domingo, 30 de setembro de 2018

Envelhecendo o Japão: os mangás ficam grisalhos - mas espirituosos - junto com os leitores


Um amigo me passou uma matéria do site da Reuters intitulada "Aging Japan: Manga comics turn gray - but spirited - along with readers" sobre  uma nova tendência entre os mangás, o foco nos idosos.  O gênero vem crescendo e, mais do que isso, se delimitando nos últimos anos.  As séries normalmente são publicadas em mangás josei e algumas conseguem fazer grande sucesso de público e crítica, como "Sanju Mariko".  Outras, acompanham a vida de uma personagem da juventude passando pela maturidade e chegando até a velhice, caso do sucesso “Kosaku Shima”.  O fato é que a sociedade japonesa está envelhecendo rápido e os velhos querem ler sobre eles e seus problemas, já os jovens, tem curiosidade sobre o que é o envelhecimento.  

Procurando imagens para o post, terminei tropeçando em outra matéria sobre o mesmo assunto intitulada "Elderly emerging as star characters in new manga genre".  Talvez a traduza, também.  Se quiserem a tradução, deixem registrado nos comentários, ou lá no Facebook do Shoujo Café, por favor. Enfim, será que teremos um filão de mangá geriátrico estável nos próximos anos?  Parece que sim.  Segue então a matéria traduzida.

Envelhecendo o Japão: os mangás ficam grisalhos - mas espirituosos - junto com os leitores

Kosaku Shima, de Kenshi Hirokane, ascendeu na carreira
corporativa e envelheceu ao longo dos anos.
TÓQUIO - A população envelhecida do Japão está mudando a aparência de seus amados mangás, produzindo um novo gênero no qual os idosos não são velhos dignos de pena, mas protagonistas fazendo descobertas, encontrando amigos e às vezes até fazendo sexo ardentemente.  A demanda por histórias focadas em idosos cresceu junto com seu público: 27,7% dos japoneses têm mais de 65 anos, acima dos 21,5% há apenas uma década.  Os editores dizem há leitores em todos os segmentos da sociedade, de aposentados à procura de histórias com as quais se identificar, até os jovens observando sua nação envelhecer, com uma crescente preocupação com seus anos finais.

"Diferentes problemas e preocupações sociais surgem em oposição a quando a sociedade é centrada em jovens, e mangás que mostram a realidade de uma sociedade em envelhecimento estão em alta tento com os leitores quanto com os escritores", disse Kaoru Endo, professor de sociologia da Universidade de Gakushuin, em Tóquio. .

Yuki Ozawa, criadora de Sanju Mariko.
O mangá, tanto impresso quanto digital, faturou 430 bilhões de ienes (US $ 3,81 bilhões) em 2017, de acordo com o Research Institute for Publications. Eles são onipresentes na vida cotidiana, aparecendo em todos os lugares, desde metrôs lotados até cafeterias e salas de espera.  Apesar de não existirem dados de público sobre a fatia do mercado de mangás com foco nos idosos, o gênero está claramente crescendo. Oito dos onze trabalhos mais populares, de acordo com especialistas do setor, começaram a ser publicados depois de 2014. Três foram em 2017 e 2018.

Yuki Ozawa, ilustradora de "Sanju Mariko" (傘寿まり子), série sobre uma viúva de 80 anos que foge de sua casa lotada de familiares para viver sozinha e escrever, acha que o escapismo também desempenha um grande papel.  “Quando você assiste a notícias sobre o envelhecimento, há tantos tópicos obscuros e sérios. Isso deixa as pessoas ansiosas ”, disse ela à Reuters.  "Há também muitas pessoas solteiras, que provavelmente nunca vão se casar e vão sempre morar sozinhas, e quando estão se sentindo tristes, leem Mariko e sentem como se tivessem visto um raio de luz", disse ela.

Cena de Sanju Mariko.
Praticamente nenhum tema escapou do mangá desde que o meio decolou há cerca de 50 anos. Houve até mangás sobre o terremoto e tsunami de 2011, incluindo o colapso de Fukushima.  Personagens idosos, no entanto, eram em sua maioria periféricos: uma avó amorosa, alguém precisando de cuidados de enfermagem, um sábio venerável.  O mangá que estrelado por idosos, como uma série dos anos 90 sobre uma banda de heavy metal envelhecida, nem sempre os tratava como pessoas normais.

“Os idosos estavam lá, mas com um elemento de surpresa. Ele pode ser um homem velho, mas ele é realmente esperto, um super-herói estranho ”, disse Natsuki Nagata, professor assistente de sociologia na Universidade de Hyogo de Educação de Professores, na cidade de Kobe. "Era como se eles fossem de uma espécie diferente."

Uma idosa e uma jovem unidas pelo
amor ao BL.  Queria ler isso aqui.
Mas exemplos recentes, como "Metamorphose no Engawa" (メタモルフォーゼの縁側), de Kaori Tsurutani, trazem um toque mais humano.  Nessa história, uma viúva septuagenária e uma adolescente geek criam um laço por causa dos mangás BL, e terminam construindo uma amizade por meio de mensagens de texto, idas à cafés e eventos de fã de mangá. A Mariko de Ozawa pode ter 80 anos, mas a solidão que a leva a sair de casa é universal. Os personagens estão "sendo ilustrados de uma maneira que parece mais próxima da realidade", disse Tsurutani, 36, que contou que as lembranças de sua falecida avó deram forma ao seu trabalho.

Um Assunto Desafiador

Alguns mangás do gênero usam pura fantasia para atrair leitores, enquanto ainda tocam na realidade, muitas vezes sombria, dos problemas dos idosos.  Uma série apresenta um casal septuagenário se tornando pais, enquanto em outra uma mulher idosa e uma adolescente trocam de corpo.

Seventy Uizan (セブンティウイザン), já tinha
falado dele no blog.  Mulher grávida aos 70 anos.
"Certamente há muitos problemas sociais envolvendo os idosos, e eles são muito sérios", disse Ozawa, cuja Mariko não tem problemas de saúde e tem renda estável – algo incomum mesmo em uma nação com idosos vigorosos. "Mas escrever sobre isso significa que os leitores só prestarão atenção às questões sociais, e será um pouco deprimente."

Ilustrador Kenshi Hirokane, cuja série “Kosaku Shima” (課長島耕作) sobre um empresário é publicada desde 1983, mostra seu herói passando de chefe de seção para presidente de sua empresa de eletrônicos, envelhecendo realisticamente ao longo dos anos.  Hirokane, em 1995, também lançou “Like Shooting Stars in the Twilight,” (Tasogare Ryuuseigun/ 黄昏流星群) um dos primeiros mangás centrado no idoso. Um drama das vidas e amores das pessoas mais velhas, também incluia algumas cenas quentes de sexo.  "Eu queria escrever sobre homens e mulheres comuns tendo um amor comum", disse Hirokane, de 71 anos, sobre a série. "Os leitores querem tópicos próximos a eles."  A série premiada de Hirokane tem até agora 58 volumes.

Tasogare Ryuuseigun tem muito sexo, ou,
pelo menos, o Google me deu umas imagens
que eu não poderia colocar aqui.
“Conforme muitas pessoas envelhecem, perdem seus sonhos e esperanças, acham que não há mais nada que possam fazer. Não, não é nada disso - você ainda pode se apaixonar, você ainda pode fazer muitas coisas ", disse ele à Reuters em seu estúdio no oeste de Tóquio.

