domingo, 31 de agosto de 2025

MPEG anuncia Chihayafuru e Hananoi-kun to Koi no Yamai no Brasil

 

Ontem, aconteceu em São Paulo a MPEG Fest e a editora anunciou uma série de títulos, sem deixar de fora as demografias femininas.  Durante alguns dias, foram postadas pistas nas redes sociais da editora e muita gente começou a fazer suas apostas.  Hananoi-kun to Koi no Yamai (花野井くんと恋の病), de Megumi Morino, era dado como certo, porque a pista era algo como "mangá shoujo com mais de 15 volumes e que teve anime".  Como a série é muito amada, ainda que eu não consiga gostar dela, e fez um sucesso absurdo, eu estava entre os que apostavam que seria o anúncio mesmo.

Já Chihayafuru (ちはやふる) era a aposta de algumas pessoas, porque a pista falava em mangá de esportes que popularizou no Japão um jogo.  Karuta pode ter se tornado mais popular por causa do mangá de Yuki Suetsugu no Japão, mas eu só apostaria na série se falassem que tornou o esporte conhecido no resto do mundo.  Afinal, teve várias temporadas de anime, dorama, filme live action, novels derivadas, spin-offs e contando para garantir a difusão do material.

O interessante de Chihayafuru, o que mais me chama a atenção, é o fato de ser a volta por cima da autora, acusada de plágio (*por uma bobagem*) e ostracizada.  Ela simplesmente criou um dos maiores  sucessos do mangá josei de todos os tempos e, ao que parece, terá dificuldades para seguir em frente.  Enfim, Chihayafuru tem 50 volumes, foi publicado entre 2007 e 2022; a edição da MPEG será a 3 em 1 e terá 17.  Acredito que é uma escolha segura, porque muita gente pedia o mangá por aqui.  Espero, espero mesmo, que a editora repense o uso dos honoríficos e não fique inventando coisas que atrapalham o texto (*veja meu Shoujocast sobre Nodame Cantabile*).  Talvez, eu compre o volume 1, mas nunca tive grande interesse por Chihayafuru, esse número de volumes me sugere que a enrolação foi grande e tenho tolerância baixa para essas coisas.

Voltando para Hananoi-kun to Koi no Yamai, serão 18 volumes.  A série, que começou em 2017, terminou este ano, em julho; o último volume sairá em outubro no Japão.  Também acredito que a editora vai conseguir um bom retorno.  Segundo o anúncio, Hananoi-kun começa a sair este ano, já Chihayafuru começa no ano que vem.  Ambos os mangás foram premiados, entraram em listas de melhores títulos no Japão e são publicados em vários países.  Grandes apostas, portanto.

sábado, 30 de agosto de 2025

"Se até Orgulho e Preconceito precisa ter um elenco 'diverso', o drama de época inglês está morto": Quando racismo tenta se passar por rigor histórico

A amiga Jéssica  me passou um artigo do The Telegraph intitulado "Se até Orgulho e Preconceito precisa ter um elenco "diverso", o drama de época inglês está morto.  Os chefões da TV podem achar que estão sendo inclusivos. Mas receio que haja dois pequenos problemas." (If even Pride & Prejudice has to have a ‘diverse’ cast, the English period drama is dead.  TV bosses may think they’re being inclusive. But I’m afraid there are two small problems.), que parece cheio das boas intenções, mas que, na verdade, é de  um racismo descarado.  

O autor, Michael Deacon, parece ser o campeão das causas erradas, começando com a acusação de que quem denuncia o genocídio em Gaza de ser antissemita até chegar à celebração de J.K.Rowling como heroína nacional por perseguir pessoas trans. É esse tipo de gente o autor desse texto que traduzi. Enfim, vou colocar o artigo todinho traduzido e, em seguida, volto para comentar.  Irei manter a estrutura do original, mas o link é do artigo com o pay wall quebrado.  


Se até Orgulho e Preconceito precisa ter um elenco "diverso", o drama de época inglês está morto.

Os chefões da TV podem achar que estão sendo inclusivos. Mas receio que haja dois pequenos problemas.


Há cinco anos, o site da BBC publicou um artigo com o título: "Está na hora de o drama de época totalmente branco ser extinto?".[1] Bem, agora está claro. Hoje em dia, todo drama de época tem um elenco etnicamente diverso, independentemente de quando se passa: a década de 1920 (Wicked Little Letters), a década de 1530 (Wolf Hall: The Mirror and the Light), até 1066 (King and Conqueror, a próxima série da BBC sobre a Batalha de Hastings). Portanto, não foi surpresa ler, esta semana, que a nova adaptação de Orgulho e Preconceito da Netflix também terá um elenco diverso.

Pessoalmente, acho essa tendência fascinante. Produtores de dramas de época sempre se esforçam ao máximo para garantir que figurinos, móveis e decoração pareçam escrupulosamente autênticos. No entanto, quando se trata de escolher o elenco, eles fazem o oposto – e fingem que, 200, 500 ou 1.000 anos atrás, a Inglaterra era tão multicultural quanto é na década de 2020. Eles morreriam de vergonha se, ao fundo, os espectadores vissem um conjunto de painéis solares ou duas linhas amarelas. Mas anglo-saxões negros? Sem problema algum.

É uma combinação peculiar. Se decidimos que a verossimilhança histórica não importa mais no elenco, certamente deveríamos ser consistentes e decidir que ela também não importa mais nas roupas ou no comportamento. Que os nobres da Regência usem camisas do Arsenal. Mostrem os normandos cavalgando para a batalha em Chinooks. Que Sir Thomas More tire uma selfie no cadafalso.

De qualquer forma, a autora do artigo da BBC sobre a extinção do drama de época "totalmente branco" pareceu aprovar essa nova tendência no elenco. "Finalmente", escreveu ela, "a indústria está demonstrando que o drama de época é um gênero no qual a diversidade racial pode ser refletida e celebrada".

Tudo isso é muito bom. O problema é que dá a impressão de que a diversidade racial tem sido "celebrada" ao longo da nossa história. Para os espectadores, isso deve ser intrigante. Nos últimos anos, ouvimos incessantemente que o passado da Grã-Bretanha foi vergonhosamente racista. No entanto, os dramas de época nos dizem que era uma utopia multicultural, na qual pessoas de todas as raças eram bem-vindas em todos os níveis da sociedade.

Ainda assim, não devemos reclamar. Tenho certeza de que essa abordagem daltônica para o elenco se aplica igualmente a todos. Aguardo ansiosamente que a BBC transmita um drama de época sobre o Windrush, no qual os passageiros principais são interpretados por Hugh Grant e Keira Knightley.


Bingley será interpretado por um ator negro na série da Netflix.

Vamos lá!  Voltei!  O texto do The Telegraph pode parecer bem intencionado, mas ele se esforça para esconder o incômodo do autor em ver pessoas não-brancas na tela.  Motivo?  Isso interfere no discurso de que a Europa era branca e foi contaminada, invadida, conpuscarda pela invasão de pessoas "de cor".  Isso perverte o discurso supremacista que a extrema-direita projeta sobre o passado, especialmente, sobre a Idade Média, mas não somente.  E, para quem não sabe, sou uma medievalista aposentada, meu mestrado, doutorado, enfim, praticamente tudo o que produzi de historiografia por mais de 10 anos, é sobre o período.

