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sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Gengoroh Tagame celebra o casamento igualitário na Tailândia

Gengoroh Tagame, que fez sua fama produzindo mangás Bara (*não sabe o que é?  Temos guestpost aqui.*), postou uma ilustração no Twitter para comemorar o casamento igualitário na Tailândia, que entrou em vigor no ano passado.  A aprovação do casamento igualitário foi feita no ano passado e entrou em vigor ontem, permitindo que vários pessoas pudessem finalmente se casar.  As personagens que aparecem na ilustração vem do mangá seinen Otouto no Otto (弟の夫), aqui, no Brasil, O Marido do Meu Irmão.  Recomendo muito, tem resenha no blog (*vol. 1 e 2*).

E no Japão?  Como andam as coisas?  Enfim, não há casamento igualitário reconhecido por leis que se apliquem a todo o país, embora, algumas cidades japonesas reconheçam as uniões  e pelo menos duas supremas cortes distritais tenham decidido que o não reconhecimento das uniões do mesmo sexo está em contradição com a constituição.  O Unseen Japan publicou no dia 21 deste mês uma matéria comentando os avanços e resistências ao casamento igualitário no Japão e que pesquisas recentes apontam que a maioria da população do país apoia o casamento igualitário.  Neste momento, segundo o artigo, 24 leis do país se aplicariam a casais do mesmo sexo, mas outras 130 leis estão em disputa.  De resto, a matéria responsabiliza a ala mais conservadora do Partido Liberal Democrático de ignorar os anseios da população e os direitos humanos.

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Já tivemos um anime Bara? Não sei, mas, no ano que vem, teremos. (+18/NSFW)

Eu perdi o anúncio deste anime, mas acabei vendo a matéria no ANN sobre a estreia de  Shin Yaranai ka (新・やらないか), que será em 1 de abril de 2024.  Antes de entrar em detalhes, Bara é uma demografia, são mangás feitos para o público gay no Japão.  Não é BL, não é feito por mulheres, os autores são homens, a maioria absoluta pelo menos deve ser.  E é material que tem conteúdo sexual bem evidente.  Tem guestpost aqui.  O anime será baseado no mangá Kuso Miso Technique (くそみそテクニック), de Junichi Yamakawa, publicado na Baracomi.  Segundo o ANN, o anime seguirá a história principal do mangá, que é one-shot, e trará algo mais.  

E qual o resumo da história? Masaki Michishita é um estudante comum de uma escola preparatória que um dia está correndo para usar o banheiro de um parque. Apesar da pressa, ele avista Takakazu Abe, um mecânico de automóveis extremamente bonito, sentado em um banco. Os dois trocam olhares, o sujeito abre seu macacão, exibindo seu abdômen perfeito, e diz "Yaranai ka" (Vamos fazer isso?), E os dois vão juntos "fazer isso" no banheiro. 

É isso.  Gosta?  Agarre a oportunidade.  De resto, eu fico imaginando se o material terá a qualidade ruim da média dos animes TL (Teen Love), ou será uma produção com uma animação melhor.  E, um detalhe importante, a série foi feita por vaquinha, crowdfunding, dos fãs.  Só isso já é sinal de sucesso.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Exposição celebra os 90 anos do criador da estética Kawaii

Rune Naito (1932-2007) é lembrado como um dos pioneiros do que podemos chamar de kawaii, estética que denota “um estilo artístico e cultural japonês que enfatiza a qualidade da fofura, usando cores vivas e personagens com aparência infantil” (*definição do Collins Dictionary).  Aliás, acredito que não existe fã de shoujo que não tenha tropeçado, mesmo sem saber que era dele, em uma ilustração de Naito.  E ele criou um pandinha que é popular até hoje, segundo o Sora News.

Nos anos 1950, Rune Naito produzia ilustrações para revistas femininas infanto-juvenis, como a Junior Soleil, e livros para o mesmo público.  Nos anos 1960, ele produziu peças de design de interiores e cozinha, além de fazer ilustrações para revistas femininas para um público adulto.  Esta é a parte mais conhecida da obra de Naito.

Já na década de 1970, segundo a Wikipedia, ele passou a produzir ilustrações homoeróticas, sendo, também, um dos pioneiros dessa área.  Ele desenhou a primeira capa da Barazoku (*Tribo da Rosa*), a primeira revista com contos e mangás voltadas para o público gay masculino.  Achei várias dessas ilustrações e elas são bem kawaii, também.

O verbete comenta que Rune Naito omitiu  sua orientação sexual até o lançamento da sua autobiografia chamada Subete o Nakushite (After Losing Everything), em 2005.  Ainda segundo a Wikipedia, as exposições da obra de Naito tendiam a excluir as ilustrações homoeróticas e eles só foram incluídas pela primeira vez em uma exposição da obra do autor de 2019.

