domingo, 28 de setembro de 2025

Quais são os animes shoujo, josei e joseimuke da temporada? Um pequeno guia.

Nunca houve uma temporada com tantas séries voltadas para o público feminino (shoujo, josei, joseimuke) e imagino que ninguém conseguirá acompanhar a metade disso daí.  Obviamente, há material para quase todo mundo.  Eu não consigo acompanhar mais que uma série por temporada, não imagino que será diferente agora, mas fiz (*com a ajuda da Jéssica*) um guia das estreias.  Coloco as informações que consegui juntar; a maioria dos animes estará disponível no Crunchyroll, mas há séries que ainda não parecem ter licenciamento. 

Who Made Me a Princess – Estreia: 28 de setembro – Disponível: Crunchyroll – O resumo fornecido pelo próprio Crunchyroll é o seguinte: "Quando uma mulher desperta como Athanasia, a princesa desafortunada do romance "The Lovely Princess", ela precisa reescrever essa tragédia ou enfrentar a execução — pelo próprio pai! Ela pode estar presa, mas tem sua inteligência e as memórias da garota condenada para ajudá-la em uma reviravolta na trama de sobrevivência. Mas quando seu plano de fuga falha, ela precisa usar seu charme para não ser executada novamente.".  Isekai reencarnacionista, eu tenho ZERO interesse a partir da história, no entanto, este material é curioso, porque a novel é coreana, o quadrinho é chinês (manhua) e a animação (donghua) também é chinesa, mas com dublagem simultânea em japonês.  Acredito que deva ser muito popular nos três países.
Kakuriyo no Yadomeshi (かくりよの宿飯) Kakuriyo: Bed & Breakfast for Spirits –  1 de outubro – 2ª temporada –  1ª temporada foi em 2018 – Crunchyroll – O resumo fornecido pelo próprio Crunchyroll é o seguinte:   "Após perder o avô, Aoi — uma garota que consegue ver espíritos conhecidos como ayakashi — é repentinamente abordada por um ogro. Exigindo que ela pague a dívida do avô, ele faz um pedido enorme: sua mão em casamento! Recusando a oferta absurda, Aoi decide trabalhar na pousada Tenjin-ya para os ayakashi, a fim de pagar o que sua família deve." Começou como novel (2015-2022) e tem dois mangás em andamento, um josei, na B's Log Comic (2016), e o outro shounen, na Shonen Sirius (2023).  Esta será a segunda temporada da série, a primeira foi lançada em 2018.  Esse não me despertou interesse, também.
Taiyou Yori mo Mabushii Hoshi (太陽よりも眩しい星)/A Star Brighter Than the Sun – 2 de outubro – Prime Video.   – O resumo fornecido pelo próprio Amazon Prime é o seguinte:     "Sae Iwata é uma garota mais durona do que as outras que se apaixona pelo delicado Koki Kamishiro, ainda no ensino fundamental. No ensino médio, Koki se torna um adolescente charmoso e popular e parece estar fora do alcance dela. Quando os dois trabalham juntos no comitê do festival esportivo, o primeiro amor de Sae, há muito tempo guardado, vêm à tona.".   O mangá  é publicado na Beetsuma, tem 12 volumes e está em andamento.  A autora é a celebrada Kazune Kawahara, conhecida no Brasil por ser a roteirista de Ore Monogatari!!.  Este eu gostaria de acompanhar.  DU-VI-DO que a Panini não lance esse mangá por aqui.  Vai ter dublagem em português e em várias outras línguas.
Let's Play  Kuesuto-darake no Mairaifu (クエストだらけのマイライフ) – 2 de outubro –  Crunchyroll (*mas não está listado ainda*) – Esse aqui é curioso! O resumo do primeiro volume no Amazon é o seguinte: "Ela é jovem, solteira e está prestes a realizar seu sonho de criar videogames incríveis. Mas então a vida lhe dá um golpe duplo: um streamer popular faz uma crítica mordaz ao seu primeiro jogo.  Pior ainda, ela descobre que o mesmo crítico problemático agora é seu novo vizinho! Uma história engraçada, sexy e bastante real sobre jogos, memes e ansiedade social."  Trata-se de uma webtoon muito elogiada, indicada ao Eisner (2019) e publicada entre 2016 e 2022.  A autora se chama Mongie (Leeanne M. Krecic).  E os japoneses decidiram fazer um anime e ele é  joseimuke, isto é, direcionado ao público feminino, o resumo evidencia bem isso, mas não é josei, porque não deriva nem de mangá, nem de novel classificado assim.
Akujiki Reijou to Kyouketsu Kōshaku: Sono Mamono, Watashi ga Oishiku Itadakimasu! (悪食令嬢と狂血公爵 〜その魔物、私が美味しくいただきます!〜)/Pass the Monster Meat, Milady! – 3 de outubro – Crunchyroll –  Não tem resumo no Crunchyroll ainda, estou usando o do Bakaupdates (*que colocou erroneamente o mangá como shounen e trancou para revisão*):  "Já se passaram três anos desde que debutou na sociedade. A filha de um conde, Melfiera, tinha sido alvo de rumores desagradáveis ​​devido ao seu hobby, e não conseguia nem ficar noiva. A futura esposa de seu pai, que não pensava bem dela, diz a ela que se ela não encontrasse um noivo dentro de um ano, ela seria enviada para um convento. Ao ouvir isso, ela correu para comparecer à festa de outono. A verdade é que ela não estava realmente a fim, então ela se viu sozinha na festa onde conheceu os outros. No meio disso, ela foi atacada por uma besta demoníaca que havia sido infectada por um veneno demoníaco e enlouqueceu. O homem que a salvou da situação desesperadora estava todo ensanguentado, mas sorria sem medo. Na verdade, esse homem era o próprio Duque de Galbraith, que também era conhecido como o "Duque Louco".    O Duque Galbraith ficou intrigado com Melfiera, que não tinha medo de demônios, muito menos de si mesmo ensanguentado. Ele não só demonstrou compreensão pelo seu hobby secreto de provar demônios e plantas mutantes, como também se ofereceu para satisfazer sua incessante necessidade de exploração...?!"  A série começou como novel em 2021, no mesmo ano o mangá começou a sair na plataforma Palcy e, agora, está, também, na revista Artemis da Kodansha, que é shoujo e foi criada para abrigar esse material shoujo e josei que estava sob responsabilidade da editoria da Shounen Sirius.  Então, é shoujo e o Bakaupdates está teimando à toa.  O mangá é divertido, talvez eu dê uma olhada.

Hyakushou Kizoku (百姓貴族)/The Noble Farmer – 3 de outubro – Não sei se estará disponível em algum lugar. –  Esse aqui é o mangá conforto da Arakawa Hiromu (Full Metal Alchemist) e conta suas aventuras e desventuras antes de se tornar mangá-ka trabalhando na propriedade rural da família em Hokkaido, onde são produzidos laticínios.  Ela se desenha como uma vaquinha. É publicado desde 2008 na revista josei Wings e eu acho que ela vai publicar isso aqui eternamente.  Não tem periodicidade rígida, é episódico e está ainda no volume 8, só para vocês terem uma ideia.  Esta temporada do anime já é a terceira.
Saigo ni Hitotsu dake Onegai Shite mo Yoroshii Deshou ka (最後にひとつだけお願いしてもよろしいでしょうか)/May I Ask for One Final Thing? – 4 de outubro – Crunchyroll – Tem resumo no Crunchyroll, mas eu montei este com informações da Wikipedia, também: "Scarlet já suportou a intimidação do noivo por tempo demais. O Segundo Príncipe Kyle não só é arrogante e grosseiro, mas também rompeu o noivado repentinamente durante um baile. E como se as coisas não pudessem piorar, ele a acusa de um crime que ela nunca cometeu. Estimulada por essa traição, Scarlet libera sua raiva, iniciando uma terrível vingança contra o príncipe e seus aliados.".  Começou como novel em 2018 e tem mangá em andamento desde 2019 tudo dentro do selo Regina da editora Alpha Polis.  Pode ser interessante, talvez eu olhe o primeiro episódio.
Kikaijikake no Marie (Japanese: 機械じかけのマリー)/Mechanical Marie – 5 de outubro – Crunchyroll – O resumo a seguir veio do Crunchyroll: "A ex-lenda das artes marciais Marie aceitou um novo emprego como "empregada mecânica"... só que ela é 100% humana, e Arthur, seu novo chefe, despreza humanos. Felizmente, o rosto naturalmente inexpressivo de Marie a ajuda a manter a atuação robótica enquanto secretamente protege Arthur de constantes tentativas de assassinato. Mas quando Arthur se apaixona por sua empregada "perfeita", as coisas rapidamente saem do controle!".  Esse aqui eu fiz resenha para  o blog, porque quando foi anunciado, fiquei curiosa com essa coisa de robô maid.  Enfim, é baseado em mangá que começou como oneshot em 2020, depois virou série com seis volumes (2020-2023) e, agora, tem uma continuação em andamento.  Tudo na revista LaLa.  Se você gosta de uma série engraçada, meio insana e despretenciosa, esta aqui é para você.  Vou tentar acompanhar.