E, sim, há historiografia sobre a presença de pessoas negras na Europa ao longo dos séculos e feitas por historiadores DE VERDADE. Fiz um vídeo (*tempos atrás*) para o Tik Tok sobre o livro Black Europeans, existe um livro chamado Black Tudors (*que eu preciso comprar*) e já pulei de biografia em biografia na Wikipedia de mulheres negras que serviram na Corte inglesa e escocesa desde os tempos de Catarina de Aragão.  Fora isso, já fiz mais de um texto para o blog sobre negros na Inglaterra de Jane Austen.  Inclusive, a autora criou uma mocinha negra e rica herdeira em seu inacabado Sanditon.  Certamente, o autor do texto iria acusar Austen de estar falseando a História.  Fora isso, recentemente, foi divulgada uma descoberta arqueológica interessante na Inglaterra, um túmulo do século VII contendo restos mortais de dois indivíduos inegavelmente da África Ocidental.  E, para concluir essa parte, um dos últimos programas do Historia FM trouxe um medievalista brasileiro que estuda relações raciais e racismo na Idade Média.  E ele não citou exemplos somente da Península Ibérica, para quem se interessar.  

Várias pessoas negras em iluminuras, a mais antiga é do século XII.  (Fonte)

Como escreveu o excelente perfil Actuel Moyen Âge no Twitter, "Ausência de evidências não é evidência de ausência".  Cabe um pouco de imaginação histórica não para inventar, mas para estar atento às evidências que, por uma série de motivos, não foram lidas como indício de ruptura com um modelo de História que, não raro, nega a presença e o protagonismo para quem não é homem dentro daquilo que seria considerado norma dentro de um determinado período.  É o "nem vou procurar, porque não existe".  "O que a História não diz, não existiu." é uma das frases da minha orientadora de doutorado, Tânia Navarro-Swain, que desenvolveu o conceito de História do Possível.  E Jane Austen sabia disso.  Lembram da conversa entre Anne Elliot e o Capitão Benwick sobre como a História, a oficial, é injusta com as mulheres, ou que dela devemos desconfiar, porque são sempre (*ou quase*) as palavras dos homens que são lidas?  Pois é... Achei até um artigo acadêmico discutindo isso.

Voltando ao texto do The Telegraph, ele aponta algo que eu já comentei, mas a partir de uma perspectiva equivocada.  Quando representamos um passado sem racismo, sem machismo, sem classismo, sem lgbtfobia, falseamos a história, mesmo que isso dê um quentinho no coração de quem não quer ver sofrimentos e desgraça.  Já  bati nessa tecla muitas vezes, em vários textos, um deles foi sobre Gilded Age.   O melhor seria pegar casos de pessoas de grupos minoritários que, apesar das muitas limitações impostas, venceram, mesmo que dentro de uma lógica capitalista e/ou liberal, ao invés de ficar distorcendo o passado e projetando nele valores do presente.  Se não gosto dos reacionários reinventando a História, não me agrada igualmente que os (*ditos*) progressistas o façam.

Exemplo de série color blind, Ana Bolena do Channel 4.

Apesar de apontar isso que discuti acima, o autor do artigo que traduzi não separa essas representações equivocadas do passado de material "color blind", que é coisa muito diferente.  Gostemos, ou não, do "color blind", materiais desse tipo partem do princípio de que os atores  e atrizes não têm cor.  São simplesmente pessoas emprestando seu corpo para personagens.  Deve haver o termo "gender blind", também, porque a lógica seria a mesma.  Então, ninguém nesse novo Orgulho & Preconceito será negro, mesmo que o ator ou atriz seja.  Obviamente, eu já reclamei, e não vou procurar texto para linkar dessa vez, ainda que eu saiba que ele existe, que geralmente os protagonistas da trama são brancos.  É assim no novo Orgulho & Preconceito.  Ousadia seria escalarem um Darcy negro, indiano, árabe, coreano, não deixar o cara exibir suas madeixas cor de cobre.  Percebem o meu ponto?  Também já reclamei do maniqueísmo, que apareceu em Ana Bolena, que está disponível no Globoplay, no qual os brancos eram os maus, e os não-brancos os mocinhos.

Escalar um elenco "color blind" não é o mesmo que tentar reimaginar um passado diverso e acolhedor.  Para o autor, não há diferença entre uma coisa e outra porque o que lhe incomoda é a própria presença de pessoas negras em produções de época.  E ele cita o seriado King & Conqueror, que estreou na BBC em 24 de agosto, porque aparece um soldado negro nas tropas de Guilherme o Conquistador ou de Haroldo, teria que olhar a série.  Os racistas estão se rasgando de dentro para fora por causa de um único frame.  Como pontuou o Actuel Moyen Âge, ainda que improvável, a presença de um negro ali não seria impossível.  E o perfil mostra evidências nas fontes medievais para tanto, fora que não é possível reconstituir o passado como ele foi por vários motivos.  Só que, como é muito bem colocado, esse não é o ponto e eu vou citar: "Então, por que a reclamação aqui? Porque os perfis que reclamam veem essa presença como um projeto político ("wokeísmo") que consideram insuportável.  O argumento do "realismo histórico" é simplesmente um pretexto que lhes permite legitimar seu racismo.".  

Então, desconfiem sempre de quem cobra (*suposto*) realismo em questões raciais ou de papéis de gênero, porque geralmente é o mesmo tipo de gente que não se importa com mudanças históricas que lhe sejam interessantes.  Mesmo que elas sejam absurdas e grosseiras.  É também o mesmo tipo de gente que ADORA imaginar um passado, especialmente a Idade Média, no qual era possível praticar toda a sorte de violências (*sexuais*) contra as mulheres, como se não houvesse regra nenhuma.  Seria o mundo perfeito, porque homens brancos católicos (*na visão deles, claro*) dominariam sobre tudo e todos e as mulheres, especialmente nós, seríamos meros objetos de cama e mesa.  

Enfim, as preocupações do autor do texto poderiam ser legítimas, se ele mal pudesse disfarçar o seu racismo, porque, no final, ele escancara ao falar com certo desprezo de Windrush, o primeiro navio de muitos que trouxe uma leva de imigrantes negros do Caribe, especialmente da Jamaica, para o Reino Unido, a partir de 1948.  Esses negros e negras vieram para suprir a falta de mão de obra barata.  Eles e elas foram discriminados e sofreram racismo.  Para o autor, seria justo que pessoas brancas os interpretassem, porque, bem, "color blind" deveria ir para os dois lados.  Percebe qual o incômodo dele?  E, que eu saiba, só existe um ÚNICO seriado da BBC, filme nunca ouvi falar, contando a história desses imigrantes, Small Island.  E voltamos ao ponto, precisamos contar essas histórias, elas fariam muito mais diferença do que reinventar o passado ou ficar fazendo material "color blind".  Mas essa é somente a minha opinião.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Kekkaishi no Ichirinka (Bride of the Barrier Master) vai virar anime + resenha dos quatro primeiros volumes do mangá

Semana passada, foi anunciado o anime de Kekkaishi no Ichirinka (結界師の一輪華), ou Bride of the Barrier Master, seu nome em inglês.  A série é baseada nos livros de Kureha, com ilustrações de Bodax, que começaram a ser lançados em 2021, o sexto volume sairá  no dia 25 deste mês.  O mangá é assinado por Odayaka, começou a sair em 2022 na revista B's Log Comics, voltada para o público feminino fã de games, e está no volume 6.  Fui checar e achei sete aparições do mangá no ranking da Oricon, por três vezes no top 10.  Isso indica que a série vende bem, afinal, todos os seus volumes, desde o segundo, aparecem no ranking e, às vezes, ficam por mais de uma semana.  Como o mangá não estava no meu radar, não sabia nada sobre ele.  O anúncio me fez ir atrás de informações e acabei lendo os quatro volumes que estão disponíveis.  Enfim, vou colocar o resumo e, a seguir, fazer uma resenha colocando as minhas impressões gerais sobre a série.  Aviso que haverá spoilers, se não quiser saber mais detalhes da história, pare depois do resumo, OK?