A exposição, aberta no dia 19 de outubro, descrita no Sora News parece não incluir o material homoerótico do autor, com o nome de "Exposição Especial do 90º Aniversário da Rune Naito – Sonhos Fantásticos na Vida Diária", ela apresenta "arte cuidadosamente selecionada e produtos desenhados pelo próprio artista, incluindo ilustrações, pinturas, roupas, utensílios de cozinha e ornamentos".  Até entendo que, sendo uma exposição aberta ao público infantil, o material erótico seja excluído, me pergunto, no entanto, quando teremos uma exposição focada na arte erótica do autor.

sábado, 4 de junho de 2022

Mangá-ka Gengoroh Tagame falará na Embaixada da Espanha para evento LGBTQIA+

No próximo dia 6, Gengoroh Tagame participará de um talk show na Embaixada da Espanha em Tokyo. Sua participação faz parte da exposição SOMOS: Exposição Diversidade e Narrativa Cultural, que vai até 8 de junho. Tagame falará sobre suas experiências relacionado ao seu mangá Otouto no Otto (弟の夫), aqui, O Marido do Meu Irmão. e Bokura no Shikisai (僕らの色彩).  A entrada é gratuita, mas ´preciso reservar a entrada antecipadamente por e-mail.  As informações do post vieram do ANN e do Comic Natalie.  Mantive o LGBTAQ+, porque é o que está nas matérias.

A exposição SOMOS: Diversidade e Narrativas Culturais LGBTQ+ é um programa do governo espanhol para promover o intercâmbio cultural entre Espanha e Japão, ensinar história LGBTQ+ e destacar artistas japoneses que criam obras com temas ligados à diversidade. Páginas do mangá O Marido do Meu Irmão estarão em exibição na embaixada, assim como do oneshot Sakana to Mizu (魚と水), que pode ser lido on line em japonês, aqui.  Consta que há scanlations desse mangá, mas não encontrei.  

Gengoroh Tagame é o principal nome do Bara Mangá, mangás com conteúdo erótico/pornográfico feitos para homens gays, normalmente, por homens.  Nos últimos anos, talvez para conseguir espaço fora dessa demografia, que é restrita, Tagame começou a publicar em revista seinen.  

Sem abrir mão de seu estilo que é inconfundível, ele eliminou as cenas de sexo explícito e atenuou o fanservice. Resultado?  Ele teve seu talento reconhecido para além dos muros do Bara mangá.  Tivemos uma amostra do que ele é capaz de fazer, quando O Marido do Meu Irmão foi publicado pela Panini no Basil.  Para quem quiser, resenhei os dois volumes da série. Eles estão aqui e aqui.  

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Panini surpreende e anuncia elogiado mangá de Gengoroh Tagame


Esse anúncio foi feito na semana passada e eu terminei esquecendo de postar.   Enfim, não esperava muita coisa de 2019, mas os anúncios interessantes estão se acumulando e eu, depois de um bom tempo, terei  mangás em português que eu realmente vou comprar com gosto.  Um deles, Otouto no Otto (弟の夫) de Gengoroh Tagame. Aliás, dentre os anúncios recentes, este é o único que eu não tinha comprado em inglês, porque efetivamente estava caro demais em inglês.  Muito  bem, o mangá foi a estréia de Gengoroh Tagame, um dos mestres do Bara Mangá, no mangá mainstream, por assim dizer.  Ele publicou a série na revista seinen Manga Action (*a mesma de Orange*) entre 2014 e 2017, recebendo elogios e prêmios.  Em 2017,  série virou dorama.  


Sensível, Otouto no Otto, ou O Marido do Meu Irmão, é um drama familiar que aborda temas ligados à diversidade não somente sexual, mas da forma como as famílias são organizadas (*tudo aquilo que o povo que tomou o poder no Brasil parece odiar, ou não querer ver*).  A história gira em torno de Yaichi um pai que cuida sozinho de sua filha Kana, cuja vida é totalmente mudada com a chegada do canadense Mike Flanagan, que se declara o viúvo de Ryoji, seu irmão gêmeo.  Enfim, são somente quatro volumes, mas imagino que a Panini deva lançar o material por um preço acima da média de seus mangás.  De qualquer forma, aguardo ansiosamente, segundo o anúncio oficial, chega em março.  Tagame deve continuar publicando seinen, até falei disso esses dias.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Gengoroh Tagame lamenta o fim das antologias de mangá gays (Bara) no Japão + minhas ponderações a respeito


Não acompanho de perto o mercado de Bara mangá, aquele voltado para o público gay masculino no Japão, mas como essa notinha apareceu no ANN, decidi trazer para o blog.  Muita gente ainda acredita que mangá BL é mangá para o público gay, mas, no Japão, BL (*boys love, YAOI*) é coisa de mulher para mulher, por assim dizer.  Os mangás Bara tem uma estética diferente e são, pelo menos os que eu vi, sexualmente bem agressivos.  Explicado isso, quem é Gengoroh Tagame?  

Tagame é um dos grandes nomes, o maior, talvez, dessa demografia, mas conseguiu um lugar ao sol por publicar uma série em uma revista mainstream.  Saiu do nicho, onde seu talento já era amplamente reconhecido, para o estrelato.  Ele recebeu o Eisner Award pelo seu mangá Otouto no Otto (弟の夫).  Nesse momento,  ele está publicando o mangá Bokura no Shikisai (僕らの色彩) em uma revista seinen, a Manga Action, a mesma que publicou Orange (オレンジ).