Com Grande Procura

Rikiya Kurimata, um vendedor da Tsutaya, uma das maiores cadeias de livrarias do Japão, disse que os leitores do gênero não têm uma demografia definida. Recentemente, eles vêm pedindo “mangá sobre idosos”, bem como títulos específicos.  "Acho que essa tendência não vai apenas continuar, mas crescer. A oferta ainda não atendeu à demanda ”, disse Kurimata. "No momento, não temos uma seção especial para o gênero, mas se as coisas continuarem assim, teremos que fazer uma."  Meio milhão de cópias de Sanju Mariko, impressas e digitais, foram vendidas desde sua estréia em 2016. O primeiro volume de Tsurutani passou por cinco impressões adicionais desde maio.

Mangá geriátrico: Um novo filão?
Atsuko Ito, 66, fazendeira do norte do Japão, diz que gostou da série de Hirokane pela forma como destacou os altos e baixos da vida.  "É como se a própria vida fosse atraída para lá, com coisas que todos nós experimentamos – e algumas que não temos – que me fazem ter empatia", acrescentou ela. “Então, às vezes, quando um personagem principal toma uma decisão, eu penso: 'Eu também posso fazer isso', e isso me dá coragem para minha vida diária.”

Esse senso de humanidade está no coração do sucesso do gênero, disse Endo.  “O que o mangá diz é que as pessoas são as mesmas por baixo – e isso ensina os jovens a não terem medo dos idosos ou do envelhecimento”, disse ela. "Todos nós temos os mesmos sentimentos, jovens ou velhos."

Kodansha e Companhia de trens se unem em campanha de prêmios de Chihayafuru no Japão


Tempos atrás houve um trem de Chihayafuru (ちはやふる) circulando em uma das muitas linhas de trem japonesas.  Agora, e espero ter entendido bem a notinha, uma nova parceria entre a Kodansha e uma companhia de trens, a Keio Corporation, está em andamento.  Segundo o Comic Natalie, quem viajar na Keiō Inokashira Line receberá um livro de selos e deve passar por pelo menos  três das suas estações, o ideal é viajar em cinco delas, para juntar os selos necessários para receber prêmios exclusivos, ou concorrer à sorteio. Por exemplo, há prêmios que são para as primeiras 3 mil pessoas que juntarem os selos, um item mais exclusivo, será sorteado para 100 pessoas, mas não entendi direito o que é. Enfim, a tal promoção seguirá de 27 de outubro até 25 de dezembro.

sábado, 29 de setembro de 2018

"Banir livros de história que não tragam verdade sobre 1964". Mas o que quer dizer isso?

Queima de livros na Alemanha.
Você que acredita que este blog é somente sobre animação e mangá shoujo, pode pular este post.  Certamente, você é nova/o por aqui e não conhece a postura da responsável pelo Shoujo Café, nem leu sua biografia.  Desta vez, dada a urgência do tema, não me desculpo, acredito que qualquer pessoa com o mínimo de bom senso esteja atenta ao que vem acontecendo em nosso país e dos ruiscos que nossa frágil democracia corre por esses dias.  Aviso, desde já, que este é um post político escrito por uma mulher feminista e professora de História, sim, formada, não diletante de internet.  Se quiser ler, siga adiante.

Ontem, foi publicada uma entrevista com o general da reserva Aléssio Ribeiro Souto, dada ao repórter Leandro Prazeres do site UOL.  Este general é um dos assessores técnicos do candidato do PSL, que declarou ontem que não aceitará o resultado das urnas caso seja derrotado, assumindo claramente o desprezo pelo jogo democrático.  Sim, eleição a gente perde, ou ganha, se as regras foram cumpridas, e o próprio nunca delas reclamou em sua múltiplas eleições e reeleições, algum problema há.  Mas a questão desse post é  o tal "banimento" dos livros que não falem a verdade, segue o trecho específico.  Basta clicar para ampliar, ou ir para a entrevista integral:
Venho por meio deste post externar a preocupação da professora de História que sou em relação à afirmativa do General, um não especialista no tema, jé que sua formação é AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras) e IME (Instituto Militar de Engenharia), ou seja, ele teve o verniz básico na disciplina que todo candidato à oficial combatente do Exército Brasileiro recebe e uma formação adicional em Engenharia que deve ter sido uma das melhores disponíveis em sua época.  Eu, Valéria, não vou dar pitaco em Engenharia, mas considero desrespeitoso que alguém sem formação queira ditar o que é "verdade", ou "mentira", quando o assunto é História.  Curiosamente, todo mundo acredita que pode dar opinião quando o assunto é História e, caso chegue ao poder, já verbaliza que irá determinar quais livros podem, ou não, serem utilizados ou lidos.  O nome do primeiro processo é REVISIONISMO, o do segundo, CENSURA.

Queima de quadrinhos em Binghamton, New York, 1948.
Se você for olhar a História da Alemanha Nazista, verá que no dia 10 de maio de 1933, pouco depois da chegada de Hitler ao poder, foi promovida a noite de queima de livros (Bücherverbrennung) "nocivos" ao regime.  A ideia foi de Joseph Goebbels, ministro de propaganda, que percebeu que um movimento de retirada e destruição de livros das bibliotecas já vinha ocorrendo.  A experiência não era nova na História, queimar livros é coisa típica de regimes e governos que se vêem como representantes de uma verdade única e indiscutível, mas os nazistas sabiam promover espetáculos e já havia fotografia e cinema para registrar tudo.  Livros de autores como Stefan Zweig, Thomas Mann, Sigmund Freud, Erich Kästner, Erich Maria Remarque, Ricarda Huch e Hellen Keller foram destruídos.  

Segundo o Deutsche Welle, "O poeta nazista Hanns Johst foi um dos que justificou a queima, logo depois da ascensão do nazismo ao poder, com a "necessidade de purificação radical da literatura alemã de elementos estranhos que possam alienar a cultura alemã"."  Já o poeta Heinrich Heine escreveu "Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.".  Não demorou muito, em breve estraríamos presenciando o Holocausto, mas há quem negue que o extermínio planejado de segmentos inteiros da população da Alemanha e outros países tenha acontecido, 5 milhões de judeus mortos, sem falar de ciganos e outros e testemunhos e provas materiais existem aos montes, mas não custa repetir.  A queima dos livros foi mostrada no filme Indiana Jones e a Última Cruzada, mas foi colocada em 1938, o processo de expurgo foi bem mais rápido e imediato.  Será que veremos isso acontecer aqui?  Será que serão somente, como se fosse pouco, os livros de História, ou os de Paulo Freire, um dos maiores pedagogos do mundo no século XX, irão ser eliminados, também?   Já houve gente propondo isso por aí...  Ou quadrinhos "perigosos", quem sabe?  Afinal, eles, também, já foram queimados.  

Corpos de prisioneiro famintos que morreram no
caminho enquanto eram transferidos de outro campo para Dachau.
Agora, recomendo o texto "Bolsonaristas Negam Holocausto, Desprezam Mulheres, Insultam Marielle e Expõem Almas Doentes" e lhes pergunto, será que o único acontecimento a ser revisto será o Golpe Civil-Militar (*porque é assim que a historiografia atual chama esse acontecimento*) de 1964, ou será promovida a releitura de outros acontecimentos e processos importantes como a Escravidão, o Holocausto, a Revolução Francesa, a Revolução Russa, a 2ª Guerra Mundial etc. Teremos manuais de História escritos, provavelmente, por não especialistas e defendendo que o Nazismo é de esquerda (*aliás, nem a Embaixada Alemã escapou de ataques quando produziu um vídeo sobre a história do nazismo*), que a Inquisição nunca existiu e que os negros obrigavam os europeus à escravizá-los, porque queriam ganhar uma passagem grátis para o Novo Mundo. É isso que você quer para o futuro?  