"Por milhares de anos, o Japão foi protegido por cinco clãs que possuíam magia de criar barreiras. Nascida em uma das famílias de um desses clãs, Hana, de dezoito anos, sempre esteve à sombra de sua irmã gêmea, mais poderosa, talentosa, bonita e popular. Quando um grande poder despertou dentro de Hana, quando ela tinha quinze anos, a jovem optou por escondê-lo para poder continuar vivendo uma vida tranquila, longe dos holofotes e, também, para não ser usada nas maquinações de seu pai e sua mãe que, até então, a desprezavam. Mas esse estilo de vida ideal é colocado em risco quando Saku Ichinomiya assume como o novo líder do clã Ichinomiya e parte em busca de uma noiva forte o suficiente para ficar ao seu lado. Ansiosa para manter suas habilidades em segredo, Hana se mantém afastada de Saku... mas será que ela se sentirá tentada a assinar um contrato de casamento se isso lhe garantir o futuro pacífico e tranquilo dos seus sonhos?"

Imagem comemorativa da ilustradora das novel, Bodax.

Vou abrir dizendo que Kekkaishi no Ichirinka, o mangá, porque foi o que eu li, é uma obra que tem um gosto de passado.  Parece coisa que seria produzida na virada dos anos 1990 para o 2000.  Tem um tipo de humor repetitivo que inclue cascudos que produzem galos bem protuberantes, martelos enormes e um mocinho que não entende bem o que é consentimento.  Aliás, Saku, o mocinho, é o motivo da maioria das críticas e notas baixas que o mangá recebe por aí. Eu voltarei a isso mais adiante.  A série também flerta com situações que são comuns em várias obras que estão em alta.

Temos famílias que nascem com dons e devem proteger o Japão, como em Watashi no Shiawase na Kekkon (わたしの幸せな結婚). Temos uma família que está em decadência por não produzir ninguém com fortes poderes há muito tempo, como em Watashi no Shiawase na Kekkon, mais uma vez. Duas irmãs que são muito diferentes e tratadas de forma desigual dentro da família, de novo Watashi no Shiawase na Kekkon, mas, também, Zutaboro Reijou wa Ane no Moto Konyakusha ni Dekiai Sareru (ずたぼろ令嬢は姉の元婚約者に溺愛される), que eu resenhei domingo, e mais um monte de outras séries.  E, sim, temos pai e mãe  que estão concorrendo para serem os mais horrorosos das novels e mangás dos últimos tempos na sua crueldade e capacidade de tentar manipular o destino das filhas e, talvez, do filho, que mal apareceu ainda, para seu próprio ganho.  Mas eis que Kekkaishi no Ichirinka rompe com alguns dos clichês da moda.

Ilustração da autora do mangá, Odayaka.

A série é uma fantasia, mas é muito realista em relação à discussão dos enlaces matrimoniais de suas personagens.  Poderosos casam com poderosos, especialmente se se trata do líder do clã, simples assim.  Quando o chefe do clã Ichinomiya passa o poder para o filho, o pilar que protege o Japão fica com fissuras que só podem ser restauradas pelo novo líder unindo sua energia a de um/a parceira/o.  Preferencialmente, uma esposa.  Trata-se da ideia dos princípios do Ying/Yang, um conceito fundamental na filosofia chinesa antiga, particularmente no taoísmo, que descreve duas forças cósmicas complementares, interconectadas e opostas (escuridão e luz, feminino e masculino) que compõem o universo e seus fenômenos.  Saku explica para Hana que seu par na restauração poderia ser uma irmã (*que ele não tem*), um irmão (*que ele tem, mas é fraco demais para a missão*) ou mesmo sua mãe (*que não é forte o suficiente, também*).  Não sabemos, pelo menos até o volume 4, por qual motivo o pai de Saku deixou o comando do clã, mas é evidente que ele e o antigo patriarca não se dão bem e ele sequer mora na mansão dos Ichinomiya.

Na cerimônia em que toma possa diante de todos os ramos do clã, Saku é assediado por todas as moças em idade de casamento.  Elas se exibem em belos kimonos, elas o adulam.  É como em Bridgerton, para quem leu os livros ou assistiu a série.  O rapaz está acostumado a ser obedecido, ser o centro das atenções, mas isso é cansativo, muito cansativo.  E eis que há uma moça que não se aproxima dele e fica na dela comendo as comidas maravilhosas da recepção.  Sim, Hana é comilona, mais um eco dos anos 1990, vide Usagi (Sailor Moon) e Miyaka (Fushigi Yuugi).  Saku se apaixona por Hana à primeira vista, não é uma história de noiva substituta, porém, ele só pode pedi-la em casamento ao descobrir que ela é muito poderosa.  Não fosse isso, certamente ele se veria obrigado a se casar com outra, muito provavelmente, a irmã da mocinha.  Como Hana esconde seus poderes, Saku enfrenta um grande rechaço ao decidir se casar com alguém que era chamada de restos da irmã, como se ela fosse uma espécie de aborto da natureza.  

Repito, ele sabe que ela é poderosa, ele não seria irresponsável de se casar por amor, ele sabe a responsabilidade que tem sobre os ombros, mas, como chefe do clã, ele PODE casar com quem quiser.  PODE, mas NÃO DEVE.  Detalhe, quando o casamento de Hana é descoberto na escola, a melhor amiga da protagonista, Suzu, espalha para geral que o casamento foi um ato de amor, no qual Saku ignorou que a protagonista tinha quase nenhum poder.  Hana não desmente, mas não confirma, e torna-se alvo da inveja e da raiva das alunas que se achavam mais poderosas e, claro, mais merecedoras, assim como das fãs de Hazuki, irmã da mocinha.

Falando da protagonista e sua irmã gêmea, Hazuki, as duas são muito ligadas, como as duas irmãs de Zutaboro Reijou wa Ane no Moto Konyakusha ni Dekiai Sareru, mas, ao completarem 10 anos, elas manifestam seu poder, e tudo muda.  Hazuki sempre demonstrou que iria ter um dom poderoso e isso se comprova quando ela produz um shikigami em forma humana, Hiragi.  Shikigami são como os familiares de Watashi no Shiawase na Kekkon, só que são permanentes, têm personalidade própria, ainda que estejam condicionados pela vontade de seu mestre, como o gênio do Aladin.  Só quem tem um dom muito poderoso produz um shikigami em forma humana e Hazuki só tinha 10 anos de idade.  Enquanto isso, Hana produz um shikigami em formato de borboleta, que ela chama de Azuha.  A partir daí, os pais só lhe dedicam desprezo, a proíbem de falar com a irmã, de comer com a família, ela é tratada como uma estranha na própria casa.  

"Eu penso que deixei meus sentimentos claros..."
"... então, quando você irá se convencer a aceitá-los?"

Só que, aos 15 anos, Hana manifesta poderes que ninguém poderia imaginar.  Ela cria mais dois shikigami, ambos em forma humana, Miyabi e Aoi.  Fora isso, Azuha é capaz de falar e é extremamente poderosa. Já pararam para contar o número de personagens dessa história?  Temos mais ainda.  Hana não conta para ninguém sobre seus poderes, ela não quer mais a apreciação dos pais.  Ela ainda ama Hazuki, com quem ela se preocupa, porque a irmã estuda demais, se esforça demais, tudo para agradar aos pais, mas é sempre maltratada quando tenta conversar com ela.  O que Hana decide é que ela não quer ter nada a ver com esse  mundo dos que têm os dons, ela quer ter um emprego comum e decide que não vai se casar nunca, porque não quer arriscar ser descoberta. 