Egao no Taenai Shokuba Desu。 (笑顔のたえない職場です。)/A Mangaka's Weirdly Wonderful Workplace – 6 de outubro – Crunchyroll – O resumo a seguir veio do Crunchyroll: "Futami é uma nova autora de mangá shoujo que, com a ajuda de um editor competente e uma assistente dedicada, começou a publicar sua obra dos sonhos: “Subaru e”, um mangá sobre shogi. Mas a pressão está pesando: dores no estômago obrigam ela a adiar o prazo do primeiro capítulo, e ela fica travada diante dos esboços sem avançar. Para piorar, os lanches noturnos estão deixando marcas na balança, e sua mente não para de criar devaneios absurdos…  Será que ela vai conseguir sorrir no caos e aproveitar a vida turbulenta de uma mangaká?".  A série começou com um oneshot na revista josei Kiss e, mais tarde, tornou-se série regular na plataforma Comic Days e seus volumes físicos são publicados dentro de um selo seinen.  São 13 até o momento.  Deve ser divertido.  Vou olhar o primeiro capítulo.  

Plus-Sized Misadventures in Love! (デブとラブと過ちと!, Debu to Rabu to Ayamachi to! – 6 de outubro – Crunchyroll  – O resumo a seguir veio do Crunchyroll: "Yumeko é uma funcionária de escritório quieta e abatida, oprimida por inseguranças paralisantes e autoaversão — até que um acidente repentino a deixa com amnésia... e uma nova personalidade brilhante. Sua transformação dramática desconcerta a todos ao seu redor, mas com um novo entusiasmo pela vida e uma confiança inabalável, Yumeko está pronta para enfrentar qualquer coisa: amor, trabalho, amizade... e talvez até mesmo um mistério de tentativa de homicídio.".  A série é publicada desde 2019 na revista digital Koisuru Soirée e teve dorama em 2022.  Eu não gosto muito do design da Yumeko, mas quando a gente pega o mangá, e eu fiz uma pequena resenha do início da série, a gente esquece disso e acaba simpatizando com a série.  Acredito que a série vai sofrer algum hate, porque os gordofóbicos não admitem a possibilidade de ver uma pessoa obesa feliz, ou que sua vida não gire em torno do emagrecer, mas, enfim, esse tipo de gente não tem empatia, nem se preocupa com a saúde física e mental de ninguém.   
Heika Watashi wo Wasurete Kudasai (陛下わたしを忘れてください)/Forget That Night, Your Majesty! – 7 de outubro – Não sei onde será exibido, ou se será.  –  O resumo é o seguinte: "Nascida como a filha desprezada de uma família nobre, Lunia escapa de seu terrível destino casando-se com o duque amaldiçoado, Hades Khronoa.  O duque diz que não irá consumar o casamento, mas trata Lunia com uma gentileza que ela nunca conheceu.  Lunnia quer salvar o duque, ela quer ser útil a alguém, porque sempre ouviu que era inútil.  Só que Lunia foi escolhida pelo deus daquele reino para salvar o duque, porque, se o casamento não fosse consumado, ele morreria aos trinta anos e isso colocaria o império em risco, pois Hades era seu principal general e seu maior feiticeiro. Pressionada pelos líderes religiosos e políticos, Lunia decide ludibriar o conde e consumar o casamento, e após uma única noite sem amor, ela foge e não deixa rastros, sem saber que já estava grávida.  Durante a fuga, Lunia tem uma visão na qual ela vê dois adolescentes duelando e se matando.  Quando Lunia tem filhos gêmeos, Helios e Uranus, a jovem entende que, se retornar para o marido, seus filhos irão se matar.  Sete anos depois, Hades está determinado a reconquistar Lunia e a encontra... assim como as crianças que ele (*supostamente*) nunca soube que existiam. À medida que segredos ressurgem e emoções reacendem, será que esse casal despedaçado conseguirá desvendar o passado e encarar o futuro juntos?"  Ah!  Isso aqui me dá tanta, tanta raiva!  Porque a série receberá  um light anime, uma animação de baixa qualidade, mal e mal um quadrinho com falas, um romic.  Olha, eu comecei a ler o mangá e ele é muito farofa, mas é tão bom, tão simpático, ele merecia um anime DE VERDADE, merecia muito.  E eu vou fazer resenha, porque eu estou quase terminando o que tem disponível.    E é  um mangá vertical, as autoras sao japonesas, ainda que eu acredite que foi publicado primeiro pelo Tappytoon, que é uma plataforma/editora coreana.

2200-Nen Neko no Kuni Nippon (2200年ねこの国ニッポン)/Japan, the Land of Cats in the Year 2200 – 7 de outubro.  Não sei se será exibido em algum lugar.  O resumo veio do Bakaupdates: "Uma história comovente sobre a vida felina em um futuro distante, desenhada por uma nova autora promissora! A história acompanha o cotidiano de uma estudante do ensino médio e seu gato de estimação, que vivem em um mundo onde a taxa de natalidade humana está diminuindo e o número de gatos aumentou.".  Parece bonitinho, devo dar uma olhada e vou ver se o mangá está em algum lugar.  É publicado na revista josei Nekotomo, geralmente, revistas especializadas em mangás de gatos é josei.
Tensei Akujo no Kuro Rekishi (転生悪女の黒歴史)/The Dark History of the Reincarnated Villainess – 9 de outubro – Crunchyroll – O resumo a seguir veio do Crunchyroll: "O passado sombrio e fictício de Konoha Satou se torna realidade quando ela reencarna como Iana Magnolia, a vilã de sua própria fantasia adolescente. Agora, com um papel que ela meticulosamente projetou para ser desprezível, lembrar de cada detalhe é uma questão de vida ou morte. Será que ela conseguirá reescrever o destino de sua personagem em algo pacífico?".  A série é derivada de um mangá da revista LaLa, começou em 2018 e tem 16 volumes até o momento.  Percebam que dois animes da LaLa estão nessa temporada.  Não sei se vou olhar, isekai reencarnacionista de vilã não me interessa, PORÉM o livro é criação da própria pessoa que reencarna, isso me desperta alguma curiosidade.  De qualquer forma, é muita coisa para tentar assistir, então, esse vai para o final da fila.


Aikatsu! x PriPara THE MOVIE ~Deai no Kiseki! (アイカツ!×プリパラ THE MOVIE~ 出会いのキセキ!-) ~crossover entre Aikatsu! e PriPara~ – 10 de outubro –  cinemas japoneses  –  É um filme colaborativo entre as franquias PriPara e Aikatsu (2ª Geração - Akari Ozora) que celebram seu 10º aniversário.  É o que eu sei e  não vou me esforçar por saber mais.  Como tem material dessas série no Crunchyroll, imagino que deva parar lá em algum momento.
Kimi to Koete Koi ni Naru (キミと越えて恋になる? )/With You, Our Love Will Make It Through –  14 de outubro –  O resumo da série é o seguinte e ele veio de uma pequena resenha que eu fiz: "Mari é uma estudante do ensino médio que vive em uma cidade onde homens-fera e humanos coexistem. Quando ela está atrasada para a escola, ela conhece Tsunugu, um homem-fera que veio para a escola como um 'aluno especial' para o Programa de Educação de Homens-fera, no portão da frente. Mari fica perplexa com seu primeiro contato com um homem-fera, mas conforme ela o conhece, ela é atraída por seu lado gentil e puro. No entanto, alguns de seus colegas de classe não parecem aceitar bem os homens-fera, e de repente os dois são trancados em um depósito.   Para protegê-la de uma queda, afinal, é um lugar apertado, Tsunugu a abraça! Ele diz: "Você cheira bem..." Sua respiração fica irregular e ele entra no cio!!! Para se controlar, ele termina mordendo a si mesmo.  Mari fica com medo, e com desejo, afinal, tudo é novo para ela, mas não desistiu. Já Tsunugue se assusta com o que está sentindo e decide que não pode ficar tão perto dela. Será que ele vai conseguir? Uma humana e um homem-fera. O que acontecerá com o amor entre duas pessoas que transcendem a raça?  Amor juvenil interespécies puro e emocionante."  Esta deve ser a série mais polêmica da temporada.  É um shoujo publicado na plataforma Manga Mee.  Como eu fui ler, sei que o material é bom, isto é, bem desenhado, tem uma história que cativa, discute muito bem preconceito, imigração e racismo, PORÉM, a autora (Chihiro Yuzuki) tem um fetiche por animais e isso compromete, pelo menos para mim, a minha simpatia em relação à série.  E a série é uma sequência de  Juujin-san to Ohana-chan (獣人さんとお花ちゃん), um mangá TL, isto é, pornografia para mulheres, que mostra o romance entre uma humana e um homem-fera.  Enfim, KimiKoe é bonitinho, sim, mas tem algo de zoofilia nele e tem um nível de erotismo alto para a média dos shoujo, a coisa toda, aliás, é muito bem calculada.  Eu não transformaria em anime e sei que é de alto investimento, se duvidar, terá as melhores aberturas e encerramentos da temporada.

