quando o estava arrumando para o primeiro baile. Falando em cabelo, este filme não mostra Jo pedindo o dinheiro emprestado para a passagem da mãe, algo que a velha à principio negou, porque ela considerava o sobrinho um cabeça de vento, ou a velha indo pessoalmente entregar a quantia, como em outras produções. No livro Jo só corta o cabelo, porque a tia não quis ajudar, não foi um ato a mais de coragem, por assim dizer.
Já Amy, e a atriz enganou a produção e não contou que estava grávida, o que gerou problemas para o figurino, não apanha do professor, nem é dito que foi retirada da escola, algo que é importante no livro, porque permite a crítica a péssima qualidade da educação das crianças em geral e das meninas em particular. Sim, Little Women era, para sua época, um livro bem feminista, porque a família Alcott era bem progressista e isso nada tem a ver, claro, com não ter uma moralidade bem rígida. A forma como Jo e Laurie se conhecem é, também, modificada. Eles se conheceram no baile no qual Jo não podia dançar por ter queimado o vestido e estar com ele remendado. O baile também não era na casa do rapaz, tampouco Amy e Beth foram para a festa. Elas eram jovens demais. Essa me parece a grande incoerência da película, porque poderiam aproximar Beth do Sr. Lawrence de outra forma. As duas meninas ficavam sentadas na escadaria sem poder ir para o salão, ou dançar, o que não tem sentido didático algum e é quase uma tortura para ambas por motivos diferentes.
Falando do figurino, ele me parece muito bom para a época, e é até fácil porque as roupas das March são modestas e não temos o segundo baile, que exigiria mais da produção. Segundo a Wikipedia, Katharine Hepburn, a dona do filme, levou uma fotografia de uma de suas avós e pediu para que fizessem um vestido igual aquele para sua personagem. O que me parece, e eu não sou especialista em história da moda, é que assim como a maquiagem, cabelos e as sobrancelhas, alguns vestidos parecem dialogar com a moda dos anos 1930. Meg e Amy são as que mais aparecem com vestidos de mangas curtas e bufantes que parecem muito mais com a década da produção do filme do que com os anos 1860.Não há demérito algum e este filme fez muita justiça ao livro original. E, antes que eu me esqueça, Edna May Oliver, a Tia March, interpretou Lady Catherine de Bourgh na primeira versão de Orgulho & Preconceito.
Concluindo, adorei rever Little Women 1933, fazia muitos anos que não assistia e comprovei todas as qualidades que o filme tem. Observando as várias versões, é possível gostar mais de umas partes de uma, e outras de outra. Eu continuo achando a versão de 1994, a melhor, vejam minha resenha, por favor, mas o maior defeito da melhor adaptação não está nesta de 1933, porque, aqui, o Prof. Bhaer caminhar muito próximo do livro e ainda consegue pontuar mais alto, porque age de forma menos machista que o original sem parecer incoerente com a época que o próprio filme está retratando. Estabelecido isso, nesta parte pelo menos, o filme de 1933 pontua mais alto em termos feministas. Para quem se interessou pelo livro, a edição com notas e ilustrada da Zahar está em promoção no Amazon, mas há outras, inclusive gratuitas.