Aqui, acho que a autora força a mão, porque Hana é tão poderosa, mas tão poderosa, que ela não teria como escapar do radar de outros praticantes (*é assim que eles são chamados em inglês*) bem treinados e poderosos. Mesmo criando barreiras para esconder seu poder, especialmente quando precisa enfrentar sombras (*os youkai mais simples dessa série*), esconder seus poderes exigiria um nível de conhecimento que a menina não tem, além de, imagino eu, exigir um imenso gasto de energia.  (*tenho uma história, que eu nunca irei terminar, na qual uma personagem precisa esconder seus poderes e isso é muito desgastante, tanto física quanto mentalmente*).  Ainda assim, só quem desconfia dos poderes de Hana, e isso depois de começar a segui-la, é Saku.  Os praticantes que fazem parte da organização que protege o Japão são divididos em cores que, do mais baixo para o mais alto, são branco, ouro (amarelo), vermelho, lapis (azul) e obsidiana (preto?).  O irmão mais velho de Hana é o mais jovem praticante a conseguir chegar ao grau lapis, mas é somente isso que sabemos dele até o momento.

Enfim, Hana não é uma cinderela, nem lamenta ser desprezada pelos pais e pela irmã gêmea.  Ela não se preocupa em estudar para entender a dinâmica dos clãs, a magia, nem nada.  Ela quer terminar logo o colegial, arranjar um emprego e se afastar de qualquer coisa que tenha ligação com o mundo ao qual sua família pertence.  Por isso, repito, ela não teria conhecimentos para esconder os poderes, mas deixa  para lá.  Enfim, Hana e a irmã frequentam a Academia Obsidian, lá as turmas são divididas por níveis de poder.  Os da classe A são os melhores, são tratados com todas as honras; os da classe B são vistos como capazes, ainda que não tão competentes; já os da classe C são desprezados e sofrem bullying.  É lá que está Hana e sua única amiga, Suzu, que é de outro clã.

Saku começa a perseguir Hana e termina vendo a menina usar seus poderes.  Ele a pede em casamento.  Ela foge, o rejeita, o chama de pervertido por persegui-la.  Ele insiste por dias até que decide ameaçá-la, contando a seus pais que ela o ofendeu.  Sim, ele faz essas coisas, mas, ao mesmo tempo, o que ele gosta em Hana é o fato dela não se curvar diante dele.  Dinâmica Makino-Doumyoji (Hana Yori Dango), só que Saku não é um sujeito infantilizado.  Hana decide ouvir o que Saku tem a dizer.  Ele fala do pilar, ele explica por qual motivo precisa casar com ela, ele pergunta o que ela quer em troca do casamento, que seria somente um contrato temporário, sem intimidades, até que a missão fosse terminada.  Aqui, temos algo importante e que se perderia se os honoríficos fossem retirados.  Hana chama Saku de Ichinomiya-sama.  Ele diz que serão marido e mulher, que ela não pode se referir a ele de forma tão cerimoniosa, ou ninguém iria acreditar no casamento dos dois.  Ela então o chama direto de Saku e ele se assusta com o excesso de intimidade.  Mesmo a mãe do rapaz o chama de Saku-san.  Mas Hana não irá usar honoríficos com ele, será Saku e pronto. Hana tem 18 anos, a atual maioridade no Japão, ela não precisa de autorização dos pais para se casar e ela o faz.

"Eu quero viver como desejar."
Seja minha noiva... Hana Ichise.!
"Como eu terminei nessa situação!?"

Hana explica para Saku que quer ter uma vida tranquila, um emprego que não tenha nada a ver com o mundo dos praticantes de magia, a política dos clãs, ela quer trabalhar em um emprego comum, se aposentar e ir morar em um lugar tranquilo com seus shikigami.  Saku promete que lhe dará isso e muito mais, além de lhe conceder o divórcio tão logo o pilar seja restaurado.  Só que ele não pretende se separar dela, ele vai beijá-la já nesse primeiro volume e percebe que ela não lhe é indiferente, já a moça aceita o beijo, mas resiste à ideia de se entregar ao sentimento que sabe ter por Saku, porque isso a prenderia nesse mundo que ela aprendeu a odiar.  

Depois disso, ela e Saku vão comunicar o que já está feito e os pais de Hana ficam indignados.  Como ela se casou sem permissão?  Como o líder do clã pode escolher uma criatura sem poderes significativos quando Hazuki era a esposa perfeita? Saku toma a palavra e, com sua arrogância habitual, diz que Hazuki não era poderosa o suficiente e que ele escolheu Hana, porque é um direito dele.  Hana se sente vingada ao ver seus pais ofendidos.  Mais tarde, Saku pergunta se ela deseja humilhar os pais ainda mais, mas ela diz que está satisfeita, que só quer esquecer que eles existem.  Ele responde que se tivessem feito com ele o que fizeram com Hana, ele só se satisfaria quando eles fossem transformados em pó.

Agora, o problema de Hana é que ela é ambiciosa demais, no sentido financeiro mesmo.  Assim, quando Saku precisa da ajuda dela em uma missão (*e ele vai criando situações para obrigá-la a ajudá-lo*), ela exige uma vila à beira-mar.  Ele fica magoado, porque, quando estavam restaurando o pilar, Hana vê o quanto de peso Saku é obrigado a carregar, o abraça, acolhe, e lhe diz que se sentia egoísta e que iria colocar o seu poder a serviço do clã e do Japão.  Ela esqueceu do que, pelo menos para ele, soou como uma declaração de amor, então, ele se vinga.  Saku pede a cópia do contrato de casamento de Hana, acrescenta a vila (*que é cheia de sombras, uma espécie de youkai, mas ela não sabe ainda*) e uma cláusula que tira dela o direito de pedir o divórcio.  Ela não lê e perde o prazo de contestação.

O fato é que se Saku quisesse, ele poderia obrigar Hana a ficar com ele.  Ele tem poder para isso, poder-magia e poder político.  Então, as piadinhas só amenizam uma situação que é muito desigual.  E a autora recorre a umas piadas antiquadas que tentam desensibilizar o público sobre um potencial risco de abuso sexual.  Saku quer consumar o casamento (*isso não é dito, mas tenho certeza de que ele é tão virgem quanto Hana*), ele chega a dizer que, se engravidasse Hana, ela nunca iria conseguir se separar dele.  O rapaz não é violento, mas é insistente, chega a dizer que "Não quer dizer mais", no que Aoi, o shikigami de Hana, diz que "Não quer dizer não".  São os shikigami que impedem que Saku force Hana a fazer o que não está preparada, porque ela gosta dele, mas não está pronta a admitir isso, muito menos fazer sexo com um homem que acabou de conhecer.  Miyabi, a mais violenta dos shikigami de Hana, apesar da aparência fofa, chega  a perguntar se ela quer que ela mate Saku para que eles possam ser finalmente livres.  Ela rejeita, claro.  Apesar dessa opção por piadinhas de mau gosto da autora, não temos aqueles recursos de apalpar a mocinha, apertar seios, levantar saia, nada disso.  Saku quer seduzir Hana, mas a insistência é incômoda.

Na casa de Saku, Hana não é bem recebida no início.  A sogra lhe despreza e o irmão de Saku, Nozomu, a ofende.  Hana não leva desaforo para casa e desafia o garoto, que é da classe A, para um duelo.  Ela exibe seus poderes pela primeira vez e a sogra passa a respeitá-la e tratá-la como senhora da casa, decidindo ajudá-la a ocupar o seu lugar, mas impondo uma disciplina que parece dura e que Hana vê como demonstração de afeto.  Já Nozomu continua resistindo, mas Hana percebe que seu problema é com o irmão e que a relação dos dois é muito parecida com a dela com Hazuki. Saku é muito poderoso, Nozomu sempre esteve nas sombras do irmão, mesmo o amando e admirando tanto.  Ela decide ajudar a restaurar a relação dos dois.