Disney Twisted-Wonderland (ディズニー ツイステッドワンダーランド) – 29 de outubro – Disney+  – O resumo que está na Wikipedia é o seguinte: "Yuu, cujo nome também pode ser escolhido pelo jogador, é convocado para outro mundo por um espelho mágico e chega a uma escola mágica, a Faculdade Corvo Noturno. O diretor da escola acolhe o personagem principal. Yuu conhece os melhores alunos da escola, cada um em sete dormitórios diferentes (cada um baseado em um vilão diferente da Disney), enquanto busca um caminho para casa.".   Começou como game com character design da Yana Toboso (Black Butler), que trabalha da G Fantasy, revista shounen que foi criada para ter apelo ao público feminino, falei sobre ela em um Shoujocast.  Os mangás desse game são publicados na G Fantasy (*claro*).

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

A Revista Ribon está completando 70 anos: De Tokimeki Tonight e Chibi Maruko-chan até o aparecimento de GALS! (1982-1999)

Este é o segundo post sobre os 70 anos da revista Ribon.  Estou usando como base uma série de matérias do Yahoo Japão sobre a publicação.  No primeiro post, o foco foi dos primórdios da revista até a década de 1970. Vamos ver quais os marcos essa matéria elegeu para as décadas de 1980 e 1990.  Este é o período em que a Ribon era a revista shoujo mais vendida do Japão, alcançando uma marca superior a dois milhões e quinhentos mil volumes mensais.  Praticamente todas as séries importantes da revista viravam anime e são amadas e lembradas até os nossos dias.  Esta cronologia foi feita pela jornalista Uemura Yuko, da revista BAILA (*site da revista*), que é uma publicação de moda focada em mulheres de mais de 30 anos, gente que cresceu lendo a Ribon, sob  a supervisão de Sugawa Akiko (Professora, Universidade Nacional de Yokohama) e saiu na versão física da revista.

Em julho de 1982, estreou Tokimeki Tonight (ときめきトゥナイト), de Koi Ikeno. Inspirada na febre das idol, como Seiko Matsudaas protagonistas da Ribon, como Ranse de Tokimeki Tonight, eram frequentemente chamadas de idols.  A matéria ressalta que séries mais longas começaram a aparecer na revista.  Tokimeki Tonight chegou aos 30 volumes.  Para quem não conhece a série, o resumo inicial é o seguinte: "Ranze Etou é uma adorável garota imortal com um pai vampiro e uma mãe lobisomem que atiravam coisas um no outro quando brigavam de infância. No entanto, Ranze só quer viver como uma garota normal e levar uma vida normal. Infelizmente, ela é "abençoada" com o poder de se transformar em qualquer coisa que morda. Por exemplo, se ela acidentalmente morder um bolo do jeito errado, ela se transformará em um bolo. A única maneira de voltar ao normal é espirrar! Ranze está apaixonada por Shun Makabe, que é um garoto humano bonito da escola. No entanto, uma garota humana (sem muito cabelo) chamada Youko também gosta de Shun, e ela faria qualquer coisa para revelar que Ranze não é humana!  As coisas ficaram ainda mais complicadas quando Ranze conheceu Aaron, que é o príncipe do Mundo Espiritual. Aaron se apaixonou por Ranze à primeira vista, e ele faria de tudo para afastá-la de Shun."

Em dezembro de 1985, estreou Hoshi no Hitomi no Silhouette (星の瞳のシルエット), de Hiiragi Aoi.  A série foi uma das responsáveis por ampliar as vendas da Ribon que chegou a atingir dois milhões e quinhentos mil exemplares por mês.  A série contou com dez volumes e o resumo inicial é o seguinte: "Uma das amigas próximas de Kasumi, Mariko, se apaixonou por Satoshi – um velho amigo de Kasumi, de quem ela não é mais tão próxima. Kasumi quer apoiar a amiga e a está ajudando, mas está começando a perceber que também gosta de Satoshi, e pior ainda, que Satoshi também pode gostar dela…".

Em agosto de 1986, Chibi Maruko-chan (ちびまる子ちゃん), de Momoko Sakura, estreou.  A série se tornou uma das mais importantes do Japão, junto com Doraemon (ドラえもん), Sazae-san (サザエさん), Anpanman (アンパンマン) e Crayon Shin-chan (クレヨンしんちゃん).  Chibi Maruko-chan tem como protagonista uma menina de nove anos. Ela é preguiçosa, desorganizada e costuma chegar atrasada à escola, em forte contraste com sua irmã mais velha, disciplinada e organizada, que precisa dividir o quarto com ela. Maruko, como muitas crianças, tenta evitar deveres de casa e tarefas domésticas, se aproveita do avô carinhoso e briga com a irmã. Mesmo assim, ela é uma criança bem-intencionada que se esforça para fazer o bem.  A autora da série morreu precocemente em 2018 por causa de um câncer de mama.  

Em maio de 1992, estreou na Ribon Marmalade Boy (ママレード·ボーイ), de Wataru Yoshizumi.  A matéria ressalta que Marmalade Boy inicia uma nova era na revista, lançando uma geração de protagonistas cheias de vida e de sonhos.  O fato é que a série foi um grande sucesso e, mesmo com míseros 8 volumes, teve uma animação com 76 episódios.  O ponto de partida da série é o seguinte: "Quando Miki Koishikawa recebe seus pais de volta de uma viagem ao Havaí, a última coisa que ela espera é que eles anunciem alegremente que estão se divorciando. Para sua surpresa, eles planejam trocar de parceiro com outro casal que conheceram nas férias. Mal conseguindo controlar suas emoções, Miki comparece relutantemente ao jantar para conhecer o outro casal e seu filho incrivelmente bonito, Yuu Matsuura.  Depois de se mudar para uma casa espaçosa com sua família recém-reformada, Miki luta para se adaptar ao seu novo estilo de vida e aos seus sentimentos crescentes por Yuu. Ela tenta navegar pelo próximo ano letivo com a ajuda de sua melhor amiga, Meiko Akizuki, que esconde um relacionamento escandaloso. No entanto, o caminho à frente não é simples, pois Miki e Yuu têm outros pretendentes em potencial e uma bagagem emocional do passado que relutam em revelar."

Em agosto de 1994, estreou Kodomo no Omocha (こどものおもちゃ), de Miho Obana, foi um grande sucesso e também foi curta como Marmalade Boy, contando somente com dez volumes, já o anime teve 102 episódios.  A matéria do Yahoo destaca que Kodocha traz para o mundo dos mangás uma preocupação da época, a indisciplina no ambiente escolar.  O ponto de partida do mangá é o seguinte: "Sana Kurata é uma atriz mirim alegre, popular e cheia de energia, de onze anos.  Ela frequenta uma escola primária assolada pelo caos, liderado principalmente por um garoto aparentemente distante chamado Akito Hayama. No início, os dois entram em conflito por causa de seus ideais opostos, mas, à medida que se conhecem, começam a apoiar um ao outro e a apoiar seus colegas de classe e colegas."  