Novo mangá de Tagame tem como protagonista
um rapaz que descobre a dua homossexualidade.
Enfim, segundo o ANN, que está traduzindo do site pessoal do autor (*+18*), ele lamenta que as antologias de mangás barra estejam morrendo.  O autor cita que foram canceladas Sabu, G-men, Badi, SM-Z, Kinniku-otoko e a Nikutai-ha.  A única que restou, a Samson é ultra especializada, porque, segundo ele tem como público alvo homens velhos e gordos.  A G-Men foi fundada por Tagame e Hiroshi Hasegawa em 1995.   “Eu estou sentindo que presencio o fim da era das antologias japonesas para homens gays no Japão”.  Acredito que de Tagame olhasse em volta, veria que o processo aprece ser mais amplo e que muitas antologias de diferentes demografias, revistas tradicionais, vem sendo canceladas nos últimos anos, ou transferidas para a internet.  Para pornografia, pelo menos para mulheres e, ao que parece, homens gays, a internet é o território mais seguro.

Ele se desculpa com seus fãs dizendo que, por isso, fará cada vez mais mainstream mangá (*seinen, provavelmente*) e mangás erótico-pornográficos somente nas horas vagas, ou em algum projeto de crowdfunding.  Olha, e não estou criticando o autor, acredito que parte do lamento seja uma desculpa para justificar uma nova fase de sua carreira.  Ele, agora, é recebido em todo o lugar, por assim dizer e tem o seu talento reconhecido para além de seu nicho. E, o melhor, ele continua tratando de temas como a homossexualidade, a aceitação da diversidade, sem ser estigmatizado.  É até engraçado, porque o sujeito que produzia pornografia mostra que entende muito da alma humana. 💖

Primeiro mangá BL oficial de Fumi Yoshinaga,
Tsuki to Sandal (月とサンダル).  Para muita gente,
ela nunca seria capaz de fazer uma "obra séria". 
  
Olho para Tagame e vejo um processo semelhante ao que aconteceu com Fumi Yoshinaga.  Ela fazia doujinshi e mangá BL, produziu para um nicho.  Começou a lançar mangás para um público mais amplo, porque arrastava sua fanbase e conseguia agregar mais gente.  Daí, veio Ōoku (大奥), o status de grande obra, material sério, indicações, premiações, adaptações para cinema e dorama etc.  É uma nova fase da carreira dela, não acho que ela vá voltar ao BL puro, por assim dizer.  Da mesma forma, não acredito que Gengoroh Tagame volte ao Bara mangá, ainda que queira, sim, manter sua base de fãs.  É isso.  Divagações.  

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Shoujocast #56 no Ar: Como eu sei se um mangá é Shoujo? Conversando sobre Demografias.


Neste novo Shoujocast vamos conversar sobre demografias de mangá. O que são? O que define um mangá como shoujo, shounen, josei, seinen etc.? Faz sentido falar em demografias no Brasil?  É um podcast para tirar dúvidas.  E mesmo eu, que gravei esse programa, ainda tenho algumas, mas espero que ajude a responder as perguntas de algumas pessoas. ❤


Espero que vocês gostem.  Mais tarde, eu coloco alguns links e outras coisas para enriquecer o post.  E se você tiver interesse, clique no link ali ao lado e dê uma olhada no livro que eu ajudei a organizar. Ainda tenho vários volumes aqui em casa. 😄

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Anunciado o dorama de Otouto no Otto


Foi anunciado um dorama do mangá Otouto no Otto  (弟の夫) de Gengoroh Tagame.  A série será exibida pela BS Premium, a partir de 4 de março, 22h.  Enfim, talvez você não conheça Gengoroh Tagame, mas ele é um dos grandes nomes do mangá Bara (*guestpost do Diego sobre isso aqui*).  Ah, o que é isso?  São mangás voltados para o público gay masculino no Japão, não raro com forte conteúdo sexual.  Não, não é BL/Yaoi, isso é, por assim dizer, “coisa de menina”, ainda que meninos possam curtir.  Com Otouto no Otto, Tagame abriu mão do conteúdo sexual mais exacerbado e construiu um mangá slice of life que continua trabalhando com as temáticas que seu público considera importantes, isto é, os relacionamentos homoafetivos.  A série foi publicada em uma revista seinen, a Monthly Action, a mesma que acolheu Orange quando a série saiu da Betsuma.


A história do mangá começa com a chegada de Mike, um canadense que é o viúvo de Ryouji.  Ele vem para o Japão prestar condolências à família de seu companheiro.  O único membro sobrevivente da família é Yaichi, o irmão gêmeo de Ryouji, que cuida da filha criança, Kana.  O cunhado acaba ficando e, assim, tanto Mike aprende sobre o Japão, como a própria vizinhança acaba repensando o sentido da palavra família.  O elenco da série já foi escalada.  Mike será interpretado pelo ex-lutador de sumô Baruto Kaito (*ou Kaido Höövelson, ele nasceu na estonia*).  Ryuta Sato será Yaichi.  Maharu Nemoto será a menininha Kana.  Os diretores serão Teruyuki Yoshida e Yukihiro Toda, o último também é responsável pelo roteiro.  As informações vieram do Comic Natalie, do ANN e do Manga Mag.