O fato é que Hana nunca foi amada e a família de Saku acaba sendo a primeira da qual ela faz parte.  Quando ela adoece, depois de usar seus poderes em uma missão muito difícil, ela é cuidada e mimada por todos (*Nozomu finge que não se importa, mas é fingimento*).  Isso desperta lembranças de quando ela era uma menina e os pais não somente não chegavam perto dela, mas também não permitiam que Hazuki se aproximasse.  Enfim, o casamento temporário, que deveria ser um contrato somente, acaba se tornando outra coisa.  Há quem possa acusar de síndrome de Estocolmo, mas é  possível ver como crescimento e amadurecimento das personagens, também.

Já me estiquei demais, esse texto está sendo escrito há mais de três dias.  Muito bem, segue um resumo rápido do conteúdo de cada um dos volumes:  O volume 1 apresenta as personagens principais e mostra o encontro entre Saku e Hana, a resistência dela ao casamento, até que, finalmente, ela cede.  O volume 2 mostra a primeira missão de Hana.  Temos uma onda de assassinatos de cães, eles são torturados e mortos.  De repente, começam a aparecer homens mortos, mutilados como se fossem por cachorros, mas a polícia percebe que não são crimes comuns.  Saku é chamado para investigar e Hana temria o acompanhando.  O autor dos assassinatos é um Tatarigami, um espírito vingativo, que absorveu a dor e a raiva dos cães assassinados.  É preciso destruí-lo, mas Hana percebe que o tataragami é resultado da possessão de um inugami, uma espécie de deus cachorro.  Saku acredita que precisará destruir o inugami, que não é possível purificá-lo, só que destruir um deus traz muita má sorte.  Hana, no entanto, consegue separar o tataragami do inugami.  O tataragami se desfaz, com os espíritos dos cachorros mortos sendo libertados, e o inugami se torna o quarto shikigami de Hana.  Me prolonguei para poder escrever isso.  Se tivesse o conhecimento necessário, Hana seria mais poderosa que Saku.  Nesse volume, Hana enfrenta as garotas que lhe afrontam, dizendo que é esposa do líder do clã Ichinomiya e que elas devem pensar suas vezes antes de lhe atazanarem.

O volume 3 mostra o aparecimento de uma rival, Kikyou do clã Nijouin e seu irmão gêmeo, Kirya.  O volume abre com amuletos poderosos, que são feitos pelo clã Nijoin sendo roubados por um grupo terrorista chamado (*em inglês*) de The Gull of Nirvana.  Saku adverte Hana de que ela não deve andar sozinha, mas ela o ignora, porque ele está fora boa parte do tempo e muito ocupado.  Em um dos passeios de Hana, ela é abordada pelos gêmeos, que lhe oferecem compensação econômica para se separar de Saku, que aparece e interfere.  Kikyou, que lembra um pouco a Sakurako de Hana Yori Dango (花より男子) misturada com aquelas doidas doidas que vêm atrás do Ranma (Ranma 1/2), é apaixonada por Saku e não sabe dos poderes de Hana, ela passa a persegui-la no colégio.  É nesse volume que aparece o boato do casamento por amor espalhado por Suzu.  E Hana é atrapalhada no seu intuito de estudar de verdade, porque Saku intima a esposa a aprender sobre os clãs, magia e tudo mais, ou ele vai fazer com que ela seja ensinada pela sua mãe.  Hana gosta da sogra, mas tem medo dela.  Por fim, depois de uma série de incidentes e um duelo, Kikyou fica mais que amiga de Hana, ela passa a lhe dedicar um intenso akogare (*devoção, admiração*), atrapalhando, inclusive, os avanços de Saku.  O irmão da jovem fica feliz, porque ela nunca tivera amigos.  Há o confronto com os terroristas, eles são derrotados, os talismãs recuperados, mas, ao que parece, nem todos os criminosos foram capturados.

Por fim, o volume 4 mostra Hana e Hazuki se reconectando.  Hana precisa recorrer ao marido para salvar a irmã dos planos que os pais montaram para ela.  É um volume bonito, porque ele desfaz qualquer ideia ruim que a gente possa ter por Hazuki.  É uma escolha interessante da autora, porque ela valoriza os laços entre as mulheres.  Eu imaginei que Hazuki, magoada e com inveja, fosse ser possuída por algum poder maligno e assumir um papel vilanesco.  Ainda bem que não.  E é nesse volume que Hana é obrigada a revelar todo o seu poder para salvar o colégio.  A exposição deixa os bullies chocados e faz com que o diretor queira transferi-la para a Classe A.  Ela recusa, ele insiste, e Hana faz com que ele se lembre do quanto foi conivente com o bulying  nada fez para ajudar a ela, ou qualquer aluno ca Classe C.  Hana termina ameaçando o diretor, mais uma vez usando o nome de Saku para isso.  Eu não a culpo, essa cara de pau da personagem, o fato dela não ser boazinha, é parte do charme da personagem.

Ah, sim!  Saku dá a vila para Hana, mas é um lugar infestado de sombras (*youkai*) e ela precisa limpar o lugar e criar barreiras, será assim todas as vezes que for visitar o lugar.  Esse episódio da vila também funciona como uma espécie de viagem de lua de mel; todos que observam os dois percebem que eles se amam, mas, enfim, eles não se entenderam ainda. E o título em inglês está errado, Hana não é "bride" (noiva), ela é "wife" (esposa), e isso desde o início do mangá.  Acho que é isso.  O volume 5 do mangá só sai em janeiro em inglês, o mesmo vale para a novel, acho.  Pelos resumos, os volumes do mangá está seguindo as novels de perto e conseguem dar conta quase que um volume de mangá, uma novel.  Agora, o anime não deve estrear em janeiro, porque há pouco material publicado ainda.  Os quatro volumes de novel/mangá devem dar mal e mal para uns seis episódios.  É preciso juntar mais coisa mesmo.

domingo, 24 de agosto de 2025

Eu ainda continuo assistindo Zutaboro Reijou wa Ane no Moto Konyakusha ni Dekiai Sareru (Betrothed to My Sister's Ex) e preciso comentar algumas coisas

No dia 13 de julho, fiz um primeiro texto sobre Zutaboro Reijou wa Ane no Moto Konyakusha ni Dekiai Sareru (ずたぼろ令嬢は姉の元婚約者に溺愛される) ou Betrothed to My Sister's Ex, um dos animes da temporada.  Eu não abandonei, continuo vendo a série e gostando, mesmo sabendo que não se trata de uma obra que está fazendo um grande sucesso, nem se trata de algo revolucionário, mas ela é simpática, tem um casal protagonista que é bonitinho que chega a doer, algumas inconsistências, verdade, mas um mistério que a gente quer descobrir.  O episódio 8, o desta semana, foi apresentado como um ponto de virada da série e, talvez, tenha sido o melhor episódio da temporada.  Para quem não conhece a série, o resumo do início da história:

"A filha do meio de um barão empobrecido vivia sob a sombra da irmã, nada na casa era para ela. Seu cabelo é cheio de bolas de pelo, ela não tem um único vestido de qualidade e tudo o que tem são roupas esfarrapadas de trabalho. Sua irmã chamou a atenção de um nobre rico, mas morreu a caminho do casamento. Por conta disso, Marie foi enviada como noiva substituta no lugar de sua irmã, porque o barão não conseguiu devolver o dote, que já tinha sido dado pelo conde. (...)  Uma linda e feliz história de amor sobre a filha de um barão falido e um conde charmoso."