Eu digo o seguinte, "Ele não.  Ele nunca.  Nem ele, nem Mourão!" e, hoje, dia 29 de setembro, haverá manifestações de mulheres em todo o país.  Não se trata de defender candidato A ou B, mas de defender a democracia, os princípios básicos da civilização frente a barbárie e a selvageria travestida de moral e bons costumes, os direitos das mulheres e outras minorias (*politicamente representadas*).  Lembrem-se que quando muitas mulheres no Irã perceberam, já estavam obrigadas a usar o véu e havia pouca coisa a se fazer.  No meu caso, como professora de História trata-se, também, ao que parece, da defesa dos estudos históricos, área séria, que se faz com fontes, metodologia e teoria, contra os censores que querem moldar as futuras gerações a verem a História do jeito como eles a percebem: pobre de teoria e crítica, elitista, masculina, branca e violenta.  E tenham um bom dia, porque, aqui, em Brasília, continua muito quente e muito seco.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Recomendação de resenha: Yoroshiku! Marine — Volume 1


Em agosto, fiz um post sobre um mangá shoujo de futebol chamado Yoroshiku, Marlene! (よろしく!マリーン).  Primeira coisa, não é Marlene, é Marine.  Katakana é um inferno.  Para quem não sabe a protagonista é uma garota brasileira que vai morar no Japão.  A série foi publicada em 1984 na revista Sho-Comi e a Mayara Vidal (*Hidaru Mei) fez uma resenha sobre o volume #1.  Ela comprou todos os volumes, são quatro, e está preparando, também, scanlations.  Vale a leitura.  Para ler, clique AQUI.

Calendário com ilustrações de Akimi Yoshida é o brinde da revista Flowers


Akimi Yoshida é a autora de Umimachi Diary (海街diary) e Banana Fish (バナナフィッシュ).  Segundo o Twitter da revista Flowers, quem comprar a revista este mês ganha um calendário 2019 com ilustrações da autora.  


Se você é fã do trabalho de Yoshida, ou de Banana Fish, certamente vale a pena.  Normalmente, os brindes oferecidos por uma antologia, os furoku, são um estímulo para que as pessoas as comprem.  Hoje, quando muitas publicações tem versão digital, trata-se do estímulo para comprar a edição de papel.  Ainda que as pessoas descartem a revista, ficam com o brinde.  Se alguém postar scalnations do alendário em algum lugar, colocarei aqui o link para vocês.  

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Começam as comemorações dos 50 Anos de carreira de Yukari Ichijou


A primeira vez que ouvi falar de Yukari Ichijou foi em uma matéria sobre Naoko Takeuchi, que apontava que esta mangá-ka, dona de um traço elegante e de histórias que arrastam a gente e não conseguimos largar mais, era uma das principais influências no trabalho da mãe de Sailor Moon.  Curiosamente, Ichijou é muito importante, mas pouco traduzida fora do Japão, sem adaptações para anime de suas obras (*acho que nenhuma, mas tem dorama e movie*), e ela inovou bastante, mas não é incluída no Grupo de 48, junto com Riyoko Ikeda, Hagio Moto, Takemiya Keiko, entre outras.

A autora e Pride, uma de suas obras mais lembradas.
Pois bem, as duas formas comuns de celebrar esses aniversários, e meio século não é pouca coisa, são publicações e exposições.  Teremos, claro, as duas coisas.  O livro – THE Ichijou Yukari Shueisha Debut 50 Shuunen Illustration Shuu  (THE一条ゆかり 集英社デビュー50周年イラスト集), saiu no dia 25 de setembro, exatos 50 anos da estreia da autora, pelo selo da Shueisha, a editora que publicou todas, ou a grande maioria dos trabalhos de Ichijou.  Se entendi bem o Comic Natalie, são 300 ilustrações, ela fez de tudo em termos de shoujo e josei (*romance escolar, terror, yuri, drama, mangá de moda, mangá musical, comédia etc.*), mais um quadro cronológico da vida da autora e entrevistas.  Curioso que, quando vi a capa do livro, pensei em Mars, de Fuyumi Souryou, e tive que firmar a vista até perceber o nome da autora.  

O livro que deve ser lindo.
Já a exposição será no Yayoi Art Museum de Tokyo e abrirá em 29 de setembro e segue até a véspera de Natal.  Haverá a participação da autora em um talk show que ocorrerá em três datas: 20/10, 17/11 e 08/12.  No dia 20 de outubro, ela falará de como se tornou mangá-ka de sucesso e de dois trabalhos em particular, Designer (デザイナー) e Suna no Shiro (砂の城).  O primeiro é sobre o universo da moda lançado em 1974, o segundo, é um mangá histórico trágico passado na França, durante a II Guerra Mundial e inciou em 1977. Tudo na Ribon e não pensem que eram obras levinhas, não... Tem scanlations de parte delas.  Em 17 de novembro, é a vez de falar de Yuukan Club (有閑倶楽部), acredito que a obra mais longa da autora, uma comédia com adolescentes detetives que estudam em uma escola de elite, teve dorama, e Tadashii Renai no Susume  (正しい恋愛のススメ), um josei de 1995-1996, sobre um aluno exemplar que, sem que ninguém saiba, trabalha como acompanhante (*prostituição de luxo?*), um dia, claro, ele conhece alguém, acredito que outro homem, que pode colocar sua máscara social em risco.  Na terceira noite, ela passará em revista a sua carreira e falará de dois josei (*com scanlaions*), Tenshi no Tsuranokawa   (天使のツラノカワ) , que eu não conhecia mesmo e que começa com a protagonista voltando de férias depois de ser roubada, agredida e abandonada, para piorar, ela chega na casa do namorado e o pega na cama com outra, daí, ela conhece dois homens muito diferentes, eles entram na sua vida, segundo o Bakaupdates esse rolo aí é uma dramédia, enfim, o outro é o famosíssimo Pride (プライド), sobre duas aspirantes à cantora de ópera, uma vem de uma família do meio e é rica, a outra, tem que se desdobrar em múltiplos trabalhos para tentar alcançar seu sonho, tem filme par ao cinema.

Cartaz da exposição.
O resto da matéria do CN sobre a exposição são dados sobre compra de entradas e que as vagas para o talk show, que tem previsão de 70 minutos, serão por sorteio.  Inscrições até 30 de setembro na página do museu.  

Mangá sobre professora que acredita que seu aluno delinquente pode passar para a Tōdai é destaque na revista Cookie


Hajimete Koi o Shita Hi ni Yomu Hanashi (初めて恋をした日に読む話) de Aki Mochida recebeu uma grande atenção no Comic Natalie e acabou me deixando realmente curiosa.  Para quem não sabe, Tōdai  (東大) é o apelido da Universidade de Tokyo, uma das mais importantes do Japão.  Era o objetivo do protagonista de Love Hina (ラブひな)  passar para essa universidade de elite, lembram?  Pois bem, a história de Hajimete Koi o Shita Hi ni Yomu Hanashi é parecida até certo ponto: 


Junko Harumi sempre priorizou os estudos e seu objetivo, desde o colegial, era passar para a Uiversidade de Tokyo.  Ainda assim, apesar de todo o esforço, ela fracassou no vestibular.  Arrasada, ela acabou cursando uma universidade de menor prestígio e terminou professora de um cursinho preparatório como outro qualquer.  Aos 31 anos, ela está solteira e sem perspectivas de casamento.  Para piorar a situação, ela está sendo pressionada no trabalho por apresentar "baixa produtividade".  Quando tudo parecia sem esperança, um novo aluno, na verdade, um delinquente sem futuro, acaba mexendo com Junko.