Otouto no Otto  é um mangá muito elogiado, começou a ser publicado em novembro de 2014 e terminou em maio deste ano.  Ao todo são 4 volumes e a série foi publicada nos EUA em um formato grande de dois volumes, saiu na França, também, claro.  A série foi indicada ao prêmio de melhor quadrinho no 44º festival de Angoulême.  No Japão, o mangá ganhou o prêmio de excelência no 19º Japan Media Arts Festival, em 2015 e foi listado entre os 20 melhores livros pela Amazon (*EUA?  Japão?*) em 2017.  Enfim, uma série assim é importante em um momento no qual o Japão passa pela intensa discussão (*e pressão*) para que o casamento entre pessoas do mesmo sexo seja reconhecido nacionalmente.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Primeiro mangá seinen de Gengoroh Tagame vai sair nos EUA


Gengoroh Tagame é um dos mestres do bara mangá.  Não sabe o que é isso?  Trata-se de mangás com temáticas gays feitos por homens para homens no Japão.  Sim, BL-Yaoi é feito por e para mulheres.  Em ambos os casos, um produto pode exceder o seu público alvo, mas é isso, pura sorte.  (*Há uma matéria detalhadíssima do amigo Diego Hatake sobre essa demografia.*)  Enfim, Tagame está publicando seu primeiro seinen, Otouto no Otto (弟の夫) na revista Gekkan Action, a mesma que publicava Orange (オレンジ).  Parece que, assim como ocorreu com Fumi Yoshinaga e Haruko Kumota, que se firmaram como autoras de BL e foram aclamadas quando decidiram produzir em outras demografias, Tegami está se saindo muito bem.


Otouto no Otto fala de família e começa quando Mike, o viúvo canadense de Ryōji, irmão de  Yaichi, que havia deixado o país, decide visitar o Japão.  Em contato com Yaichi e sua filha, Kana, Mike redescobre o sentido de família e, ao que parece, vai ficando no Japão.  Segundo li por aí, ainda não se sabe detalhes sobre a morte de Ryōji.  O mais curioso é que quem vai publicar a série nos EUA não é uma editora padrão de mangá, mas a  Pantheon Books, responsável pela publicação de Maus e Persepolis, ou seja, é um projeto que já nasce meio cult.  O título americano de Otouto no Otto será  My Brother’s Husband, segundo o ANN.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Guest Post: Bara Mangá – A Arte Gay Do Japão



Faz algum tempo que descobri que o post mais acessado do Shoujo Café é um texto bem simples que eu fiz sobre Bara Mangá, isto é, mangás feitos por homens (gays, normalmente) para homens gays no Japão. Não sei se é o título espalhafatoso que eu dei – Mangá para Macho que gosta de Macho – ou outro motivo qualquer, mas o fato é que muita gente chega ao meu blog por este post. Enfim, pedi ao Diego Hatake, a pessoa que eu conheço que mais entende do assunto, para fazer um posto sobre Bara Mangá. Seria um guest post, um dos poucos do meu blog até agora. Bem, o Diego escreveu um texto riquíssimo, que merecia estar em uma revista ou, melhor dizendo, merecia ser lido por muita gente. Muito obrigada, Diego! Espero que as pessoas passem a ler este post, ao invés do outro, ou, pelo menos, passem a visitar o blog do próprio Diego, o Reflections From a Twisted Mind. Segue o texto. Não cortei em duas partes, porque ele merece ser lido na íntegra mesmo.

Bara – A Arte Gay Do Japão

por Diego Hatake

Antes de começar, agradeço ao convite da Valéria para escrever esse texto. Eu não me considero algum especialista em bara como alguns falam. E não, não é falsa modéstia, eu quero muito ser um estudioso da arte homoerótica japonesa, mas sei que ainda há um longo caminho para que eu me considere assim, muito para se ver e ler... Mas sei o suficiente para ser considerado um... fã. Um fã bem curioso, e ansioso por espalhar o que sabe e assim conseguir aprender mais.

Espero que este texto consiga, além de divulgar mais informações para aqueles que já tem certo conhecimento do gênero, que desmistifique algumas ideias que muitos utilizam para diminui-lo. Vamos lá!

Bara: a história

Para começo de conversa, já fique avisado de duas coisas: primeiro, o termo bara atualmente refere-se aos mangás (e também pode englobar todo um universo de produção criativa como fotografia, ilustrações, jogos etc) feitos de homens para homens... gays. Quem achar o assunto “inapropriado” pode parar de ler por aqui. E não, o gênero não é algum desdobramento ou subgênero do yaoi/BL, é algo bem distinto. Ao decorrer da leitura vocês vão saber o porquê.

Aliás, ao estudar as origens de cada gênero já se percebe o quanto são diferentes. O yaoi surgiu basicamente com doujinshis em que as mangakás faziam paródias de mangás shounen – lembrando que já havia histórias de amor entre garotos pipocando no shoujo desde a década de 70. Já o bara tem uma origem um pouco mais antiga. Ora, se pararmos pra pensar, a arte homoerótica existe já há um bom tempo, afinal, é arte! E a arte em si, essa necessidade de “materializar sentimentos e situações”, está aí há tempos, como mostram algumas antigas ilustrações no estilo ukiyo-e, é só pesquisar para ver. Porém, a arte gay moderna que viria a se consolidar como o que conhecemos de bara teve origem na década de 1960.

Reforçando o dito anteriormente, bara é associado ao mangá homoerótico hoje em dia, especialmente no ocidente, mas bara no Japão pode se referir a toda uma produção artística gay, assim como qualquer coisa considerada “gay”. Seria para identificar a possível homossexualidade de algo sem ser muito direto, como dizer que alguém é “entendido”, “fã da Cher”, por aí... Enfim, a alcunha pegou por causa de uma série de fotografias do artista Eikoh Hosoe retratando o escritor Yukio Mishima seminu. O ensaio foi entitulado “Bara-kei” (Provação das Rosas). Futuramente sairiam as revistas Bara (de origem independente) e Barazoku (primeira publicação gay distribuída em bancas), que reforçariam o termo.