Ao longo desses episódios que não comentei, isto é, do 3 até o 8, aconteceu muita coisa e não tanta coisa ainda.  Uma das coisas importantes é que a série parece ter dois objetivos em termos de relacionamento entre personagens e seu amadurecimento, então, Marie está se tornando cada vez mais autoconfiante e mais ciente de que ama Kyros e é amada por ele; em virtude disso, temos o desenvolvimento dos dois como um casal.  Kyros temendo cada vez menos não ter sido capaz de expressar para Marie que ele a amou desde o início, desde o primeiro momento em que a viu, que ela nunca foi uma substituta, que ela sempre foi a primeira em seu coração.  E temos, aí, uma primeira inconsistência, porque todo o imenso guarda-roupa que Kyros mandou preparar era pensado para Marie e somente para ela, uma moça mais alta do que a média.  Mesmo que tenham tirado algo que está no livro, isto é, de que Kyros mandara um vestido de presente de noivado, o guarda-roupa estaria lá para mostrar que a noiva sempre foi ela e, não, Anastasia.

Os episódios também apresentam várias personagens.  Mio, a maid guada-costas, e Liu Liu, a mãe de Kyros, são as mais importantes.  Mio entende Marie, porque ela também foi uma criança abandonada.  Eu gostaria mesmo que ela fosse meio-irmã dele, porque o duque pai do mocinho não valia nada e ele queria um filho homem.  Poderia ter abandonado Mio por causa disso.  Já Liu Liu, a mãe de Kyros, acolheu Mio, a criou quase como filha, afinal, ela é uma criada, e serve de modelo para Kyros.  Ela é uma mulher de negócios, forte e que acolhe Marie, mas a corrige em relação àquilo que considera fundamental, ela precisa ter mais confiança.  Voltando para Mio, ela meio que serve de trava para  os excessos de afeto de Kyros  para com Marie, meio que servindo de guardiã da castidade dos dois, por assim dizer.

O castelo de Kyros, que é discriminado por ser mestiço e por ser filho de uma concubina, é um santuário para estrangeiros e gente discriminada.  Todos os criados têm algo em comum, todos são de outro país.  E, um poderoso conde, os trata mais como gente da família do que como empregados.  Obviamente, isso é a típica representação benigna do poderoso senhor.  Ele é bom, ele é justo, todos estamos felizes em servi-lo  e, claro, não teremos revoltas, nem revoluções.  É meio assim em Downton Abbey, por exemplo.  Leis trabalhistas para quê?  O senhor é tão bom!  E há um episódio em que é mostrado que a neta criança do mordomo TRABALHA no castelo.  Ela mais brinca do que trabalha?  Verdade, mas ela está lá de uniforme e, também, para garantir que Kyros não tome liberdades com Marie.

E, sim, desejo sexual reprimido é uma questão importante dessa série.  Tudo é tratado com grande delicadeza, ou humor.  Marie não sabe muito bem o que está sentindo, mas entende que ama e deseja Kyros, já ele, bem, tem um dakimakura  (抱き枕), aqueles travisseiros de abraçar, que ele chama de Marie.  Se a série não quisesse deliberadamente evitar a questão, neste episódio 8, eles teriam feito amor, mesmo antes do casamento, era o caminho natural dada a situação muito bem criada e a situação em que os dois estavam.  Poderia ter saído dali um dos momentos mais ternos do anime até agora.  Mas, enfim, isso não vai acontecer, mesmo sendo dois adultos que se amam e se desejam.

Ao longo desses episódios, Kyros protegeu o máximo que pode Marie de seu pai e mãe monstros, porque eles são.  Eles tentam levá-la de volta e ele impede isso. Quando Kyros mostra uma carta do pai de Marie, na qual ele dizia que estava à beira da morte, a mocinha o agradece por protegê-la, imagina que houve outras cartas e diz que o pai está mentindo, porque quem está morrendo não escreve cartas. 😁 Ele também coloca Mio para investigar a família, o acidente que "matou" Anastasia, e outras coisinhas mais.  Em um episódio bem sinistro, vemos que a mãe de Marie tem uma boneca de Anastasia de quem cuida e com quem conversa.  E descobrimos que  o imãozinho de Marie é tratado de forma cruel pelos pais.  Alguém precisa salvar aquela criança!

De resto, uma das inseguranças de Marie é saber demais.  Ela sabe várias línguas, inclusive a de Ipsandros, a terra natal de Kyros, mas seu pai sempre aparece em flashback dizendo que mulheres não deveriam estudar ou se mostrar sábias demais.  Só que, em uma dessas lembranças, ele diz que a culpa por Marie saber demais é da mãe dele. A avó de Marie é uma incógnita e ela aparece pela primeira vez no episódio 8.  Ela afasta Anastasia de Marie e a obriga a estudar (*porque ela é a mais inteligente da família), mas ela também protege a menina.  A morte da avó é que condena a menina a ser transformada em criada.  É mostrado que a mãe de Marie a deixava sem comer, porque ela estava ficando alta demais e Anastasia a alimentava em segredo.  É bonito ver o vínculo entre as irmãs, não há malícia da parte de Anastasia, ela ama Marie.  A inconsistência dessa parte da investigação é que o pai de Marie a mandou para a escola.  Por qual motivo?  Foi lá que ela aprendeu tanto sobre agricultura, que é um dos hobbies da mocinha, junto com a leitura, claro.  Daí, outra inconsistência, somente no episódio 6 (*acho*) Mariee conheceu a biblioteca do castelo.  Como Kytos não a levou lá antes?  Estranho.

Temos personagens chatos?  Sim, um somente, na minha opinião.  Trata-se do príncipe melhor amigo de Kyros, Ruifon.  Primeiro, ele planta duas maids no castelo de Kyros para atormentar Marie.  Mio, que não gosta do príncipe, resolve o caso rapidamente, mas nossa mocinha sofre um tanto. Depois, ele age como amigo chato e ciumento.  Ele quer se livrar de Marie, até se convencer de que Kyros a ama e perder uma luta com ele.  Kyros sempre deixava o príncipe ganhar, pelo desaforo, ele o vence.  Temos fanservice envolvido, porque Kyros fica lido de armadura, temos Marie enfrentando as moças  que estavam assediando seu noivo e mostrando que não aceita mais ser humilhada e ela lhe dá um beijo no rosto no final do episódio.  

No episódio 7, Marie, que está passeando com Kyros na cidade governada por Ruifon em uma espécie de encontro, pois ele ficara muito tempo fora nos últimos tempos, vê a irmã viva pela primeira vez.  Ela não tem certeza, porque viu de relance e Anastasia está usando roupas masculinas.  Quando ela se vira, e Kyros estava em uma loja, ela é abordada por um assediador.  Quando vê que não vai conseguir se livrar do sujeito.  Nossa mocinha chama pelo noivo e ele vem e dá uma lição no sujeito.  É do jeito que eu gosto.  Peça ajuda quando necessário, caso da mocinha; e dê um corrretivo no safado, caso do mocinho.

Zutaboro Reijou wa Ane no Moto Konyakusha ni Dekiai Sareru é tão cheio de açúcar que é pouco recomendável para diabéticos. Piadas a parte, esse episódio 8 pesou a mão no drama, também, e não no mau sentido, porque está alimentando a nossa curiosidade em relação aos segredos da (maldita) família da mocinha. Marie está se sentindo culpada e adoece, porque aquilo que era óbvio (e, por isso, não considero spoiler) desde o primeiro episódio se concretizou, sua irmã está viva. Então, ela acredita que está roubando o lugar da única pessoa que a amou na vida e quer prolongar ao máximo o tempo que acredita lhe restar com Kyros. E o que foi realmente bom, ela se declara para ele e o beija, ela toma a iniciativa e quem diz que está tão feliz que pode chorar é ele.  O episódio 9 está sendo anunciado como um ponto de virada da temporada.