Junpei, este é o nome do rapaz, está no colegial, mas não tem competência para resolver problemas matemáticos que alunos do ginásio resolvem.  Junko, à princípio, não vê possibilidades para ele, mas decide tomar o caso em suas mãos e conseguir que o moço consiga ir para a universidade, mas, não, qualquer uma, a Toudai... Se entendi bem, ela se apaixona pelo aluno no processo.  


Normalmente, não gosto desse tipo de relação, mas fiquei curiosa.  Tem seis volumes.  é publicado na revista Cookie, ou seja, shoujo limítrofe, daí não espanta a protagonista adulta.  Apesar do Bakaupdates não registrar, já me avisaram que tem scanlations até o  capítulo 15.  O traço parece bonito.  E eu aposto que vai virar dorama, ou filme, podem esperar.  a Shueisha está fazendo uma promoção e dando brindes para os cem primeiros que comprarem o volume #6, além disso, quem comprar este volume e mandar um cupom que veio com ele até 31 de outubro, receberá um booklet exclusivo.  Informações no mangá, claro.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

"Orgulho e Paixão" faz disparar procura por livros de Jane Austen nas livrarias

"Sendo finalizada nesta segunda-feira (24), a novela "Orgulho e Paixão" fez aumentar a procura e as vendagens de obras da escritora inglesa Jane Austen, que serviu de inspiração para a criação do folhetim de Marcos Bernstein, que agradou público e e crítica. Em sites de livrarias, como Saraiva e Cultura, dois livros de Austen aparecem na lista de mais vendidos: "Razão e Sensibilidade", de 1811, e "Orgulho e Preconceito", de 1813. Além disso, em lojas físicas, Jane voltou a ter seus livros na prateleira dos mais vendidos, além de outros que não estão nesta lista colocados em posições estratégicas para o público, como na vitrine principal de entrada das lojas."
Gente, vocês não sabe o quão feliz matérias como essas do UOL me deixam.    A novela terminou ontem e cumpriu bem o seu papel, eu acredito.  Eu comecei a ler graças à animação (*Rei Arthur, Os Três Mosqueteiros, Little Women etc.*) e ao cinema.  E se você acredita que a novela para nada serve, ou o filme não faz jus ao seu livro favorito, leia a matéria e tente ver a coisa por outro ângulo! Eu, Valéria, fico muito, muito, muito feliz quando leio uma matéria assim, ou quando um/a aluno/a vem me perguntar sobre uma obra, porque teve acesso a ela em outra mídia! 


Relatei, em abril, que uma aluna veio comentar a novela em uma aula de República Velha e terminou lendo Orgulho e Preconceito no fim de semana.  Ela não conhecia Austen.  E que muitos leitores e leitoras de Jane Austen cresçam e apareçam graças à Orgulho e Paixão, que não foi uma maravilha de novela, mas teve muito mais méritos do que deméritos.  Muitos mesmo! E, quem sabe, a partir da novela, a pessoa também descubra a minissérie da BBC de 1995, afinal, ela saiu no Brasil.

Despedindo-se de Orgulho e Paixão com Mais umas palavrinhas sobre Luccino e Otávio e minhas cenas favoritas dos dois

Acertou bem no coração.
Ainda não assisti o último capítulo de Orgulho & Paixão, devo ver em algum momento dessa terça-feira, mas queria escrever algumas palavras a mais sobre Luccino e Otávio e somente sobre eles.  Pois bem, não me considero fujoshi (*fã de BL/Yaoi*), mas o casal de Orgulho & Paixão, despertou essa faceta adormecida dentro de mim desde Yuri!!! on ICE (ユーリ!!! on ICE).  Shippei, torci, vi e revi as cenas dos dois, me emocionei e estão todos de parabéns.  

O autor, Marcos Bernstein, porque conseguiu criar o melhor casal homoafetivo das telenovelas brasileiras.  Dois sujeitos não-estereotipados e sem os tradicionais trejeitos que são imprimidos nos gays sempre que eles aparecem na ficção nacional.  Tanto Luccino, quanto Otávio, foram construídos como personagens completas e complexas, o capitão menos, é verdade, só ganhou melhores contornos quando a trama já passava da metade.  Enfim, os rapazes tinham profissões que normalmente não estão ligadas ao (suposto) universo gay, um era mecânico, o outro militar, e passaram por todo um processo de descoberta da sexualidade, negação, aceitação, e romance, porque, sim, houve romance e não foi pouco dado o horário e os obstáculos a vencer.  

O segundo beijo que nós vimos,
porque houve o embaixo do carro.
Acredito que houve, também, alguma coragem por parte da emissora, mas vou apostar em uma coisa, como a novela já estava com uma audiência estável, e parece que foi assim o tempo todo, e na reta final, com todo mundo gostando e torcendo pelos dois, a Globo deixou rolar.  Até brinquei que era agora, ou talvez nunca, porque sabe-se lá o que nos espera a partir do ano vem... 

Nem em uma novela das nove se ousou tanto e com tanta sensibilidade.  Aliás, a ousadia se torna maior por ser em uma novela de época que, como normalmente acontece, termina por discutir questões contemporâneas.  Há quem acredite que não havia gays, lésbicas, bissexuais ou mesmo pessoas trans no passado.  Todo mundo era hetero e quem não era tentava ser.  Certamente, a maioria tentava parecer, mas há fartas fontes históricas sobre a homossexualidade em tempos passados e figuras que ficaram famosas também por afrontarem as regras sociais.  Fiquei feliz por não ter que ver, mais uma vez, retratada uma homossexualidade vivida de forma sórdida, como no caso de Entre Irmãs, com um casamento de fachada, uma mulher sendo usada como cortina de fumaça, enfim, estou cansada disso (*Não curto Brokeback Mountain*), ainda que isso também seja uma situação histórica mais que possível.  

Otávio consola Luccino ao saber  da morte do pai do amado.
O desfecho do autor, com os amantes se transformando em vizinhos, com o uso de uma linguagem em código que somente eles entendiam, foi muito interessante.  Para quem reclama que não havia aceitação da sociedade na década de 1910, espero que tenha entendido que nem Luccino, nem Otávio, acreditavam nisso, e o grupo de pessoas que sabiam e os aceitavam foram poucas: o Coronel Brandão, a mãe e os irmãos de Luccino e Mariana, que se assumiu uma fujoshi digna dos melhores animes ou mangás.  O resto das personagens não sabia e mesmo que algumas desconfiassem da amizade dos dois, se calavam.  Aliás, outro comportamento possível.

E realmente não acredito que o público tenha amadurecido e, por isso, aceite melhor a homossexualidade na TV, simplesmente, a coisa foi acontecendo e o beijo, a expressão máxima da afetividade pública de um casal, só se concretizou nas duas semanas finais da trama, ou seja, o efeito na audiência, caso houvesse não faria grande diferença.  E não estou fazendo pouco caso, estou somente ponderando sobre a questão.  E estão de parabéns os atores, claro, Juliano Laham e Pedro Henrique Müller, dois atores jovens e que aceitaram um grande desafio, afinal, há quem termine ficando marcado por um papel.  Espero que ambos tenham chances de interpretarem todo tipo de personagem.  Duvido que muito ator-galã não ficasse melindrado de aceitar os papéis de Otávio e Luccino.  E os dois atores também foram super gentis com o fandom de Lutavio que floresceu na internet.