A primeira revista que traria ilustradores que posteriormente inspirariam artistas atuais foi a Fuzokukitan, apesar de trazer também conteúdo erótico hétero e lésbico. Todavia, do nativo Go Mishima até Tom of Finland, a arte homoerótica acabou ganhando cada vez mais espaço na revista. Em 1964 foi criada uma revista de circulação limitada chamada Bara, que é considerada a origem de todas as publicações gays subseqüentes. Em 1971 surgiu a famosíssima Barazoku (Tribo da Rosa), que foi a primeira publicação gay mainstream, oficialmente distribuída em bancas. Foi aí que o termo “bara” foi consolidado de uma vez. A revista de mais ou menos 300 páginas tinha todo tipo de conteúdo, até mesmo artigos para o público em geral, pois seu editor Bungaku Itō queria que a publicação não fosse segregada. Apesar de ter pornografia, ela não era considerada uma revista pornográfica, mas seria muita cara de pau negar que grande parte do atrativo da revista eram os romances homoeróticos (um dos publicados foi escrito por Yukio Mishima, utilizando o pseudônimo Tamotsu Sakakiyama), a seção de anúncios pessoais (é sabido, inclusive, que as maiores vendas da revista vinham de locais mais isolados do Japão), e as fotos e ilustrações de homens bem afeiçoados e despidos. Porém, a revista sempre tentava dar foco nos artigos. Para se ter uma ideia, na primeira edição, havia somente seis páginas de foto de nudez. As histórias em quadrinhos apareciam, mas ainda não eram destaque. Com o sucesso desta, outras revistas num mesmo modelo apareceram, como a Sabu e Adon por exemplo.

A coisa mudou com o surgimento de revistas como a Badi e a G-men nos anos 90. A cena gay agora estava mais “à vontade”, e tais revistas surgiram como resposta, já que elas abraçavam de uma vez o rótulo de ser uma “revista 100% gay”. Tratavam de assuntos em comum à cena gay japonesa e mundial, como a preocupação com sexo seguro, divulgação de clubes e lugares gay-friendly, paradas gays... A visibilidade então parece ter sido bem aceita pelos leitores. Outro destaque delas é que ao contrário das revistas como Barazoku, investiu pesado em produções de mangás gays, especialmente a G-men. Esta publicação, inclusive, foi a responsável por mostrar pela primeira vez mangás gays que tivessem continuações (antes as produções eram basicamente oneshot) e por comercializar as primeiras antologias – tankobon – de suas histórias, criando um mercado dos mangás bara.

Consequentemente, publicações anteriores declinaram as vendas e tiveram sua produção encerrada. Os motivos foram vários. A Adon havia mudado sua linha editorial, passou a ter mais artigos políticos, sérios, exterminando os trabalhos eróticos: cavou seu próprio túmulo. A Barazoku ainda resistiu por mais tempo, teve a publicação interrompida por motivos financeiros algumas vezes e se reergueu, três vezes. Porém acabou entrando num beco sem saída: percebeu-se que os anúncios pessoais já não atraiam tantos leitores, já que para isso agora havia a internet. O interesse dos leitores já tinham sido dispersos para as publicações mais novas, e em sua publicação de número 400, teve sua produção encerrada. Ainda assim, a Barazoku é a revista gay de maior periodicidade do Japão até hoje, de 1971 até 2004. Seu legado é inegável.

Mangakás bara em foco

Os artistas que enviavam seus trabalhos para a Barazoku inicialmente se dedicavam a fazer ilustrações, não necessariamente histórias em quadrinhos. Isso veio a acontecer, obviamente, mas primeiramente os desenhistas das revistas ganhavam notoriedade apenas por suas peças individuais de arte.

A Fuzokukitan foi o berço de novos artistas como Go Mishima, Go Hirano e Tatsuji Okawa... Porém pouco podemos falar dos desenhistas dessa geração, só podemos analisar suas obras. A maioria destes artistas são completos desconhecidos até hoje, eles entregavam os trabalhos na editora sem se identificarem formalmente. Creio que não preciso nem dizer o porquê. Para se ter uma ideia, Tatsuji Okawa chegou a ter um relacionamento com Hiroshi Mamiya, um dos responsáveis pela Barazoku. Todos os trabalhos de Okawa eram entregues aos editores por meio de Mamiya. Bungaku Itō nunca chegou a conhecê-lo.

Anos depois, nas décadas mais atuais é que alguns mangakás começaram a assumir seu trabalho. Creio que o que mais se beneficiou com isso foi Gengoroh Tagame, o que mais se expõe atualmente. Mas isso não é privilégio de todos. Outros autores atuais ainda utilizam pseudônimos e evitam ser fotografados, mas na maioria das vezes é mais para se resguardar do que por medo de homofobia. Um caso interessante é o do Jiraiya, que utiliza um pseudônimo por causa de seu trabalho “em escritório”, segundo ele próprio. Imagem ainda conta muito no Japão. Porém, todos eles não hesitam em defender a causa gay.