De resto, lamentável que essa série só terá uma temporada, porque deve fechar aí mesmo. A tomar pelos resumos dos livros, a história tem uns desdobramentos interessantes. E na capa do livro 7, eles já estão com uma filhinha de cabelo vermelho nos braços, quer dizer, nos braços de Mio, eu suponho. Pense na enrolação que é Watashi no Shiawase na Kekkon (わたしの幸せな結婚), que o casamento mesmo só saiu no livro 7.  E eu gosto muito de Watashi no Shiawase na Kekkon, mas Kyros é um tipo de protagonista masculino que me agrada mais, porque ele não esconde seus sentimentos, tenta se comunicar e não mede esforços para proteger a mocinha, inclusive, usando de táticas que podem ser lidas como não muito corretas, mas que estão dentro das sua spossibilidaes de homem poderoso.  E ver o crescimento de Marie é uma delícia, ela vencendo a timidez, sendo capaz de olhar Kyros nos olhos e se declarar foi LINDO.  Obviamente, a volta da irmã e outros mistérios podem abalar nossa mocinha, mas, se vocês estão assistindo ao seriado, sabem que ele abre com ela se casando com Kyros.

Para quem quiser, Zutaboro Reijou wa Ane no Moto Konyakusha ni Dekiai Sareru tem mangá, tem scanlations, procurem e vocês acham (*eu uso o Bato.to*).  Foi licenciado nos Estados Unidos e eu não quero problemas com o Blogger por colocar link.  E tem as novels, também foram licenciadas, ambos começam a sais em janeiro no mercado norte-americano, estou muito tentada a colecionar.  

sábado, 23 de agosto de 2025

E o Mr. Darcy da Netflix será louro mesmo. Isso, sim, é inédito!

Apareceram novas fotos dos bastidores de Orgulho & Preconceito da Netflix.  É um material muito esperado, mesmo que a gente não leve muita fé nos resultados.  E eu realmente não concordo com falas  do tipo "Austen deve estar se revirando no túmulo.", porque, seja qual for o resultado, o livro continuará lá para a eternidade e as boas adaptações, também.  E, como eu sempre digo, se essa adaptação nova levar mais gente para o livro, ela cumpriu sua função e FIM de caso para mim.

Mas eis que decidiram deixar o novo Mr. Darcy louro mesmo. Lembrando que o Colin Firth teve que escurecer o cabelo em 1995, porque o padrão de herói romântico exigia cabelos escuros.  Lembro do Shoujocast, quando era somente áudio, da Adriana Sales, uma das maiores especialistas em Jane Austen no Brasil, comentando que cabelos escuros sugeriam mistério, que muitos mocinhos desses romances populares no final do século XVIII e início do XIX eram morenos, italianos até.  Austen não descreve Darcy.  Não sabemos da sua aparência, porém, as adaptações para o teatro e, mais tarde, para o cinema e a TV.  Então, Darcy louro, ou ruivo, porque acredito que Jack Lowden é mais ruivo do que louro.  

Quanto às fotos, imagino que, como os dois estão sozinhos, que sejam do segundo pedido, já no final da história, portanto. E essa ventania, essas rochas, isso tem mais cara de Morro dos Ventos Uivantes do que de Orgulho & Preconceito. E sei que seria difícil manter um chapéu com um vento desses, mas não me surpreenderia se tivessem eliminado os chapéus do figurino, como em Bridgerton.  E ainda não consigo ver Elizabeth Bennet em Emma Corrin, espero que lancem o trailer logo para que eu possa visualizar melhor as coisas.  As fotos vieram do The Mirror.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

O elenco de Orgulho & Preconceito da Netflix está quase completo e mais umas coisinhas austenianas

No meu último post sobre a futura da adaptação de Orgulho & Preconceito da Netflix, comentei que faltavam ainda três nomes do elenco importante da série, por assim dizer, Anne de Bourgh, Charlotte Lucas e o Coronel Fitzwilliam.  Muito bem, agora só falta o primo do Darcy.  Charlotte Lucas será interpretada por Jasmine Blackborow e Anne de Bourgh por Liz Kingsman.  Até imaginei que escolheriam uma atriz negra ou oriental para ser a Anne de Bourgh, já que a série parece ser color blind.  A gente não vê o marido de Lady Catherine de Bourgh, ele já é  morto quando a história começa, então, poderiam inventar alguma coisa, mas optaram pelo convencional.  Vai que o ator não-branco será o Coronel... E, só para lembrar, este ano comemoramos os 250 anos de nascimento de Jane Austen, além dos vinte anos da última adaptação para o cinema de O&P e os trinta anos da última adaptação para a TV.  

Jasmine Blackborow e Liz Kingsman.

Bem, a outra coisa que eu queria comentar é o seguinte.  Fui até o IMDB atrás de mais informações de elenco do Orulho & Preconceito da Netflix e me deparei com outra série deste ano.  Que série é essa?  Nunca ouvi falar.  Produzido por uma tal ReelShort.  Fui investigar, trata-se de uma dessas novelinhas verticais para se ver no celular, com episódios curtinhos e baixo investimento.  E não é bem O&P, mas uma espécie de fanfic, como tantas que há na internet e que viram livros aos montes no Amazon (*já li alguns bons, outros muito, muito ruins*).  Vamos ao resumo:

"No filme Orgulho e Preconceito, apesar das pressões sociais para se casar, Lizzie Bennet, a segunda mais velha das irmãs Bennet, está decidida a se tornar solteirona. Mas quando seu pai adoece gravemente, Lizzie é inesperadamente lançada no classista mercado matrimônial para salvar sua família da miséria. Após um encontro fatídico com o taciturno e misterioso milionário Sr. Darcy, Lizzie é forçada a escolher entre negar seus sentimentos pelo bem da família ou se deixar apaixonar irresponsavelmente."

E eu fui até a página do ReelShort e vi o trailer.  Infelizmente, não existe como trazê-lo para cá, mas é uma coisa tão sem noção, que a gente sabe que é muito ruim, mas pode ser, também, muito engraçada.  Rasgam a roupa de Elizabeth sabe-se lá quantas vezes, parece que é quase sempre uma rival querendo mostrar que ela não deveria estar naquele lugar, há um homem que parece persegui-la, também. Ele diz que a madrasta dela (?????) prometeu que Lizzie se casaria com ele. Elizabeth aparece de maid (!!!) e, claro, tem Darcy de camisa molhada.  Eu fiz print.  😊 E parece ter sexo, ou algo que passe perto disso.  O homem que persegue Elizabeth tenta abusar dela, está no trailer.  E Darcy aparece trocando socos com um cara com uniforme vermelho, suponho que seja Wickham.  

Para quem quiser assistir no site da ReelShort, é só clicar no nome, mas tem no Youtube, também.  Como é de costume nessas plataformas de novelas verticais, eles deixam livre um número de episódios, nesse caso, 11, ao todo são 49.  Cada um com 2 minutos e pouquinho.  O compilado do Youtube com onze episódios está abaixo, mas recomendo ver o trailer, porque ele vale ouro.  E descobri que tem ele completo no Daily Motion, tem quase duas horas de duração.