A cena da chuva, claro... 
Dentre as cenas mais marcantes relacionadas aos dois, destaco a conversa de Otávio com Mariana na qual nunca se discutiu tão bem aquilo que a gente chama de privilégio hetero.  Não sabe o que é isso?  Poder sair de mãos dadas, beijar e abraçar o par do sexo oposto diante de todos, tratar por apelidos carinhosos, tendo a certeza de que não será incomodado, ou agredido.  Mariana é levada a compreender que estava sendo tola nas suas palavras e, ao mesmo tempo, consegue incentivar Otávio a tentar.  Essa cena foi maravilhosa.  Agora, vou escolher somente cinco das minhas cenas favoritas dos dois.  Vai ser difícil, vamos lá: 
1. Quando Otávio consola Luccino depois da morte do pai e mente para o amado que Gaetano tinha perdoado e aceitado o filho como ele era.  Na verdade, o pai do moço tinha dado um ultimátum para Otávio e ameaçado expor sua homossexualidade para seus companheiros de farda. Ali, eu quase chorei. 
2. Quando os dois dançam sozinhos depois de escaparem do baile de máscaras e trocam juras de amor e desejam que, um dia, possam fazer isso em público.  Se não eles mesmos, pelo menos outros casais como eles.  Faltou ali um beijo, que seria o segundo beijo público, porque qualquer casal se beijaria, mas ele só veio no outro dia...  
3. A cena destruidora da chuva, quando Otávio propõe que os dois fujam e Luccino recusa por amor ao capitão, que colocaria a perder a sua carreira. 
4. A primeira aula de esgrima, quando Otávio acaba sendo derrotado pelo pupilo e termina dizendo baixinho que Luccino o havia acertado no coração. 
5. A cena do quarto depois do casamento de Brandão e Mariana, quando Otávio confessa que só pensa "naquilo" o tempo inteiro, ou seja, está queimando de desejo, mas dá para trás e foge de Luccino.  Foi uma cena ao mesmo tempo terna, engraçada e picante sem nada mostrar.
Quem sabe, um dia, eles poderão dançar em público... 
Me controlei.  Escolhi somente cinco, não falei do "carro do amor". Espero, um dia, ver um casal de mulheres sendo tratado com tanta sensibilidade, respeito e carinho como esses dois foram.  Em Tempo de Amar, cheguei a pensar que a personagem de Françoise Forton, que estava atuando com nunca, Emília, a tia solteirona rica e elegante, fosse lésbica e o autor estivesse desenvolvendo o relacionamento dela com Carolina (Mayana Moura), mas não aconteceu nada e ainda fizeram com que a mulher mais velha passasse ridículo nas últimas semanas da trama.  Enfim, se você é fã de Luccino e Otávio, quais foram as suas cenas favoritas?

ATUALIZAÇÃO (PISSED-OFF): Eu fico pasma com a homofobia de certas pessoasque frequentam os mesmos grupos de fãs de Jane Austen que eu:  "Eu sou velha, agora entendi que as pessoas, seja hetero, ou homo, não deveriam expressar afeto em público"  Aham... Aham... Vem uma moça bem novinha e diz que gosta de ver as pessoas expressando o que sentem.  A criatura retruca "Quando você for velha como eu, irá entender."  Daí, alguém pressiona e a pessoa vem com um "Crianças não entendem o que é atração.  Como explicar isso?"  Primeiro, crianças entendem bem o que é afeto, amor, namoro.  Aliás, em quase todo desenho animado que se preze há a menininha que gosta do menininho e vice-versa.  A minha filha de quase 5 anos entende bem.  E não pensa em desejo, nem em sexo, isso é estranho para ela realmente, só nos sentimentos mais doces e simples.  Talvez ela risse e a gente explicaria da forma mais simples possível.  Aliás, tanto eu quanto o pai já fizemos.  "A maioria dos meninos gosta de meninas e a a maioria das meninas gosta de meninos, mas há gente que gosta de forma diferente" Segundo, a novela não era recomendada para menores de 12 anos e, bem, gente dessa idade - mesmo gente de 10 anos, classificação anterior de Orgulho e Paixão - entende bem o que é atração, sim.  Na verdade, a pessoa não consegue admitir que sente repulsa, nojo, desprezo, whatever em relação aos homossexuais e, talvez, o fato deles serem apresentados como gente como a gente.  Daí, fica se escudando atrás de desculpas esfarrapadas como essa do sou velha... Seria mais digno e aceitável assumir o que sente e pronto.  Seja feliz. E quem está escrevendo, aqui, é uma velha. 💗

P.S.: Se você quiser textos sobre a novela, há vários.  Alguns que eu achei em uma busca superficial, um deles é sobre o final de Sinhá Moça, mas comenta um incidente de Orgulho e Paixão, outro mistura Glass Mask, o 6 é sobre Luccino e Otávio.  Segue os links: 1a - 1b - 2 - 3 - 4 - 5 - 6 - 7 - 8 - 9.

Anunciado filme de Hot Gimmick para o cinema


Eis uma notícia inesperada e muito desnecessária.  Vejam bem, Hot Gimmick (ホットギミック) foi uma série de muito sucesso publicada na revista Betsucomi entre 2000 e 2005.  A gente nunca conseguiu entender muito bem, mas a série era bem chiclete.  A gente odiava Hatsumi, a protagonista, queria dar na cara do Ryoki, o interesse romântico da moça e, ainda assim, continuávamos acompanhando.  A minha desculpe era "os coadjuvantes são simpáticos".  Enfim, mas ninguém precisava desenterrar Hot Gimmick, não precisava MESMO!


Para quem não conhece essa série de Miki Aihara, a história é mais ou menos a seguinte: Hatsumi Narita é uma adolescente tímida que mora em um complexo de apartamentos da firma onde seu pai trabalha.  Todos os moradores temem a Sr.ª Tachibana, a esposa do chefe que vive de fiscalizar a vida alheia.  Um dia a menina se dispõe a ir comprar um teste de gravidez na farmácia, porque a menstruação de sua irmã caçula está atrasada.  Ryoki, o filho do chefe, descobre que Hatsumi comprou o teste de farmácia e começa a chantageá-la.  Se ela não se tornar sua escrava (sexual), ele irá espalhar para todo mundo que ela é uma vadia, o que seria um escândalo que poderia provocar a demissão do pai da moça e o despejo de sua família.  


As coisas ficam feias para Hatsumi, mas em um momento em que ela está para ser estuprada por Ryoki, Azusa, um antigo amigo de infância retorna para a vizinhança.  Hatsumi e Azusa começam a se entender, mas a sombra de Ryoki, a chantagem, continua.  Mas não pense que Azusa é um sujeito legal, ele, na verdade, quer se vingar do pai de Hatsumi (*não conto o motivo, mas era um mal entendido*) e não terá problemas em entregar nossa protagonista para ser estuprada por uma gangue de delinquentes.  Quem vem salvá-la?  Ryoki, claro!  Mas ele continua tratando Hatsumi como escrava, com grosseria e falta de consideração... A história é só essa?  Há ainda um terceiro homem na vida da mocinha, Shinogu, seu irmão mais velho!  Hot Gimmick é péssimo, mas, acreditem, Miki Aihara já conseguiu fazer coisa pior...  