O estilo dos homens retratados nessas revistas varia muito, de acordo com a segmentação da publicação. Porém percebe-se que na maioria das vezes os desenhos mostram homens de 20, 30 anos... Mesmo que ainda não utilizassem um estilo mais “muscle bear” que é bem comum hoje em dia, a masculinidade era valorizada no traço, com jovens de corpo atlético, e por vezes com pêlos. Essa é uma diferença entre o traço bara e yaoi que é fácil de perceber.

Eu não tenho conhecimento do primeiro mangá bara no “molde” como o conhecemos, como história em quadrinho: a gei comi, mas percebe-se que a Barazoku já os exibia em suas páginas desde os anos 80. A infame história Kuso Miso Technique de Junichi Yamakawa é um exemplo.

Gengoroh Tagame é sem dúvida o mangaká bara mais conhecido, por inúmeras razões. Seja por ser um grande estudioso da arte homoerótica do Japão, dando palestras em universidades e por ter livros sobre o tema publicados; seja por ser um dos autores de mangá bara que mais tem volumes publicados pelo mundo afora, trabalhando desde meados da década de 80; seja pelos temas pesadíssimos que trata em seus mangás. Sério, quando alguém diz que um mangá do Gengoroh Tagame é algo para pessoas de estômago forte, não é mentira. Outro artista bara, Susumu Hirosegawa inclusive declarou que as histórias do Tagame não são profundas, chamando-as de “teatro sadomasoquista”. Por vezes, algumas histórias do Tagame chegam mesmo a apresentar um plot mais fino que papel de seda, e devo concordar que muitas histórias dele são apenas explorações de temas hardcore, mas é um dos artistas top em se tratando do traço.

Outros mangakás bastante conhecidos por lá e no ocidente são: Jiraiya, praticamente um discípulo do Tagame - mas que tem histórias bem melhores e mais agradáveis - que já tem mangás publicados na Espanha. Takeshi Matsu, que até onde sei não teve nenhum mangá publicado em outro lugar além do Japão, mas ele é sem dúvida um dos autores mais lembrados de bara, talvez só esteja abaixo do Tagame em questão de popularidade. Tsukasa Matsuzaki foi um mangaká de BL antes de migrar para as revistas gays, e tem vasta coleção de tankohons publicados, alguns ele divide a autoria com o Matsu. O já citado Susumu Hirosegawa também migrou do BL para o bara, e suas histórias focam bastante no plot.

Além destes, podemos destacar também os seguintes artistas (de mangás ou apenas ilustrações), seja desta ou de gerações mais antigas: Sadao Hasegawa, Bem Kimura, Inaki Matsumoto, Shunpei Nakata, Mentaiko, Shotaro Kojima, Ichikawa Kazuhide, Satoru Sugajima...

Bara e yaoi: duas visões de um mesmo amor

Chegamos então ao ponto mais polêmico da história. Mangá bara e mangá yaoi ainda são frequentemente confundidos. Já vi muito scanlation de yaoi que tem alguns bara disponíveis em seu acervo, já me deparei com muitos blogs com conteúdo exclusivo bara que os chama de “yaoi bara”. Mas eles tem sim suas diferenças, desde o traço até o conteúdo das histórias. Eu mesmo confundia o tempo todo, só depois que fui entender, normal, e nem é algo para se condenar ou xingar alguém.

Eis o que acontece: o bara é feito em sua maioria por homens homossexuais e são dirigidos para homens homossexuais enquanto o yaoi é feito por mulheres e suas leitoras são mulheres. É algo bem distinto, geralmente os gays japoneses rejeitam o yaoi, assim como algumas mulheres não apreciam muito os mangás bara. Os motivos para isso são vários, atrelados às diferenças dos mangás. Embora cada mangá tenha seu “estereótipo”, é bom ter consciência que às vezes acontecem exceções, mas basicamente tais mangás seguem sempre esse padrão que a maioria conhece.