Em fevereiro de 1995, estreou um dos maiores sucessos de Ai Yazawa, Gokinjo Monogatari (ご近所物語).  Foram somente 7 volumes de mangá, que renderam CINQUENTA episódios animados, mais um filme especial com 30 minutos.  Outros tempos... Muito bem, para quem não conhece a história, segue um resumo do início da série: "Mikako Kouda é uma aspirante a designer de moda que frequenta a Academia de Arte Yazawa em Tóquio e está aos poucos construindo sua marca de roupas, Happy Berry. Amiga de infância de seu vizinho, Tsutomu Yamaguchi, Mikako reavalia seus sentimentos outrora platônicos por ele quando ele repentinamente se torna popular na escola devido à sua semelhança com o cantor Ken Nakagawa e começa a namorar Mariko, uma garota popular e atraente."  Gokinjo Monogatari tem ligação com Paradise Kiss (パラダイス・キス), série que foi publicada (*duas vezes*) pela Panini.

Em setembro de 1997, estreou Good Morning Call (グッドモーニング・コール), de Yue Takasuka.  A série com 11 volumes foi publicada até 2002, teve uma segunda série continuando a história original (*iniciada em 2007 e ainda não concluída*), um especial em vídeo e dois doramas.  O ponto de partida da série é o seguinte: "A adolescente Nao Yoshikawa mudou-se para seu próprio apartamento 2DK na cidade, pois seus pais retornaram ao campo para administrar a fazenda da família. No entanto, ela logo descobre que Hisashi Uehara, um colega de escola bonitão, também está se mudando. Percebendo que foram enganados para alugar o mesmo apartamento, eles concordam em dividir o apartamento para pagar o aluguel. A história acompanha suas aventuras enquanto tentam manter sua coabitação em segredo dos colegas, com Nao desenvolvendo sentimentos românticos por Hisashi à medida que o conhece melhor."  Um 2DK é um apartamento padrão japonês com dois quartos, uma sala de jantar e uma cozinha.

Em fevereiro de 1998, estreou um dos maiores sucessos de Arina Tanemura, Kamikaze Kaitou Jeanne (神風怪盗ジャンヌ).  A série teve 7 volumes e um anime com 44 episódios.  "Durante o dia, Kusakabe Maron é uma estudante comum do colegial com muitos problemas. Mas à noite, ela é a Kamikaze Kaitou Jeanne, a reencarnação de Joana d'Arc. Sua missão: caçar pinturas possuídas por demônios e exorcizar os espíritos malignos! Uma pena que cumprir essa missão a coloque em conflito com as autoridades, que a veem como uma estranha misteriosa vandalizando obras de arte. Com a ajuda apenas do anjo em treinamento Finn, ela precisa sobreviver ao colegial durante o dia e combater o mal à noite!"  Uma série de light novels inspirada no mangá foi publicada em 2013, escrita por Matsuda Shuka e ilustrada por Arina Tanemura.

E, por fim, em fevereiro de 1999, foi publicado GALS! (ギャルズ!), de Mihona Fuji, uma série que dialogava com as últimas tendências da moda das meninas que frequentavam o bairro de Shibuya e discutia temas sérios como prostituição juvenil, consumismo, relacionamentos abusivos com humor.  Sim, com humor.  O resumo da série é o seguinte: "Ran Kotobuki é a autoproclamada "melhor garota do mundo". Como uma adolescente que frequenta Shibuya, ela está determinada a viver o estilo de vida de GAL pelo resto de sua vida, e ela ganhou a reputação de ser a garota mais respeitada de todo o bairro. No entanto, ela vem de uma família de policiais — seus avós, seus pais e seu irmão mais velho são todos policiais, e sua irmã mais nova está determinada a seguir seus passos. Ran tem outros sonhos para seu futuro, mas como frequentemente demonstrado, ela adquiriu o senso de justiça e o espírito da família. Suas duas amigas, Miyu e Aya, também têm seus próprios problemas e circunstâncias, que são mostrados ao longo da série."  A série teve 10 volumes (*tenho todos em casa*), três video games e uma animação com 52 episódios.  A abertura da série é uma das melhores que eu já vi.  Uma sequência do mangá foi lançada em 2019 e teve cinco volumes.

E acabou a cronologia, mas senti muita falta de Hime-chan no Ribon (姫ちゃんのリボン), de Mizusawa Megumi.  A série inclusive teve  um especial na revista BAILA quando dos 60 anos da Ribon.  Como deixaram de fora?  A série estreou em agosto de 1990, teve 10 volumes, mais um com gaidens, anime com 61 episódios, musical, série de light novels e uma continuação (*ou remake?*) com 4 volumes, em 2009.  Percebem a importância dessa série?  Enfim, o resumo desse mahou shoujo é o seguinte: "Himeko é uma tomboy cheia de energia e alegre que tem um bordão para se animar ("Ike, Ike, vai, vai, PULA!"). Mas, por algum motivo, falta-lhe coragem para dizer ao garoto mais velho, seu senpai, que está apaixonada por ele. Talvez ela não seja feminina o suficiente? Mágica e misteriosamente, Hime-chan conhece alguém que é como sua imagem refletida no espelho, só que é uma princesa! Erika, do Mundo Mágico, veio dar a Hime-chan um presente que ela inventou, uma fita mágica, que lhe permitirá se transformar na imagem de qualquer outra pessoa por uma hora. Isso deveria ajudar a resolver o problema de Hime-chan, não é mesmo?"

Outra ausência estranha dentro do recorte dos anos 1980 e 1990, que talvez tenha a ver com essa ideia de foco em moda, foi Azazukin Chacha (赤ずきんチャチャ), de  Min Ayahana.  Baseada na história da Chapeuzinho Vermelho, o ponto de partida do mangá é o seguinte: "Chacha é discípula do maior mágico do mundo, Seravy. No entanto, ela mesma ainda não é nada grandiosa. Aprendiz de bruxa, Chacha sempre acaba errando seus feitiços e causando desastres. Com a companhia de seus amigos Riiya, um forte menino-lobo, e Shiine, uma colega aprendiz, Chacha continua sua jornada maluca para se tornar uma maga melhor." A série estreou na edição de julho de 1992 e seguiu até a edição de agosto de 2000. Com 13 volumes encadernados no total, Akazukin Chacha contou com uma animação com 74 episódios exibidos entre 7 de janeiro de 1994 e 30 de junho de 1995, além de três OAVs lançados entre 6 de dezembro de 1995 e 6 de março de 1996.  Uma continuação da série foi lançada na revista Cookie com o nome de Akazukin Chacha N entre junho de 2012 e julho de 2019, contando com 5 volumes.

Também senti muita falta de Yuukan Club, de Yukari Ichijo, porque ela é uma das grandes autoras da revista desde os anos 1970.  Talvez, só talvez, a ausência se justifique porque a série não foi publicada somente da Ribon.  O mangá dos estudantes ricos detetives começou na Ribon Original, uma revista derivada da Ribon, na edição de primavera de 1981, mas a série migrou para a Ribon na edição de fevereiro de 1982 para, mais tarde, migrar para a revista Chorus, revista josei antecessora da Cocohana.  Como se trata de um mangá episódico, não há necessidade de uma narrativa linear e a série tem 19 volumes e não foi declarada como encerrada ainda, ainda que a Wikipedia japonesa considere que um capítulo lançado em 2022 é, sim, o final da série.  O resumo do ponto de partida da série é o seguinte: "A Escola St. President é uma das escolas mais prestigiadas do Japão e todos os seus estudantes respeitam o clube Yuukan, o grupo mais rico e popular da instituição. Seus membros — Shouchikubai Miroku, Kenbishi Yuuri, Kikumasamune Seishirou, Hakushika Noriko, Bidou Granmanie e Kizakura Karen — cada um com habilidades especiais, embarcam em aventuras perigosas para salvar seus colegas e, claro, para passar o tempo."  Segundo a autora, o nome das personagens principais e seus animais de estimação foram inspirados em bebidas alcoólicas populares.  Agora, lembrem que é uma série que, pelo menos nos primórdios, era publicada em uma revista infanto-juvenil.