Enfim, a notícia do live action estava no ANN.  O projeto é da Toei, as gravações começaram em setembro e terminam e outubro, a estréia é no ano que vem.  Yuuki Yamato é responsável pelo roteiro e pela direção. O papel de Hatsumi Narita será de Miona Hori do grupo Nogizaka46,  Hiroya Shimizu será Ryōki Tachibana, Mizuki Itagaki será Azusa Odagiri e Shōtarō Mamiya interpretará Shinogu Narita.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Mangá sobre adolescente com ELA (esclerose lateral amiotrófica) vai ganhar filme para o cinema


O mangá  10 manbun no 1 (10万分の1), de Kaho Miyasaka, terminou sua jornada na revista Cheese! em agosto.  Como a amiga Ana Beatriz me explicou, o mangá, cujo título em português poderia ser "Uma chance de 10.000", tem como protagonista uma adolescente que descobre ter a doença.  1/10000 é exatamente a probabilidade de uma pessoa ter a doença.  Enfim, o nono encadernado da série tem lançamento previsto para 26 de outubro.  


Segundo o Comic Natalie, um artigo da autora e do ou da (*não tenho certeza*) presidente da associação dos portadores de ELA no Japão estava na última edição da revista Cheese!, que trouxe informações sobre o filme para o cinema.  Mais informações virão nas próximas edições.  A nova série da autora estréia na edição que sai em outubro.  Já Suijin no Hanayome (水神の生贄), ou Bride of the Water God, de Toma Rei, chegou ao final nesta edição e o último encadernado, o de nº10, chega às lojas em 26 de setembro.

Recordando Lendo Lolita em Teerã, um livro que vem bem a calhar em nossos dias


Esses dias estou com um livro na cabeça, um que talvez devesse reler, Lendo Lolita em Teerã (Reading Lolita in Tehran: A Memoir in Books), de Azar Nafisi.  Como eu ainda estava dando aula no 1º ano, sei que li o livro antes de 2008, acho que li em 2005, pouco antes, ou depois, do lançamento do filme Orgulho & Preconceito com a Keira Knightley.  Foi este livro que me impulsionou a ler Jane Austen.  Trata-se de uma coletânea de memórias de uma professora iraniana de literatura inglesa, suas aulas, seu relacionamento com as alunas e alunos, os problemas que a virada islâmica da Revolução Iraniana (1979) trouxe para as mulheres.  Enfim, uma mensagem forte do livro é que a literatura liberta, dá asas, especialmente, quando se vive em um regime de opressão.

Começo dizendo que não simpatizo em nada com a autora e sou contra várias de suas posições e da forma como ela lê os acontecimentos históricos.  Nafisi é uma ex-socialista, elitista, reacionária até, mas  seu livro é uma delícia de se ler.  E um ótimo complemento para Persépolis, da Marjane Satrapi.  A autora de Lendo Lolita viu a revolução com olhos de mulher adulta, enquanto a Satrapi era uma criança.  Lendo Lolita em Teerã também fala de uma posição à direita, por assim dizer, diferente da leitura de Satrapi dos acontecimentos, e consegue tecer as críticas necessárias aos comunistas durante o processo revolucionário.  De resto, Nafisi deve ser uma dondoca de visão política e social bem limitada, mas sou solidária a ela, porque, bem, nenhuma mulher deveria passar pelas coisas que a revolução iraniana impôs às cidadãs do país.

Minha edição é esta aqui.
Estou recomendando Lendo Lolita em Teerã por vários motivos.   Primeiro deles, aprendi muito de literatura inglesa com este livro.  Lembro que, na época, não tinha lido nada de Jane Austen.  O livro de Nafisi me deu um empurrão, porque em uma dada aula, ela promove o julgamento de Mr. Darcy e eu fiquei com vontade de conhecer aquele homem.  Segundo, porque o livro me deu uma série de informações sobre o dia-a-dia da Revolução Iraniana.  Foi lendo o livro de Nafisi que descobri que a revolução que derrubou uma monarquia tirânica (*e que tinha concedido mais direitos civis às mulheres do que qualquer outra do Oriente Médio*) não começou islâmica, ela se tornou no processo e o partido comunista iraniano pensou que poderia usar os religiosos para neutralizar os liberais. Sabe aquele velho erro das esquerdas que é acreditar que os religiosos são burros?  Pois é... No fim das contas, tanto comunistas, quanto liberais, foram eliminados.  Lembram do tio de Satrapi que aparece no primeiro volume de Persépolis?  Ele voltou da URSS para participar da Revolução e terminou executado pelo novo regime.

Mas por qual motivo eu estou com esse livro na cabeça?  Escrevi lá em cima que a autora era ex-socialista, certo?  Enfim, Nafisi tem forte repulsa pelos movimentos sociais, ela dá falta para os alunos e alunas que estavam participando das manifestações de rua. Ela critica a juventude que ao invés de valorizar suas aulas, preferia "tentar mudar o país".  Daí, os religiosos começam a ganhar espaço na Revolução, uma mulher moderna como a autora começa a ser afrontada pelos alunos homens e por outros seres do sexo masculino que sequer conhece (*Lembram quando a mãe de Satrapi foi quase estuprada no primeiro volume por estar sem véu?*).  Quando ela percebe o que está acontecendo e decide ir para a rua, já era tarde.  Em pouquíssimo tempo, ela terá que usar o véu (hijab), depois o chador completo para sair às ruas.

Protesto no 8 de março de 1979 contra a imposição do véu (hijab)
Nafisi conta caiu em depressão, que ficou muito tempo sem conseguir sair na rua.  Mesmo depois que as universidades foram reabertas, ela demorou um bom tempo para conseguir voltar a lecionar e não durou muito, não se adaptou.  Acabou abandonando o emprego e montando um grupo de leituras com suas ex-alunas.  Daí, o título do livro. Mas a autora, mulher rica, podia largar o trabalho, seu marido era um empresário.  Aliás, o marido de Nafisi, liberal como ela, logo se ajustou ao regime.  Enquanto isso, as mulheres  tinham que usar uma roupa uniforme, porque nos primeiros anos da Revolução Islâmica era desse jeito mesmo e tiveram vários de seus direitos confiscados.  Enfim, os capítulos do grupo de leitura são ótimos, porque conhecemos cada uma daquelas moças, suas esperanças, sonhos, tristeza, lutas.  

Uma das passagens mais tocantes do livro é do choro da filha criança de Nafisi que, por ser mulher, não podia andar de bicicleta (*demorou para ser permitido de novo*), tomar sorvete em público (*era considerado indecente*) e foi punida na escola por estar usando cadarços coloridos em seus tênis.  Outra passagem que me marcou foi quando a autora reencontra uma aluna que antes usava minissaia e roupas modernas, absolutamente assujeitada pelas imposições da revolução.  Há ainda o choque da autora ao saber da execução por apedrejamento da ministra da educação do país.  Sim, o Irã tinha uma mulher ministra de Estado em 1979 e juízas nas cortes superiores.  Podem acreditar, quando se trata de confisco de direitos, são os das mulheres que vão primeiro. E, ainda assim, deploro que a autora não consiga perceber os ganhos sociais gerais com a Revolução, ou culpabilize o Irã pela guerra com o Iraque, quando foi o seu país a ser atacado atacado.  Mas, para ela, seria difícil pesar as coisas, ela vive umas poucas e boas nos anos que se seguiram à Revolução Islâmica.