Concluindo, uma história bonitinha.  Um colega de trabalho, professor de História, tem uma filhinha de três anos chamada Lizzie.  Eu perguntei se era apelido ou nome.  "É nome mesmo, veio daquela personagem do filme Orgulho & Preconceito."  Eu dei um sorriso, "Do livro de Jane Austen, mas o nome dela é Elizabeth.".  Daí, ele continuou: "Foi o primeiro filme que eu assisti com a minha esposa, quando nem tínhamos começado a namorar.  Ela disse que só se casaria com um homem que gostasse de ler e eu não gostava de ler.  Orgulho & Preconceito foi o primeiro livro que eu li, porque queria que ela namorasse comigo e gostei.  Decidimos que, se tivéssemos uma filha, seria Lizzie."  E ele, hoje, não somente lê, como é escritor, tem vários livros publicados.  😊  Eu precisava contar essa história.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Comentando o primeiro volume de Sob a Luz da Lua (Uruwashi no Yoi no Tsuki), o novo shoujo da JBC

Chegou hoje o  volume #1 de Sob a Luz da Lua, nome nacional da série Uruwashi no Yoi no Tsuki (うるわしの宵の月), de Mika Yamamori.  A série é  publicada na revista Dessert desde 2020 e tem 8 volumes até  o momento.  A tomar pelo primeiro volume somente, e eu não li mais nada da série, apostaria que esse mangá  não se estenderá para além dos 12, 15 volumes, a não ser que a autora  invente muito.  A série terá anime em janeiro do ano que vem. Vou colocar  um resumo inicial (*que está no Bakaupdates*) e comentar o volume em si.

"As pernas longas, a voz grave e o rosto bonito de Yoi Takiguchi são a receita perfeita para tornar um rapaz atraente. Até que as pessoas descobrem que ela é, na verdade, uma garota. Apelidada de "príncipe" pelos colegas desde a infância, Yoi praticamente desistiu de ser vista como qualquer outra coisa. Até que ela encontra Ichimura-senpai, o outro príncipe da escola (que é um "homem"), e experimenta como é ser vista como ela realmente é. A história dos dois príncipes do ensino médio começa aqui!"

Uruwashi no Yoi no Tsuki é um dos grandes sucessos do shoujo mangá da atualidade.  Todos os seus volumes aparecem entre os mais vendidos do Japão na semana do lançamento, sem exceção.  Ainda não recebeu nenhum prêmio, mas já foi indicado mais de uma vez, além de aparecer em listas de recomendação, como as da revista Da Vinci.  Como estamos em boa maré para animações, ela veio antes, mas acredito que logo será anunciada alguma adaptação live action, também.  Trata-se  de um romance escolar, gênero dominante dentro dos shoujo e a autora sabe bem o que está fazendo.  

Yoi, nossa protagonista, é vista como um príncipe.  Não a chamaria de garota-príncipe, porque ela não escolhe ser o que é.  Sua aparência andrógina se impõe e ela acaba assumindo certos papéis menos por vontade e mais por não ter o que fazer.  Apesar do ar super confiante, até superior, ela é insegura, pelo menos esta é a minha impressão a partir da leitura de um único volume, em relação a como se comportar.  As garotas a adoram a ponto de Yoi receber declarações de amor e presentes, os garotos a ignoram, têm inveja dela, a tratam com desdém.  Mas o que realmente Yoi deseja para si?  Pelo menos, ela não está sozinha.  Ela parece ter duas amigas de verdade, Kotobuki e Nobara, que torcem por ela e a apoiam.

E, de repente, a vida da menina muda quando Kohaku Ichimura entra em sua vida.  Ele cai em sua frente em uma daquelas cenas clichê nas quais o personagem pula o muro, porque está atrasado para a aula. Ela cai sentada no chão e ele elogia sua  beleza sem pensar duas vezes para, logo depois, perceber que se tratava  de um rapaz.  O primeiro encontro causa forte impressão em Yoi que, mais tarde, descobre que Ichimura é seu senpai e um grande favorito entre as meninas da sua sala.  Ao chegar na janela, ele a vê e grita perguntando se está tudo bem com sua "bunda".  Ele achava que Yoi, que fica desconcertada, é um rapaz, mas é alertado por seus colegas  que se trata de uma garota.

A partir daí, Ichimura fará o possível para se aproximar de Yoi e verá nela algo que nenhum outro rapaz percebeu ainda.  Ele a vê com uma garota e, não, como um cara, como todos os outros, e não entende como ninguém nunca percebeu que ela é bonita.  Ele se apaixona por ela, é insistente, mas é gentil e não assedia Yoi, ainda que ela o acuse de ser um stalker.  Na verdade, ela não sabe o que fazer com esse tipo de atenção, afinal, não está acostumada com esse tipo de situação.  Ao término do primeiro volume, Ichimura pede para sair com ela para depois se desculpar, dizer que foi brincadeira, mas Yoi toma coragem e diz que quer sair com ele para ver como as coisas irão se desenrolar.

Lendo este volume, imaginei que o primeiro beijo já viria logo, ainda não aconteceu, mas já houve várias cenas ternas e a acusação dos amigos de Ichimura de que o interesse dele por Yoi é somente sexual.  Ele nega, mas evidentemente há desejo e eu sei que eles farão sexo em algum volume futuro, porque as imagens já circularam.   Imagino, também, que Yoi mude um pouco sua forma de vestir para adotar um tom menos andrógino, é o que as capas sugerem, no entanto, esse ar de "príncipe" foi imposto a ela, não foi escolha.  Não sei se a autora irá discutir papéis de gênero, isto é, os comportamentos e papéis esperados de homens e mulheres em uma dada sociedade, de forma mais séria no mangá, mas já avisei que não vejo Yoi como garota-príncipe.   De qualquer forma, Ichimura não se interessa por meninas fúteis ou que simulam um comportamento kawai, foi um dos motivos que fez com que ele olhasse para Yoi.

Ichimura é que é o príncipe de verdade, inclusive por ser rico.  E sua fortuna é o que atrai tantas garotas para cima dele.  Ele sabe, ele se ressente disso.  A tomar pelo primeiro volume, o rapaz parece morar sozinho e acredito que exista algum segredo em relação à sua família, ou alguma coisa disfuncional.  Já Yoi, só fala do pai, que a gente conhece nesse volume e que parece amar muito a filha.  Ele é dono de um restaurante de curry.  Devemos ficar sabendo mais sobre as famílias dos protagonistas nos próximos volumes.

De resto, a capa do volume #1 não é bonita.  A original não era, a da JBC piorou com o letreiramento.  Só que as outras capas vão ficando mais interessantes.  Há, também, a escolha por não usar os honoríficos.  Isso sempre atrapalha um pouco a compreensão de qualquer história, porque usá-los e o que se usa (*san, sama, chan, kun etc.*) indicam graus de proximidade e deferência, ou como a relação entre os casais progride.  Ichimura chama Yoi de Yoizinha, muito provavelmente, ele deve estar chamando a moça de Yoi-chan.  Ficaria melhor, mas eu não decido nada.  E ainda temos o irritante "veterano", que a gente não costuma usar no Brasil.  É lamentável que a JBC não tenha feito opções melhores com o tempo; bastaria colocar uma nota explicativa no início do mangá.  Isso é só um lembrete de um dos motivos pelos quais eu compro tão pouco material da editora.  Pelo menos, não abusaram das gírias que podem se tornar datadas.

Algo curioso que aparece no primeiro volume é a comparação que uma das amigas de Yoi faz da relação entre ela e Ichimura com a de Makino e Doumyouji de Hana Yori Dango (花より男子).  Olha, não faz sentido isso, não.  Doumyouji é tudo, menos um príncipe (*ou bom moço*), nesse sentido de mangá, o moço bonzinho, gentil, bonito e rico.  E Yoi não se parece com Makino, nem passa pelo que a protagonista de Hana Yori Dango passa.  Ichimura não é um bully, nem parece, a tomar por esse início de história, precisar se tornar alguém melhor.  Enfim, continuarei comprando o mangá, mesmo me desagradando das opções de adaptação da editora.  Só irei parar se a história decair muito, o que imagino que não vá acontecer, ou se eu ficar sem dinheiro mesmo e tiver que fazer escohas.  Se quiser ajudar o Shoujo Café, compre a edição de Sob a Luz da Lua pelo nosso link do Amazon.