Enfim, essa foi a fase mais importante da Ribon em termos de sucesso de vendas e crítica, de produção de animações e o elenco de autoras da revista era de grande qualidade.  Quando elas começaram a deixar a revista, as novatas que as substituíram não conseguiram emplacar novos sucessos e muitas das antigas leitoras acompanharam as suas artistas favoritas para outras revistas, como a Cookie. Você sentiu falta de algum dos grandes títulos dos anos 1980 e 1990?  Deixe nos comentários a sugestão, porque ainda terei que gravar o Shoujocast. Aguardem os próximos posts.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

As pessoas deveriam parar de tentar acreditar que obras de fantasia são material histórico para justificar sua visão de que as mulheres de outras épocas eram absolutamente miseráveis

Imagine que você está lendo um manhwa que tem uma ambientação europeia e parece ser inspirado no século XIX.  As roupas femininas parecem ser algo da metade do século, Era das Crinolinas e coisa e tal.  Só que, neste mundo, a mocinha, que é irmã de um duque, usa um anel contraceptivo para não engravidar, faz um exame de DNA para descobrir seu verdadeiro pai e transa loucamente com seus dois irmãos sem sentir nenhuma culpa, porque religião nem deu as caras na história.  Neste mesmo quadrinho, o vilão é o príncipe herdeiro, homem casado, mas que quer a mocinha de qualquer jeito e propõe que ela se torne sua concubina e o imperador, pai do moço, diz para os irmãos dela que ele garante que ela será tratada como esposa e que os filhos dela e que os filhos dela, não os da esposa legítima, serão os herdeiros do trono. O príncipe herdeiro diz para nossa protagonista que irá matar a esposa assim que ela se  casar com ele e que, caso ela continue se recusando, ele irá revelar para o mundo que ela se deita com os dois irmãos e acabar com a reputação da família dela. Super historicamente correto para a Europa no século XIX e pode escolher qualquer país, qualquer um.

Mas eis que eu leio o capítulo 41 dessa bodega e a mocinha está morando com o pai, um gigolô (*acho que deve ser cafetão, mas está gigolô nas scanlations*), porque ele apareceu para reclamar a sua guarda depois que o fato dela não ser irmã do duque apareceu nos jornais.  Eu acho que quem plantou a notícia foi o próprio duque para afastar o príncipe herdeiro, porque, agora, ela não poderia ser concubina dele, afinal, veja suas origens, não é mesmo?  Só que ela está prisioneira na mansão do pai, que, aliás, foi presenteada pelo seu irmão duque, e sendo torturada por ele, que ameaça vendê-la para  quem pagar  mais, prostituí-la e outras coisas que eu não irei escrever aqui.  Eu fico furiosa com esse capítulo e posto um pequeno comentário no Bato.to: 

"Eu sei que esse tipo de história não é feita para fazer sentido, mas está me dando nos nervos. Bem, a FL já passou da idade de casamento, como dito em algum capítulo anterior; agora, foi dito que ela já passou da maioridade legal. Por esse motivo, ela não está presa a esse pai; ela pode voltar para Evan (que eu suponho estar tramando algo) ou pegar o dinheiro dela e ir morar sozinha. Essa situação com aquele homem horrível é absurda. E quem o trouxe para a história? Leon? Bem, vou dormir. Eu preferia quando tínhamos apenas um vilão, o príncipe herdeiro." (I know this kind of story is not made to make sense, but it's getting to my nerves. Well, the FL has passed the age of matrimony, it's said in some chapter back; now, she said she has passed the legal age. For that reason, she is not bound to this father; she can go back to Evan (whom I suppose is plotting something) or take her money and go live alone. This situation with that horrible man is absurd. And who has taken him into the story? Leon? Well, I'm going to sleep. I preferred it when we had just one villain, the crown prince.)

Explicando o "Quem o trouxe para a história", logo nos primeiros capítulos, Leon, o irmão mais novo, está procurando pelo pai da mocinha, Aris, porque ele e o duque sabem que ela foi adotada.  Leon quer que o pai da protagonista revele sua origem e, assim, ele poderá se casar legalmente com ela.  Leon é burrinho, além de não entender a palavra consentimento.  Não gosto nada dele.  Evan, o duque, é manipulador, mas, pelo menos, ele não forçou a mocinha a fazer nada que ela não quisesse.  Enfim, o fato é que o pai bandido foi trazido para a história.  Mas eis que uma criatura, que se revelou historiadora como eu, mas que eu imagino que não seja das melhores, porque parece acreditar que esse mundo de fantasia tem alguma verossimilhança histórica escreveu o seguinte:

"Nada do que lhe foi dado (nem mesmo se ela trabalhou para obtê-lo) é dela. Tecnicamente, tudo pertence ao chefe da família e pode ser considerado roubado. Ela não pode se casar com ninguém sem a permissão dele, ou será devolvida ao pai e seu "marido" terá sérios problemas legais.  Ela não consegue um emprego com pessoas da nobreza sem a permissão dele. Ela não conseguirá um emprego fazendo muito mais do que vender seu corpo, porque as habilidades que possui não são as necessárias para as classes média ou baixa, ou é um trabalho proibido para mulheres. Como nobre, ela não pode nem entrar em um convento sem a permissão do pai.  Se ela conseguir escapar dele (lembre-se de que ele a tranca à noite e controla quem ela vê durante o dia), então tudo o que ela tem como possibilidade é uma vida nas ruas, ou nos bordéis, ou ser arrastada de volta para ele e tratada ainda pior.  As sociedades patriarcais são projetadas para tornar as mulheres completamente dependentes dos homens. Se os homens que controlam a vida de uma mulher são horríveis, então, de alguma forma, elas devem ter merecido isso, segundo a opinião pública. (SPOILER: Ela será resgatada e tudo ficará bem. O príncipe herdeiro e seu "pai" terão o que merecem. Só vai levar mais tempo do que o planejado para colocar tudo no lugar e garantir que ela saia dessa enrascada sem nenhuma culpa.)" (Nothing that has been given to her (or even if she worked for it) is hers. It all technically belongs to the head of the family, and it can be claimed as stolen. She can’t get married without his permission to anyone else or she will be returned to her father and her “husband” will be in serious legal trouble.  She can’t get a job with the nobility without his permission. She can’t get a job doing much else except selling her body, because the skills she has are not what is needed by the middle or lower classes, or is work that is forbidden to women. As a noble, she can’t even enter a convent without her father’s permission.  If she can escape from him (remember that he locks her up at night, and controls who she sees in the daytime), then all she has is a life on the streets, or the brothels, or being drug back to him and treated even worse.  Patriarchal societies are designed to make women completely dependent on men. If the men who control a woman’s life are awful, then they must have deserved that somehow according to public opinion.  (SPOILER: She’s going to be rescued and everything will be fine. The Crown Prince and her “father” will get what’s coming to them. It’s just going to take longer than they had planned to put all of the pieces into place, and make sure she comes out of this mess without any blame.)

Olha, ler essa bobajada, porque, repito, estamos falando de um mundo de fantasia em primeiro lugar, me deixou muito, muito irritada.  Fora que, vamos combinar, mesmo em sociedades patriarcais há regras e nossa mocinha estava ligada a uma família mais poderosa do que o pai que apareceu.  Se nosso duque estalasse os dedos, o vagabundo sumia  e estou falando em ir para outro plano e ninguém iria lamentar.  Como fiquei com muita raiva, redigi uma resposta tentando fazer a criatura entender que ela estava sendo ridícula e joguei meu currículo na cara dela.  Não deu certo, mas eu não vou continuar as repostagens, porque ela acredita piamente que a autora está tentando retratar a Regência inglesa (*não está, nem roupa inspirada na Regência aparece na história, a camisola da mocinha é um babydoll e ela usa calcinhas dos nossos dias*), entre 1795 e 1837, e está fazendo uns malabarismos para tentar convencer que a mocinha não tem direito algum, porque ela teve reconhecer que, mesmo na Inglaterra, que ela estava supostamente descrevendo, uma mulher solteira e maior de idade tem alguns.  Minha resposta foi:

"Bem, eu sou historiadora, feminista, na área de estudos de gênero e com tudo o que isso implica. Esta é minha profissão há quase 30 anos. Este manhwa é uma fantasia histórica, então a autora pode usar todas as bobagens que quiser e misturar elementos ocidentais e coreanos como quiser. Então, estou dizendo que, de acordo com a maioria das leis europeias ou mesmo no Brasil (meu país) no século XIX, uma pessoa de 25 anos, homem ou mulher, é maior de idade e pode fazer o que quiser. Quantos anos tem a nossa protagonista? Não sabemos, mas foi dito que ela já passou da idade de casar. E se ela não fizer parte da família ducal e não for menor de idade, ela pode se casar com quem quiser, conseguir um emprego ou fugir. Toda essa situação é ridícula, mas eu gosto da história e estou aqui perdendo meu tempo comentando.  Se ela não tem 25 anos, tudo bem. Mas, novamente, é fantasia, e não se trata de nenhuma sociedade patriarcal que conhecemos; é uma mistura do que agrada à autora. Toda essa baboseira do príncipe herdeiro tomá-la como segunda esposa ou concubina não seria possível em nenhuma sociedade ocidental desde o século XII, pelo menos. E esse tipo de baboseira histórica acontece repetidamente na maioria dos quadrinhos japoneses e coreanos.  Dito isso, estou ciente de que tudo vai ficar bem, só estou furiosa porque os dois "irmãos" não estão fazendo nada para resgatá-la."  (Well, I'm a Historian, a feminist one with gender studies in my curriculum and all that comes with it. This is my profession for almost 30 years. This manhwa is a historical fantasy, so the author can use all the nonsense and mix Western and Korean elements as they please. So, I'm saying that according to most of the European laws or even in Brazil (my country) in XIX century, a 25-year-old person, man or woman, is of legal age and can do as he or she pleases. How old is our FL? We don't know, but it was said that she was past the age of marriage. And if she is not part of the duchal family and not a minor, she could marry who she pleases, get a job, or run away. This whole situation is ridiculous, but I like the story and I'm here wasting my time commenting it.  If she is not 25, OK. But again, it's fantasy, and it's not any patriarchal society we know; it's a mix of what pleases the author. All the bullshit wth the Crown Prince taking her as a second wife or a concubine would not be possible in any Western society since the XII century at least. And this kind of historical shit happens again and again in most Japanese and Korean comics.  All that said, I'm aware that everything is be OK, I'm just mad because the two "brothers" are doing nothing to rescue her.)

Para  quem quiser o resto da discussão, está aqui.  Vejam que meu primeiro comentário nada tinha a ver com pedir verossimilhança histórica, porque eu não sou doida e tenho uma história pessoal a honrar, mas as pessoas parecem embarcar nessas histórias com disposição para legitimar qualquer sofrimento imposto às mulheres.  A normalização e espetacularização do abuso sob a justificativa de que "no passado era assim", mesmo quando se trata de séries de fantasia, é comum.  Já escrevi muito sobre isso em vinte anos de blog.  Em Bridgerton acabamos com o racismo, mas a vida das mulheres continua cheia de restrições, o Conto da Aia, livro da maior relevância, acaba se esticando como série e meio que estimulando um filão que pode ser chamado de pornô da tortura.  Não achei um artigo que eu acredito que comentei no blog e que comenta sobre séries literárias extremamente violentas que surgiram na esteira do sucesso do seriado, mas encontrei uma resenha do Metrópoles que foca nesse ponto, como O Conto da Aia é um pornô da tortura contra mulheres.

Enfim, gêneros como dark romance vão muito nessa linha e eu não gosto desse tipo de material, já li alguns para saber que não são para mim.  Mas manhwa que é o centro dessa discussão maluca e que me estimulou a escrever esse post é somente um TL (teen love) que talvez tenha o conteúdo sexual mais pesado no qual eu já tropecei.  Dito isso, eu não iria jamais fazer resenha dele e ele é, sim, para maiores de 18 anos, sem negociação.  O nome da série é Beyond the Walls of the Duke's Mansion, os homens da série são bonitos, pelo menos Evan e o príncipe herdeiro são, mas a arte é irregular, especialmente quando se trata da mocinha que pode parecer mais jovem ou mais velha sem motivo aparente (*na verdade, ela parece mais velha no início da história*).  A mocinha, Aris, debutou faz tempo, mas o irmão duque - que tem uma moral inatacável e é solteiro apesar da idade e responsabilidades - afastou todos os seus pretendentes.  Ela tem imenso desejo sexual, seu quarto é ao lado do outro irmão, que vive trazendo prostitutas, e, um dia, ela decide contratar um gigolô.  Evan, o duque, impede o sujeito de entrar e acaba tendo intimidades com Aris, que não o rejeita, mas eis que Leon tenta seduzir a mocinha.  Ambos os sujeitos sabem que ela é adotada, já Aris não sabe, mas se pega com os dois sem nenhuma culpa.  E, só para constar, as scanlations não são censuradas, o que torna o conteúdo sexual mais ostensivo ainda. O primeiro capítulo já joga uma situação muito pesada na nossa cara para somente depois começar a contar a história.  Não acho que seja para todo mundo e nem acho que a putaria da série valha isso tudo, mas eu quero saber como as autoras, porque acredito que são duas (*é  baseado em livro*), vão levar esse troço até o fim com o mínimo de coerência.  Faltam poucos capítulos para o final.  

Espero que quem chegou até aqui na leitura tenha entendido o meu ponto, não se deve tratar material de fantasia como histórico e a gente precisa estar atento para como esses autores e autoras de fantasia tem uma ideia muito distorcida do passado, assim, de forma genérica, como uma época em que os homens (*qualquer homem, porque esse pessoal nem reflete sobre questões de ordem econômica*) podiam tudo e as mulheres (*qualquer mulher, vide parênteses acima*) não podiam nada e colocam esse tipo de ideia em seus quadrinhos e livros.  Isso é uma fantasia que não nos permite ver que havia espaço para resistências, negociações e mesmo subversão da ordem e que não existe um passado patriarcal monolítico, mas que ele tem nuances que variam no tempo e  a depender da sociedade e cultura que estamos analisando.  Às vezes, as mulheres até venciam, sabe?

Aliás, só para emendar com outro manhwa que eu estou lendo, Bound by Fate, que é um isekai no qual a mocinha, que é uma médica obstetra, volta para a Dinastia Joseon (1392-1897) e encontra no passado o homem com o qual o seu destino está entrelaçado, temos um drama que meio que joga por terra até a fantasia do príncipe oriental que pode tudo.  E vou explicar, a protagonista sempre sonha que está fazendo sexo com um homem desconhecido, seu casamento vai mal, ela não consegue engravidar mesmo fazendo vários tratamentos e descobre que o marido, também médico, só que dermatologista, a está traindo com sua melhor amiga (*que engravidou*), vem sabotando as inseminações artificias e seus remédios para matá-la, porque ele quer se livrar dela, mas que ficar com todos os bens do casal.  E foi ela quem trouxe a maioria do dinheiro para o casamento.  Enfim, nossa mocinha é cética, mas vai atrás de uma xamã que lhe explica que ela só vai conseguir engravidar desse tal homem do sonho e lhe dá um amuleto funerário.   Como ela precisa mais de um advogado do que de uma feiticeira, ela acaba descobrindo o homem com quem sonha, só que sofre um acidente, por causa dos remédios sabotados pelo marido, e entra em coma.  Acredito que ela não morreu.

No passado, século XV, ela se vê casada com o mesmo traste, a melhor amiga é a madrasta do sujeito e ela está, mais uma vez, sendo envenenada e sabotada no seu intento de engravidar.  Mas em uma tentativa de fuga, ela encontra o príncipe herdeiro, que vive tendo sonhos com uma mulher sem rosto que dança para ele, por isso o sujeito vive de bordel em bordel em busca da tal mulher dançarina, porque mulher decente não dança (*não entendo nada de história da Coreia, então, não sei*).  Nossa mocinha tinha como hobby praticar dança tradicional, mas o sujeito é capaz de transar com ela, uma mulher casada, mas, não, de peruntar se ela pode dançar para ele.  Enfim, muita água já rolou debaixo dessa ponte, mas o tal príncipe, ainda que tenha arrumado um divórcio para a protagonista, que somente  o monarca ou ele poderiam conceder, não pode nem tomá-la publicamente como concubina, porque ele foi obrigado a se casar para fortalecer sua posição.  Não consumou o casamento, a noiva tem cara de vilã e parece ter uma relação incestuosa com o irmão que parece fascinado pela mocinha, mas estamos nesse pé.

Casamentos são negócios entre famílias e mesmo um monarca não pode casar com quem bem entende, nem se livrar da consorte como lhe aprouver.  Como esse manhwa parece levar a História, essa com H maiúsculo mais à sério, tendo a acreditar nele.  Então, mesmo essa história do monarca, príncipe, nobre levando uma mulher qualquer para dentro de casa, ofendendo a esposa legítima e colocando os filhos bastardos na frente dos que nasceram dentro do casamento não deve ser coisa normal nem na Coreia ou no Japão.  E digo mais, a depender do poder do clã da esposa, ia dar ruim e esse papo de que a mulher é sempre culpada pode até aparecer em privado, mas, em público, é a honra da família que está em jogo e se ela tem força, não vai levar desaforo para casa, não.