Concluindo, acabei de ler que 51% do eleitorado feminino brasileiro não decidiu em quem vai votar para presidente.  Nós, mulheres, podemos definir esta eleição presidencial, ou deixar que decidam por nós.  É preciso se mover agora, enquanto há tempo, pois depois que tudo se decidir será muito mais fácil impedir que nossos direitos e dignidade sejam afrontados.  Pessoal que curte séries, basta pensar em The Handmaid's Tale.  Tanto no Irã, quanto no Afeganistão, os direitos das mulheres se perderam com uma rapidez enorme.  E não estou colocando os dois países no mesmo patamar, ser mulher no Irã, mesmo com a Revolução Islâmica, é muito diferente do que ser mulher sob o Talebã, ou mesmo na Arábia Saudita, mas não queria ser mulher em nenhum desses três países, ou em Gilead.  E, para quem quiser, Lendo Lolita em Teerã foi relançado por outra editora.  Tem no Amazon.  Mas a edição antiga, a que eu tenho, pode ser encontrada no Estante Virtual.  O link é este aqui.

domingo, 23 de setembro de 2018

Maurício de Sousa homenageia o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista com história emocionante


No último dia 2 de setembro, aconteceu a tragédia do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista.  Tragédia, sim, porque não há outra palavra que melhor se aplique.  Conforme as semanas passam, a indignação, as fake news, o mal estar do (des)Governo Temer diminui.  Afinal, quem vai lembrar?  Enfim, o nosso maior quadrinista, sim, porque goste dele, ou não, é Maurício de Sousa e sua Turma da Mônica a grande porta de entrada da maioria de nós ao mundo dos quadrinhos.  Eu estou com a história no HD esperando o domingo, data que maraca mais uma semana do grande incêndio do nosso maior museu, do lugar onde nossas crianças do Rio de Janeiro, as pobres em especial,  

A história, intitulada "Insubstituível", faz parte da Turma do Penadinho, tradicional núcleo que se passa num cemitério e inclui criações mal-assombradas. As páginas foram publicadas na sexta (21), no Facebook da Turma da Mônica, com a hashtag #MuseuNacionalVive. Até a noite deste sábado (22), já chegava a quase 10 mil compartilhamentos.

No fim da história, Dona Morte conclui: "Se alguém chegasse ao nosso cemitério agora e perguntasse 'quem morreu?', eu diria '200 anos de história'. Mas [...] eu vejo que a alma do museu continua aqui, porque a história nunca morre de fato, se a gente mantiver ela viva".  Leiam, enfim.  São somente seis páginas.

Divagações sobre Glass Mask (É mais uma desculpa para falar de Orgulho e Paixão, também)


Estava no Twitter e sigo uma identidade que posta aberturas clássicas de shoujo anime.  Sim, só posta isso e é muito interessante.  Daí, apareceu a abertura ao estilo Flashdance de Glass Mask 1984 na minha frente.  Foi a primeira versão animada da série que eu assisti.  Acredito que boa parte das pessoas que frequentam o Shoujo Café conheceu a série pela animação de 2005.  Para se ter uma ideia, há ainda a de 1998 que, pelo menos na minha opinião, é a visualmente mais bonita.  Enfim, Garasu no Kamen (ガラスの仮面) ou Glass no Kamen ou Glass Mask, de Suzue Miuchi é uma instituição no Japão.  

Isso aqui é lá do começo do mangá,
uma das minhas cenas favoritas.
O casal principal, Maya e Masumi, um dos maus casais de mangá favoritos, foram inspirados livremente em Mr. Darcy e Elizabeth.  Não é o único, aliás, em Hana Yori Dango se dá o mesmo, mas com um Darcy quase delinquente, por assim dizer... Só que em Glass Mask a coisa é tão evidente que quando o anime passou na França, o primeiro, lá de 1984, com o título de Laura ou la Passion du Théâtre, Masumi foi rebatizado de Maxime Darcy. E fazia todo sentido, aliás.

angústia, culpa, ciúme... 
Se você caiu de para-quedas por aqui e não sabe o que é Glass Mask, trata-se de um mangá shoujo clássico que estreou em janeiro de 1976 (*eu nasci em fevereiro*) e continua em publicação até nossos dias.  Não contínua, porque a autora nos tortura com hiatos que podem durar anos.  Enfim, a protagonista, Maya, é uma menina comum e pobre de todo jeito, que mora com a mãe viúva que a trata com rispidez e não vê nela nenhuma qualidade.  Mas ela tem, a menina tem um talento nato para o teatro e uma persistência que faz com que tenha forças para superar os obstáculos.  Ela acaba sendo descoberta por uma velha atriz aposentada, Chigusa Tsukikage, que deseja escolher e treinar uma sucessora que possa assumir o papel que a consagrou, a Deusa Escarlate.  Só que Hayami Masumi deseja comprar os direitos da peça, ele é o diretor das empresas de sua família e profundo admirador de teatro.  

Uma declaração de amor no volume 41.
A proposta do moço é recusada e Maya, que se torna discípula de Tsukikage, termina por dedicar ao sujeito uma antipatia sem tamanho.  Ele, por sua vez, finge frieza e até crueldade diante dela, mas se apaixona pela menina (*e se culpa por isso, entre outras coisas por ser dez anos mais velho que ela*) e se torna seu patrocinador secreto.  Maya dedica ao seu admirador, a quem chama carinhosamente de "Murasaki no bara no hito", porque ele lhe manda rosas de cor púrpura (murasaki) e paga seus estudos, uma devoção sem limites.  As amigas da moça o chamam de "Papai Pernilongo" e faz sentido, também. Com o tempo, Maya termina por tomar consciência de que Masumi não é mau, para seu desespero, passa amá-lo, mas ele é rico, mais velho e tem uma noiva.  Eventualmente, ela acaba descobrindo que ele é o "Murasaki no bara no hito"... Algumas cenas chave dos dois foram disponibilizadas nesta página italiana, porque foi a Itália o país ocidental que publicou a obra até onde pode.

Há poucas cenas assim no mangá.
Glass Mask, obviamente, não é só isso, como uma boa novela, precisa de trama sparalelas e arcos de história.  Eu me foquei somente no romance central, no Darcy X Elizabeth que a autora utilizou como motor da relação entre as protagonistas.  A série tem várias peças de teatro (*e eu aprendi um monte de coisas graças a elas*); Maya chega a fazer TV; Masumi tem muitos esqueletos no armário que atrapalham sua vida; Maya arruma um namorado, muito gente boa, e a gente fica vendo o ciúme de Masumi; a antagonista da heroína, Ayumi Himekawa, é uma protagonista a seu modo; e  temos, também, a doente terminal mais saudável da ficção, porque a Tsukikage-sensei está morrendo desde o primeiro capítulo do mangá e chegamos no volume 49 e nada.  

E tome sofrimento por 43 anos...
No pé onde eu estava quando interrompi a leitura, porque não gosto de ser torturada e Suzue Miuchi é cruel, só faltava mesmo resolver o rolo desses dois.  Masumi não pode romper o noivado, porque se trata de um acordo de famílias.  Ele, como filho adotivo, deve muito ao pai, ainda que esse mesmo sujeito o tenha tratado com imensa crueldade.  Assim sendo, caberia à noiva dele, que parece ser uma pessoa sensata, romper o enlace. Nem sei se isso já rolou, porque só retomo esse mangá quando a autora tomar vergonha e decidir terminar.  


Você não precisa de 43 anos para desenvolver uma relação ficcional, não mesmo, mas o autor de Orgulho e Paixão poderia ter feito muito melhor com seu Darcy e sua Elisabeta.  Um dos pontos baixos da novela, que termina na segunda-feira, é que o autor da novela, que desenvolveu de forma tão correta o amor de Luccino e Otávio (💚💚💚💚), ou mesmo a relação de Aurélio e Julieta, desenrolando esses dois romances ao longo de meses de trama, tratou o romance dos protagonistas com muita negligência.  Não se fez contraste entre Darcy e Elisabeta, porque o rapaz sempre foi muito mais simpático e emotivo do que seria desejável, a um inglês, a um Mr. Darcy e mesmo aum homem de sua época.  