Enfim, eis algumas características de mangás yaoi e bara em comparação:
• Físico dos personagens – Essa é a diferença que mais “grita” ao verificar os mangás. O yaoi preza por mostrar homens de físico bem esguio. Magros, esquálidos. E muitas vezes alguns chegam a ser andróginos mesmo. Isso se explica pelo fato que esse é o tipo físico que mais atrai as mocinhas japonesas – vide os idols. Já o bara ressalta a masculinidade: muito pêlo, muito músculo, muito tecido adiposo em certos casos. Outra diferença é no detalhamento desse físico. Enquanto um pênis é desenhado de modo bem simples no yaoi (e mesmo que às vezes nem pareça um, é censurado de modo absurdo), no bara os detalhes são indispensáveis. O mesmo para a parte “traseira”, que eu raramente vi desenhada em yaoi, mas aí não sei se é censura ou omissão mesmo.
• Plot – É aí onde muitas leitoras de yaoi defendem sua rejeição ao bara. O bara, por se encontrar quase sempre em uma revista adulta erótica (falo isso em consideração aos que produzem direto em seus sites), obviamente foca na relação sexual dos personagens. E por a sua maioria ser apenas curtos oneshots, não há muito espaço para se desenvolver uma história mais profunda entre os personagens. Mas esse fato não quer dizer que todo mangá gay seja raso. Ou que todo yaoi seja tão profundo e bem desenvolvido. O BL naturalmente emula muitas “firulas” do shoujo – as “pausas dramáticas”, por exemplo – já que o BL é uma parte desse gênero, já o bara é mais direto na “ação”.
• Sexo – Acho este um ponto que merece discussão também para complementar a informação acima. O sexo no bara, por ser destaque, é desenhado com ricos detalhes, e me perdoem se beiro o exagero, mas às vezes é até mais do que um hentai... Isso talvez assuste as mulheres que não se interessam tanto pela estimulação visual, ao menos isso que é descrito por algumas. O mangá yaoi quando tem cenas de sexo não as mostram com tantos detalhes, às vezes nem as mostram, só dão sugestões. E enquanto no yaoi a cena de sexo é uma “refeição completa”, no bara isso não acontece. No bara, não precisa nem ao menos ser na cama, e pode muito bem se resumir à masturbação ou preliminares.
• Visão do amor homossexual – Aqui é onde reside A grande diferença. E se o plot raso é a queixa favorita das moças, o retrato dos homossexuais é objeto de enorme crítica dos gays. Comecemos com o padrão do mangá yaoi de mostrar em seu casal um seme (ativo) e uke (passivo) do tipo “até a morte”, e mostrando o uke com um visual mais andrógino: tal manifestação acaba sendo uma representação de um amor heterossexual. Em muitos mangás yaoi se encontra um personagem que nunca se identifica como homossexual, o que piora a situação. Além disso, poucas são as situações, expressões ou trejeitos que possam ser identificadas de fato pela cultura queer. É algo que soa, por mais que as intenções tenham sido boas, meio falso... sabe quando se assiste um filme sobre o Brasil sendo que a ótica é 100% americana e o brasileiro não se vê naquele filme? É isso que acontece. No bara se trabalha melhor a apresentação de uma vida gay, suas agruras e prazeres. Em um exemplo bem fácil de se ver: os papéis de ativo/passivo quase sempre são rejeitados, com o casal mostrando-se basicamente versátil. E nem sempre o casal precisa se amar para ficar junto. Sexo no bara não significa necessariamente “amor consumado”, como no yaoi.
Interessante observar que, se existe tamanha crítica entre algumas pessoas, algumas se preocupam em ler os dois mangás sem muita preocupação. Percebe-se no Brasil, por exemplo, que quando o yaoi foi descoberto e começou a se popularizar, o público de homens e jovens homossexuais que liam as histórias sempre foi grande, não há uma rejeição como acontece no Japão, por exemplo, onde até mostrei em meu blog uma introdução de uma história do Jiraiya em que ele se desculpa por fazer uma história muito romântica – ou seja, “para mulheres”. O bara tem pouquíssimo tempo de exposição no país, e possivelmente só chegou aqui porque alguém achou que fosse apenas mais um tipo de “mangá yaoi”. Parece-me que agora que tais termos são devidamente conhecidos e explanados, esse grupão que gostava dos “mangás com casal gay” acabou se separando um pouco. Mas acho que a própria exposição do público aos dois acabou fazendo isso, pois suas diferenças não passam despercebidas. Daí, cada um parte para o que mais gosta.

Porém isso não quer dizer que um gênero é melhor que o outro, ou que sirva para discriminação. Uma coisa que acontece hoje que irrita muitas fãs de BL é quando a mídia gay se apropria do mangá yaoi, deixando de citar que quem cria as histórias são mulheres e que esse é o seu público majoritário. A misoginia também é observada em alguns que, por preferirem histórias de conteúdo mais lascivo, taxam as histórias bara mais leves como “mangá de mulherzinha”. E da mesma maneira acho que tratar os mangás bara como algo menor por não ter muita profundidade seja algo injusto, já que eles têm grande significância para homossexuais pela verossimilhança. É uma expressão legítima nossa, e de certa forma acho desrespeitoso no sentido que muitos manga-kás bara se esforçam para fazer histórias com profundidade, sim! Sabe-se que as editoras das revistas viram que as histórias continuadas trazem um público fiel, ansioso por acompanhar seus personagens favoritos. Quanto ao tipo de traço ou de físico que é mostrado, “esse físico é mais bonito, esse não”, aí é algo muito subjetivo, e, portanto nem vale a pena discutir por longo tempo.

E repetindo o que disse, essas “regras” têm suas exceções. Existe, por exemplo, o mangá conhecido como “gachi muchi”, que é um BL construído com personagens de físico mais masculino, mais parecido com o utilizado no bara. Tal mangá tem autores gays, e é dirigido para mulheres, embora tenha um bom número de leitores homens gays. E no gei comi podemos destacar Tetsuzo Okadaya, que apesar do pseudônimo masculino, é uma mulher, e já teve vários trabalhos publicados nas revistas gays, como a G-men.

Nota-se que no Brasil já tenha uma breve noção dessa diferença, mas mesmo quando o bara estiver bem difundido, acho que vai ser difícil ocorrer grande segmentação entre o público. Na pesquisa que a Tanko, administradora do site Blyme, fez sobre o yaoi, uma pesquisa sobre o bara constava que 41% do público do site – maioria de pessoas do sexo feminino – não compraria uma publicação bara. Mas há de se observar que as opções com “Sim”, mesmo que com ressalvas (“...eu prefiro yaoi ao bara”, “...só se for um título/autor que eu goste”), juntas representam 56%. E considerando justamente essas ressalvas, observa-se que o público fujoshi mostra-se aberto, assim como alguns homens gays – o responsável por esse texto, por exemplo – acham divertido ler BL. No fim, a questão não é de qual é melhor, ou mais bem sucedido, é simplesmente questão de escolha e identificação. Ambos são mangás, e ambos estão disponíveis a qualquer leitor.