É isso.  Eu estava precisando escrever.  Se não tivesse gravado um Shoujocast (*que acredito que será um fiasco, porque praticamente ninguém assistiu*), gravaria um vídeo.  E não saiam atrás dos dois manhwas que eu citei se não forem maiores de idade.  Beyond the Walls of the Duke's Mansion nem vale tanto o esforço, é tipo "é ruim, mas eu gosto", ainda que me agradasse mais ter a mocinha somente com o Evan (*nada contra trisais na ficção, mas não gosto do Leon*), já Bound by Fate muito mais ou menos e seria melhor se tivesse menos sexo, porque a história é instigante por si mesma e o sexo, às vezes só atrapalha.  Enfim, é isso.  Não coloquei links para scanlations, não, mas é fácil encontrar.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Shoujocast no Ar! Demon Slayer e sua classificação indicativa absurda + Balanço geral de Zutaboro Reijou wa Ane no Moto Konyakusha ni Dekiai Sareru (Betrothed to My Sister's Ex)

O Shoujocast de hoje tem dois assuntos: o primeiro é um balanço geral do único anime que eu assisti nessa temporada, Zutaboro Reijou wa Ane no Moto Konyakusha ni Dekiai Sareru (ずたぼろ令嬢は姉の元婚約者に溺愛される) ou Betrothed to My Sister's Ex, uma série que entregou muito mais do que prometeu. A segunda parte do programa discute a classificação indicativa recebida pelo último filme de Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba. Por qual motivo uma classificação indicativa +18 para um anime, enquanto um filme como Bacurau é +16? Aproveitando a deixa, comento a indicação de O Agente Secreto como filme do Brasil na corrida ao Oscar. Espero que vocês gostem do programa. E os links estão lá no Youtube.

domingo, 21 de setembro de 2025

Comentando o final de Zutaboro Reijou wa Ane no Moto Konyakusha ni Dekiai Sareru: fui surpreendida por uma história cativante e com protagonistas melhores do que a da maioria dos animes por aí.

Sexta-feira, chegou ao final no Japão o anime Zutaboro Reijou wa Ane no Moto Konyakusha ni Dekiai Sareru (ずたぼろ令嬢は姉の元婚約者に溺愛される) ou Betrothed to My Sister's Ex, baseado nos livros de Tobirano com ilustrações de Mai Murasaki, e no mangá de Chikage Nakakura.  Este texto focará nos dois últimos episódios e fará um balanço da série, então, se você chegou aqui sem saber de qual anime estou falando, por favor veja os textos anteriores: 1 - 2 - 3 - 4.  E aviso que teremos spoilers.

Deixei os últimos dois episódios de Zutaboro (*chamarei assim daqui para adiante*) juntos.  Foi uma forma de tentar sentir o impacto do epílogo da série, que deveria ter pelo menos 13 episódios para não correr tanto no final, muitas das temporadas de anime têm, então, não sei por qual motivo escolheram fazer menos. Muito bem, no final do episódio #10, há a revelação do que já sabíamos faz muito tempo (*e eu desconfiava desde o início*): Anastasia estava viva.  A jovem foi ao encontro da irmã acreditando que ela estava sendo obrigada a casar com Kyros, que só a queria para produzir um herdeiro.  Esclarecida a confusão com Marie e Kyros se declarando publicamente diante de Anastasia, ela acalmou seu coração, ainda que o excesso de afeto do noivo da irmã a tenha deixado com a impressão de que ele era um tanto desequilibrado.

Foram dois episódios muito dramáticos, mas o tom do drama foi subindo desde o episódio #8, por assim dizer, então, surpresa não foi.  Anastasia e Marie têm uma longa conversa e ficamos sabendo mais sobre o passado das irmãs.  Voltamos para aquele dia em que Marie era pequena e estava doente e a avó, Sasha, expulsou Anastasia do quarto da menina.  Depois do ocorrido, a velha excêntrica tem uma conversa com Anastasia, que ficara sentada por horas na porta do quarto da irmã, igual a Ana de Frozen, e vemos que ela era amada, também, e que Sasha via as qualidades dela, que eram seu talento para criar coisas, enquanto Marie era alguém mais intelectual no sentido estrito da palavra.  Sasha sugere que o filho - o pai horroroso das meninas - tinha talento para a música, mas que foi obrigado a assumir o título e as terras.  Sasha, que é uma figura subversiva e feminista, por assim dizer, diz para Anastasia que ela e a irmã irão viver em um mundo diferente, no qual as pessoas poderão escolher o seu caminho a partir da sua vocação.  É uma utopia, porque isso não aconteceu nem lá, nem aqui, mas era algo sonhado por socialistas utópicos lá no início do século XIX.

Vemos então o quanto Anastasia sofreu por não poder ajudar Marie, porque era criança, também.  Ela sofria em ver Marie ser maltratada pela mãe, que odiava o cabelo da menina e seu aspecto físico em geral, e explorada pelo pai.  Anastasia, porém, tinha inveja de Marie em um aspecto; ela podia ir para a escola, enquanto ela era tratada como uma boneca enfeitada pela mãe e como um investimento futuro para o pai.  Enfim, quando Sasha morreu, Marie teve que assumir o trabalho administrativo do baronato.  A menina, sob a rígida supervisão da avó, aprendera várias línguas e precisava se aprimorar.  Ainda não me desce que o pai de Marie e Anastasia fosse completamente analfabeto, porque ele aparece lendo pedidos de casamento da filha mais velha e o orçamento que o sujeito de quem ele alugou a carruagem trouxe por escrito.  O que eu acredito é que ele fosse capaz de ler a escrita do povo comum, mas não as línguas elaboradas usadas para diplomacia, comércio e administração pela nobreza, em especial o Flarian.  Mas e a mãe das meninas?  Ela frequentou a escola; vemos isso no último capítulo.  Ela não podia ser analfabeta.

E vemos como Anastasia escapou do cocheiro que queria estuprá-la, enganando a todos sobre sua morte, e foi parar na oficina de Norman.  E não me desce, também, que o pai tenha mandado sua preciosa filha para se casar com Kyros sozinha com um homem desconhecido.  São os detalhes sem sentido do anime, que imagino que tenham vindo do original.  Como correram muito nessa reta final, no último episódio vemos alguma interação entre Luiphon, o príncipe amigo de Kyros, com Anastasia.  No mangá, e eu olhei raw, o príncipe ia com frequência à oficina de Norman e surgiu um flerte entre os dois.  Só que Anastasia estava disfarçada de garoto.  Eu não leio japonês, mas é visível que ambos estavam interessados, ainda que ela tivesse que fingir que não.  O que eu não sei é se Luiphon se importava dela ser um garoto.  Como deixaram isso de fora?  Um episódio a mais resolveria ou até  uma frase dele dizendo que gosta ainda mais dela como mulher, ou debochando que a preferia como homem, as duas opções combinariam com ele.

O último episódio tem duas partes, o confronto com os pais de Marie e Anastasia, que vão juntas até às terras do barão, que  não respondera ao chamado de seu suserano (*Kyros*), e o casamento.  A primeira parte mantém o drama lá em cima, mas tem algum humor.  Espero que a empregada velha do barão não tenha morrido de susto ou ferimentos quando Luiphon usa um ariête para arrombar o portão.  O fato é que Kyros, que estava junto com Marie e Anastasia, exige, depois que Mio captura o sujeito, que ele peça perdão publicamente para sua noiva.  E Marie estava vestida com uma roupa deslumbrante e que não deixava dúvidas quanto ao seu status, noiva de um conde, que um dia seria duque, e que  agora era amada e se sentia forte e segura.  

O velho, que cometera um crime contra o império, afinal, delegara suas funções sem notificar seu suserano e pedir permissão, além de administrar mal as suas terras prejudicando o povo, não se arrepende, não se desculpa, e continua ofendendo Marie e Kyros, porque há o racismo nessa história, não esqueçam.  Só que Kyros ainda estava com o príncipe Luiphon como testemunha.  O pai da moça é punido e rebaixado, perdendo seu título, que é transferido imediatamente para o filho, que ainda é uma criança, Cedric.  O menino, aliás, é enviado para a escola junto com o pai.  Toda a administração do baronato é assumida por uncionários de Kyros enquanto o menino é menor de idade.  Uma das coisas que gosto em Kyros é que ele não tem problema em ser duro se necessário for, ou de usar até métodos escusos para atingir fins que sejam nobres, por assim dizer.  Em vários momentos, ele me lembrou o Mundinho Falcão de Gabriela.  Gosto de personagens assim.