O par combinou quase que imediatamente.
 Poderiam tê-lo colocado sisudo e sendo derretido com o tempo.  Os dois poderiam ter desenvolvido admiração e respeito um pelo outro antes de se lançarem nos tórridos beijos, mas não foi assim.  Já a mocinha, assim como a original na qual foi inspirada, poderia descobrir que julgara mal o caráter de Darcy.  Tudo foi atropelado e não foi culpa dos atores.  Eles combinaram muito bem e foram competentes defendendo seus papéis, foi problema de roteiro mesmo.

Para quê esse beijo na primeira semana?
Eles se beijaram na primeira semana.  Elisabeta nunca teve outro interesse romântico no horizonte, já que Wikham nunca existiu de fato, mesmo o obstáculo da vida profissional nunca se desenhou de forma consistente.  Logo de saída, tentaram Ernesto como ponta do triângulo, mas a química entre ele e Ema foi mais forte.  E nem adianta alguém vir com o papo que era planejado, porque novela é obra aberta e a gente percebe bem quando se faz uma mudança de rumo para o bem, ou para o mal.  Da mesma forma, Susana nunca foi uma ameaça real ao casal, seja porque a personagem de Alessandra Negrini nunca exerceu fascínio ou outro sentimento qualquer sobre Darcy, seja porque suas armações eram capengas demais.  Ela nunca conseguiu ser nem Lady Susan, nem Caroline Bingley, mas foi um excelente Dick Vigarista.

Susana nunca foi uma opção para Darcy.
De resto, a mocinha começou chata, gritalhona, mal educada mesmo e eu me desgastei um dia no Twitter com uma moça que disse que Lizzie Bennet seria exatamente assim se ganhasse forma no século XX.  Aquela velha confusão de que para ser forte, uma personagem feminina precisa ser mau humorada e autossuficiente em tudo.  Não precisa, nem deve.  Mas a mocinha melhorou consideravelmente, e foi convertida em uma super justiceira no quinto final da novela.  E a culpa não é de Elisabeta, ou de Nathália Dill, é do autor da novela.  Personagens ficcionais são criações dos autores e não tem vida própria, ou autonomia.  Ainda que algumas personagens nos encantem tanto, ou nos causem tanta raiva, a ponto de as considerarmos quase pessoas reais, elas não são.  Daí, faltou a Marcos Bernstein um pouco de "razão e sensibilidade" e uma pitada a mais de "orgulho e preconceito" ao tratar de seu Darcy e sua Elisabeta.  Um beijo na primeira semana, o romance muito precoce dos dois, tudo prejudicou o brilho do par.

Aurélio e Julieta tiveram um desenvolvimento
como casal que os protagonistas não receberam.
Agora, um momento muito importante dos dois que eu não comentei na época certa, aconteceu lá pelo capítulo 100, um pouco antes até, foi o pedido de casamento que Darcy faz a Elisabeta sem consultá-la.  Ele vai direto aos pais da moça, porque ela, como mulher, é uma peça a ser passada do patriarca para o marido.  E, legalmente, era isso mesmo à época.  Ele, Darcy, lhe daria a honra de ser sua esposa.  A recusa da moça gerou certa comoção.  Eu, de minha parte, achei ótimo, primeiro, porque uma mulher, em especial uma mocinha como ela, não é coisa para ser "pedida" sem seu consentimento, segundo, porque deveria ter sido consultada antes e não exposta na frente de todos, terceiro, porque ela queria poder escolher inclusive se desejava continuar namorada ou amante, como queiram, sem ter que virar esposa.

Já Luccino e Otávio tiveram quase três meses
 para desenvolver o seu romance.
Aliás, poucas coisas me parecem tão abusivas em um relacionamento do que aqueles pedidos públicos de namoro, casamento e por aí vai.  O sujeito é bonzinho, ou parece ser, acha que está concedendo uma grande honra a uma mulher, afinal, qual de nós não tem dois desejos máximos?  O casamento e a maternidade?  Como uma mulher, especialmente se muito jovem, rejeita publicamente um cara que chega com um lindíssimo buquê de flores e um anel e a pede na frente de sua família, ou de uma multidão?  Dia desses aconteceu uma coisa assim no meu trabalho, onde, a rigor, namoros não são permitidos.  Temos quinhentos alunos só no terceiro ano e foi na hora da saída que um ex-aluno abordou uma das meninas. Lindo?  Não.  E se fosse um casal homoafetivo nunca seria permitido o espetáculo.  De resto, qualquer mulher que rejeitasse  um cara com um monte de flores na frente de uma pequena multidão seria vista como malvada, talvez, chamada de vadia e ingrata.

Eles passaram boa parte da trama como um casal
sem conflitos algum que merecesse o nome.
Enfim, aquela cena, para mim, foi a síntese do crescimento de Elisabeta e da sua construção como mulher livre e, sim, elas existiam em tempos passados, ainda que fossem minoria e, não raro, pagassem caro por não querer se casar, por transar com um homem sem estar unidas pelo matrimônio, por desejarem uma carreira, por terem filhos fora do casamento e os assumirem diante da sociedade.  Elisabeta ama, mas não aceita ser tratada dessa forma convencional e, sim, machista.  Ela ama, mas tem prioridades outras, como a carreira, e não quer ser esposa ainda.  Ela ama, e o cara é legal, mas não é legal ser exposta na frente de uma multidão.  Talvez, pouca gente tenha dado crédito para essa cena que, a meu ver, foi uma das melhores mensagens de empoderamento que o autor passou.  E ele passou muitas, algumas de forma muito chapada, outras, como no pedido de casamento, de forma sutil, porém direta.

Muito romance e pouco orgulho, ou preconceito.
Concluindo, porque acabei de ver o penúltimo capítulo e vi muita gente criticando a mocinha e outros a defendendo.  Olha, o autor pode ter exagerado nas doses de discursos engajados e de ações heroicas (*algumas impensadas*) da protagonista, mas ela fez o que tinha que ser feito no caso da bomba.  Pegou o troço e jogou pela janela.  Aliás, bomba que aprecia de desenho animado, mas para quem não notou, desde o início a novela tem um pé nas princesas e vilãs da Disney, já teve capítulo que parecia homenagem à Corrida Maluca e o de ontem me fez lembrar de Os Apuros de Penélope.  Foi ruim?  Não.

Se quiser uma adaptação de verdade de
Orgulho & Preconceito, pegue da da BBC de 1995.
De resto, a gente está careca dever o herói de filmes de ação resolvendo tudo sozinho e ninguém, ou quase ninguém, reclama.  Mas é mulher, então, vira uma ofensa, ela vira uma chata intrometida, tudo se torna inaceitável aos olhos de certos segmentos do público  Parem para refletir sobre isso.  E eu não curto esse tipo de personagem resolve tudo, faz tudo, tem resposta para todos os problemas do mundo, enfim, mas há nítida diferença no grau de tolerância quando o arrogante-destemido-fodástico é um homem e quando é uma mulher.  Elisabeta não precisava andar em cima do trem.  Não precisava, mesmo, mas o único homem em condições físicas de fazê-lo era o Camilo e vocês, que vêem a novela, sabem que se o povo dependesse dele, o trem explodia.  Mais textos sobre a novela virão, um deles amanhã, sem dúvida.

P.S.: Se você quiser textos sobre a novela, há vários.  Alguns que eu achei em uma busca superficial, um deles é sobre o final de Sinhá Moça, mas comenta um incidente de Orgulho e Paixão são esses 1a1b - 2 - 3 - 4 - 5 - 6 - 7 - 8.