Bara no Brasil???

Para encerrar, a grande questão: seria possível uma editora se interessar em publicar uma gei comi no Brasil? Bem, seria algo difícil, MUITO difícil considerando a indústria editorial brasileira hoje, mas não impossível.

O grande empecilho na publicação do bara em outros países é justamente suas histórias. É óbvio que um país onde pessoas são tratadas como inferiores por sua sexualidade não encara ainda muito bem peças homoeróticas explícitas, por mais que elas estejam lacradas e bem no alto das prateleiras de livrarias ou bancas. Vide o número baixo de revistas direcionadas ao público homossexual e a resistência que elas encontram para ser vendidas até hoje em determinados locais.

E para se ter uma noção, nos EUA, onde as vendas do BL são fortíssimas, até onde saiba, no momento não houve nenhuma publicação bara. Grande parte do público dos Estados Unidos fã de bara depende de scanlations. Mas na Europa alguns mangás do tipo já foram publicados oficialmente, como Espanha, Itália, França... e em sua maioria foram em edições de luxo. Falando nisso, esse talvez seja outro empecilho, de fato determinadas obras, especialmente as do Gengoroh Tagame, não tem um padrão ideal para ser vendido em banca, no formato revista comum (aquele impresso em “papel jornal”), e uma edição de luxo, geralmente direcionado a colecionadores, obviamente encareceria o produto que, por ora, já pertence a um público “restrito”. E embora seja “restrito” isso não quer dizer que o público não esteja disposto a pagar. Sabe-se muito bem que o público gay costuma apoiar os produtos dirigidos para sua comunidade (aquilo que no mundo dos negócios chamam de “pink money”). Enfim, a publicação de gei comi no Brasil é algo que ainda pode ser explorado algum dia, só espero que esse dia não demore demais. Eu aprecio muito os mangás em geral, e ter em mãos um mangá que represente algo que surgiu de alguém “entendido”, alguém com quem compartilho gostos, me identificar, é algo imensamente agradável.

Enfim, acredito que essas publicações ainda aparecerão no Brasil, seja nas mãos de editoras de mangás já conhecidas, ou por trabalho independente da comunidade gay mesmo. Enquanto isso, faço meu trabalho de formiguinha divulgando mais o gênero, para que, quem sabe, “esse dia” possa chegar.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Sakigake!! Otoko Juku: Recomendação de anime... shounen!



Ontem, meu marido me mostrou o primeiro episódio de Sakigake!! Otoko Juku (魁!!男塾), dizendo que era um anime “bara softcore”. E, realmente, comprovei que é isso mesmo. Eu não conhecia a série, nunca tinha ouvido falar mesmo, mas depois de assistir fiz uma busca na net e descobri que a série, cujo mangá foi publicado na Shounen Jump entre 1985 e 1991, tem anime, live action, movie, games... Enfim, foi um sucesso. E eu me engasguei de tanto rir. Em Sakigake!! Otoko Juku, temos uma escola masculina-prisão, feita para receber a escória dos alunos no Japão, repetentes, envolvidos com gangues e coisa e tal. Mas a escola é linha dura, uma piada com o nacionalismo militarista japonês pré-Segunda Guerra. O objetivo da escola é formar a “homens de verdade”. Só que nesse embalo, há muito fanservice bara, com closes nas bundas musculosas dos garotos, que tem cara de homens feitos e hiper-bombados. Ah, sim, a fonte de inspiração é Hokuto no Ken. Sinceramente? É imperdível! Acho que vou assistir a série toda e estou recomendando para quem curte comédias nonsense old school.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Mangá para Macho que gosta de Macho



Volta e meia esbarro em matérias no Mix Brasil falando de yaoi como se fosse mangá para o público homossexual masculino ou em falas de meninos - fãs de yaoi, alguns homossexuais - que reclamam que não há autores (homens) de mangás yaoi/BL, como se este material, feito por mulheres para mulheres, fosse para eles. Não é, muito embora a apropriação e o processos de identificação, especialmente em um mercado carente de materiais para o público gay, seja interessante de se observar. Da mesma forma que as mulheres são deixadas de lado, o público homossexual também recebe muito pouca atenção das editoras de quadrinhos. Mas lá na Espanha a coisa parece diferente. Passando pelo Divine Decision, vi que a editora La Cúpula está lançando mangás bara, isto é, feitos por homens gays para homens gays. Só duvido muito que a estética crua dos mangás bara (rosa) iria agradar aos garotos que curtem yaoi, que tem normalmente uma estética próxima dos shoujo mangá. Este mangá aí em cima é de um autor chamado Jiraiya e se chama Querido Professor. Não achei o título em japonês, mas ele é mais conhecido pelo mangá Goninbeya Shinsouban (五人部屋 新装版), chamado em em inglês de Room for Five (Quarto para Cinco) ou, em espanhol, Habitación para Cinco. Para quem se interessar mais pelo assunto, recomendo o site do Diego Hatake o Reflections From a Twisted Mind.
ATUALIZAÇÃO: Se você chegou até este post, talvez tenha interesse em aprofundar a leitura sobre Bara Mangá. Há um guestpost do Diego que pode satisfazer sua curiosidade. Para ler, é só clicar AQUI.