E temos a revelação do nível de loucura da mãe da protagonista.  Aqui, pouparei o spoiler, mas o fato é que a família era muito disfuncional e quem mostra mais ódio pelos pais é Anastasia.  Ela não consegue perdoá-los, já Marie está curada, por assim dizer, tem o amor do homem que ama, a estima da sogra, o respeito e o afeto dos empregados, ela pode olhar o futuro sem medo e deixar o passado para trás.  Falando em família tradicional, o anime mostra o quanto ela pode ser um poço de traumas e hipocrisias.  E Zutaboro não celebra a tradição, por assim dizer, mas uma busca pela felicidade pessoal, conciliada com o bem comum e o direito de escolher o seu destino.

E houve uma cena bonitinha nesse episódio final que mostra bem isso. Anastasia retornando para a oficina de Norman.  Ela pretendia se desculpar por tê-lo enganado, fingindo-se de rapaz e aproveitando-se do fato dele estar quase cego.  Norman a recebe com um abrço e lhe presenteia com ferramentas especialmente feitas para ela, para caberem nas mãos de uma mulher pequena como ela, ou de um adolescente.  No episódio em que ele se apresenta diante de Kyros, ele ficara horrorizado quando houver a sugestão de que seu aprendiz era uma moça, porque ele JAMAIS tomaria uma mulher como aprendiz.  As coisas mudam.

O casamento já tinha sido mostrado em um flash antecipado no primeiro episódio.  Já sabíamos que Kyros e Marie ficariam juntos, mas, agora, temos a festa e foi meio como fim de novela mesmo.  Piadinhas (*Toppo, o cozinheiro, emagreceu de novo, teve dois efeitos sanfona ao longo da série*), demonstração da riqueza do conde, alguns casais sugeridos (*Anastasia e Luiphon, em especial*), o reconhecimento de Mio por parte da mãe de Kyros (*Liu-Liu*) e o noivo e a  noiva belíssimos.  Dançaram, conversaram, Kyros pegou Marie no colo, teve fogos e beijo.  Foi um romance muito satisfatório, porque eles já tinham criado intimidade antes. Vimos beijos e declarações sinceras de amor e tivemos sexo.  Marie, aliás, poderia estar grávida já. Mas uma das críticas mais sérias que eu tenho é que só mostraram os dois na cama depois de fazerem amor, mas não o quando foram para o quarto.  

Como escrevi no meu texto anterior, eles não precisavam mostrar nada, bastaria agir como aqueles filmes norte-americanos da época em que o Código Hays já  estava morrendo.  Não sei mesmo por qual motivo cortaram uma sequência que parecia ser tão terna.  E, também, não sei por qual motivo colocaram a tag "smut" nas novels de Zutaboro na página do Bakaupdates, porque não há nada de obscenidade/pornografia nessa série.  NADA!  E não acredito que algo vai mudar depois.  É como colocar "smut" em Watashi no Shiawase na Kekkon (わたしの幸せな結婚), porque Kyoka e Miyo vão fazer sexo no livro #7 e não vemos NADA, somente um beijo mais apaixonado, o mocinho pegando a mocinha no colo e dizendo que a levaria para um lugar onde ela jamais tinha estado.  Luzes se apagam.  Sim, é só isso e em Zutaboro não tem muito mais que isso, não.

Queria muito acreditar em uma segunda temporada de Zutaboro, porque há muito da história a contar, mas sei que ela não virá.  Só olhando o mangá, dá para ver que várias coisas foram cortadas.  Alumas delas podem ser descartáveis?  Sim, mas vai saber.  E há coisas que virão depois.  Kyros e Marie terão uma filha.  Kyros tem um meio-irmão do mal.  Não sabemos nada das três irmãs dele ou do pai, que parece que morrerá em um livro futuro.  E eu gostaria muito que Mio descobrisse quem são seus pais e que, de repente, ela é meia-irmã de  Kyros, também.  Mas o anime não vai continuar.  Espero pelo menos poder ler os livros.  Eles começam a sair nos EUA em janeiro.

Antes de terminar, gostaria de pontuar que, apesar da correria, a série foi muito bem estruturada.  As incoerências que eu apontei vieram do original, não acredito que tenham sido deslizes do anime.  E a história fez sentido; as questões mais difíceis relacionadas à família de Marie foram razoavelmente explicadas no final.  Sim, um episódio a mais ajudaria, mas não houve nada que tenha ficado largado pelo caminho.  E mesmo com 12 episódios, a sequência de Kyros e Marie antes de acordarem juntos caberia perfeitamente.  

Falando em inconsistências, é curioso como essas séries fantasia, sejam as coreanas ou as japonesas, escolhem ambientes pseudo-europeus, misturando épocas e referências, mas não se preocupam com usos e costumes.  O pai de Kyros colocar uma concubina dentro de casa poderia ser OK no Japão ou na Coreia até, sei lá, o fim da 2ª Guerra, mas seria inaceitável na Europa desde pelo menos o século XII.  Não de forma aberta e oficial.  Ter uma concubina em uma casa separada já seria um escândalo, até passaria, mas não sem que a igreja (*católica ou protestante, pouco importa*) torcer o nariz e até ameaçar.  E transformar o filho natural em herdeiro não é coisa fácil e quanto mais distante da Idade Média se está, mais difícil seria, mas nesses mundos de fantasia, eles querem combinar o melhor de dois mundos patriarcais para os homens, eu diria.

Acredito que o que mais me atraiu para a série, que não é perfeita, nem uma produção com o impacto de um Watashi no Shiawase na Kekkon, foram as protagonistas.  Kyros não é o mocinho clichê de coração frio e cheio de noias.  Ele apaixona-se por Marie desde o início, sem saber quem ela é, simplesmente pela sua gentileza e intelecto, e deixa isso claro o tempo inteiro.  Ele tem inseguranças, ele pode ser bobo às vezes (*o humor do anime é meio bobinho mesmo*), mas está lá para dar segurança para nossa mocinha.  E ele não vai se deixar enganar a respeito dela em nenhum momento.  Uma preciosidade.  Também foi interessante uma das escolhas da equipe de animação.  Nas novels, a pele de Kyros é bem mais clara que no mangá e o anime o coloca com a pele ainda mais escura.  Um tipo bem indiano, eu diria.  Ah, sim, e Kyros é o bom senhor, esse tipo de personagem todo poderoso, mas benigno com seus serviçais e que serve para justificar as hierarquias.  Quem precisa de direitos trabalhistas ou defender a revolução com um patrão como Kyros?  😉

Marie, bem, a evolução dela foi a preciosidade de Zutaboro.  Ela é tão traumatizada quanto uma Miyo, ela se considera inferior e indigna do amor de Kyros, ela foi educada para se sentir desprezível, mas estava aberta para a mudança.  Ter um mocinho que a acolhe desde o início é fundamental, claro.  Mas a evolução é consistente com o andamento da história e não se estica para além do que a temporada seria capaz de oferecer.  A Marie do início é muito diferente daquela que vemos no final e eu não acredito que, caso houvesse uma segunda temporada, ela retrocedesse e se enchesse de medos e dúvidas quanto a si mesma ou ao amor de Kyros por ela.  E, outra coisa, Marie sempre foi muito inteligente, a parte da carta em que ela não acredita que o pai estava à morte, pois gente que está quase morrendo não consegue escrever tão bem, é um exemplo disso.  Além de ser mais uma ponta solta da tal história de que o pai não sabia escrever ou ler.  Em qual língua ele escevia, afinal?

E, só para concluir, que figurino maravilhoso esse anime teve.  Houve alguns vestidos feios, sim, mas a maioria absoluta foi muito bem pensada, misturando épocas e culturas.  E a mocinha não era a única bem vestida, Kyros também tinha um figurino variado e interessante.  Preferia que os sapatos de Marie não fossem quase que somente scarpins, que ela usasse sapatilhas baixas em alguns momentos, mas foi interessante terem um sapato aparecendo em vários momentos importantes da vida dela.  E não era o sapato do casamento, porque o casamento não foi um dos momentos-chave da trajetória da mocinha, mas a celebração do amor que ela já tinha certeza de ter conseguido.  E a animação não caiu nunca, a qualidade foi uniforme, por assim dizer.  Enfim, é isso, foi um anime de romance que entregou mais do que prometeu, mesmo com problemas, um deles, pequenininho, mas sensível, foi Marie continuar usando -san com o Kyros, ela poderia chamá-lo só pelo nome, acho que ele ficaria extasiado.  E eu que escrevi no meu primeiro texto que essa série parecia sem conflitos e pouco interessante.  😁  Você assistiu Zutaboro?  Gostou da série?